Mostrando postagens com marcador Jornalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jornalismo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Agressões em período eleitoral afetam turismo LGBT

Paulo Pinto/Fotos Públicas

Não são só os brasileiros que estão preocupados com a recente onda de agressões que se intensificou com o período eleitoral no País. Ciente dos incidentes que repercutem na mídia internacional, turistas de um nicho bastante lucrativo já estão adiando viagens com receio do clima de animosidade no Brasil. A informação é da Câmara de Comércio e Turismo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) do Brasil, voltada para um segmento cujo público-alvo gasta em média, segundo dados mundiais, 30% a mais do que o turista convencional.

“Independentemente de quem vencer as eleições, já se estabeleceu uma imagem ruim para o País. Quem viaja para cá tem essa preocupação adicional em mente, porque esse turista está se informando sobre os ataques pela imprensa internacional. Nós voltamos a virar notícia de uma forma negativa e isso vai impactar no mercado. De agora em diante, nosso trabalho será ainda maior no sentido de amenizar isso e tentar avançar em melhorias para o setor”, explica Ricardo Gomes, presidente da Câmara LGBT, ao Portal da Band.

Ainda sem saber qual será o real impacto no turismo brasileiro, Ricardo conta que soube de turistas que estão adiando viagens ao Brasil por conta de uma série de agressões registradas no País. Um levantamento feito pela Agência Pública e Open Knowledge Brasil registrou mais de 50 ataques durante o período eleitoral. Os casos são publicados diariamente no mapa Vítimas da Intolerância, criado pela parceria.

Relatos de testemunhas dos episódios mostram que as agressões têm contexto político. Em um dos ocorridos mais graves, o mestre de capoeira e compositor Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, foi morto a facada no início do mês. O autor do crime, Paulo Sérgio Ferreira de Santana, confessou o assassinato e alegou discussão política como motivação.

Nem sempre a preferência política dos envolvidos nos ataques fica clara, mas, em uma eleição extremamente polarizada, há casos em que essa predileção sobressai. No assassinato de uma transexual no centro de São Paulo no último dia 16, testemunhas disseram ao jornal Folha de S. Paulo que os agressores teriam gritado o nome do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) antes de esfaquear a vítima. Há também casos de agressão por parte do eleitorado que rejeita Bolsonaro, como um suposto atropelamento envolvendo um professor da Universidade do Recôncavo Baiano (UFRB), que teria investido com o carro contra comerciantes de camisetas do candidato do PSL. Em nota, a instituição disse que o professor se sentiu ameaçado.

Ricardo Gomes ressalta que alguns desses ataques têm como alvo a população LGBT, o que pode afetar diretamente o segmento do turismo brasileiro a médio e longo prazo. “Não importa quem vença essas eleições, o prejuízo já existe. Aqueles que que tinham ódio contra gays, até contra negros e mulheres, mas ficavam quietos porque não era correto expressar esse pensamento, agora ‘saíram do armário’”, observa o presidente da Câmara LGBT. “O Brasil já tem problemas de segurança que afeta a decisão do turista de viajar ou não para cá. Com essa onda de ódio, vai afetar mais ainda. Provavelmente passaremos anos trabalhando para desfazer uma imagem ruim que se estabeleceu nos últimos dias”, acrescenta.

Ele conta ainda que, por ser uma referência, a Câmara de Comércio e Turismo LGBT tem recebido ligações de brasileiros preocupados com a situação do País. “Nos últimos 15 dias atendemos pessoas que pedem dicas de como se proteger ou atendimento psicológico por estarem deprimidos com o caminhar das coisas”, diz. “Nós começamos a indicar serviços que tratam melhor desses assuntos e também damos conselhos, como não entrem em desespero ou não andem sozinhos na rua de madrugada. A violência contra LGBTs sempre existiu, mas nunca nesses índices.”

Turismo LGBT

De acordo com dados da Organização Mundial do Turismo, para cada 10 turistas no mundo, um é do segmento LGBT e cerca de 15% da movimentação financeira turística mundial é gerada por este grupo. Estudos do Conselho Mundial de Viagens e Turismo revelam ainda que o turista LGBT viaja quatro vezes mais do que outros segmentos e têm gasto 30% superior na comparação com turistas convencionais. “Estamos falando, portanto, de mercado, de negócios, de empregabilidade. Nós vamos levar a sério a economia do Brasil ou não?”, ressalta Ricardo Gomes.

O presidente da Câmara LGBT aponta ainda que as belezas do Brasil e as variadas atrações que o País oferece para todos os gostos nos coloca em evidência mundial. O Rio de Janeiro, por exemplo, já figurou em lista de destinos ‘gay-friendly’ pela Lonely Planet, maior editora de guias de viagem do mundo, que já chamou a cidade de “a capital gay da América Latina”.


Bandeira gay é vista na Praia de Ipanema, no Rio (Foto: Jeff Belmonte via Wikimedia Commons)

São Paulo, por sua vez, teve sua Parada do Orgulho Gay registrada no Guinness World Records como a maior do mundo, e é a primeira cidade da América Latina que aparece em uma lista da Nestpick sobre destinos com uma ativa comunidade gay. Segundo a Embratur, outras cidades como Belo Horizonte, Salvador, Florianópolis e Recife também atraem esse público por causa de atrações e políticas públicas voltadas para o segmento.

Visando essa parcela importante do mercado, o Ministério do Turismo e a Embratur firmaram com a Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil um convênio para promover esse nicho dentro e fora do País. As ações desta parceria vão desde divulgar o Brasil como destino ‘gay-friendly’ em convenções internacionais como começar a credenciar cidades como destinos “amigáveis” para o turista LGBT a partir de critérios que estão sendo estabelecidos.

Esse convênio tem duração de cinco anos, mas, segundo o presidente da Câmara LGBT, pode ser cancelado pelo governo que estiver no poder. “É possível cancelar com um aviso de 60 dias de antecedência, mas vamos cobrar explicações sobre os motivos do cancelamento caso isso venha a ocorrer. Pretendemos ser resistentes, de forma pacífica e ordeira, mas é preciso prestar contas para a sociedade quanto a isso”, completa Ricardo.

Em 2016, o Ministério do Turismo lançou ainda uma cartilha, destinada aos serviços que têm contato direto com o viajante em restaurantes, hotéis e serviços da cadeia turística nacional, com orientações no atendimento à pessoa que se identifica como LGBT. O objetivo da iniciativa é evitar casos de preconceito e comportamento inadequado com o turista devido a sua identidade de gênero ou sexualidade.

À reportagem, o instituto diz acreditar que o setor pode ajudar na redução da intolerância. "Isso eleva a importância do trabalho que desenvolvemos, uma vez que o turismo promove o entendimento das diferenças e a inclusão cultural e social. O contato é uma ferramenta importante para quebra de paradigmas e enfraquecimento de preconceitos", pontua em nota.

(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Mãe vende arranjos de flores para ajudar trabalho solidário da filha

Arquivo pessoal

Falar da filha Gabriela enche a jornalista Kety Shapazian de orgulho. Foi por causa dela que Kety viveu uma experiência única e marcante em 2015, quando embarcou para a Grécia, no ápice da crise migratória na Europa, para ajudar refugiados da África e do Oriente Médio, principalmente, que fugiam de guerras, perseguições políticas, fome, entre outros muitos problemas que ainda persistem nessas regiões.

A vivência também a fez abrir um ateliê de flores, onde ela mesma cria e vende arranjos em São Paulo. Parte do lucro é para custear o trabalho voluntário que Gabriela continua realizando na Europa desde a primeira viagem do tipo que fez ao lado da mãe. “Fui com Gabriela para Grécia em 2015 por causa dela. Se fosse por mim, eu teria ficado chorando no Facebook”, conta. “Eu nunca pensei em viajar para outro país e ajudar os outros, mas foi exatamente isso que aconteceu durante 45 dias. Quando tiver 90 anos de idade, ainda vou me lembrar de cada detalhe, cada emoção que vivi durante essa experiência.”

As histórias tristes dos refugiados que Kety conheceu, bem como a alegria que sentiu ao poder ajudá-los, marcaram tanto a jornalista quanto a sua filha, que decidiu continuar fazendo esse trabalho até hoje. “É o que ela faz da vida agora, não é só um projeto de férias escolares. O negócio dela é ajudar os outros, trabalhando em campos de refugiados na Grécia e na Turquia, ajudando no acolhimento, na integração deles e até dando aulas de inglês. É uma experiência ótima para ela também, que aprende muito lá fora. Tenho uma filha de 18 anos globalizada, completamente fora da curva, e isso é algo que me orgulha muito”, acrescenta Kety.

Para custear as viagens que a filha faz a cada 90 dias - tempo de permanência permitido pelo visto -, a jornalista decidiu abrir uma empresa de arranjos de flores, que batizou de Flores para os Refugiados. O negócio começou informalmente em 2016, quando Kety vendia flores nos semáforos da cidade. “Engraçado que eu nunca havia trabalhado com isso antes. Eu fazia alguns arranjos, de forma despretensiosa, em casa mesmo. Fui aprendendo na marra, vendo referências na internet, e decidi profissionalizar”, conta à reportagem.

No ateliê, é possível encontrar todo tipo de arranjo, além de encomendar decoração para festas, casamentos e até contratar entregas mensais. “O universo de arranjos de flor é imenso, dá para fazer um milhão de coisas. E quem compra esse produto, porque gosta ou acha bonito, sabe também que estará apoiando o trabalho que minha filha realiza lá fora.”

Arquivo pessoal

Xenofobia

Ainda que não canse de exaltar o exemplo que sua filha dá ao ajudar os outros, Kety Shapazian reforça que, ao mesmo tempo, estranha o fato de Gabriela virar notícia por esse motivo. “Ela não deveria ser uma exceção. Ajudar quem precisa tinha que ser algo normal, não um diferencial.”

 Gabriela recebendo uma refugiada afegã em Lesbos, na Grécia (Foto: Maciej Moskwa)

Em meio a uma crise migratória também vivida no Brasil, com o fluxo de imigrantes da Venezuela aumentando enquanto o país vizinho passa por dificuldades financeiras e conflitos políticos internos, a jornalista faz um apelo para que as pessoas tenham mais empatia com o outro.
“Temos visto muita xenofobia, muita coisa errada, não só onde minha filha está, mas também nos Estados Unidos e até no Brasil. A gente precisa se colocar no lugar do outro, esse outro sendo refugiado ou não, até porque refugiados são pessoas como a gente, e quando passamos a vê-los dessa forma, muitas barreiras caem”, pontua Kety.

Em algumas situações, essa dificuldade de compreender o outro leva a casos extremos de violência, como o ocorrido na última sexta-feira, 7. Em Roraima, um brasileiro e um venezuelano morreram após um suposto furto na capital Boa Vista.

“Sempre penso que, no futuro, podemos ser nós, brasileiros, passando por uma situação parecida com a que os venezuelanos estão enfrentando agora. Não dá para saber o que vai acontecer daqui a 30 anos, por exemplo. Minha filha sempre fala que se um dia ela precisar de ajuda, ela vai querer alguém do outro lado a recebendo com um prato de comida, um direcionamento, até mesmo um abraço. Isso faz toda a diferença”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Pannunzio: debates obrigam candidatos a falarem sobre o que importa à população

Divulgação

O primeiro encontro entre os candidatos ao governo de São Paulo acontece nesta quinta-feira, 16, às 22 horas, na Band. Para mediar mais um tradicional debate realizado pela emissora, foi escalado o jornalista Fabio Pannunzio, que considera este evento como uma “bandeira de largada” para as eleições.

“[O primeiro debate] é aquele que acaba definindo a posição de campo em que cada candidato vai atuar, quem vai brigar com quem, quem implicará com quem, enfim, a partir daí é que os postulantes vão construindo suas teias de estratégia”, resumiu Pannunzio. “E para o telespectador também é um evento importante, já que é o momento em que os candidatos entregam o ‘cartão de visitas’ para o eleitor.”

Neste ano, segundo o mediador, as regras estão mais flexíveis. “Com destaque para a ampliação do confronto direto entre os convidados, a escalação de temas que são prioritários para a população e que obrigam os candidatos a falar sobre esses assuntos; além disso, os postulantes terão liberdade para escolher com quem vão debater”, detalha.

Uma das regras inovadoras do debate desta quinta é a possibilidade de um mesmo candidato ser questionado duas vezes pelos contendores. “Isso faz com que seus conhecimentos sejam testados e também incentiva o confronto, uma forma de distinguir as ideias de cada um dos convidados.”

Esses detalhes foram definidos em reunião com representantes de partidos. Participarão do debate, que terá ao todo quatro blocos, os seguintes candidatos: Márcio França (PSB), Rodrigo Tavares (PRTB), Paulo Skaf (MDB), Marcelo Cândido (PDT), João Doria (PSDB), Luiz Marinho (PT) e Lisete Arelaro (PSOL).

No primeiro bloco, os postulantes ao cargo também responderão nesta sequência a uma pergunta única feita pelos leitores do Jornal Metro. Em seguida, com base em uma pesquisa feita pela Band, será definido um tema para que os candidatos debatam entre eles. Todos perguntarão uma vez, por ordem de sorteio, e cada candidato pode ser perguntado até duas vezes.

No segundo bloco, as perguntas serão feitas por jornalistas do Grupo Bandeirantes. No bloco seguinte, os candidatos vão fazer perguntas para outros candidatos, com a sequência mais uma vez definida por sorteio. No quarto e último bloco, as considerações finais de cada participante.

Em caso de ofensa pessoal ou moral, o candidato poderá pedir direito de resposta, que será analisado por um comitê formado por jornalistas e um advogado. Caso seja concedido, o ofendido terá um minuto para responder.

Prevendo trocas de farpas, o mediador pede ainda que o eleitor atente-se às perspectivas colocadas por cada postulante ao cargo de governador. “Desconfie do que eles falam”, sugere Pannunzio. “Ao invés de já escolher seu candidato e ficar torcendo por ele, desconfie – esse é o melhor caminho para chegar até um voto consciente.”

(Karen Lemos - Portal da Band)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Debate terá mais confrontos diretos entre candidatos à Presidência, adianta Boechat

Divulgação/Band

Novamente na função de mediar o debate eleitoral na Band, o jornalista Ricardo Boechat diz estar ansioso para o primeiro encontro entre os candidatos à Presidência da República deste ano, que acontece nesta quinta-feira, 9, às 22h, em clima de comemoração. “É um simbolismo grande para a história da democracia brasileira, especialmente a recente, afinal já são 30 anos de debates entre candidatos à Presidência”, lembra.

O jornalista recordou o encontro realizado entre dois pré-candidatos ao Palácio do Planalto, Leonel Brizola e Paulo Maluf, em 1988. “[Esse evento] teve uma repercussão muito grande, o Brasil nunca tinha visto um debate político na TV com essa proposta desde que saímos de um longo período de regime de exceção. Esse também foi o primeiro passo para, no ano seguinte, em 1989, apresentarmos o debate entre candidatos já oficializados pelos seus partidos.”

Para Boechat, cada um dos debates nesses 30 anos foi fundamental para dar largada às campanhas presidenciais, com características que se aprimoram a cada encontro. “Eu chamaria atenção para a mais enfática delas que é a de ampliar o confronto direto entre os postulantes ao cargo”, ressalta o jornalista.

Este ano, haverá mais chances de um candidato fazer perguntas para seu adversário, o que deixa o confronto muito mais rico, na opinião do mediador. “O debate desta quinta avança em um processo que dá mais espaço para esse confronto direto. Se antes, em um período inicial, isso se dava com perguntas feitas por jornalistas ou pelo público, agora, cada vez mais, se transforma em questões feitas de um candidato para o outro”, diz Boechat. “E ninguém tem mais interesse de colocar questões difíceis ao outro senão seu adversário. Essa é a melhor forma de estimular um confronto franco.”

E serão muitos os confrontos - até 64 vezes, entre respostas, réplicas e tréplicas para os oito candidatos que confirmaram presença no evento. A quantidade de postulantes, na visão do jornalista, só vem a acrescentar ao jogo político. “O melhor debate é aquele que tem menor participação do mediador, pois isso significa que o protagonismo dos candidatos foi maior. Não vejo no grande número de participantes uma dificuldade profissional, apenas fica mais complexo do ponto de vista de fragmentação de tempo, mas a Band tem experiência nisso.”

Também são esperadas algumas trocas de farpas nesse encontro devido à polarização política que vem se desenhando desde que os nomes dos primeiros pré-candidatos à Presidência surgiram, e que se consolidou após a oficialização dos postulantes nas convenções partidárias. Para o jornalista, essa situação é excelente para que o eleitor forme sua opinião.

“Esse é o momento de ver os candidatos expostos, desnudos de seus protocolos. Se em um debate eles agem de determinada forma sob pressão, como reagirão enquanto principais mandatários do País? É uma ótima forma de avaliação e ajuda o eleitor a produzir um voto mais consciente”, analisa.

Citando pesquisas de intenção de voto, que mostram uma porcentagem muito alta de eleitores indecisos, ou que pretendem anular o voto ou votar em branco, Boechat também acredita que o debate desta quinta pode reduzir, de forma significativa, esses números.

“Teremos uma eleição com alto nível de participação do eleitorado”, afirma. “O brasileiro está interessado na política como jamais esteve. As pesquisas também mostram que mais de 80% entendem que o voto é um instrumento fundamental para o processo democrático. As pessoas têm consciência da relevância desse momento e devem exercer esse direito amplamente nessas eleições”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Da luta contra ditadura à camisa 'coxinha' da CBF: como a política influencia a torcida na Copa

Nos protestos contra a presidente Dilma, em 2016, muitos usaram a camisa da CBF (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Marcos Alvarez tinha apenas 7 anos em 1970, mas lembra-se muito bem de um costume de sua família naquela época: não torcer pela Seleção Brasileira nas Copas do Mundo. Apesar da pouca idade, quando garoto Marcos gostava de ouvir os debates políticos que permeavam as reuniões familiares; discussões que enalteciam as ideias de esquerda e rechaçavam o então governo, naquela época comandado pelo general Médici, no auge da repressão da ditadura militar.

“Minha família, que sempre foi de esquerda, tinha essa coisa de não torcer pelo Brasil por causa da ditadura, que naquela época havia abraçado a Seleção Brasileira”, lembra Alvarez, hoje professor universitário e torcedor da Inglaterra. “Eu me lembro de um dos primeiros jogos que assisti, Brasil e Inglaterra na Copa de 70, e gostei muito dos ingleses; até hoje é a seleção pela qual eu torço”, diz ele ao Portal da Band.

A relação entre o então regime militar e a Confederação Brasileira de Desportos (CDB), hoje Confederação Brasileira de Futebol (CBF), nunca foi muito clara, mas alguns indícios chegaram a levantar suspeitas de sua existência, como a troca do técnico João Saldanha, militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro), por Zagallo pouco antes de a Seleção desembarcar no México, de onde sairia com o título.

“Existia um acordo racional, entre aqueles que combatiam diretamente o regime, de não torcer pela Seleção por achar que isso favoreceria o governo”, lembra Cláudio Zaidan, comentarista esportivo da Rádio Bandeirantes. Esse sentimento foi potencializado após a mudança de técnico, que preocupou a militância que lutava contra a ditadura na ocasião. Segundo Zaidan, não é possível afirmar, porém, que essa troca se deu por razões estritamente políticas.

“Nos amistosos, [antes da estreia na Copa de 70], a Seleção caiu de rendimento e, para o governo, era interessante ter o time indo bem; se Saldanha continuasse com os bons resultados que apresentou nos jogos eliminatórios, o fato de ele ser comunista talvez fosse tolerado”, ressalta o comentarista.

Para o professor Marcos Alvarez, porém, a situação do país foi determinante em outras Copas também, pelo menos em seu círculo de amigos. “Na Copa de 1982, eu tinha uma amiga na faculdade que admirava Leon Trotsky [intelectual marxista da antiga União Soviética] e torcia contra o Brasil na esperança de que a Seleção perdesse e isso despertasse algo que acabaria em uma revolução no País”, lembra. “Sempre achei isso meio ingênuo, mas até hoje alguns grupos políticos fazem essa vinculação mais direta com o futebol.”

A Copa do Mundo de 2014, que aconteceu no Brasil, é outro exemplo dessa influência política na percepção do evento pelos brasileiros. Antes de seu início, protestos ganharam as ruas pelo País contra gastos para sediar o Mundial em meio a uma recessão econômica com consequências que perduram até hoje. A frase “não vai ter Copa” marcou a ocasião.

“Quando o País está deprimido emocionalmente, [quando] há um desgaste, uma depressão e descrença no Estado e nas instituições, muita gente acaba enxergando a Seleção como uma expressão de tudo isso, até porque o torcer é emocional, não é uma coisa racional”, pontua Zaidan.
Como exemplo mais atual, o comentarista esportivo cita ainda o uso da camisa da CBF nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). “Agora [a camisa] é vista como uma posição política, embora ela seja usada por décadas sem nenhuma associação do tipo. Mas, como o debate político no Brasil não é profundo, sempre estamos sujeitos a esses simbolismos frágeis.”

Uma camisa para torcer

Frágil ou não, o símbolo que se tornou a camisa da CBF após os protestos pelo impeachment de Dilma afetaram a relação de Viviane Cubas com a Copa do Mundo. “Diferente de outras Copas, essa é a primeira em que eu não comprei nada [para torcer] e não organizei nada para assistir aos jogos”, relata. “E um pouco disso é devido ao momento de crise política que estamos vivendo. Uma vitória do Brasil pode significar um ponto positivo para o governo, uma apropriação maior desse símbolo que hoje, para mim, remete às manifestações. Se antes era uma camisa que me dava orgulho, agora eu olho e me sinto mal.”

Viviane não está sozinha nessa posição. Pela internet, principalmente nas redes sociais, camisas alternativas estão sendo oferecidas para quem quer torcer, mas não quer vestir a camisa da CBF. “Acho muito bacana ter opções para quem quer torcer, embora também considere arriscado usar algumas camisas, porque há pessoas que ficam agressivas quando encontram alguém com posições políticas contrárias, mas, em nome da liberdade de expressão, tudo é válido”, observa Vivi.

Foi para torcer, e também para protestar, que Aline* decidiu confeccionar camisas especiais para esse Mundial. A peça mistura a criação da designer Luísa Cardoso, que elaborou a camisa vermelha com o escudo da CDB de um lado e, do outro, um dos símbolos do Comunismo, a foice e o martelo, com a frase “é golpe no Brasil” na parte de trás.

Foto: Arquivo pessoal

“A ideia começou em uma mesa de bar com amigos. Queríamos curtir a Copa, mas por causa do estigma deixado pelos protestos pelo impeachment - cujo resultado não concordamos -, ninguém queria usar a camisa da CBF e isso causou um desânimo geral”, contou Aline, que não quis se identificar depois que a CBF notificou a designer Luísa Cardoso sobre a proibição da venda de produtos que levem o nome da instituição.

Para “animar” essa torcida, ela formou um grupo nas redes sociais para receber pedidos dos amigos, e de amigos desses amigos, e passou a confeccionar a camisa para quem estiver interessado. A demanda, porém, cresceu de forma inesperada. “Criei esse grupo há quase duas semanas e já recebi 110 pedidos”, conta. Aline, que já trabalhou com estamparia, não lucra com a produção das camisas, que é feita por uma empresa do ramo. “Eu só repasso a demanda para eles e entrego as camisas para quem comprou. Sou apenas a ponte.”

Uma das “clientes” de Aline, inclusive, está indo para a Rússia neste sábado, 16, a tempo de ver a estreia da Seleção Brasileira, no jogo contra a Suíça no domingo, 17, com a camisa vermelha.

Outra camisa que tem atraído os torcedores que não concordam com as manifestações do impeachment incluem as cores verde e amarelo, mas em vez do escudo da CBF traz a frase “é golpe” como se fosse um grito de “gol” estampada. A bióloga Bruna de Oliveira foi uma das que adquiriram a peça pela internet.

Foto: Reprodução

“Eu sempre gostei da Copa por causa do clima que contagia as pessoas e pelos eventos que acontecem para assistir aos jogos; também gosto do tema verde e amarelo que toma conta do País nessa época, mas está difícil usar a camisa da CBF por aí. Eu não quero correr o risco de ser confundida com alguém que está pedindo intervenção militar ao invés de estar torcendo pela Seleção”, diz Bruna à reportagem. “Quando eu vi essa camisa, achei a ideia genial e mandei fazer, com algumas amigas. Dessa forma, a gente não vai deixar de curtir a Copa esse ano.”

* Nome alterado a pedido da fonte

(Karen Lemos - Portal da Band)

sábado, 9 de junho de 2018

Ilha guarda segredos de aliança entre Brasil e a Alemanha Nazista

Membros do Partido Nazista no Brasil (Foto: Reprodução)

O cenário paradisíaco de São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina, pouco combina com as atrocidades de um regime tirano. A ilha, no entanto, esconde vestígios da boa relação com o Brasil e a Alemanha Nazista às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Naquela ocasião, nazistas estiveram no país e negociaram a construção de uma estrada e de uma base militar no município com aval do governo de Getúlio Vargas, que somente no fim da guerra enviou tropas brasileiras para combater a Alemanha no conflito mais letal da História.

A ilha ainda guarda vestígios desta relação pouco conhecida, mas cujas consequências perduram até hoje, causando prejuízos ao meio ambiente e também à população de São Francisco do Sul, como mostra uma série de reportagens de Sandro Barbosa, do Jornal da Band.

As obras e os danos que sobrevivem ao tempo

Uma das consequências desta aliança entre Brasil e a Alemanha Nazista só é possível ver do alto, mas os impactos são sentidos pelos moradores da ilha até hoje. Em São Francisco do Sul, o regime de Adolf Hitler realizou obras de aterro do Canal do Linguado para a construção de uma linha de trem e de uma estrada - a BR-280 - que serviria para escoar material bélico em troca da instalação de uma montadora alemã de veículos.

A linha de trem e a estrada cruzam a Baía da Babitonga, um santuário ecológico formado por 24 ilhas, onde centenas de espécies encontram refúgio para se reproduzir. Por meio de um decreto, Vargas autorizou as obras de aterro e a ligação com o mar foi interrompida.

Foto: Reprodução

Imagens aéreas mostram que a construção provocou um grande dano ambiental: de um lado da baía, há água; do outro, entretanto, apenas barro e sujeira, impedindo a reprodução de espécies e também a atividade de pescadores que antes trabalhavam na região.



A ilha estratégica


Além da linha de trem e da estrada, os nazistas também ergueram em São Francisco do Sul uma base militar para que navios e submarinos alemães recebessem combustível e armamento.

Fotos da época mostram, inclusive, dirigíveis alemães sobrevoando o lugar onde seria construída a base militar, mais especificamente na ilha de Rita, que pertence ao município. Por lá, ainda é possível ver dutos, embora já enferrujados pela ação do tempo, que revelam planos da Alemanha Nazista para abastecer sua frota naval.

Em outra imagem de arquivo, o então presidente Getúlio Vargas foi fotografado na ilha de Rita, deixando clara a sua importância estratégica. Vargas esteve algumas vezes no local, visitando as obras e examinando as instalações, concluídas em 1940.

Foto: Reprodução

“Há muitos indícios provando que havia uma relação política amistosa entre Vargas e o regime nazista como, por exemplo, cartas entre Vargas e Adolf Hitler em que o brasileiro chamava o ditador de ‘bom e fiel amigo’”, conta a professora Ana Maria Dietrich, que estudou essa aliança durante 20 anos.


Os impactos e o pedido de reparação


Os projetos nazistas no Brasil, principalmente o aterro do canal do Linguado, trouxeram impactos no meio ambiente e também para os moradores da ilha. O fechamento da ligação com o mar aumentou também a concentração de dejetos da indústria, que tem forte presença na região.

Ao logo dos anos, muito material tóxico, como metais pesados, foi depositado dentro do estuário sem o tratamento prévio. “Alguns ensaios demonstram concentrações de cádmio, zinco, cobre, chumbo, mercúrio, manganês, e esses elementos começam a trazer problemas para as pessoas, principalmente as que se alimentam de peixes e crustáceos daqui”, explica Tarcísio Possamai, professor de geologia marinha.

O vice-prefeito de São Francisco do Sul, o médico pediatra Walmor Berreta Júnior, diz que está preocupado principalmente com a incidência de câncer. “Existem estudos científicos comprovados de referência internacional dizendo que isso aí realmente acarreta malefícios à saúde, principalmente do ponto de vista oncológico [câncer].”

Um grupo multidisciplinar - formado pelas universidades de São Paulo (USP), a Federal do ABC (UFABC), a Univille e a Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, além da Procuradoria Geral da República, a Advocacia Geral da União e a prefeitura de São Francisco do Sul – tenta mudar este cenário e cobra do governo alemão a reparação do desastre ambiental.

“O fechamento do canal do linguado foi em 1933, portanto, 85 anos já se passaram e nada foi feito. O que a gente pretende agora é, quem sabe, mudar essa realidade de forma que a gente possa dar às futuras gerações uma condição melhor de saúde e de ambiente”, ressalta Renato Gama Lobo, prefeito do município.

Até hoje, o governo alemão só considerou indenizar atos que feriram os direitos humanos e foram cometidos contra pessoas e propriedades, mas nunca um desastre ambiental como crime de guerra.

“Se eles não reconhecerem sua responsabilidade, São Francisco do Sul, Santa Catarina e o Brasil vão encontrar meios no direito internacional para solucionar uma controvérsia que existe, que é a falta de cooperação dos alemães para nos ajudar a encontrar uma solução para um problema que eles também são responsáveis por terem causado”, acrescenta a professora de direito internacional Maristela Basso.

O objetivo é aproveitar que o governo federal pretende duplicar a BR-280 para reabrir o canal do linguado, sem contaminar ainda mais as águas.


Em nota, o consulado da Alemanha no Brasil informou que o aterro do linguado foi uma decisão do governo brasileiro e que a obra ocorreu em data consideravelmente anterior à Segunda Guerra Mundial e com a finalidade de fornecer produtos para uma fábrica de armamentos brasileira. Por isso, é completamente claro que a responsabilidade fica somente com as autoridades brasileiras.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Orquídea ajuda prevenção em região de maior incidência de câncer de útero

Agentes de campanha de saúde levam a flor para mulheres em comunidades do Pará (Foto: Divulgação)

Uma orquídea está servindo como um importante lembrete na prevenção do câncer de colo de útero para mulheres da região Norte do Brasil, onde o risco estimado para a doença é 60% mais alto do que no resto do País.

Adaptada para o clima da região amazônica, a planta floresce a cada 12 meses, avisando que é hora de realizar o Papanicolau, exame responsável por detectar lesões que podem evoluir para este tipo de câncer.

Com a ação, agentes de saúde esperam reduzir a incidência da doença, que é de 25,62 casos a cada 100 mil mulheres na região Norte. Em todo o Brasil, o risco estimado é de 15,43/100 mil, segundo relatório do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Para a enfermeira epidemiologista Maria Beatriz Kneipp, a discrepância de porcentagem está relacionada a uma somatória de fatores.

“A região Norte tem uma característica diferenciada do resto do País. Tem a questão da extensão de densidade demográfica e também de nível educacional mais baixo. O câncer de colo de útero também está relacionado com os problemas de desenvolvimento socioeconômico da região, que pode ser visto, por exemplo, na dificuldade das mulheres em ter acesso ao exame”, explica a especialista ao Portal da Band.

A última pesquisa nacional sobre o tema, elaborada em 2013, mostra que o percentual de mulheres que fazem o exame Papanicolau regularmente na região é de 75%; outras 12% relataram jamais ter realizado a avaliação médica. “Dessas mulheres, algumas disseram que não acharam necessário fazer o exame, outras afirmaram ter vergonha e teve ainda quem respondeu nunca ter sido orientada a fazer o Papanicolau. É preciso, então, identificar e trabalhar essas questões que aumentam os riscos da doença”, acrescenta Kneipp.

Flor da Vida

Foto: Divulgação

Com base nesses dados que preocupam as autoridades de saúde, foi criada a campanha Flor da Vida, idealizada pela Ogilvy Brasil para o Hermes Pardini com apoio da Secretaria da Saúde do Governo do Pará. Três mil agentes de saúde, envolvidos no projeto, se dividem na entrega das flores, na promoção de eventos e de aulas educativas sobre o tema.

A orquídea usada na ação é um híbrido de cattleya, desenvolvida pelo orquidófilo Sergio Barani, que tem mais de 50 anos de experiência na área. “Através de cruzamentos, conseguimos criar esse híbrido que floresce uma vez por ano, alertando as mulheres que chegou a hora de fazer o exame ginecológico. Também será possível reproduzir [a orquídea] aos milhares por clonagem”, diz Barani no vídeo institucional da campanha.

Foto: Divulgação

Apesar do ciclo de 12 meses da planta, o exame de Papanicolau pode ser realizado em até três anos, com exceção de mulheres que têm problemas de imunidade, como portadoras do vírus HIV, que precisam fazer a avaliação médica anualmente.

Infraestrutura regional e tratamento da doença


O foco da campanha Flor da Vida está justamente na prevenção por ser a forma mais efetiva de reduzir a incidência do câncer de colo de útero. O exame Papanicolau pode ser realizado em qualquer centro de saúde. Há, inclusive, unidades fluviais que atendem comunidades mais afastadas. “Esse exame identifica lesões pré-malignas que podem ser retiradas em um ambulatório sem nem precisar de internação. A lesão é removida e a mulher vai para casa no mesmo dia”, esclarece a epidemiologista Maria Beatriz Kneipp à reportagem.

Já os procedimentos médicos para combater o câncer já evoluído implicam em uma logística bem mais complicada. “Para um tratamento com quimioterapia ou radioterapia, a paciente pode ter que se dirigir até outra cidade. Em alguns Estados, como Amapá ou Roraima, esse tipo de tratamento é feito só nas capitais”, ressalta. “Existe, portanto, essa preocupação com o deslocamento e também com a realidade de algumas mulheres, que têm casa e filhos para cuidar e nem sempre conseguem fazer o tratamento até o final.”

Mesmo sendo um tipo de tumor com potencial alto de prevenção e cura, principalmente se diagnosticado precocemente, o câncer de colo de útero matou 800 mulheres na região Norte em 2016 segundo dados do Ministério da Saúde. Para Kneipp, é possível diminuir os números de mortalidade e também de casos em que o câncer se desenvolve.

Na região Sudeste, por exemplo, a incidência desse tumor é de 9,97 a cada 100 mil mulheres. “Vemos, portanto, que é possível reduzir os riscos para a doença e, por essa razão, tentamos sempre buscar alternativas e estratégias com esse propósito”, conclui a especialista.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Família pede liberação de artista circense preso em operação contra milícia

Foto: Arquivo pessoal

Artista circense com carreira internacional, Pablo Dias Bessa Martins encontra-se longe do picadeiro, onde costuma a chamar atenção pela presença de palco e habilidade nos malabares e acrobacias. Atualmente ele está preso no Complexo Penitenciário de Gericinó (Bangu), para onde foram transferidos os detidos de uma megaoperação da Polícia Civil do Rio de Janeiro contra milicianos.

Além de Pablo, outras 158 pessoas foram presas no último dia 7 em um show de pagode que aconteceu em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Segundo a polícia, o evento foi organizado por um grupo de milicianos que utilizava o local como uma espécie de quartel general. Testemunhas dizem, porém, que o show era aberto ao público, foi divulgado pelas redes sociais, e muitos dos alvos não têm ligação comprovada com a milícia.

“O Pablo nunca se envolveu com coisa errada. A comunidade em peso conhece o trabalho dele, sabe da sua índole. [A prisão] foi como um soco. Todo mundo está indignado”, relata Jessica, mulher de Pablo, em entrevista ao Portal da Band.

Assim como o marido, Jessica é artista de circo. Eles se conheceram nas oficinas de artes circenses da Acaps (Ação Comunitária de Apoio Psicossocial), organização não-governamental que oferece também oficinas de dança, capoeira e reforço escolar para jovens de comunidades do Rio de Janeiro.

Foi lá que Pablo teve sua formação artística e, como retribuição, atuou como professor voluntário em algumas ocasiões. “Quando volta para o Brasil, após temporadas de apresentações na Europa, ele traz materiais caríssimos, como malabares, pernas-de-pau, monociclo, e doa para o projeto. Ele também ministra aulas e compartilha suas experiências com nossos alunos, que têm o Pablo como um exemplo, uma referência positiva na comunidade”, conta Jonathan Rodrigues, presidente da Acaps e amigo de infância.

Além da ONG, Pablo também fez capacitação profissional na Unicirco, projeto do ator Marcos Frota, que, segundo Jonathan, abriu as portas para uma atuação no exterior. Atualmente, o artista é contratado pela Up Leon, companhia brasileira que tem parceria com empresas que organizam espetáculos na Alemanha, Finlândia e Suécia, país para onde o brasileiro tem viagem marcada no próximo dia 24 para mais uma temporada de apresentações. Familiares e amigos de Pablo temem que a prisão impeça que ele viaje e cumpra sua agenda profissional.

30 minutos de troca de tiros

Foi para comemorar o sucesso na carreira, e também para marcar a despedida antes de mais uma temporada fora do Brasil, que Pablo, sua mulher, um primo e amigos foram ao show de pagode em Santa Cruz. “A gente viu a propaganda desse evento no Facebook e resolveu ir para celebrar a viagem dele”, lembra Jessica. Por volta das 3h, relata ela,  teve início uma confusão e troca de tiros no portão do local. “Foram uns 30 minutos de tiro”, disse.

“Depois, chegaram policiais se identificando, falando de uma denúncia sobre pessoas armadas no local. As mulheres puderam sair, mas os homens tiveram que ficar. Disseram que eles seriam encaminhados para a Cidade da Polícia só para uma averiguação de antecedentes criminais. Como o Pablo não tem passagem pela polícia, eu nem me preocupei. Fui para casa e fiquei esperando. Até hoje, ele não voltou”. O primo de Pablo e um amigo dele também foram presos.

Foto: Polícia Civil do Rio de Janeiro

Jessica chegou a levar documentos e o contrato do marido com a Up Leon na Cidade da Polícia, mas, segundo seu relato, foi ignorada. Mesmo após a transferência para Bangu, ela ainda não conseguiu contato com ele.

Habeas corpus indeferido

O defensor público Ricardo André de Souza tentou tirar Pablo Martins da prisão, mas o habeas corpus do artista circense, bem com de outros 21 clientes, foram indeferidos. “O caso dele conta com uma farta documentação que não só comprova o vínculo de prestação de serviços em uma agência de artistas como também faz link com um trabalho em outros países”, conta o defensor à reportagem.

Souza tem outros casos bem parecidos com o de Pablo nas mãos. “Diversos outros detidos comprovam vínculo empregatício e nenhum antecedente criminal. Há motoristas de ônibus, vendedores de loja, garis e até professor universitário.”

O defensor aguarda uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o habeas corpus de um de seus clientes para analisar o que poderá ser feito agora. “Dependendo da postura da Corte, vamos levar os outros habeas corpus para lá. Se não der resultado, o próximo passo é ir para o Supremo Tribunal Federal (STF)”, explica.

De acordo com informações da Polícia Civil na época da operação, os presos desse caso respondem pelos crimes de constituição de milícia privada e porte de arma de fogo de uso restrito. Na operação, foram apreendidas ainda 24 armas (fuzis, pistolas e revólveres), granada, 76 carregadores e 1.265 munições, além de 11 carros roubados. Na troca de tiros, quatro pessoas morreram.

O Portal da Band tentou contato com a Polícia Civil para esclarecimentos do caso Pablo Martins. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta.

Febre e perguntas sobre o pai

Nos primeiros dias após a prisão de Pablo, seu filho de dois anos teve uma forte febre. “Levei ele para ser examinado e a médica disse que ele não tinha nada. Quando contei o que tinha acontecido, a doutora me explicou que poderia ser emocional”, recorda Jessica.

Foto: Arquivo pessoal

Embora Pablo fique meses fora do país a trabalho, a ausência do pai tem sido percebida de forma diferente pelo menino. “Ele não para de perguntar pelo Pablo. Ele fala ‘cadê o papai para brincar de circo comigo?’ Eu digo que ele está trabalhando, não consigo contar a verdade, até porque toda essa história é injusta, mentirosa. Mas acho que no fundo ele entende o que está se passando, e isso me dói muito. O Pablo é uma grande referência para nosso filho.”

“Eu só espero que meu marido saia limpo desta situação, que reconheçam que foi um erro prender ele. Quero meu marido sem manchas em sua dignidade, e livre para ir e voltar de qualquer país que ele quiser ou precisar. Lá fora ele sempre foi muito bem tratado. Não é justo que ele passe por toda essa humilhação no país onde nasceu”, lamenta.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 21 de março de 2018

'A dor é algo natural para os alunos', diz professor do Complexo da Maré

Na lousa, alunos da Maré desenharam uma homenagem para a vereadora Marielle Franco (Foto: arquivo pessoal)

Na sexta-feira (16), dois dias após a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o professor Gabriel* não conseguiu dar aula em uma escola municipal no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. “Comecei a falar e caí no choro”, relatou. O docente havia pensado em algumas palavras de conforto para dizer a seus alunos, adolescentes do ensino fundamental. Em vez disso, ele quem foi consolado.

“Infelizmente, meus alunos encaram a violência de forma naturalizada, pois convivem ela diariamente. Muitos conhecem alguém que perdeu a vida; amigos, primos ou parentes próximos. Tenho alguns alunos que são órfãos. Dá para perceber a dor que eles sentem, mas, da mesma forma, eles mostram uma serenidade que surpreende quem é de fora.”

Gabriel dá aulas em comunidades do Rio há oito anos. Já são dois na Maré, comunidade de onde Marielle era “cria”. Mesmo com a falta de verba para a rede de ensino ou a estrutura precária para trabalhar, o professor acredita que a educação pode transformar a difícil realidade da comunidade. A começar pelo exemplo deixado pela vereadora.

“Marielle era uma pessoa saída da Maré, venceu as barreiras estruturais impostas a mulheres, negras e pobres. Ela conseguiu não apenas se formar [no pré-vestibular comunitário da Maré], mas atuar na vida pública, obter uma votação expressiva nas eleições [quinta vereadora mais votada do Rio em 2016] e se tornar um horizonte de possibilidades.”

Rotina de medo

Assim como Marielle em sua época de escola, os alunos do professor Gabriel precisam enfrentar uma rotina de medo para realizar coisas simples do dia a dia, como ir estudar. “Afeta totalmente a rotina escolar. Desde aulas suspensas até baixa frequência de alunos por causa de confrontos entre policiais e traficantes”, conta com exclusividade ao Portal da Band.

A região, explica o professor, é disputada por duas facções rivais: o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV). Além disso, a repressão policial piorou e trouxe mais insegurança para o cotidiano dos moradores da Maré.

Ciente desses problemas, Gabriel sempre pede a seus estudantes para avisarem quando tem tiroteio no caminho até a escola. “Às vezes tem conflito às 6h, no momento em que eles estão se arrumando para sair de casa. A minha orientação é sempre pedir que eles permaneçam onde estão e não venham para a escola, que depois eu abono a falta. Tento deixá-los tranquilos, porque eles sabem o quanto é perigoso”, lamentou.

Velhos preconceitos

A tragédia envolvendo a vereadora Marielle Franco foi potencializada, na opinião do docente, por uma onda de ódio, vista principalmente nas redes sociais, que tenta diminuir a trajetória da parlamentar por meio das chamadas fake news, as notícias falsas. “Não adianta matar Marielle fisicamente, é preciso apagar o que ela representa.”

Gabriel cita duas mentiras que circularam pela internet para reforçar seu ponto. Em um dos boatos, a vereadora foi associada a uma facção criminosa. Em outro, dizia-se que Marielle era companheira do traficante Marcinho VP. “É do senso comum associar a mulher negra favelada ao tráfico, ao bandido. É um preconceito histórico que vem à tona com a morte da Marielle. A mulher negra chegar onde chegou desperta nosso racismo, nossa misoginia”, diz.

“Além disso, a morte da Marielle trouxe visibilidade para tantos anônimos que sofrem e morrem todos os dias nas favelas do Rio.”

Marielle presente

Passeata em homenagem à vereadora Marielle Franco (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O lema que surgiu após o assassinato da vereadora ilustra bem, na visão de Gabriel, o que Marielle representa não só para a Maré, mas para todas as comunidades do Rio e para quem luta pelas mesmas demandas da vereadora do PSOL.

“O slogan ‘Marielle presente’ é exatamente isso. As ideias dela continuam presentes e vão germinar. Eu sinto na molecada da Maré que a Marielle deixou uma semente. Para mim, ela foi além do exemplo de emancipação individual. Ela era, e ainda é, uma esperança coletiva de mudança.”

* Nome fictício

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Cerca de 5% dos presos não retornam das saídas temporárias

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Jonathan Pereira do Prado deveria ter se apresentado ao Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de São José do Rio Preto, em São Paulo, em março. Cumprindo pena por furto, ele havia sido beneficiado por uma medida conhecida como saída temporária, um dos programas de reinserção social do sistema penitenciário brasileiro.

Como não retornou ao CPP, Jonathan se tornou foragido da Justiça. No dia 1º deste mês, ele combinou uma falsa carona com a jovem Kelly Cadamuro, que foi assaltada, violentada e morta com socos e estrangulamento.

A brutalidade do crime alimenta a polêmica que já existe em relação ao benefício das saídas temporárias.

Os números mostram, porém, que a maioria dos beneficiados cumpre as regras da medida que, segundo um especialista da área, pode, sim, ser positiva, mas é preciso aplicá-la de forma correta para que o resultado seja ainda mais eficaz no processo de ressocialização.

Dados


Segundo dados divulgados pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), 96,11% dos beneficiados retornaram da saída de Páscoa em 2017; já o índice de retorno da saída de Dia das Mães deste ano foi de 96,74%.

Em um comparativo com os últimos dez anos, esta porcentagem continua alta. Em média, 94,51% dos detentos que saíram para a Páscoa retornaram para a penitenciária entre 2006 e 2016.


Na saída temporária de Dia das Mães, a média do índice de retorno neste mesmo período é de 95,14%.


Em ambos os casos, a porcentagem de beneficiados que não retornaram ao sistema prisional não chega a 5,2%.

Pequenos testes


A saída temporária é concedida para presos em regime semiaberto, que tenham cumprido um sexto da pena (ou um quarto da pena em caso de reincidência) e apresentado bom comportamento dentro da penitenciária. São cinco saídas ao ano (Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal/Ano-Novo) que podem durar até sete dias.

Para Rogério Cury, especialista em Direito Penal, o programa pode funcionar para medir o progresso do detento em sua reinserção. “O benefício funciona como pequenos testes de convívio em sociedade. O preso sairá da cadeia um dia, então essa é uma forma gradual de ele ir ganhando liberdade”, define em conversa com o Portal da Band.

Com a saída temporária, explica Cury, o detento pode começar a montar uma estrutura para sua nova vida. “Ele pode, por exemplo, ir fazendo contatos para conseguir um emprego quando sair da cadeia ou buscar alguém que possa ajudá-lo ou dar apoio enquanto ele tenta se reerguer”, exemplificou.

O especialista diz ainda que o Estado “apenas encarcera”, e não dá “condições mínimas” para que o preso seja ressocializado. O benefício, portanto, poderia proporcionar alguma oportunidade de futuro. “É preciso ter cuidado com o processo de reinserção social; temos que tratar esse assunto de maneira adequada e rígida, porque sem condições dignas, ele vai voltar para a delinquência”, ressalta.

Os detentos que não retornam para a cadeia após a saída temporária automaticamente perdem o direito ao benefício e são reconduzidos ao regime fechado.

Já os números sobre reincidência criminal - quando um novo crime é cometido - são vagos. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reuniu várias pesquisas; uma delas mostra que a média nacional gira em torno de 70%, mas, devido a escassez de trabalhos de estudo sobre o tema, os dados ainda são imprecisos.


O advogado observa, no entanto, que independentemente da porcentagem, reincidentes criminais provam que o processo de reinserção de presos precisa ser aprimorado.

Descrença


Quando um preso que ganha saída temporária volta a cometer delitos, ou então autores de crimes que causaram comoção nacional - como Suzane Richthofen ou Anna Carolina Jatobá - recebem esse benefício, ocorre uma descrença em sua eficácia.

A morte da jovem Kelly Cadamuro, que citamos no início da matéria, fez com que um abaixo-assinado virtual fosse criado contra a saída temporária, por exemplo. Até o fechamento desta reportagem, mais de 40 mil pessoas haviam assinado a petição.

Monitoramento

Para combater casos como o de Jonathan Pereira do Prado, o especialista Rogério Cury sugere mais fiscalização para o benefício, e não a extinção dele, visto que a porcentagem de retorno é muito maior e pode trazer bons resultados para a reinserção social.

“Toda saída temporária tem que ter monitoração eletrônica do preso através da tornozeleira. O problema é que muitos Estados brasileiros, inclusive em São Paulo - que possui a maior população carcerária do país - sequer concedem esse aparelho”. Entre os motivos deste problema estão falta de verba ou demora na licitação para solicitar o equipamento.

Foto: Akira Onuma/Ascom Susipe

Cury explica que, com a tornozeleira eletrônica, a polícia poderia facilmente encontrar o preso que não retornou da saída temporária e impedi-lo, dessa forma, de voltar a cometer crimes.

Gastos

O advogado sustenta ainda que investir em monitoramento é até uma solução mais barata. “O preso mal ressocializado, que volta a cometer crimes, gera gastos com operação policial para prendê-lo, delegado para investigá-lo, além do processo judicial do caso que envolve promotor, defensor público e juiz. O custo de um delito é sempre maior, e o Estado ainda paga indenização das vítimas de presos reincidentes.”

Isso sem contar o valor que o Estado voltará a desembolsar com o detento que retorna ao sistema carcerário. Em novembro do ano passado, durante um encontro de secretários de Segurança Pública, a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, afirmou que um preso custa R$ 2,4 mil mensais (média nacional) - 13 vezes mais do que um estudante no Brasil.

Apesar da observação feita pela presidente do STF, a Câmara dos Deputados aprovou no dia 9 um projeto de lei que endurece as regras da saída temporária, ampliando ainda mais o tempo e o dinheiro gasto com o encarceramento.

Pelo texto aprovado, o juiz de execução penal só concederá a autorização se o detento tiver, além de bom comportamento, cumprido no mínimo um sexto da pena se for primário na condenação e metade da pena se for reincidente. A autorização judicial também não pode ser superior a quatro dias, podendo ser renovada por mais uma vez no ano.

“Dessa forma, vamos continuar rasgando dinheiro, porque seguimos não investindo em maneiras eficazes de colocar um preso em liberdade”, resume Cury.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sábado, 18 de novembro de 2017

Dandara, a travesti que o preconceito matou, vira tema de documentário

Foto: arquivo pessoal

Dandara sempre foi um nome forte muito antes do vídeo de uma sessão de tortura e violência circular pelas redes sociais. Era o nome de uma guerreira negra do Brasil colônia, esposa de Zumbi dos Palmares, que, diz a lenda, se matou para não voltar à dura realidade da escravidão.

Essa perseverança de viver como sonhou, e não como outros queriam que vivesse, também era uma das características de Dandara dos Santos. A cearense de 42 anos teve a coragem de viver como era mesmo sabendo dos riscos que corria por morar no país que mais mata transexuais no mundo.

Em 15 de fevereiro deste ano, Dandara entrou para as estatísticas que formam um panorama assustador: a cada 25 horas, uma pessoa morre vítima da homofobia no Brasil, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), que faz esse levantamento. O caso da cearense poderia ser mais um entre muitos que são ignorados, só não foi porque um vídeo em que a travesti, já coberta de sangue, aparece sendo espancada e xingada por um grupo de homens se tornou viral na internet.

Esse mesmo vídeo apareceu nas redes sociais de Francisca Ferreira, mãe de Dandara, que sem querer assistiu as últimas imagens da filha em vida. “Ele ficou lá, quieto, sem falar nada, esperando a morte”, lembra a aposentada, que chora. O relato é um dos pontos altos do documentário de curta-metragem Dandara, que estreia neste domingo (19), às 15h30, no Festival Mix Brasil. Haverá também sessão na terça-feira (21) às 19h30. Ambas acontecem no CCSP (Centro Cultural São Paulo), na capital paulista.

O filme deriva de uma grande reportagem que os jornalistas e diretores do curta, Fred Bottrel e Flávia Ayer, do jornal Estado de Minas, realizaram sobre o caso. Eles viajaram para Fortaleza, onde, um mês antes, Dandara havia sido morta a tiros após a sessão de tortura. O material que colheram, como depoimentos de familiares e amigos, “merecia um tratamento mais longevo”, na opinião de Fred. “A gente entendeu que a história de Dandara precisava ser contada de forma mais profunda, e também circular por outros públicos”, explica o diretor ao Portal da Band.

A dupla, que passou uma semana na capital cearense, pensou ainda em um jeito diferente de começar o filme. “Inserimos um conceito para que o espectador se coloque no lugar de Dandara. Posicionamos a câmera como plano subjetivo dentro do carrinho de mão [objeto para carregar a travesti após as agressões] e circulamos pelo mesmo local onde a violência toda aconteceu”, conta Fred. “É um exercício de empatia mesmo”, definiu.

Assista ao trailer:


A repercussão das imagens chocantes que antecederam a morte da cearense fez com que o governador do Estado, Camilo Santana, assinasse um decreto permitindo que transexuais possam usar o nome social na utilização de serviços públicos e também que trans mulheres, vítimas de violência, sejam atendidas nas Delegacias da Mulher do Ceará.

Além disso, a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) apresentou um projeto batizado de Lei Dandara dos Santos, que propõe alteração do Código Penal para prever o LGBTcídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio e inclui o mesmo no rol de crimes hediondos. Apesar de tanta violência, a homofobia ainda não foi tipificada como crime no Brasil.

Morreu por confiar em todo mundo

Para o irmão de Dandara, Ricardo Vasconcelos, essas mudanças que surgem aos poucos trazem um pouco de conforto à família. “Talvez ele tenha morrido para ajudar mais gente, principalmente aqueles que são excluídos, que sofrem preconceito”, diz em entrevista ao Portal da Band.

Ele ressalta que a irmã faz muita falta, principalmente para a mãe - que era muito ligada a ela, e que será lembrada como uma pessoa de boa índole, carinhosa, generosa e que, segundo ele, foi atraída para a própria execução por “confiar muito em todo mundo, a ponto de subir na garupa de uma moto sem imaginar que estava indo de encontro à morte”.

Ricardo, que trabalha como motorista da Uber, conta ainda que sempre cita o que aconteceu com a irmã - a quem ele se refere como irmão, quando algum passageiro fala sobre violência. “Eu falo com orgulho que meu irmão era travesti, um ser humano igual a todos nós, e que foi brutalmente assassinado por pessoas que não têm amor no coração.”

Dez pessoas acusadas de envolvimento com a execução de Dandara aguardam decisão judicial, que talvez saia em um júri popular que pode acontecer no ano que vem. Caso as qualificações do crime, como motivo fútil, impossibilidade de defesa e crueldade, sejam aceitas, os acusados podem receber pena de até 30 anos. O motociclista que levou a travesti até o local da tortura permanece foragido.

“A Dandara não está sozinha. É um caso que escancara a violência transfóbica que todos os dias mata transexuais no país. Se esse assunto não tiver a atenção que merece, isso nunca vai mudar”, pontua, por fim, o diretor do documentário.

(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 5 de novembro de 2017

Dois anos após maior desastre ambiental do país, clima é de incerteza em Mariana

As ruínas de Bento Rodrigues, distrito devastado na tragédia (Foto: Flávio Ribeiro/Vertices)

Cinco de novembro de 2015. Há exatos dois anos, a barragem de Fundão, localizada em um subdistrito da cidade histórica de Mariana (MG), se rompeu despejando um mar de lama que destruiu municípios, contaminou a importante bacia hidrográfica do Rio Doce, comprometeu toda a fauna e flora da região e matou 19 pessoas, sendo que uma delas permanece desaparecida até hoje.

Neste especial, o Portal da Band pôde concluir que a palavra que melhor resume esta tragédia ambiental - a maior do país - é “incerteza”. Não se sabe quando os indiciados pela tragédia vão pagar por esse crime; não dá para mensurar até que ponto a vida do Rio Doce está comprometida; é difícil precisar o quanto a economia de Mariana, tão dependente da mineração, vai sofrer com a queda de arrecadação. São os moradores das cidades atingidas, entretanto, que nesses dois anos mais sofreram com tantas dúvidas que surgem em busca de alguma resposta.

Tragédia continuada

Desde que a vida mudou drasticamente naquele 5 de novembro de 2015, Maria* sente que jamais deixou de viver a tragédia. “Ainda sentimos - e muito - as consequências do rompimento da barragem. Foram tantas perdas irreparáveis. Com a lama, morreram pessoas, histórias e sonhos”, conta a moradora da região, que conhecia três das vítimas fatais, inclusive aquela cujo corpo jamais foi encontrado.

Maria vive em uma comunidade próxima de Mariana, que não foi invadida pelos rejeitos, mas foi impactada financeiramente quando a Samarco, responsável pela barragem de Fundão, suspendeu contratos de funcionários (layoff) e colocou em prática um plano de demissão voluntária de 40% de seu quadro de empregados.

“A Samarco empregava, ainda, muitos funcionários terceirizados, que até agora não conseguiram outro trabalho”, detalha. “A fila do Sine (Sistema Nacional de Emprego) vive cheia, e não há vagas”. Maria diz ainda que, nesses dois anos, algumas empresas chegaram à cidade com oferta de empregos, mas, com tanta insegurança financeira, acabam ficando pouco tempo. “Quem pode está indo embora [de Mariana] para trabalhar em outro lugar.”

Prefeito Duarte Júnior em coletiva de imprensa dois dias após o desastre (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

“É muito difícil”, resume Duarte Júnior (PPS), prefeito de Mariana, quando questionado pela reportagem sobre a situação do município. A arrecadação da cidade também sofreu com a suspensão das atividades da mineradora. A queda na receita chega a 34,62%. Com o desemprego na casa dos 23% (ante os 4% a 5% precedentes da tragédia), aumenta a procura por serviços sociais na cidade, que luta para mantê-los enquanto procura outra fonte de renda.
“Vivemos uma situação de dois extremos: ainda estamos recuperando uma cidade das consequências de uma tragédia envolvendo a mineração e, por outro lado, temos a necessidade do retorno dessa atividade para garantir emprego ao povo de Mariana.”

Após o desastre, um fundo foi criado para incentivar a contratação local na cidade. Gerido pela Fundação Renova, pelo Estado e com apoio da prefeitura, o fundo oferece aporte de R$ 60 milhões para empresas âncoras que tenham interesse em investir no município. Por enquanto, não teve muitos resultados. “Aguardamos ansiosos, para diminuir essa dependência [da mineração]”, acrescenta o prefeito.

Rio Doce

As dificuldades financeiras das cidades diretamente atingidas ou indiretamente impactadas pelo desastre se agravam também pela contaminação do Rio Doce. Um mar de lama com cerca de 32 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração chegou ao rio e percorreu 650 km até o oceano. Isso no dia da tragédia. Especialistas afirmam que resíduos remanescentes de Fundão ou que ficaram pelo caminho da lama continuam descendo até o Rio Doce toda vez que chove, por exemplo.

Pescador mostra peixes mortos na tragédia (Leonardo Merçon/Últimos Refúgios)

A grande quantidade de rejeitos matou peixes e outros animais do rio, aves que se alimentavam na bacia hidrográfica e plantas das regiões próximas. Prejudicou todo o setor pesqueiro, muito forte nos municípios por onde o Rio Doce passa, e também as plantações de pequenos agricultores.

Isso sem contar o prejuízo ocasionado no período em que o abastecimento das casas foi suspenso devido à contaminação. Até hoje, muitos moradores - quando podem - optam por comprar água mineral por não confiarem na qualidade da água que sai das torneiras. A água de abastecimento é segura, porque passa por tratamento. Mas a oscilação da qualidade do Rio Doce pode prejudicar o processo.

“Em épocas de chuva, a qualidade da água muda, e o tratamento também precisa ser modificado; é um problema diário”, explica Hernani Santana, coordenador de engenharia ambiental da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), que vem desenvolvendo projetos de pesquisa relacionados à avaliação de danos no rio.

O especialista também recorre à palavra incerteza para falar da situação da bacia hidrográfica. “Até hoje não temos como mensurar todos os impactos que o Rio Doce sofreu e vai sofrer”, afirma ao Portal da Band. Além da chuva, qualquer ação que cause um movimento mais brusco no rio interfere nesta avaliação. “Os metais depositados no fundo voltam à superfície, mudando de um dia para o outro nossa análise.”

Equipe faz o monitoramento da água do Rio Doce (Foto: Gustavo Baxter/Nitro)

Entre os metais pesados, trazidos ao Rio Doce pela lama da Samarco, Hernani cita dados preocupantes. “Já encontramos mercúrio, alumínio e até arsênio, que em grandes quantidades é extremamente tóxico”, afirmou. O especialista não vê uma solução para o rio em curto prazo, principalmente neste momento do país em que investimentos para a ciência estão cada vez mais escassos. “Falta recurso, sim, muitas vezes ficamos ‘a ver navios’”, completa.
Impunidade

Enquanto os munícipes tentam solucionar e superar as consequências de uma tragédia que parece não ter fim, eles aguardam ainda respostas da Justiça. Dois anos depois, tampouco dá para saber quando isso vai acontecer.

Pelo desastre da barragem de Fundão, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou 22 pessoas e as empresas Samarco, Vale, BHP Billiton e VogBR. Dos 22 nomes, 21 são acusados pelo crime de homicídio qualificado com dolo eventual - quando se assume o risco de matar, entre elas o ex-diretor-presidente da Samarco Ricardo Vescovi. Em seu inquérito, a Polícia Federal já havia indiciado oito pessoas e as empresas Samarco, Vale e VogBR. Até agora, ninguém foi preso.

O MPF ainda ordenou que empresas paguem uma indenização no valor de R$ 155 bilhões. A celebração deste acordo também caminha a passos lentos. A Justiça postergou o prazo final para o dia 16 deste mês. O processo havia sido sustado por alegações de escutas telefônicas ilegais.

Foto aérea de distrito atingido pela lama de rejeitos (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Além disso, um levantamento feito pelo jornal espanhol El País mostrou que apenas 1% das multas por crime ambiental, aplicadas às empresas responsabilizadas pela tragédia, foi pago. Essas penalidades totalizam R$ 552 milhões. É importante destacar que uma das empresas envolvidas nos processos, a Vale, teve um lucro de R$ 7,14 bilhões no terceiro trimestre deste ano – o que representou uma alta de 288% com relação ao mesmo período do ano passado.

Nesses dois anos, as famílias contempladas com auxílios financeiros emergenciais tiveram ainda que recorrer ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para receber os valores acertados pela Samarco e suas acionistas. Primeiro foram 105 famílias; a Justiça ordenou que 85 delas recebam imediatamente o subsídio. Na segunda audiência de reconciliação, foram analisados pedidos de mais 30 famílias; dessas, as empresas reconheceram os direitos ao auxílio emergencial de 23.

Fundação Renova

Em março de 2016, a Samarco e suas acionistas, bem como os governos estaduais de Minas Gerais e Espírito Santo, além de autarquias, fundações e institutos, assinaram um termo para garantir proteção ambiental, recuperação dos municípios e indenização das famílias à luz do desastre.

Para organizar esses projetos, foi criada a Fundação Renova, que administra 42 programas diversos com um aporte total de R$ 11 bilhões previstos até 2030. É da alçada da fundação, por exemplo, reconstruir Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo (de Mariana) e Gesteira (de Barra Longa), distritos devastados com a lama da barragem.

“Esperamos que no início do primeiro trimestre ou quadrimestre do ano que vem já seja possível iniciar a construção das casas e dos equipamentos públicos, como campos de futebol, escolas, postos de saúde, igrejas, praças; a comunidade terá a seu dispor uma estrutura completa”, prevê Marcus Fuchs, gerente dos programas socioeconômicos em entrevista ao Portal da Band. Para cumprir o cronograma, fixado no primeiro semestre de 2019, o ritmo de trabalho será intensificado em 2018.

Reparação em propriedades rurais de Mariana (Foto: Gustavo Baxter/Nitro)

Outros projetos, porém, ainda não estão tão bem definidos assim. É o caso do manejo de rejeitos. A Samarco ficou responsável por retirar uma parte da lama que ficou retida na Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conhecida como Candonga, até dezembro de 2016. O cronograma atrasou. Sob a administração da Renova, mais de 900 mil metros cúbicos de rejeito foram retirados, mas ainda há muito trabalho a ser feito e com um agravante: ninguém sabe o que fazer com tanta lama.
“Estamos na fase de estudos sobre quais atividades esses rejeitos podem servir”, explica Fuchs. “Ainda não é conclusivo porque precisamos ter certeza de que o produto não vai representar nenhum risco à saúde. Tendo essa certificação, teríamos ainda que pensar na logística para transportar esse material.” Um dos possíveis usos da lama que está sendo cogitado é utilização na construção civil.

Hernani Santana, da Univale, está desenvolvendo um projeto para usar a decantação da lama que resta do tratamento da água para transformar em telhas ou cerâmicas. “Isso pode ser feito, mas mesmo assim a quantidade de rejeito ainda é muito grande. Daria para construir uma cidade inteira com tudo aquilo e ainda teria lama sobrando. Precisamos de mais pesquisas e projetos para encontrar uma solução”, completa.

Algumas iniciativas da fundação, entretanto, começam a apresentar resultados positivos. Segundo relatório divulgado pelo Ibama mês passado, dos 101 afluentes (mais oito ramificações que puderam ser acessadas) do Rio Doce, 89 não mais recebem lama de rejeitos. Vinte ainda apresentam processos que carregam lama para a bacia. A Renova reconheceu que nesses 20 afluentes as ações em curso não foram suficientes para conter esse carreamento, mas elas continuam sendo monitoradas.

Virar a página


Ainda sentindo as consequências dois anos depois do maior desastre ambiental do país, e no aguardo de tempos melhores que tardam a chegar, os marinenses e outros munícipes atingidos não veem a hora de virar essa página. “Temos esperança de lembrar esse 5 de novembro somente como uma tragédia que aconteceu, e não porque não conseguimos superá-la”, desabafa Maria. “Nosso lugar é muito bom para viver; as pessoas são boas e humildes. Mesmo na dificuldade, a gente se ajuda quando precisa”, ressalta.

Duarte Júnior, que assumiu a prefeitura de Mariana meses antes do desastre, partilha da mesma opinião e reforça seu desejo por Justiça. “[As empresas responsáveis pelo rompimento da barragem] levaram bilhões de lucros de terra dos marinenses; eles não podem virar as costas para a população; têm que pagar o que devem”, pontua. “A lição foi dada: o homem precisa tomar muito cuidado com o meio ambiente e extrair suas riqueza com responsabilidade. Não queremos ser lembrados como a cidade da lama, mas sim como a bela Mariana, a primeira cidade de Minas Gerais.”

* Nome alterado a pedido da fonte

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Decisão sobre ensino religioso ignora realidade do Brasil, dizem especialistas

Uma cruz cristã é vista no plenário do STF à direita; no centro, a presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia (Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF)

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que escolas públicas podem ministrar aulas de ensino religioso confessional – aquele que permite que os professores promovam as crenças de uma religião sem precisar citar outras ou mesmo nenhuma, como é o caso do ateísmo ou do agnosticismo.

Por seis votos contra cinco, a Suprema Corte rejeitou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade da Procuradoria-Geral da República (PGR) que pedia, com base na laicidade do Estado, a oferta do ensino religioso não confessional – que abrange diversas crenças, sem priorizar uma especificamente – na rede pública de ensino.

Sob o argumento de que o Judiciário não pode interferir nas questões religiosas pessoais, incluindo a esfera pública, o STF deu aval para que Estados e Municípios decidam se o conteúdo a ser dado será confessional ou não confessional. A oferta dessa aula é obrigatória, mas serão facultativas, ou seja, o aluno pode não participar sem que isso gere um prejuízo em seu currículo escolar.

A decisão da Corte gerou uma repercussão enorme entre educadores e representantes das mais variadas religiões. Os especialistas estão preocupados, principalmente com o aumento da intolerância contra crenças minoritárias e também com o que será feito com o aluno que desejar não participar das aulas de ensino religioso baseada em uma única crença.

Segundo o levantamento da Prova Brasil, questionário aplicado pelo Ministério da Educação para estudantes e professores da rede pública, 55% dos docentes apontam que não há outra atividade prevista para os alunos que optam por não participar das aulas de religião.

Para Sérgio Junqueira, integrante do Grupo de Pesquisa Educação e Religião, o aluno pode ter problemas sociais ou sentir-se excluído por não participar das mesmas atividades que seus colegas. Além disso, o especialista também aponta questões delicadas na contratação de professores ou representantes religiosos que irão aplicar este conteúdo.

“O Estado não vai pagar um professor para ensinar religião; não há dinheiro para isso”, aponta o especialista, que também destaca o problema da formação específica. O mais recente levantamento sobre o assunto mostrou que menos da metade dos docentes do ensino fundamental tem licenciatura nas disciplinas que lecionam.

“É preciso, então, fazer alianças com lideranças religiosas, mas não são todas que poderão arcar com isso. Temos que considerar também que um líder religioso não necessariamente é um bom professor. Pensar como aplicar um conteúdo não é tão simples assim; sem um cuidado com a informação que está sendo passada, podemos esbarrar no preconceito”, alerta.

Intolerância religiosa

Professor e antropólogo da Universidade de São Paulo (USP), Vagner Gonçalves da Silva estuda a etnografia das populações afro-brasileiras e, durante duas décadas, fez um monitoramento do aumento dos casos de intolerância contra religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé.

Vagner acredita que com a decisão do STF, ataques do tipo serão ainda mais frequentes. Para ele, a Suprema Corte ignorou a realidade do Brasil. “[Na virada dos séculos 19 e 20] as religiões de matriz africana eram criminalizadas no Brasil; tinha, inclusive, invasão de polícia nos terreiros, e pais de santo enquadrados”, lembra.

“Somente em meados do século 20, essas religiões conseguiram ‘respirar’ no momento em que a classe artística aderiu à crença e o movimento negro se fortaleceu. É uma conquista recente, então é preciso ter cuidado com isso. O que o Estado deveria fazer agora é garantir a liberdade de culto, prevista na Constituição, e impedir que um grupo religioso vilipendie os símbolos sagrados de outros.”

O antropólogo menciona ataques recentes como à menina Kayllane Campos, 11 anos, atingida na testa por uma pedra em 2015 ao sair de um culto de candomblé; a invasão a um terreiro em Jundiaí, no interior de São Paulo, na qual criminosos quebraram imagens sagradas e colocaram fogo no local dois dias antes de sair a decisão do STF; e a ação na qual traficantes de drogas, que se dizem evangélicos, obrigaram uma mãe de santo a destruir seu terreiro sob a mira de armas no mês passado.



Para o especialista, a laicidade do Estado não é respeitada, e o julgamento do STF é uma prova disso. Também partilha da mesma opinião Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que estão entre os 8% da população que se dizem "sem religião", segundo o Censo 2010.

“[O desrespeito à laicidade] é representado com a quantidade de símbolos religiosos em repartições pública, incluindo o STF, e muitas pessoas não percebem isso”, exemplifica Daniel, que já acionou o Ministério Público para que as imagens fossem retiradas. “O fato de essas imagens passarem despercebidas é sintomática, mostra que o domínio de uma única religião já está naturalizado no país, e isso vai contra o Estado laico.”

Assim como o antropólogo Vagner, Daniel também teme um aumento do preconceito contra ateus e agnósticos, que, segundo ele, já atinge níveis preocupantes. “A Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa perguntando às pessoas o que elas pensam sobre grupos específicos. Esse levantamento mostrou que 39% dos entrevistados rejeitam pessoas que não acreditam em Deus [este índice chega a 51% na região Norte do Brasil]. Nós também recebemos muitos relatos de pessoas que foram expulsas de casa, perderam emprego ou terminaram relacionamentos só pelo fato de não terem uma religião.”

Católicos e evangélicos

Os especialistas entrevistados acreditam que o ensino religioso irá privilegiar a crença católica ou evangélica. Segundo o Censo 2010 - última pesquisa feita pelo IBGE acerca da questão, os católicos ainda são a maioria no Brasil, ainda que este índice tenha caído de 73,6% para 64,6% em dez anos, e os evangélicos cresceram de 15,4% para 22,2% neste mesmo período.




Nesta semana, a prefeitura de Barra Mansa, no Rio de Janeiro, já notificou que irá incluir a reza cristã do Pai Nosso nas escolas do município. Os alunos que não quiserem participar da oração precisam apresentar uma declaração assinada pelos responsáveis.

Presidente da Comissão para Cultura e Educação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom João Justino defende um diálogo entre moradores dos municípios, professores e estudantes para que se chegue a uma conclusão sobre qual crença será ministrada nas escolas e seu conteúdo.

O arcebispo ainda defende um ensino religioso plural que respeite as demais. “Nós vemos [a decisão do STF] como uma oportunidade de falar sobre intolerância religiosa nas escolas e trabalhar a importância do respeito com as outras tradições religiosas.”

Dom Justino ressalta que a Suprema Corte atuou de acordo com a Constituição, que estabelece aulas de religião na rede de ensino pública. “Algumas pessoas não entenderam e estão achando que a Igreja Católica está exigindo um ensino católico; o que queremos, na verdade, é que o ensino seja de acordo com a demanda dos estudantes, permitindo que aqueles que já fizeram uma opção religiosa, geralmente ligada ao histórico familiar, tenham chances de aprofundar esse conhecimento. Para nós, a apresentação histórica das muitas expressões religiosas poderá ser feita no conteúdo de outras matérias.”

Sérgio Junqueira, do Grupo de Pesquisa Educação e Religião, concorda que outras matérias vão abordar, de forma antropológica, a importância e a influência da religião no mundo, mas ele aposta em modelos que garantiriam melhor essa pluralidade de ensino. “Temos um projeto em Curitiba que chama Trilhas do Sagrado. Nele, as crianças da rede municipal de ensino têm a oportunidades de visitar templos budistas, terreiros de umbanda, igrejas cristãs, mesquitas islâmicas, entre outros.”

“Ensinar as crenças de uma religião cabe à família; à escola fica o papel de ajudar o estudante a entender a estrutura e as manifestações religiosas a fim de desmontar preconceitos”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)