quinta-feira, 20 de junho de 2019

“Há muita desinformação”, diz diretora de filme sobre memórias da ditadura

A atriz Jeanne Boudier em cena do filme “Deslembro” (Foto: Divulgação)

Foram as lembranças de uma infância vivida em um momento delicado da história do Brasil que levou a cineasta Flavia Castro a dirigir “Deslembro”, filme nacional produzido por Walter Salles que chega aos cinemas do País nesta quinta-feira, 20.

O filme acompanha a adolescente Joana, filha de uma militante exilada e de um desaparecido político que deixa Paris, na França, para voltar ao Brasil após a Lei da Anistia, que permitiu o retorno de brasileiros que viviam, através de pedidos de asilo político, em outros países durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).

A trajetória lembra um pouco a da diretora, que também cresceu na França depois que o pai foi exilado pelo regime militar. “Durante a montagem do documentário ‘Diário de uma Busca’, onde falo sobre meu pai e minha infância no exílio, senti uma necessidade de ir mais a fundo em um trabalho sobre a memória através da ficção, porque queria contar essa narrativa de uma forma mais lúdica, com uma subjetividade maior”, explica a cineasta em entrevista ao Portal da Band.

Flavia espera que seu filme possa contribuir para discussões sobre esse período da história. Com uma frequência cada vez maior, o assunto vem sido debatido através de um viés negacionista, termo usado para designar fatos que são negados, por mais que as evidências históricas os comprovem.

“Na Alemanha, negar o Holocausto [extermínio de judeus pelos nazistas] é crime. Na Argentina, nem os militares negam os crimes da ditadura. Uma coisa é você ter pontos de vista diferentes, você ser de direita ou você ser de esquerda. Outra coisa é você negar a História”, pontua.

A diretora diz que o filme traz elementos que condizem com a realidade do Brasil naquele período. “Em certo momento [do longa-metragem], a viagem escolar da protagonista não é autorizada porque o pai, um desaparecido político, não tinha atestado de óbito. Isso é real. No Brasil daquele tempo, questões simples da vida cotidiana se transformavam em problemas complicados de se resolver”, acrescenta a cineasta. “Meu sonho é que os jovens assistam ao filme, porque há muita desinformação sobre a ditadura por aí.”

Para além do pano de fundo histórico, “Deslembro” aposta em uma narrativa contada pela perspectiva de uma adolescente. Todos os sentimentos comuns ao ser humano nessa fase da vida acompanham a trajetória de Joana. Dessa forma, há uma tentativa de construir um sentimento de identificação com o espectador. “Tem outras coisas da vida que aparecem no filme. É um filme sobre a ditadura, mas não é só sobre isso”, afirma Flavia.




Construção de personagens

Interpretando Ana, militante política e mãe de Joana, Sara Antunes também levou algumas memórias pessoais para a trama. Assim como a cineasta Flavia Castro, a atriz viu o pai ser exilado na França durante o regime militar. “Quando fui convidada para fazer ‘Deslembro’, eu estava justamente pesquisando material sobre o exílio do meu pai. Parece que esse convite era uma coisa que tinha que acontecer, sabe? Essa história [do filme] é um pouco minha também“, define em conversa com a reportagem.

Sara já havia trabalhado em uma produção com essa temática: “Alma Clandestina”, sobre a guerrilheira Maria Auxiliadora. No longa de Flavia Castro, porém, ela foi desenvolvendo um processo de desconstrução do mito da guerrilheira, tentando deixá-la mais humana. “A Flavia me pediu algo mais familiar, mais materno para viver a Ana. É uma mãe guerrilheira, que pega em armas, acredita na revolução, mas é a mãe que corta o tomate e a cebola do jantar da família. A Ana podia ser a mãe de qualquer um de nós.”

Uma das surpresas do filme, a revelação Jeanne Boudier, intérprete da protagonista Joana, nasceu na França e tem pouco contato com esse passado do Brasil; ainda assim, ela relata ter encontrado pontos de convergência com a personagem. “Eu pensava que eu não tinha nada a ver com esse ambiente”, diz. “Mas, quando comecei a filmar, estava com 16 anos e, assim como toda garota nessa idade, vivia o mesmo turbilhão de emoções que a minha personagem. No fundo somos todos iguais; temos sentimentos, conflitos na família, primeiros namorados. O filme fala disso tudo.”

Os atores Jeanne Boudier, Hugo Abranches e Sara Antunes (Foto: Divulgação)

Completam o elenco Eliane Giardini, que vive a avó de Joana, Jesuíta Barbosa, o pai desaparecido, Hugo Abranches, Arthur Raynaud, Antonio Carrara e Marcio Vito.

Clima de medo

O rebuliço político que o País vive desde 2013, que se intensificou nas eleições presidenciais de 2014 e de 2018, forma um cenário singular para o lançamento de um filme que toca em um assunto que gera discussões acaloradas. O próprio longa-metragem pontua isso em certo momento, com personagens trocando expressões (“cala a boca, fascista” e “vai para Cuba”) que passaram a ser mais usadas.

A torcida da equipe de “Deslembro” é para que o filme contribua para um diálogo saudável, mas tanto a diretora quanto as atrizes citam certo receio com relação à animosidade que tem tomado conta das discussões sobre política no Brasil.

Em conversa com a reportagem, a atriz Sara Antunes repercutiu uma entrevista que Wagner Moura, seu amigo pessoal, concedeu ao australiano Daily Telegraph durante o Festival de Cinema de Sydney. No evento, o ator exibiu “Marighella”, filme sobre o guerrilheiro Carlos Marighella. Para o veículo, Wagner expressou uma preocupação de retornar para o Brasil devido às hostilidades que têm recebido desde quando iniciou as filmagens dessa produção.

“O Wagner se colocou muito de frente nessas questões políticas. Eu entendo completamente o receio dele, porque as pessoas estão tão cegas, tão desinformadas e munidas de ódio. É para se ter medo mesmo”, desabafa Sara.

A diretora Flavia Castro recorda-se ainda de alguns comentários que leu em redes sociais após a exibição de “Deslembro” no Festival de Cinema do Rio. O filme foi exibido antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Na ocasião, a disputa entre os candidatos ao cargo, Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), mexia com a opinião dos brasileiros de forma exponencial.

“Cheguei a ver coisas horríveis, como comentários de pessoas dizendo que as crianças do filme tinham que morrer, ou então que os pais militantes jamais deveriam ter tido filhos”, lembra. “No caso do [filme] ‘Marighella’ é algo ainda mais escandaloso. Para mim, a partir do momento em que um artista não pode se expressar livremente sem ser hostilizado, deixamos de viver em uma democracia”, observa.

A diretora Flavia Castro em frente ao cartaz do filme (Foto: Divulgação)

Esses ataques, no entanto, não são regras, segundo a cineasta. “Deslembro” tem feito uma carreira interessante. Foi exibido, por exemplo, no Festival de Cinema de Veneza, um dos mais prestigiados do mundo, e recebeu prêmios, como o da crítica no Festival de Biarritz e de melhor filme no Festival de Cinema Brasileiro em Paris. “As percepções são variadas. Na Mostra de Cinema de São Paulo, por exemplo, a recepção foi emocionante, quase catártica. Muitos jovens vieram me abraçar, preocupados com o que será do nosso futuro”, completa Flavia, cujo filme é justamente um convite à reflexão de um passado que continua à espreita.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 7 de junho de 2019

“Chernobyl” agrada cientistas, embora dramatize efeitos da radiação em humanos

Foto: Divulgação/HBO

A história de um perigo invisível e de uma nação tão fechada cuja negligência levou a consequências fatais sempre atraiu a atenção pública. Não por acaso uma das séries mais faladas do momento é “Chernobyl”, da HBO, que retrata o acidente nuclear de grandes proporções ocorrido em 1986 na Ucrânia, então república da União Soviética.

As cenas que a série criou parar mostrar a explosão de um dos núcleos da usina - que espalhou altos níveis de radiação pelo ar de Pripyat (hoje uma cidade fantasma) e regiões próximas - e os efeitos do envenenamento radioativo em seres humanos impressionaram a audiência.

Para entender se as imagens são verossímeis ao que realmente aconteceu, o Portal da Band conversou com uma especialista em física médica e descobriu que a série se aproxima da veracidade, mas, como é natural de obras ficcionais, se permite a exageros para efeitos dramáticos.

“Para físicos que estudam essa área, a forma como a série mostra tecnicamente como foi a explosão em Chernobyl é muito boa. Tanto a explosão quanto as consequências; o incêndio, a logística para apagar o fogo, o problema do magma radioativo, enfim, são detalhes que se aproximam do real”, relata Kellen Adriana Curci Daros, chefe da coordenadoria de física médica da Escola Paulista de Medicina e vice-coordenadora do Núcleo de Rádio Proteção da Unifesp.

Já os efeitos biológicos foram dramatizados. Em “Chernobyl”, há personagens - como trabalhadores da usina e os bombeiros que tentam apagar o incêndio sem proteção alguma - que ficam expostos à altíssimas doses de radiação e acabam contaminados, sofrendo o que é chamado de Síndrome Aguda da Radiação, algo como um envenenamento que acaba levando a morte.

A doença, que ocorre quando o corpo absorve uma dose alta de radiação - e isso é medido pela unidade conhecida como Gray (Gy) - destrói o DNA de células importantes e vitais para nosso organismo.

A professora explica que há várias fases dessa síndrome. “Na primeira fase, hematopoiética, as primeiras células a serem afetadas são as do sangue. Isso ocorre quando o corpo humano absorve uma dose de 2 a 6 Gy.”

Em outra fase, chamada gastrointestinal, são as células dos tecidos que formam nossas mucosas que são afetadas. “Na série você vê pessoas vomitando. Isso acontece porque há lesão na mucosa intestinal. A pessoa evacua sangue, vomita sangue, e o fígado não consegue renovar essas células, então fatalmente essa pessoa vai morrer”, explica a especialista.

A última fase é fatal. Conhecida como neurovascular, é nessa etapa que o envenenamento por radiação passa a destruir as células do sistema nervoso central do corpo humano. “Quando a dose de radiação absorvida chega a 10 Gy, os sintomas são convulsão, coma e, em 48 horas, morte.”

As cenas nas quais são mostradas as últimas horas dos personagens de “Chernobyl” que estão contaminados com altas doses de radiação até podem ser críveis com relação à aparência, mas não condiz com a realidade em alguns aspectos, como nos diálogos que foram estabelecidos entre o bombeiro e sua esposa, ou então entre a professora de física nuclear com um dos funcionários da usina.

Veja algumas cenas da série que exemplificam isso. Fique atento para possíveis spoilers, caso você não tenha assistido a esses episódios ainda.





“Uma pessoa nessa fase da síndrome não conseguiria falar. Muito provavelmente ela já estaria em choque, inconsciente, desorientada ou até em coma”, acrescenta. “[Sobre a aparência] vai ter desprendimento da pele, hemorragias, mas talvez não em níveis tão chocantes assim. Há casos de hemorragias internas, por exemplo, mas se houve uma contaminação direta com a pele, obviamente vão aparecer lesões.”

A especialista explica ainda que não é possível afirmar com 100% de certeza que as primeiras vítimas fatais de Chernobyl ficaram daquela forma. “Não há registro de pacientes nesse estado”, conta. “Primeiro porque naquela época eram usados filmes fotográficos, portanto não era tecnicamente possível tirar foto de algo que emana tanta radiação. Segundo que estamos falando da União Soviética, um país muito fechado a ponto de não permitir registros daquilo.”

Além da síndrome, a exposição à doses não seguras de radiação também podem acarretar problemas a médio e longo prazo. É o chamado efeito estocástico. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) trabalha com um limite de 20 mSv (unidade usada para medir o impacto da radiação sobre os seres humanos) ao ano. Ultrapassou isso, haverá efeito a longo prazo, que é o câncer”, pontua a especialista.

Na série “Chernobyl”, o cientista Valery Legasov, interpretado pelo ator Jared Harris, diz que vai morrer dentro de cinco anos, devido ao tempo em que fica vunerável à doses não seguras de radiação enquanto está no local do acidente nuclear, tentando entender o que aconteceu e minimizar os impactos da catástrofe. “Ele provavelmente fez uma conta baseada nesses números que estabelecem um limite seguro. Se o limite é 20 mSv/ano, e em um mês ele recebe, por exemplo, 100 mSv, a probabilidade de ele desenvolver um câncer é cada vez maior.”

Um estudo do Comitê Científico sobre os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR) revelou que cerca de 20 mil casos de câncer de tireoide foram registrados entre 1991 e 2015, em pessoas que viveram na época do acidente de Chernobyl, nas áreas afetadas da antiga União Soviética. Desses casos, o comitê estima que um em cada quatro é atribuível à exposição à radiação nuclear.

registros também de câncer de tireoide em crianças, o que costuma a ser raro, mas o risco aumenta em casos de indivíduos expostos à radiação; isso porque a tireoide é uma glândula com bastante afinidade ao iodo. “Por isso na série eles falam em pílulas de iodo. O que você está ingerindo é um iodo 'bom', que preenche toda a glândula, impedindo que o iodo radioativo penetre ali”, acrescenta Kellen.

Entendendo as doses de radiação

A radiação em doses monitoradas, no entanto, não é nociva; em alguns casos, pode até ser uma aliada. A radiografia (raio X), por exemplo, utiliza essa fonte de energia para o diagnóstico de doenças que precisam ser tratadas. “Em doses muito baixas de radiação, o corpo consegue se regenerar. O benefício de um exame médico, portanto, é bem maior em relação aos riscos”, explica a professora Kellen Adriana Curci Daros.

A legislação brasileira estabelece, através da Portaria nº 453 da Anvisa, o limite de 0,4 miligray (mGy) no exame radiológico de tórax, o que não representa risco para a saúde. A especialista explica ainda que no ano dessa portaria, 1998, os exames ainda eram analógicos. “Hoje em dia tudo é digital. Dá para baixar ainda mais o nível de radiação”, pontua.

Além disso, estamos expostos a o que os cientistas chamam de radiação natural, que vem de muitas fontes, incluindo mais de 60 materiais encontrados no solo, na água e no ar. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) trabalha com uma média de 2,6 mGy de dose de radiação absorvida ao ano.

Para entender melhor a diferença entre essas doses de radiação, o Portal da Band elaborou um gráfico expositivo:


Um acidente como Chernobyl pode ocorrer no Brasil?

No Brasil, temos duas usinas nucleares ativas, conhecidas como Angra 1 e Angra 2, e uma em construção (Angra 3). Todas estão localizadas em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. O sucesso da série “Chernobyl” levantou uma discussão nas redes sociais sobre possíveis riscos de um acidente nuclear no País, hipótese que é afastada pela especialista consultada pela reportagem.

“Chernobyl era uma usina muito antiga, cujo projeto tinha defeitos que a União Soviética ignorou; estamos falando de uma série de fragilidades que Angra não possui”, explica Kellen. “As chances de algo acontecer no Brasil são pequenas. A Comissão Nacional de Energia Nuclear é bastante criteriosa e segue protocolos internacionais rígidos de segurança. Claro que possibilidades sempre existem. Pegue como exemplo [o acidente nuclear] de Fukushima [no Japão]. Os japoneses são muito criteriosos, mas quem ia esperar que um tsunami de grande magnitude pudesse atingir a usina? Isso é uma exceção. A probabilidade real de ocorrência de um acidente assim é mínima.”

Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto - complexo formado pelo conjunto das usinas nucleares Angra 1, Angra 2 e Angra 3 [em construção] (Foto: Wikimedia Commons)

A tragédia em Chernobyl é mais sobre erro humano e negligência governamental do que um evento inesperado, como o que ocorreu em Fukushima. O próprio Mikhail Gorbatchov, presidente da União Soviética na época, admitiu que o acidente nuclear contribuiu para o colapso do país em 1991. Os números oficiais até hoje falam em 31 mortes causadas pela tragédia. As estimativas, porém, contando doenças pós-exposição e contaminação à radiação, vão mais longe: chegam a 90 mil.

Em entrevista ao Metro Internacional, o roteirista e produtor-executivo da série, Craig Mazin, falou da importância de relembrar Chernobyl nos dias de hoje. “Vivemos em uma época em que as pessoas estão voltando a abraçar a ideia corrosiva de que o que se quer ser é mais importante do que a verdade. O sistema soviético estava encharcado com esse culto da narrativa, mas, um dia, a verdade vem à tona.”

Com uma trama tão instigante, não é à toa que a série se tornou a mais bem avaliada pelos usuários do site IMDB, com nota 9,6. “Chernobyl” chega ao final nesta sexta-feira, 7, com a exibição de seu quinto e último episódio.

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Política externa de Bolsonaro pode impactar principais parcerias comerciais

Bolsonaro desembarca na Base Aérea de Andrews, nos Estados Unidos (Foto: Alan Santos/PR)

A visita carregada de simbolismo que o presidente Jair Bolsonaro fez a Israel na semana passada pode trazer mais resultados negativos do que positivos para o Brasil. A análise é de especialistas da área de relações comerciais e exteriores consultados pelo Portal da Band.

A viagem de três dias ao país do Oriente Médio, um “afago” na bancada evangélica que apoiou Bolsonaro nas eleições, colocou em alerta países árabes, que não enxergaram com bons olhos uma possível mudança da Embaixada do Brasil para Jerusalém, a abertura de um escritório de negócios na cidade e a ida de Bolsonaro ao Muro das Lamentações ao lado do premiê israelense Benjamin Netanyahu; isso porquê Jerusalém também é considerada sagrada para o mundo islâmico. O receio é de um possível desgaste na relação dos países árabes com o mercado exportador brasileiro.

“Há riscos de prejuízo nas exportações de carne bovina, de frango e de açúcar, três produtos principais que o Brasil exporta para países árabes do Oriente Médio, além de outras nações muçulmanas como Indonésia e Paquistão. E é um grande mercado esse; um dos mais importantes que temos”, avalia Silmar César Müller, especialista em mercado agrícola e editor-chefe e apresentador no canal Terra Viva.

Em 2018, a compra de produtos brasileiros pelos 22 países que compõem a Liga Árabe somaram US$ 11,5 bilhões em açúcar, carne de frango, minério de ferro, carne bovina e grãos, registrando um superávit em torno de US$ 4 bilhões. O cenário positivo, no entanto, pode estar sofrendo alterações. De 2017 para 2018, houve uma queda de pouco mais de 15% nas exportações para os países árabes.

“A Arábia Saudita, que compra muito frango nosso, já está importando menos do Brasil, em parte porque está com uma política de produzir internamente, mas a política externa brasileira pode piorar esse cenário. Alguns representantes de países árabes já pediram reunião com o Bolsonaro para entender o que está acontecendo. A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira está alertando sobre possíveis efeitos danosos nas importações”, acrescenta Silmar, que chama atenção para o fato de que países da Europa, além da Índia e da Turquia, podem pegar essa fatia de mercado já que também são exportadores de carne. “Esse não é o momento de comprar briga, ainda mais com a crise financeira que estamos vivendo no Brasil.”

Ao contrário do que ocorre com os países árabes, o Brasil registrou déficit, de US$ 847 milhões, com Israel. Também em 2018, Israel exportou US$ 320 milhões ao ano enquanto o Brasil comprou mais de US$ 1,1 bilhão.

Comércio com Israel
Fonte: Ministério da Economia

Mas isso não quer dizer que as relações com o país não sejam importantes. Segundo Lucas Leite, professor de relações exteriores da FAAP, Israel oferece produtos específicos que são de interesse do Brasil, principalmente para área de segurança pública e defesa nacional, como softwares, drones e armas. Durante a visita de Bolsonaro a Israel, discutiu-se acordos de parcerias nessas e outras áreas. O ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, sinalizou interesse na tecnologia de dessalinização da água, por exemplo, que poderia ser utilizada no Nordeste do Brasil.

Lucas Leite lembra, entretanto, que as eleições em Israel, que acontecem nesta terça-feira, 9, podem inviabilizar o que está em vias de ser acordado entre os dois países. “Se o Netanyahu perder as eleições, a gente não tem garantia de nada.”

Ao retornar ao Brasil, Bolsonaro moderou seu discurso e disse que não quer "encrenca" com os países árabes. "Não estamos procurando encrenca com ninguém. Quero é solução", afirmou antes de embarcar para Brasília na última quinta-feira, 4. Em paralelo, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, informou que o presidente pode visitar países árabes ainda neste primeiro semestre do ano.

Estados Unidos

Ainda fazendo uma avaliação sobre a política externa no governo Bolsonaro, Lucas Leite, que é doutor em política externa norte-americana, analisou também a visita do presidente aos Estados Unidos no mês passado.

Na ocasião, o porta-voz da presidência, general Otávio Rêgo Barros, disse que o governo brasileiro apresentou ideias para “fortalecer o comércio” com os EUA, “reconhecendo que aspectos relativos ao antigo comunismo não podem mais imperar".

Após reunião na Casa Branca, porém, os resultados foram mais a favor do presidente Donald Trump do que o contrário. Entre o que foi acordado está a permissão para que o governo norte-americano use a Base de Alcântara, no Maranhão, para lançar satélites, por exemplo; houve a sinalização ainda para que o Brasil seja designado principal aliado dos Estados Unidos fora da aliança militar da Otan e membro da OCDE, conhecido como “grupo dos países ricos”. Para ingressar lá, no entanto, o Brasil precisa abrir mão de tratamento diferenciado a países em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio, processo que já se iniciou. Sobre o assunto, o Itamaraty disse que a iniciativa não implica em “qualquer alteração ou redução da flexibilidade já existente no que respeita a certas regras dos acordos da OMC vigentes”.

O que mais surpreendeu, porém, foi a dispensa de visto para entrar em solo brasileiro aos EUA e mais três países (Austrália, Canadá e Japão) de forma unilateral, ou seja, sem exigir o mesmo em troca. O governo brasileiro se justificou ressaltando a importância dos Estados Unidos, nosso segundo maior parceiro comercial, à frente apenas da China.

dez principais parceiros comerciais
Fonte: Ministério da Economia

O professor Lucas Leite lembra, contudo, que meses atrás, a China estava em plena guerra fiscal e troca de farpas com o governo Trump. A aproximação exacerbada do Brasil com os EUA, portanto, deixou os importadores chineses preocupados, e isso pode ser muito prejudicial para o comércio exterior brasileiro “Ninguém está falando para o Brasil fechar a cara para os Estados Unidos, mas é preciso assumir uma posição pragmática. Tendo a China como seu maior parceiro, você não se aproxima deliberadamente de um país que tem um discurso anti-China. O ponto é ir aos Estados Unidos e negociar interesses, barganhar, e isso não foi o que não aconteceu”, observa. “Não é preciso escolher entre Estados Unidos ou China, é preciso escolher o Brasil, nesse caso.”

O especialista explica ainda que há uma tendência de o Brasil competir com os Estados Unidos em vários mercados. “Os EUA são considerados mais competidores do que parceiros. Já a China precisa de produtos nos quais nós somos especializados”. Dados do Ministério da Economia mostram que a China comprou mais de US$ 64 bilhões de produtos brasileiros em 2018, sendo os principais produtos a soja, o petróleo e o minério de ferro.

Produtos comprados pela China
Fonte: Ministério da Economia

Para o professor de relações exteriores, a política externa ideal é a de aproximação com todos os países possíveis. “Quanto mais diversificado nós somos, melhor. Isso transmite a ideia do que estamos construindo desde o começo do século passado, de que o Brasil é um país que não quer conflitos e que não assume lados, até porque, quando você assume um lado, inevitavelmente você perde parceiros comerciais”, completa Leite.

Endossando essa opinião, Silmar César Müller ressalta que não é preciso estragar várias relações para manter algumas. “Levou muito tempo para o Brasil chegar onde está hoje, exportando para mais de 190 países, principalmente carnes, que é um setor forte e que gera muitos empregos”, afirma. “O governo tem coisas boas, a economia está em boas mãos (com o ministro Paulo Guedes) e a Justiça também (com o ministro Sérgio Moro), embora as propostas não estejam andando porque o governo não consegue articular, mas a política externa precisa ser repensada”, conclui.

Posicionamento do Itamaraty

A pedido do Portal da Band, o Ministério das Relações Exteriores enviou um posicionamento listando os benefícios das visitas do presidente Jair Bolsonaro para os Estados Unidos e para Israel. Segundo a Pasta, “a promoção dos interesses no exterior passa pela cooperação com países com os quais compartilhamos valores, interesses e objetivos e que possam nos ajudar a garantir a segurança e a prosperidade da nação”.

“Com os EUA, temos uma relação tradicional, mas que não estava sendo aproveitada em todo o seu potencial por temores infundados em relação às diferenças de poder entre os dois países. Ao nos liberarmos do antiamericanismo, criamos as condições para aprofundar o relacionamento bilateral com base no princípio de ganhos mútuos”, diz o Itamaraty em nota. “O relacionamento entre os dois países tem grande potencial de atender, entre outros, a objetivos de desenvolvimento econômico-comercial, energético e de segurança do Brasil - conforme ilustrado pelo apoio dos EUA ao ingresso brasileiro na OCDE, pela reativação de mecanismos de diálogo empresarial e comercial, pela conclusão das negociações de Acordo de Salvaguardas Tecnológicas e pelo lançamento do Fórum de Energia.”

A pasta negou qualquer problema nas relações internacionais e parcerias comerciais com a China. “A reaproximação com os Estados Unidos não se dará em detrimento de nossa importante relação com a China. O Brasil tenciona manter de forma consistente o bom diálogo com o lado chinês, com vistas, sobretudo, a aprofundar e diversificar os laços econômico-comerciais, trazendo ainda mais benefícios para a economia brasileira e abrangendo novas áreas de interesse para o Brasil.”

Sobre Israel, o Ministério das Relações Exteriores destacou declarações do chanceler Ernesto Araújo durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado na última quinta-feira. Na ocasião, o ministro afirmou que “a ideia de que a política externa causa prejuízo ao agronegócio não se materializou de forma nenhuma”. “Tenho certeza de que não se materializará”, pontuou. Araújo acrescentou que, em seu pouco tempo de atuação no cargo, já se encontrou com ministros de países como Arábia Saudita e Emirados Árabes e nenhum deles se mostrou ofendido com as ações do governo brasileiro. Por fim, disse que tem discutido com representantes de países árabes ideias para melhorar as relações comerciais, inclusive em benefício do agronegócio brasileiro.

(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 26 de março de 2019

Para especialistas, preocupação ideológica desvia foco de problemas na educação

Fachada do Ministério da Educação na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

Na quarta-feira, 20, o Ministério da Educação (MEC) deu seu primeiro passo para interceder na educação do País ao criar uma comissão para avaliar as questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019. A Pasta informou que o objetivo é "identificar abordagens controversas com teor ofensivo a segmentos e grupos sociais, símbolos, tradições e costumes nacionais”, mas não deu detalhes sobre os critérios que serão usados para essa análise.

A criação da comissão parte de um compromisso manifestado pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, em sua posse. Na ocasião, Vélez disse que como líder da Pasta pretende acabar com o “marxismo cultural” e com a “ideologia de gênero” nas escolas brasileiras que, segundo ele, “fazem mal à saúde”.

Ambas as teorias também são encontradas em falas de outros ministros do governo e nas declarações do próprio presidente Jair Bolsonaro. O conceito de “marxismo cultural” seria uma suposta “interferência” da esquerda em áreas influentes como na imprensa, nas escolas e até no mundo do entretenimento. Já a “ideologia de gênero” é um termo pejorativo para criticar a ideia de que os gêneros são moldados pela estrutural social na qual estão inseridos.

Especialistas da área de educação, entretanto, dizem desconhecer tais interferências ideológicas dentro das escolas do Brasil e ressaltam que há problemas mais urgentes na área, que deveriam estar no cerne de preocupação do MEC.

“O Brasil avançou nos últimos anos com uma política importante que foi a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Esse documento garante e estabelece as aprendizagens e competências que precisamos desenvolver nos alunos durante o período escolar. Ali não tem nenhuma questão ideológica e de ideologização dos alunos”, explica ao Portal da Band Gabriel Corrêa, gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, ONG composta por diversos setores da sociedade com o objetivo de assegurar o direito à educação básica no País.

“Eu acho que o necessário é focar na questão da aprendizagem, olhar para a formação de professores e melhorar os materiais didáticos para que o conteúdo da BNCC possa, de fato, chegar às escolas”, acrescenta. “O caminho não é mirar em temas que não há pesquisas que apontem qualquer melhora na qualidade e condição do ensino.”

Para Gabriel Corrêa, essa “preocupação ideológica” do MEC desvia o foco dos reais problemas da educação no Brasil. “Nosso País tem um grande problema de aprendizagem, e qualquer discussão que não seja a de melhorar a qualidade do ensino acaba desviando o foco do que é realmente importante. Por isso, é preciso que o governo apresente logo o diagnóstico sobre educação básica e apresente o que é realmente uma prioridade para a educação.”

O Portal da Band entrou em contato com o Ministério da Educação para comentar o assunto e aguarda o posicionamento da Pasta.

Mudanças são burocráticas e precisam ser bem pensadas

O caminho para melhorar a educação é complexo. Todo conteúdo programático está em legislação e portarias. Mudanças nesse sentido são burocráticas, têm um custo, precisam de apoio do Congresso e, por isso, devem ser bem pensadas, na opinião dos especialistas.

“O governo atual pode interferir [no ensino] através de campanhas educacionais ou mudanças da base curricular, por exemplo, mas tudo isso envolve dinheiro e, portanto, precisa passar pelo Congresso”, observa Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita, especialista em direito digital educacional e sócia de SLM Advogados. “O Executivo não fará isso sozinho. O Estado brasileiro é dividido em três Poderes. Quando [o ex-presidente] Michel Temer propôs a reforma do Ensino Médio [em 2017], ele precisou do Congresso.”

Siqueira lembra ainda que a Pasta é uma das que mais recebem verba do governo (R$ 116,76 bilhões, segundo o Portal da Transparência) e, do ponto de vista político, é tida como estratégica. “Como proteção, há um teto de gastos, chamado Plano Plurianual (PPA), para que não ocorra despesas exacerbadas”, explica à reportagem. “Qualquer alteração que precise de verba, não é tão simples de acontecer, então precisa ser bem planejado.”

A especialista ressalta que o conteúdo programático, estabelecido nas bases curriculares, precisa ser seguido pelas escolas brasileiras; por isso, na visão dos especialistas, todo o cuidado é pouco com esse material.

A abordagem pedagógica fica a cargo dos professores, mas há ferramentas de fiscalização, das próprias escolas (políticas de compliance escolar, por exemplo) para avaliar o trabalho do corpo docente; ainda assim, ela diz desconhecer denúncias de ”teor ideológico” que o MEC vem citando nos últimos meses.

“O educador inteligente não está preocupado com ‘doutrinação marxista’, ele está preocupado com sua estrutura de trabalho. Tem merenda, tem uniforme, tem material para os alunos? Tem papel higiênico, tem impressora, tem salário para pagar o professor? O educador está focado em coisas que ele efetivamente precisa para ensinar, e isso é independente de pensamento filosófico.”

Ana Paula Siqueira ressalta ainda que, diante dessas e outras dificuldades que as escolas do Brasil enfrentam, há diretrizes que mal são seguidas pelas instituições de ensino justamente porque muitas delas ainda estão lutando pelo básico. “Cito como exemplo as diretrizes que obrigam escolas a combater o bullying. Desde o ano passado, as instituições de ensino precisam levar esse debate para as salas de aula e isso não acontece”.

Polêmicas e exonerações

Desde o início do governo Bolsonaro, o MEC esteve envolvido em diversas polêmicas protagonizadas por membros, novos nomeados e até pelo ministro Vélez Rodríguez.

Atual ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez
Retrato do atual ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez (Foto: Marcello Casal Jr/Agencia Brasil)

No dia seguinte à posse, um edital publicado alterou o Programa Nacional do Livro Didático, para permitir publicidade em obras didáticas e flexibilizar os erros e revisões bibliográficas. A decisão repercutiu de forma negativa entre profissionais da área e o órgão recuou.

Em fevereiro, Vélez distribuiu uma mensagem oficial pelas redes de ensino do País orientando diretores a lerem uma carta do governo com o slogan oficial, pedindo para que os educadores filmassem os alunos durante a execução do hino nacional. O posicionamento do MEC também tomou os noticiários e se tornou alvo de discussão por entidades e profissionais no País inteiro. O ministro, então, decidiu “reconhecer o equívoco” e voltou atrás na decisão.

Outra polêmica, que desencadeou em exonerações no Ministério da Educação, envolveu o escritor Olavo de Carvalho, que tem forte ligação com o presidente Jair Bolsonaro. Chefes de gabinete, secretários e assessores especiais orientados por Carvalho acabaram perdendo cargos na Pasta após uma rixa interna.

Um dos demitidos foi o diretor de programa da Secretaria Executiva do MEC, coronel-aviador da reserva Ricardo Wagner Roquetti. O assessor especial Silvio Grimaldo também foi exonerado. Nas redes sociais, Grimaldo afirmou que as demissões se deram porque o grupo de olavistas “incomodava” o ministro Rodriguéz por cobrar um alinhamento mais forte com os pensamentos do escritor.

No último sábado, 23, uma ordem do Palácio do Planalto vetou o ministro de nomear novos profissionais dentro do MEC, o que foi entendido como um sinal de desgaste para a imagem de Vélez Rodríguez.

(Karen Lemos e Bruno Costa - Portal da Band)

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Para diretor e elenco, Central do Brasil ainda é atual

Vinicius de Oliveira, Fernanda Montenegro e Walter Salles na exibição de cópia restaurada de 'Central do Brasil' (Foto: Natali Hernandes/agenciafoto.com.br)

A história de uma ex-professora que atravessa o Brasil atrás do pai do menino Josué completou 20 anos sem envelhecer. É tão atual que a intérprete de Dora, a aposentada que escreve cartas para analfabetos no centro do Rio, sugeriu relançá-la. “Esse filme deveria ser lançado de novo. Digo isso por causa da época que estamos passando agora”, disse Fernanda Montenegro, sob muitos aplausos, na exibição da cópia restaurada de Central do Brasil, nesta terça-feira, 30, na capital paulista, durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

“A obra fala de um menino em busca do pai, mas que na verdade também está em busca de um país. E nós estamos em busca de um país novamente”, acrescentou a atriz, referindo-se, mas sem citar nomes, ao momento politicamente conturbado que se agravou com as eleições deste ano.

Central do Brasil chegou aos cinemas em 1998, mas as primeiras ideias para o longa surgiram na mente do diretor Walter Salles em outro período delicado. “O filme foi pensando durante os anos negros do governo [Fernando] Collor e momentos após a ditadura militar. A trajetória [da protagonista] Dora é de ressensibilização depois daquela época tão traumática”, definiu o cineasta.

Comentando a onda conservadora que atingiu o país – e que junto dela vieram ataques à classe artística, Walter Salles pediu união. “Agora é hora de se reagrupar, estarmos juntos, pensar e criar novamente”, pontuou o diretor do longa vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim e indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, além de também render uma indicação a Fernanda Montenegro como melhor atriz na principal premiação da indústria.

Cena do filme 'Central do Brasil' (Foto: Divulgação)

O ator Vinícius de Oliveira, intérprete do menino Josué, lembra ainda que o cinema brasileiro já enfrentou percalços, como a censura nos tempos de ditadura militar e o financiamento escasso. “O nosso cinema não está em um caminho sólido, e esse momento que estamos passando, no qual a cultura e os artistas estão ‘apanhando’, pode ser devastador. Sempre houve resistência por parte daqueles que trabalham nesse ramo, e em muitas ocasiões o próprio público abraçou mais a produção nacional. Ainda assim, podemos estar diante de novos tempos difíceis”, lamentou em conversa com o Portal da Band.

Duas experiências profissionais, no entanto, trouxeram uma outra perspectiva, essa mais positiva, para Vinícius. O ator esteve no Nordeste do País na década de 1990 para filmar Central do Brasil, e retornou em 2014 para a região, onde rodou Boi Neon, de Gabriel Mascaro. “Encontrei um Nordeste muito diferente, mais moderno, mais possível, com pessoas distintas. Em algum momento a gente melhorou, só espero que não haja retrocessos.”

A restauração de Central do Brasil, feita pelo laboratório francês Éclair, ressaltou os tons do sertão nordestino captados pela fotografia de Walter Carvalho e a trilha sonora marcante assinada por Jaques Morelenbaum e Antônio Pinto. O grande poder do filme, entretanto, está em emocionar um público diverso. A história de Dora e Josué toca até mesmo quem não conhece a realidade dura da maioria dos brasileiros. É difícil segurar as lágrimas diante da construção de uma amizade tão improvável dos dois e, principalmente, do reencontro da professora aposentada com a sua própria compaixão, há muito tempo perdida.



Além das atuações de Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, o filme também traz um dos trabalhos de Marília Pêra, morta em 2015. Foi para a colega de cena que Fernanda dedicou a sessão. “Não lembro dela para entristecer, embora ela faça mesmo muita falta, mas porque essa noite é dela. Talvez pela sua ausência, essa noite é totalmente dela”, concluiu a atriz.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Agressões em período eleitoral afetam turismo LGBT

Paulo Pinto/Fotos Públicas

Não são só os brasileiros que estão preocupados com a recente onda de agressões que se intensificou com o período eleitoral no País. Ciente dos incidentes que repercutem na mídia internacional, turistas de um nicho bastante lucrativo já estão adiando viagens com receio do clima de animosidade no Brasil. A informação é da Câmara de Comércio e Turismo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) do Brasil, voltada para um segmento cujo público-alvo gasta em média, segundo dados mundiais, 30% a mais do que o turista convencional.

“Independentemente de quem vencer as eleições, já se estabeleceu uma imagem ruim para o País. Quem viaja para cá tem essa preocupação adicional em mente, porque esse turista está se informando sobre os ataques pela imprensa internacional. Nós voltamos a virar notícia de uma forma negativa e isso vai impactar no mercado. De agora em diante, nosso trabalho será ainda maior no sentido de amenizar isso e tentar avançar em melhorias para o setor”, explica Ricardo Gomes, presidente da Câmara LGBT, ao Portal da Band.

Ainda sem saber qual será o real impacto no turismo brasileiro, Ricardo conta que soube de turistas que estão adiando viagens ao Brasil por conta de uma série de agressões registradas no País. Um levantamento feito pela Agência Pública e Open Knowledge Brasil registrou mais de 50 ataques durante o período eleitoral. Os casos são publicados diariamente no mapa Vítimas da Intolerância, criado pela parceria.

Relatos de testemunhas dos episódios mostram que as agressões têm contexto político. Em um dos ocorridos mais graves, o mestre de capoeira e compositor Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, foi morto a facada no início do mês. O autor do crime, Paulo Sérgio Ferreira de Santana, confessou o assassinato e alegou discussão política como motivação.

Nem sempre a preferência política dos envolvidos nos ataques fica clara, mas, em uma eleição extremamente polarizada, há casos em que essa predileção sobressai. No assassinato de uma transexual no centro de São Paulo no último dia 16, testemunhas disseram ao jornal Folha de S. Paulo que os agressores teriam gritado o nome do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) antes de esfaquear a vítima. Há também casos de agressão por parte do eleitorado que rejeita Bolsonaro, como um suposto atropelamento envolvendo um professor da Universidade do Recôncavo Baiano (UFRB), que teria investido com o carro contra comerciantes de camisetas do candidato do PSL. Em nota, a instituição disse que o professor se sentiu ameaçado.

Ricardo Gomes ressalta que alguns desses ataques têm como alvo a população LGBT, o que pode afetar diretamente o segmento do turismo brasileiro a médio e longo prazo. “Não importa quem vença essas eleições, o prejuízo já existe. Aqueles que que tinham ódio contra gays, até contra negros e mulheres, mas ficavam quietos porque não era correto expressar esse pensamento, agora ‘saíram do armário’”, observa o presidente da Câmara LGBT. “O Brasil já tem problemas de segurança que afeta a decisão do turista de viajar ou não para cá. Com essa onda de ódio, vai afetar mais ainda. Provavelmente passaremos anos trabalhando para desfazer uma imagem ruim que se estabeleceu nos últimos dias”, acrescenta.

Ele conta ainda que, por ser uma referência, a Câmara de Comércio e Turismo LGBT tem recebido ligações de brasileiros preocupados com a situação do País. “Nos últimos 15 dias atendemos pessoas que pedem dicas de como se proteger ou atendimento psicológico por estarem deprimidos com o caminhar das coisas”, diz. “Nós começamos a indicar serviços que tratam melhor desses assuntos e também damos conselhos, como não entrem em desespero ou não andem sozinhos na rua de madrugada. A violência contra LGBTs sempre existiu, mas nunca nesses índices.”

Turismo LGBT

De acordo com dados da Organização Mundial do Turismo, para cada 10 turistas no mundo, um é do segmento LGBT e cerca de 15% da movimentação financeira turística mundial é gerada por este grupo. Estudos do Conselho Mundial de Viagens e Turismo revelam ainda que o turista LGBT viaja quatro vezes mais do que outros segmentos e têm gasto 30% superior na comparação com turistas convencionais. “Estamos falando, portanto, de mercado, de negócios, de empregabilidade. Nós vamos levar a sério a economia do Brasil ou não?”, ressalta Ricardo Gomes.

O presidente da Câmara LGBT aponta ainda que as belezas do Brasil e as variadas atrações que o País oferece para todos os gostos nos coloca em evidência mundial. O Rio de Janeiro, por exemplo, já figurou em lista de destinos ‘gay-friendly’ pela Lonely Planet, maior editora de guias de viagem do mundo, que já chamou a cidade de “a capital gay da América Latina”.


Bandeira gay é vista na Praia de Ipanema, no Rio (Foto: Jeff Belmonte via Wikimedia Commons)

São Paulo, por sua vez, teve sua Parada do Orgulho Gay registrada no Guinness World Records como a maior do mundo, e é a primeira cidade da América Latina que aparece em uma lista da Nestpick sobre destinos com uma ativa comunidade gay. Segundo a Embratur, outras cidades como Belo Horizonte, Salvador, Florianópolis e Recife também atraem esse público por causa de atrações e políticas públicas voltadas para o segmento.

Visando essa parcela importante do mercado, o Ministério do Turismo e a Embratur firmaram com a Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil um convênio para promover esse nicho dentro e fora do País. As ações desta parceria vão desde divulgar o Brasil como destino ‘gay-friendly’ em convenções internacionais como começar a credenciar cidades como destinos “amigáveis” para o turista LGBT a partir de critérios que estão sendo estabelecidos.

Esse convênio tem duração de cinco anos, mas, segundo o presidente da Câmara LGBT, pode ser cancelado pelo governo que estiver no poder. “É possível cancelar com um aviso de 60 dias de antecedência, mas vamos cobrar explicações sobre os motivos do cancelamento caso isso venha a ocorrer. Pretendemos ser resistentes, de forma pacífica e ordeira, mas é preciso prestar contas para a sociedade quanto a isso”, completa Ricardo.

Em 2016, o Ministério do Turismo lançou ainda uma cartilha, destinada aos serviços que têm contato direto com o viajante em restaurantes, hotéis e serviços da cadeia turística nacional, com orientações no atendimento à pessoa que se identifica como LGBT. O objetivo da iniciativa é evitar casos de preconceito e comportamento inadequado com o turista devido a sua identidade de gênero ou sexualidade.

À reportagem, o instituto diz acreditar que o setor pode ajudar na redução da intolerância. "Isso eleva a importância do trabalho que desenvolvemos, uma vez que o turismo promove o entendimento das diferenças e a inclusão cultural e social. O contato é uma ferramenta importante para quebra de paradigmas e enfraquecimento de preconceitos", pontua em nota.

(Karen Lemos - Portal da Band)