quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Para diretor e elenco, Central do Brasil ainda é atual

Vinicius de Oliveira, Fernanda Montenegro e Walter Salles na exibição de cópia restaurada de 'Central do Brasil' (Foto: Natali Hernandes/agenciafoto.com.br)

A história de uma ex-professora que atravessa o Brasil atrás do pai do menino Josué completou 20 anos sem envelhecer. É tão atual que a intérprete de Dora, a aposentada que escreve cartas para analfabetos no centro do Rio, sugeriu relançá-la. “Esse filme deveria ser lançado de novo. Digo isso por causa da época que estamos passando agora”, disse Fernanda Montenegro, sob muitos aplausos, na exibição da cópia restaurada de Central do Brasil, nesta terça-feira, 30, na capital paulista, durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

“A obra fala de um menino em busca do pai, mas que na verdade também está em busca de um país. E nós estamos em busca de um país novamente”, acrescentou a atriz, referindo-se, mas sem citar nomes, ao momento politicamente conturbado que se agravou com as eleições deste ano.

Central do Brasil chegou aos cinemas em 1998, mas as primeiras ideias para o longa surgiram na mente do diretor Walter Salles em outro período delicado. “O filme foi pensando durante os anos negros do governo [Fernando] Collor e momentos após a ditadura militar. A trajetória [da protagonista] Dora é de ressensibilização depois daquela época tão traumática”, definiu o cineasta.

Comentando a onda conservadora que atingiu o país – e que junto dela vieram ataques à classe artística, Walter Salles pediu união. “Agora é hora de se reagrupar, estarmos juntos, pensar e criar novamente”, pontuou o diretor do longa vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim e indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, além de também render uma indicação a Fernanda Montenegro como melhor atriz na principal premiação da indústria.

Cena do filme 'Central do Brasil' (Foto: Divulgação)

O ator Vinícius de Oliveira, intérprete do menino Josué, lembra ainda que o cinema brasileiro já enfrentou percalços, como a censura nos tempos de ditadura militar e o financiamento escasso. “O nosso cinema não está em um caminho sólido, e esse momento que estamos passando, no qual a cultura e os artistas estão ‘apanhando’, pode ser devastador. Sempre houve resistência por parte daqueles que trabalham nesse ramo, e em muitas ocasiões o próprio público abraçou mais a produção nacional. Ainda assim, podemos estar diante de novos tempos difíceis”, lamentou em conversa com o Portal da Band.

Duas experiências profissionais, no entanto, trouxeram uma outra perspectiva, essa mais positiva, para Vinícius. O ator esteve no Nordeste do País na década de 1990 para filmar Central do Brasil, e retornou em 2014 para a região, onde rodou Boi Neon, de Gabriel Mascaro. “Encontrei um Nordeste muito diferente, mais moderno, mais possível, com pessoas distintas. Em algum momento a gente melhorou, só espero que não haja retrocessos.”

A restauração de Central do Brasil, feita pelo laboratório francês Éclair, ressaltou os tons do sertão nordestino captados pela fotografia de Walter Carvalho e a trilha sonora marcante assinada por Jaques Morelenbaum e Antônio Pinto. O grande poder do filme, entretanto, está em emocionar um público diverso. A história de Dora e Josué toca até mesmo quem não conhece a realidade dura da maioria dos brasileiros. É difícil segurar as lágrimas diante da construção de uma amizade tão improvável dos dois e, principalmente, do reencontro da professora aposentada com a sua própria compaixão, há muito tempo perdida.



Além das atuações de Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, o filme também traz um dos trabalhos de Marília Pêra, morta em 2015. Foi para a colega de cena que Fernanda dedicou a sessão. “Não lembro dela para entristecer, embora ela faça mesmo muita falta, mas porque essa noite é dela. Talvez pela sua ausência, essa noite é totalmente dela”, concluiu a atriz.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Agressões em período eleitoral afetam turismo LGBT

Paulo Pinto/Fotos Públicas

Não são só os brasileiros que estão preocupados com a recente onda de agressões que se intensificou com o período eleitoral no País. Ciente dos incidentes que repercutem na mídia internacional, turistas de um nicho bastante lucrativo já estão adiando viagens com receio do clima de animosidade no Brasil. A informação é da Câmara de Comércio e Turismo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) do Brasil, voltada para um segmento cujo público-alvo gasta em média, segundo dados mundiais, 30% a mais do que o turista convencional.

“Independentemente de quem vencer as eleições, já se estabeleceu uma imagem ruim para o País. Quem viaja para cá tem essa preocupação adicional em mente, porque esse turista está se informando sobre os ataques pela imprensa internacional. Nós voltamos a virar notícia de uma forma negativa e isso vai impactar no mercado. De agora em diante, nosso trabalho será ainda maior no sentido de amenizar isso e tentar avançar em melhorias para o setor”, explica Ricardo Gomes, presidente da Câmara LGBT, ao Portal da Band.

Ainda sem saber qual será o real impacto no turismo brasileiro, Ricardo conta que soube de turistas que estão adiando viagens ao Brasil por conta de uma série de agressões registradas no País. Um levantamento feito pela Agência Pública e Open Knowledge Brasil registrou mais de 50 ataques durante o período eleitoral. Os casos são publicados diariamente no mapa Vítimas da Intolerância, criado pela parceria.

Relatos de testemunhas dos episódios mostram que as agressões têm contexto político. Em um dos ocorridos mais graves, o mestre de capoeira e compositor Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, foi morto a facada no início do mês. O autor do crime, Paulo Sérgio Ferreira de Santana, confessou o assassinato e alegou discussão política como motivação.

Nem sempre a preferência política dos envolvidos nos ataques fica clara, mas, em uma eleição extremamente polarizada, há casos em que essa predileção sobressai. No assassinato de uma transexual no centro de São Paulo no último dia 16, testemunhas disseram ao jornal Folha de S. Paulo que os agressores teriam gritado o nome do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) antes de esfaquear a vítima. Há também casos de agressão por parte do eleitorado que rejeita Bolsonaro, como um suposto atropelamento envolvendo um professor da Universidade do Recôncavo Baiano (UFRB), que teria investido com o carro contra comerciantes de camisetas do candidato do PSL. Em nota, a instituição disse que o professor se sentiu ameaçado.

Ricardo Gomes ressalta que alguns desses ataques têm como alvo a população LGBT, o que pode afetar diretamente o segmento do turismo brasileiro a médio e longo prazo. “Não importa quem vença essas eleições, o prejuízo já existe. Aqueles que que tinham ódio contra gays, até contra negros e mulheres, mas ficavam quietos porque não era correto expressar esse pensamento, agora ‘saíram do armário’”, observa o presidente da Câmara LGBT. “O Brasil já tem problemas de segurança que afeta a decisão do turista de viajar ou não para cá. Com essa onda de ódio, vai afetar mais ainda. Provavelmente passaremos anos trabalhando para desfazer uma imagem ruim que se estabeleceu nos últimos dias”, acrescenta.

Ele conta ainda que, por ser uma referência, a Câmara de Comércio e Turismo LGBT tem recebido ligações de brasileiros preocupados com a situação do País. “Nos últimos 15 dias atendemos pessoas que pedem dicas de como se proteger ou atendimento psicológico por estarem deprimidos com o caminhar das coisas”, diz. “Nós começamos a indicar serviços que tratam melhor desses assuntos e também damos conselhos, como não entrem em desespero ou não andem sozinhos na rua de madrugada. A violência contra LGBTs sempre existiu, mas nunca nesses índices.”

Turismo LGBT

De acordo com dados da Organização Mundial do Turismo, para cada 10 turistas no mundo, um é do segmento LGBT e cerca de 15% da movimentação financeira turística mundial é gerada por este grupo. Estudos do Conselho Mundial de Viagens e Turismo revelam ainda que o turista LGBT viaja quatro vezes mais do que outros segmentos e têm gasto 30% superior na comparação com turistas convencionais. “Estamos falando, portanto, de mercado, de negócios, de empregabilidade. Nós vamos levar a sério a economia do Brasil ou não?”, ressalta Ricardo Gomes.

O presidente da Câmara LGBT aponta ainda que as belezas do Brasil e as variadas atrações que o País oferece para todos os gostos nos coloca em evidência mundial. O Rio de Janeiro, por exemplo, já figurou em lista de destinos ‘gay-friendly’ pela Lonely Planet, maior editora de guias de viagem do mundo, que já chamou a cidade de “a capital gay da América Latina”.


Bandeira gay é vista na Praia de Ipanema, no Rio (Foto: Jeff Belmonte via Wikimedia Commons)

São Paulo, por sua vez, teve sua Parada do Orgulho Gay registrada no Guinness World Records como a maior do mundo, e é a primeira cidade da América Latina que aparece em uma lista da Nestpick sobre destinos com uma ativa comunidade gay. Segundo a Embratur, outras cidades como Belo Horizonte, Salvador, Florianópolis e Recife também atraem esse público por causa de atrações e políticas públicas voltadas para o segmento.

Visando essa parcela importante do mercado, o Ministério do Turismo e a Embratur firmaram com a Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil um convênio para promover esse nicho dentro e fora do País. As ações desta parceria vão desde divulgar o Brasil como destino ‘gay-friendly’ em convenções internacionais como começar a credenciar cidades como destinos “amigáveis” para o turista LGBT a partir de critérios que estão sendo estabelecidos.

Esse convênio tem duração de cinco anos, mas, segundo o presidente da Câmara LGBT, pode ser cancelado pelo governo que estiver no poder. “É possível cancelar com um aviso de 60 dias de antecedência, mas vamos cobrar explicações sobre os motivos do cancelamento caso isso venha a ocorrer. Pretendemos ser resistentes, de forma pacífica e ordeira, mas é preciso prestar contas para a sociedade quanto a isso”, completa Ricardo.

Em 2016, o Ministério do Turismo lançou ainda uma cartilha, destinada aos serviços que têm contato direto com o viajante em restaurantes, hotéis e serviços da cadeia turística nacional, com orientações no atendimento à pessoa que se identifica como LGBT. O objetivo da iniciativa é evitar casos de preconceito e comportamento inadequado com o turista devido a sua identidade de gênero ou sexualidade.

À reportagem, o instituto diz acreditar que o setor pode ajudar na redução da intolerância. "Isso eleva a importância do trabalho que desenvolvemos, uma vez que o turismo promove o entendimento das diferenças e a inclusão cultural e social. O contato é uma ferramenta importante para quebra de paradigmas e enfraquecimento de preconceitos", pontua em nota.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

TRE libera propaganda com morte de ladrão. 'É a nossa realidade', diz candidata

Reprodução

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) derrubou a liminar que suspendia a veiculação na TV da propaganda eleitoral da candidata a deputada federal por São Paulo Kátia Sastre (PR). O desembargador federal Fábio Prieto de Souza decidiu nesta semana julgar improcedente a representação da coligação formada por PSOL e PCB, que requeria a proibição da peça.

Na propaganda, a policial militar utilizou imagens em que aparece reagindo a um assalto em frente à escola onde foi buscar sua filha, em Suzano, na Grande São Paulo, em maio deste ano. Na ocasião, ela atirou no assaltante, que morreu momentos depois. “Atirei e atiraria de novo”, diz Sastre na inserção.

No início do mês, a liminar havia sido deferida com base no inciso IV do artigo 17 da Resolução nº 23.551/2017, que proíbe a veiculação de propaganda que incite o atentado contra pessoas. Fábio Prieto considerou, no entanto, que as imagens são de legítima defesa da PM. “Atentado contra pessoa não é reação a atentado contra pessoa”, escreveu em sua decisão.

O desembargador também desconsiderou o argumento de que crianças poderiam testemunhar as imagens no horário eleitoral. “É direito-dever dos pais, não do Estado, menos ainda da Justiça Eleitoral, resolver quais cenas de violência - legítima ou ilegítima – devem ser acessíveis aos filhos”, pontuou.

‘É a nossa realidade’, defende a candidata

Em entrevista ao Portal da Band, Kátia Sastre disse que as imagens “não são nenhuma novidade”, já que circularam pela internet e até no noticiário internacional na ocasião do ocorrido. “O que aconteceu ali não incita o crime. Foi um ato de legítima defesa. [As cenas mostram] um malfeitor colocando em risco a vida de crianças e de mães em frente a uma escola. Infelizmente é a nossa realidade.”

Para a candidata, as crianças já são expostas a conteúdo impróprio como, por exemplo, cenas de sexo em novelas. “Cabe aos pais avaliar o que o filho pode assistir ou não. É o que eu faço com as minhas filhas, por exemplo. Inclusive sempre oriento elas de que alguém pode chegar e tentar roubar, fazer algo ruim; elas precisam saber disso, têm que ter ciência”, acrescentou.

Kátia Sastre esperava que a propaganda levantaria uma discussão acalorada. “Sempre há críticas, normalmente daqueles que são de esquerda. Mas eu também contava que ganharíamos essa causa porque os elogios, o apoio e o reconhecimento da população são maiores do que as críticas - que acabam se perdendo, nem dá tempo de prestar atenção nelas.”

A candidata disse ainda que decidiu usar as imagens porque tratam-se da ocorrência que a fez ficar conhecida nacionalmente, e também porque passa a mensagem da principal bandeira de sua candidatura: expor os problemas de segurança pública no País e sugerir que irá enfrentá-los caso seja eleita. “Ninguém aguenta mais essa situação de insegurança em que vivemos. Precisamos agir urgentemente em relação a isso. A impunidade, da forma como vem acontecendo, não dá mais. É um fato que acontece todos os dias, mas não é toda câmera que flagra”, afirmou.

Peça incita a violência como solução de problemas, diz coligação


A coligação Sem Medo de Mudar São Paulo, formada por PSOL e PCB, vai recorrer da decisão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por não concordar com os argumentos expostos pelo desembargador do TRE. “Em dado momento, [o desembargador] coloca a questão da liberdade de expressão; para nós, isso não está acima de nenhum outro direito. Expor, em horário nobre, uma pessoa sendo assassinada brutalmente, independente das circunstâncias, reforça a violência e vai contra preservar a integridade das crianças que estão assistindo ao horário eleitoral, transmitido em rede nacional, em pleno horário nobre”, afirma Juninho, presidente da executiva estadual do PSOL São Paulo e candidato a deputado estadual, à reportagem.

A coligação argumenta ainda que a propaganda mostra reação a um assalto – ação que não é recomendada por alguns especialistas no assunto. “O assaltante, inclusive, atirou de volta, mas a arma falhou. Foi a sorte. Se isso não tivesse acontecido, a policial, as outras mães ou as crianças poderiam ter sido alvejadas.”

Juninho defende que é possível falar dos problemas de segurança pública no País sem a necessidade de exibir imagens chocantes. “Usar uma cena dessa como propaganda eleitoral é incitar a violência como a solução para esses problemas, que são estruturais. Não acreditamos que se combate violência com mais violência. Vários estudos mostram, aliás, que a polícia que mais mata também é a polícia que mais morre”, exemplifica.

Para ele, é preciso pensar no combate à violência mais pela inteligência policial do que pela repressão. “A ideia do ‘punitivismo’ legitimada pela propaganda [de Kátia Sastre] reforça o genocídio da juventude negra, por exemplo; [genocídio] que matou a nossa Marielle Franco, cujo assassinato ainda não foi explicado mesmo após seis meses do crime. Repressão sem inteligência é como jogar gasolina no fogo”, resume.

(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Mãe vende arranjos de flores para ajudar trabalho solidário da filha

Arquivo pessoal

Falar da filha Gabriela enche a jornalista Kety Shapazian de orgulho. Foi por causa dela que Kety viveu uma experiência única e marcante em 2015, quando embarcou para a Grécia, no ápice da crise migratória na Europa, para ajudar refugiados da África e do Oriente Médio, principalmente, que fugiam de guerras, perseguições políticas, fome, entre outros muitos problemas que ainda persistem nessas regiões.

A vivência também a fez abrir um ateliê de flores, onde ela mesma cria e vende arranjos em São Paulo. Parte do lucro é para custear o trabalho voluntário que Gabriela continua realizando na Europa desde a primeira viagem do tipo que fez ao lado da mãe. “Fui com Gabriela para Grécia em 2015 por causa dela. Se fosse por mim, eu teria ficado chorando no Facebook”, conta. “Eu nunca pensei em viajar para outro país e ajudar os outros, mas foi exatamente isso que aconteceu durante 45 dias. Quando tiver 90 anos de idade, ainda vou me lembrar de cada detalhe, cada emoção que vivi durante essa experiência.”

As histórias tristes dos refugiados que Kety conheceu, bem como a alegria que sentiu ao poder ajudá-los, marcaram tanto a jornalista quanto a sua filha, que decidiu continuar fazendo esse trabalho até hoje. “É o que ela faz da vida agora, não é só um projeto de férias escolares. O negócio dela é ajudar os outros, trabalhando em campos de refugiados na Grécia e na Turquia, ajudando no acolhimento, na integração deles e até dando aulas de inglês. É uma experiência ótima para ela também, que aprende muito lá fora. Tenho uma filha de 18 anos globalizada, completamente fora da curva, e isso é algo que me orgulha muito”, acrescenta Kety.

Para custear as viagens que a filha faz a cada 90 dias - tempo de permanência permitido pelo visto -, a jornalista decidiu abrir uma empresa de arranjos de flores, que batizou de Flores para os Refugiados. O negócio começou informalmente em 2016, quando Kety vendia flores nos semáforos da cidade. “Engraçado que eu nunca havia trabalhado com isso antes. Eu fazia alguns arranjos, de forma despretensiosa, em casa mesmo. Fui aprendendo na marra, vendo referências na internet, e decidi profissionalizar”, conta à reportagem.

No ateliê, é possível encontrar todo tipo de arranjo, além de encomendar decoração para festas, casamentos e até contratar entregas mensais. “O universo de arranjos de flor é imenso, dá para fazer um milhão de coisas. E quem compra esse produto, porque gosta ou acha bonito, sabe também que estará apoiando o trabalho que minha filha realiza lá fora.”

Arquivo pessoal

Xenofobia

Ainda que não canse de exaltar o exemplo que sua filha dá ao ajudar os outros, Kety Shapazian reforça que, ao mesmo tempo, estranha o fato de Gabriela virar notícia por esse motivo. “Ela não deveria ser uma exceção. Ajudar quem precisa tinha que ser algo normal, não um diferencial.”

 Gabriela recebendo uma refugiada afegã em Lesbos, na Grécia (Foto: Maciej Moskwa)

Em meio a uma crise migratória também vivida no Brasil, com o fluxo de imigrantes da Venezuela aumentando enquanto o país vizinho passa por dificuldades financeiras e conflitos políticos internos, a jornalista faz um apelo para que as pessoas tenham mais empatia com o outro.
“Temos visto muita xenofobia, muita coisa errada, não só onde minha filha está, mas também nos Estados Unidos e até no Brasil. A gente precisa se colocar no lugar do outro, esse outro sendo refugiado ou não, até porque refugiados são pessoas como a gente, e quando passamos a vê-los dessa forma, muitas barreiras caem”, pontua Kety.

Em algumas situações, essa dificuldade de compreender o outro leva a casos extremos de violência, como o ocorrido na última sexta-feira, 7. Em Roraima, um brasileiro e um venezuelano morreram após um suposto furto na capital Boa Vista.

“Sempre penso que, no futuro, podemos ser nós, brasileiros, passando por uma situação parecida com a que os venezuelanos estão enfrentando agora. Não dá para saber o que vai acontecer daqui a 30 anos, por exemplo. Minha filha sempre fala que se um dia ela precisar de ajuda, ela vai querer alguém do outro lado a recebendo com um prato de comida, um direcionamento, até mesmo um abraço. Isso faz toda a diferença”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

TRE-SP suspende propaganda eleitoral de PM matando assaltante

Reprodução

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) deferiu liminar suspendendo a veiculação na TV da propaganda eleitoral da candidata a deputada federal por São Paulo Kátia Sastre (PR).

Para promover a candidatura, a policial militar usou imagens em que aparece reagindo a um assalto em frente a escola onde foi buscar sua filha, em Suzano, na Grande São Paulo, em maio deste ano. Na ocasião, ela atirou no assaltante, que morreu momentos depois.

As cenas, reproduzidas sem nenhuma censura, incomodaram alguns eleitores que, pelas redes sociais, reclamaram das cenas violentas exibidas em rede nacional duas vezes ao dia: às 13h e às 20h30. Pelo Twitter, um internauta chegou a mencionar que estava com os filhos pequenos assistindo à TV quando foi surpreendido pelas imagens.

No Facebook, onde a própria candidata compartilhou a propaganda em seu perfil, o vídeo foi previamente censurado e só é exibido após o usuário concordar com o alerta de conteúdo sensível.

A propaganda, que também recebeu muitos elogios na internet, foi denunciada ao TRE-SP pela coligação Sem Medo de Mudar São Paulo, composta pelos partidos PSOL e PCB.

O Portal da Band apurou que o tribunal emitiu a liminar na tarde desta quarta-feira, 5, e ainda estabeleceu multa de R$ 5 mil a cada veiculação.

A medida passa a valer logo que a candidata for notificada da decisão. A reportagem entrou em contato com a equipe de Kátia Sastre, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

Irregularidades

A decisão do TRE-SP foi baseada no inciso IV do artigo 17 da resolução 23.551 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que trata de condutas ilícitas em campanha eleitoral nas eleições. O inciso em questão diz que não será tolerada propaganda “de incitamento de atentado contra pessoa ou bens”.

Segundo o advogado especialista em direito eleitoral Cristiano Vilela, não é somente esta irregularidade que a peça apresenta. “Essa propaganda, no meu entender, fere a legislação que estabelece que não se pode provocar incitação à violência (inciso I do artigo 243 do Código Eleitoral) ou imagens que criem estados mentais, emocionais ou passionais (artigo 242 do Código Eleitoral); ao meu ver, cenas de violência e morte, durante o horário eleitoral, provocam esse estado de sensibilização, o que é totalmente irregular”, explica ao Portal da Band.

Vilela acrescenta ainda que a candidata não poderia estar usando a farda da Polícia Militar no programa eleitoral (artigo 40 da lei eleitoral 9504/97) ou qualquer farda confeccionada para parecer como sendo da corporação. “Uma foto ou uma imagem da candidata com uniforme parecido com o da polícia pode gerar confusão no eleitor, o que também é uma irregularidade”, ressalta o especialista.

Foi com base em um entendimento nessa linha que o ministro Sergio Banhos, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ordenou a suspensão de propagandas do PT na televisão, por exemplo. Segundo ele, as peças não explicitavam que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é candidato do partido e causavam dúvidas no eleitor.

Propagandas do tipo podem ser denunciadas por adversários na corrida eleitoral, partidos políticos ou coligações, mas também por cidadãos comuns. “Qualquer um pode acessar o canal de denúncias de propagandas irregulares que a Justiça Eleitoral disponibiliza, ou também denunciar para as procuradorias regionais eleitorais de seu Estado”, lembra Vilela.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Primeira candidata negra ao Senado por São Paulo comenta críticas sobre cabelo alisado

Divulgação

Escolhida pelo MDB, com Marcelo Barbieri, para disputar uma das duas vagas ao Senado Federal pelo Estado de São Paulo, Cidinha Raiz está no início da campanha eleitoral e tem chamado atenção mais pela aparência do que por suas propostas que, segundo ela, envolvem políticas para mulheres e negros.

Ao lado de Paulo Skaf, emedebista candidato ao governo paulista, Cidinha tem viajado pelo Estado e, vez ou outra, escutado comentários sobre seu visual, principalmente a respeito de seu cabelo, que atualmente é curto e alisado. “Não é de agora que ouço esse tipo de coisa, mas como estou mais exposta devido à campanha, essas críticas estão mais frequentes”, conta.

Mulher negra, a primeira a ser candidata ao Senado por São Paulo, Cidinha cita à reportagem o que chamou de “ditadura” para que o negro use os cabelos de forma natural, ou então ao estilo black power. “Me chama atenção o quanto as pessoas se preocupam com esse tipo de coisa e perdem tempo olhando para um cabelo”, diz ela, que também menciona casos de jovens negros que são alvo de bullying nas escolas devido à aparência, ou porque alisam os fios, ou porque os deixam naturais. “Eu acho o cabelo black maravilhoso, mas a questão não é essa, é de como isso mexe com a autoestima do negro”, explica.

A psicóloga de 61 anos, que é pós-graduada em História da África e do negro no Brasil, falou também que já teve vários estilos de cabelo na vida, e que isso não tira sua essência de “mulher negra, pobre e nascida na periferia”. “Se eu pintar meu cabelo de loiro, vou continuar sendo negra. Não é isso que vai definir a minha personalidade. Black ou não, liso ou não, o cabelo é meu. A gente tem que se sentir bem do jeito que é, sem ficar nessa ditadura que nos limita sob o ponto de vista do que os outros acham que é certo ou que é bom.”

Até que sua candidatura fosse lançada, Cidinha Raiz não tinha redes sociais, mas precisou criar perfis em várias plataformas devido à campanha eleitoral, e já se deparou com comentários, inclusive de seguidores, recomendando “um bom cabeleireiro” para ela. “Eu já tenho o meu cabeleireiro, que pode não ser bom para você, mas é bom para mim”, argumenta.

“Não se mede as pessoas pela aparência, mas pela capacidade. Na política, eu serei eu mesma. Não vou para a favela de terno e saltinho, vou como sempre fui: de tênis e calça jeans, porque o cargo não tem que mudar a pessoa, mas precisa ser usado a favor das pessoas.”

Partido político

Além das observações sobre seu visual, a candidata também menciona que já ouviu críticas ao seu partido, o centrista MDB, principalmente por parte de legendas da esquerda. “Os partidos que mais questionam minha sigla estão indicando homens brancos para o Senado, inclusive o próprio PT”, afirmou Cidinha ao citar a maior legenda alinhada a essa ideologia, que está lançando Eduardo Suplicy e Jilmar Tatto para os cargos disponíveis na Casa.

“Nenhum partido, de direita ou de esquerda, indicou uma mulher negra para o Senado; portanto, eles não têm nem o direito de criticar”, pontua a psicóloga. “Mas também acho que agora é o momento de esquecer bandeiras políticas e se unir em torno de causas que, de fato, criem políticas públicas que atendam às demandas do Estado de São Paulo.”

Entre as propostas da candidata está tornar o feminicídio crime hediondo, negociar com empresas privadas o acesso de mulheres vítimas de violência e jovens negros no mercado de trabalho, e fomentar o empreendedorismo do jovem negro pela qualificação na educação por meio de entidades de ensino como Sesi, Senai e Sebrae.

(Karen Lemos - Portal da Band)