segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Um retrato dos refugiados do Brasil


O drama dos refugiados vem, cada dia mais, comovendo o mundo. Não é por menos. No maior fluxo migratório desde a Segunda Guerra Mundial não faltam histórias impactantes e acontecimentos lamentáveis, como a morte do menino sírio Aylan Kurdi em uma praia turca.

Nesta semana, a presidente Dilma Rousseff discursou em assembleia na ONU cobrando de todos os países mais ação para amenizar essa crise. O Brasil é uma das nações que mais acolhe refugiados em seu território. Segundo dados divulgados mês passado pelo Ministério da Justiça, em 2014, o país possuía 8,4 mil refugiados.

“O Brasil tem se destacado na forma como recebe os refugiados”, avalia Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC São Paulo. Através do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), o Ministério da Justiça concede vistos especiais, facilitando a vinda. “Por outro lado, ainda falta preparo do governo para melhor recepcioná-los, como alguém que os receba no aeroporto, um tradutor, indicações de lugares onde possam ficar. Quem está fazendo esse papel é a própria sociedade através de iniciativas e ONGs.”

Três refugiados, com trajetórias bem diferentes, ressaltam a importância de receber pessoas que, por uma questão de sobrevivência, precisam deixar seus países e o quanto podemos aprender e engradecer com eles.



Guylain Mukendi está há quase dois anos no Brasil. Formado em contabilidade, ele é refugiado da República Democrática do Congo, onde atuava como professor de direito fiscal e finanças públicas.

Em quase 20 anos de uma violenta guerra civil, seis milhões de pessoas já morreram no Congo. O conflito é considerado o maior e mais sangrento desde a Segunda Guerra Mundial. Nesse cenário desolador, doenças, como malária e cólera, além de chacinas, estupros e sequestros de crianças são frequentes.

Era essa a realidade que Guylain conhecia. Tudo piorou ainda mais quando, em 2012, um tio de sua família foi assassinado. Intrigado com a execução, ele decidiu investigar o que aconteceu. “Por causa disso eu fui denunciado e preso pelo serviço secreto do Congo”, contou. Liberto do encarceramento, o medo não diminuiu. Em 2013, a escola na qual trabalhava foi invadida e alvejada por militares. “Graças a Deus consegui sair ileso. Depois disso, não tinha mais como ficar no país.”

Sua família precisou pagar US$ 10 mil para sua fuga. Apesar da dor de deixar seus familiares, uma sensação de alívio o invadiu logo que pisou em solo brasileiro. “Fiquei relaxado por ter conseguido salvar a minha vida e sair de uma situação difícil onde, a cada hora que passava, uma coisa ruim acontecia”, relatou.

No Congo, o pai de Guylain ainda tenta fugir. “Por causa de mim, ele perdeu o emprego dele e os militares confiscaram o seu passaporte para que ele não pudesse mais viajar. Ele está tentando tirar outro passaporte porque a vontade é de sair de lá. Está muito difícil para ele”, lamentou. 

Enquanto tenta se adaptar a nova vida em São Paulo, Guylain está dando aulas de francês com foco na cultura africana através do projeto Abraço Cultural, que emprega solicitantes de refúgio no Brasil dentro dessa proposta.

Na capital paulista, ele se casou com uma compatriota e, juntos, tiveram o primeiro filho: um brasileiro. “O maior presente que o Brasil me deu foi o nascimento do Craig-André. O sentimento agora é de liberdade”, celebrou.



Desde 2013 no Brasil, o refugiado sírio Talal Al-tinawi tinha uma vida confortável em seu país. Trabalhava como engenheiro mecânico e tinha recursos para sustentar sua esposa, Ghazal, e seus filhos Riad e Yara. Com a chegada da guerra civil na Síria, que dura quatro anos e já deixou mais de 300 mil mortos, Talal precisou pedir refúgio, principalmente porque, devido ao fato de possuir o nome idêntico a uma pessoa que tinha problemas com o governo, foi preso injustamente.

“Fiquei três meses e meio na prisão. Foi muito ruim, muito difícil não só para mim, mas para minha família também. Eles ficaram sem notícias por um tempo, só depois de três meses consegui fazer contato com a minha esposa”, recordou.

Quando deixou o presídio, Talal se refugiou com a família no Líbano, onde a situação também é delicada. Lá, ao menos, conseguiram se planejar e procurar um país seguro para ir. “Comecei a procurar pelas embaixadas de países que pudessem nos receber”, contou. “Tentamos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Europa. Todos pedem tantos documentos que o pedido de refúgio se torna impossível.”

Naquela mesma época, o Conare autorizou a concessão de visto brasileiro para refugiados sírios que tentavam escapar da guerra. Recentemente, o órgão prorrogou essa autorização, em virtude do agravo do conflito - intensificado também pelo avanço do Estado Islâmico na região.

“Eu gosto do Brasil, quero ficar aqui”, ressalta Talal que, para se manter no país, começou a cozinhar os pratos típicos da Síria. A ideia partiu de voluntários do Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado), que o ajudaram desde o início. “Descobri que os brasileiros gostam de comida árabe e gostam de novidades, então sempre tento fazer receitas novas.”

O sonho do refugiado agora é abrir um restaurante em São Paulo, onde mora, para ampliar o negócio que, por enquanto, é feito por encomendas através da sua página do Facebook. Para alcançar essa nova etapa, ele criou uma “vaquinha” online que, na semana passada, atingiu a meta de R$ 60 mil. 

Na casa de Talal, a família toda ajuda no preparo das comidas por encomenda e também no cuidado do mais novo membro do clã: a pequena Sara, brasileira da prole e símbolo da esperança de quem precisou deixar tudo que tinha para salvar a própria vida.



Naturalizada brasileira desde 1972, a escritora Ludmila Saharovsky nasceu no campo de refugiados Lager Parsh, em Salzburg, na Áustria. Seus pais eram russos e fugiram da Segunda Guerra Mundial. Em 1948, chegaram ao Brasil como imigrantes, já que o Estatuto dos Refugiados de 1951 ainda não estava em vigor no país.

Ludmila tem poucas lembranças daquela época porque era apenas uma criança. O que ela não esquece, no entanto, é a amargura que todo refugiado sente ao deixar seu país de origem, muitas vezes imerso na guerra. “Não me lembro de um momento de felicidade real, claro que tinha brincadeiras e risadas, mas aquela tristeza pela separação da família foi uma coisa que ficou muito marcada na minha vida”, lembra.

No Brasil, ela e sua família desembarcaram como apátridas, ou seja, sem uma pátria definida. “Isso aconteceu porque meus pais tiveram que destruir os documentos deles para não serem repatriados, pois corriam o risco de serem fuzilados na Rússia”, conta. Sem ser considerada russa e nem austríaca, demorou 20 anos para que Ludmila provasse que existia não só fisicamente, mas também legalmente. “Quando isso ocorreu, eu já era casada e tinha quatro filhos brasileiros.”

Quando seus avôs ainda eram vivos, a jovem Ludmila prometeu um dia voltar à Rússia para tentar descobrir o que aconteceu com os familiares que lá ficaram e, posteriormente, escrever um livro sobre a história de seus entes. A promessa resultou no livro “Tempo Submerso”, um relato de sua viagem para o arquipélago de Solovitskie Ostrova. Lá, [Josef] Stalin, líder da União Soviética de 1922 até 1953, construiu o primeiro Gulag, como eram chamados os campos de concentração de presos políticos e pessoas que se opunham ao regime comunista. Pelo avô, Ludmila soube que parte de sua família foi enviada para lá.

“Ao chegar lá, comecei a entrevistar algumas pessoas que, assim como eu, também foram buscar seus mortos. Como resultado, enchi um caderno com vários depoimentos desses. No fim, eu que tinha viajado em busca de oito mortos, encontrei 350 mil identificados e aceitos pelo governo russo”, afirma.

Para Saharovsky, o que realmente aconteceu na União Soviética permanecerá um mistério. “Os russos carregam uma culpa muito grande por terem assassinados seus próprios compatriotas”, explica. A escritora, porém, espera que um dia a verdade venha à tona; não só sobre o seu passado, mas sobre as atrocidades pelas quais passaram todos os refugiados na expectativa de que, um dia, o mundo, finalmente, aprenda com os seus erros e não os repita nunca mais.

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Documentário acompanha a realidade das mulheres de presidiários

Divulgação

Toda semana, de forma antagônica, dezenas e por vezes até centenas de mulheres formam fila em frente de penitenciárias; madrugam, carregam quilos de alimentos, produtos de higiene e até vestuário e, em muitas unidades, enfrentam uma revista vexatória apenas para ficarem algumas horas na companhia de quem amam.

Por conta desse esforço, elas recebem o nome de guerreiras. Assim são chamadas as namoradas, noivas e esposas de detentos do sistema penitenciário brasileiro. A realidade desse amor separado pelas grades é retratado de forma sensível no documentário “Cativas – Presas pelo Coração”, em cartaz no Caixa Belas Artes, de São Paulo.

Em conversa com o Portal da Band, a diretora Joana Nin, que passou 12 anos em cima desse projeto, explicou que queria mostrar a importância dessas mulheres para a recuperação do preso. “Elas são vistas com muito preconceito. Muitos acham que elas estão lá para levar drogas ou celular para dentro do presídio. Eu já vejo diferente. Eu acho que elas estão lá para levar afeto, amor, que é o sentimento transformador da humanidade.”

“Cativas” acompanha sete mulheres que se relacionam com presidiários. As histórias são diferentes, mas os sentimentos tão comuns dos casais apaixonados estão lá. “Essas relações amorosas são iguais as nossas. Tem os mesmos problemas e belezas. Todo mundo quer ser amado, não importa onde e em quais condições”, completa Joana.

Revistas e visitas íntimas 

Ao longo dos 12 anos, a cineasta conseguiu a confiança do sistema, das mulheres e dos presos. Isso lhe permitiu ser mais ousada e ir além do pouco que enxergamos por trás das grades. Em uma das cenas, por exemplo, Joana filma momentos de intimidade de um casal durante a visita íntima.

“Eu já estava tão imersa na intimidade desse casal que propus fazer a cena”, conta. “Algumas dessas mulheres reclamam que muitos pensam que elas são putas, que vão ao presídio apenas para dar para o cara e não é isso! A cena não é de sexo explícito, é de romance.”

Em outra sequência, Joana consegue acompanhar a revista das mulheres que chegam para a visita. Em agosto de 2014, o Conselho Nacional de Política Criminal Penitenciária editou uma resolução que recomenda a extinção da revista vexatória em todo o país. Ainda assim, elas continuam existindo, cada uma de forma diversa, já que cada unidade prisional tem as suas próprias regras.

No presídio em que Joana filmou, as mulheres precisavam, além de ficar totalmente nuas, agachar em cima de um espelho sob os olhares das agentes penitenciárias. “Coloquei essa cena porque eu acho que isso que tem que acabar”, afirmou a cineasta.

Como cada unidade segue suas próprias leis, cabe a quem participa do sistema denunciá-lo. Esse é outro ponto que destaca a função das guerreiras. “Poucas vezes vi pessoas querendo mudar algo lá dentro. Só quem tem família quer essa mudança”, afirma Joana.



Sobre o estigma que o preso carrega por toda a vida e as dificuldades da ressocialização, a cineasta é enfática: “Não sou ingênua de achar que o preso que tem família vai sair do crime, mas tenho a convicção de que o preso que não tem ninguém por quem zelar, certamente vai voltar para o crime.”

Joana acredita que valorizando as guerreiras, a porcentagem de reincidência da população carcerária pode cair. “Vivemos em uma sociedade hipócrita que prefere fingir que as coisas não existem. Mas o negócio é o seguinte: no Brasil, temos uma legislação em que a pessoa fica presa por no máximo 30 anos. Quer você queria, quer não, ela voltará ao nosso convívio. Temos a opção de fazer esse retorno ser mais ou menos traumático”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sábado, 26 de setembro de 2015

Escolas particulares negam matrícula a alunos deficientes

Maria Aparecida Feier e sua filha Cibele (arquivo pessoal)

Cibele, hoje com 22 anos, estudou em escola particular até os seus 17 anos. Depois disso, a escola passou a exigir que a mãe, Maria Aparecida Feier, pagasse uma auxiliar que acompanhasse sua filha durante as aulas. O custo disso era quase o valor da mensalidade. "No início eu aceitei pagar porque era a única escola particular que aceitava minha filha; outras escolas do meu bairro a recusaram por ser autista", relata.

Sem conseguir pagar pelos gastos adicionais a longo prazo, Maria tirou Cibele, que era uma aluna exemplar, da escola e a colocou em outra que trabalha exclusivamente com crianças especiais. "Hoje a Cibele vê a irmã dela e todos os amigos indo para a antiga escola e fica triste que não pode ir junto."

Para mudar esse cenário, Maria cursou pedagogia, se especializou em neuropsicopedagogia e trabalhou no lugar dos profissionais que sugeriram que sua filha não seria capaz de continuar os estudos sem um acompanhamento. "Deixei de ser pedra para ser vidraça, queria ver como se dava todo o processo. O que aprendi foi que não há mistérios, é possível atender a essas crianças. O preconceito está no adulto", pontua.

A história de Maria é uma entre tantas mães de crianças com necessidades educacionais especiais que, até hoje, batalham para oferecer um estudo de qualidade para seus filhos e a oportunidade de eles estudarem com outras crianças, o que – já está comprovado - ajuda na evolução desses casos.

Escola aceitou a matrícula de Ana Júlia, mas recusou a de João Victor ao saber que ele era autista (arquivo pessoal)

Edinéa Albini sentiu com mais clareza essa discriminação. Mãe de gêmeos de cinco anos, ela tentou matricular João Victor, que possui necessidades educacionais especiais, e Ana Júlia na mesma escola, uma instituição de ponta, que ela chamou como "sonho de consumo" para a educação de seus filhos.

"Eles me atenderam super bem, mas quando contei das condições do João Victor, disseram que eles não tinham autorização para aceitar uma criança especial. A atendente chegou a dizer que a média lá era sete e que meu filho nunca ia conseguir alcançar isso. Ela falou tudo isso sem nem conhecer e olhar para o meu filho", lembra. Edinéa ainda foi convidada para conhecer a escola se sua intenção fosse matricular a Ana Júlia. "Falaram que ela seria muito bem aceita", acrescenta. A mãe, então, entrou com processo contra a escola. Um inquérito policial foi aberto e ela já teve sua primeira audiência com o diretor da instituição.

Enzo chegou a ser elogiado por uma professora, mas a escola afirmou que ele "atrapalhava o andamento das aulas" (arquivo pessoal)

Quando não esbarram na recusa, algumas mães enfrentam problemas mesmo após conseguirem matricular os filhos. Foi o que aconteceu com a jornalista Sabrina Brognoli d’Aquino. Ela conseguiu matricular o Enzo, de oito anos, na rede privada. Com a virada do ano letivo e a mudança professores, os problemas começaram.

Em junho de 2011, ela chegou a receber um bilhete da escola onde se lia que seu filho atrapalhava o andamento das aulas. "Isso não procedia porque a professora anterior do Enzo sempre dizia que ele era avançado para a turma dele e que os coleguinhas aprendiam com ele. Ela mesmo que relatou que chegou a mudar seu método de ensino e torná-lo mais interessante por causa do meu filho", conta.

Depois desse episódio, Sabrina flagrou vários momentos de descaso com seu filho. O cúmulo foi quando descobriu, através de uma auxiliar que a escola a fez contratar para Enzo, que seu filho era forçado a comer quando não queria. "Notei algumas manchas no corpo dele que os professores diziam que era porque ele caia na quadra. Depois disso o tirei da escola, registrei um B.O., fiz exame de delito e denunciei a escola no Conselho Municipal de Educação. Como resposta, disseram que, como meu filho não estudava mais lá, não tinha como avaliar o modo com o qual ele era tratado. O processo, muito provavelmente, será arquivado", lamenta.

Sabrina conseguiu matricular Enzo em outra instituição da rede privada que, segundo ela, soube trabalhar não com suas fraquezas, mas com suas qualidades. Escolas assim, no entanto, sofrem com a alta demanda de matrículas. Para melhorar a distribuição de alunos, o Estatuto da Pessoa com Deficiência, sancionado em julho por Dilma Rousseff, sugere nos artigos 28 e 30 que escolas da rede privada aceitem e se adequem à educação para crianças com necessidades especiais.

Estatuto da Pessoa com Deficiência 

A Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (CONFENEN) está com um pedido de liminar no Supremo Tribunal Federal para revogar esses artigos que, para a defesa, “ferem o principio dos direitos humanos". "Um dispositivo que impõe a inclusão ignora toda a preparação que a escola precisa ter para oferecer cuidado, atendimento e tratamento especiais necessários. Existem mais de quatro mil necessidades especiais, como você vai conseguir prever um projeto pedagógico sem saber quem baterá a sua porta?", diz Ricardo Furtado, advogado da confederação.

Não é o que pensam as mães desses alunos; para elas, o estatuto é um anúncio de novos tempos. "É um ganho da sociedade civil em relação às diferenças. Acho que a primeira geração pode pagar o pato com escolas que não se preparam e vão passar a aceitar crianças especiais. Mas, sem isso, essas escolas vão se preparar quando? Chega dessa desculpa de falta de preparo, isso é preguiça. A melhor professora do Enzo não tinha curso nenhum, o que ela tinha era vontade de ensinar, ela abraçou o desafio de ganhar o meu filho e isso foi muito positivo para ele", observa Sabrina.


Para o vice-presidente da Ampid (Associação Nacional do Ministério Publico de Defesa dos Direitos do Idoso e das Pessoas com Deficiência), negar a matrícula de um deficiente é, em sua visão, uma discriminação. "A maior parte das pessoas com deficiência está matriculada em escolas públicas. A impressão que fica é que as escolas privadas só existem para pessoas perfeitas. Com o tempo, vão segregar também aqueles alunos que têm dificuldade no aprendizado", pontua Waldir Macieira.

O principal ponto de discórdia se concentra, claro, nos gastos adicionais que as escolas particulares terão que arcar para se adequar às novas exigências do estatuto. Algumas instituições alegam que não conseguem cobrir tais despesas e que, portanto, a saída seria aumentar a mensalidade de todos os alunos para saldar custos extras. "Esse cenário vai resultar no fechamento de escola por não ter cliente com capacidade de pagar aquilo que o estado está obrigando”, alega Furtado.

Esses gastos, acrescenta o advogado, são de dever do Estado, o que está explícito no artigo 208, inciso III, da Constituição Federal, que diz que "o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino."

Do outro lado, o vice-presidente da Ampid afirma que, ao aceitar concessões do Estado para funcionarem, as escolas particulares acolhem, ainda, os deveres do mesmo. "Ninguém está pedindo uma tarefa extra pedagógica. Atender a alunos com deficiência está embutido no princípio de que a educação é para todos”, rebate.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Os perigos no aumento do limite do crédito consignado

Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas

Desde a última segunda-feira (13), o trabalhador pode solicitar 35% de crédito consignado graças a uma medida provisória que elevou seu limite, anteriormente de 30%.

Embora os 5% a mais sejam destinados a apenas pagamento de dívidas de cartão de crédito, a proposta pode ser um tiro que saiu pela culatra se o trabalhador não souber administrar suas contas já que, vale lembrar, o crédito consignado é descontado diretamente da folha de pagamento ou do benefício de aposentados e pensionistas.

“Quando a pessoa decide solicitar mais uma linha de crédito é porque ela já tem problemas financeiros eminentes na vida dela”, explica Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira. “A grande questão do crédito consignado é que ele agrava, na verdade, o cenário, simplesmente porque está ampliando a situação de endividamento para esse trabalhador.”

Ainda na opinião do especialista, a medida é uma “irresponsabilidade” do governo que deixa à disposição do cidadão um crédito “perigoso”, que sai da fonte da renda e nem chega a entrar na conta para ser administrado. “Isso cria uma liquidez ainda maior para o sistema financeiro”, diz Domingos.

No lugar de conceder mais possibilidades de crédito, o governo deveria, na opinião do educador financeiro, coibir as empresas de cartão de crédito oferecer um limite acima do salário do cliente. “Ao invés disso, o governo continua cobrando limites altos, dando condições para taxas de juros exorbitantes e fazendo com que o crédito consignado, que possui juros menores, soe atraente.”

O resultado, para Domingos, é uma bolha de crédito que está envolvendo, cada vez mais, a população.

Atualmente, é bom ressaltar, há 56 milhões de brasileiros na inadimplência.

Há saída sem o crédito consignado?

Pode parecer senso comum, mas a solução dos problemas ainda é o controle de gastos. Antes de tomar qualquer decisão que envolva um pedido de crédito, é preciso fazer uma faxina financeira na família: convocar a todos, expor a situação e cortar despesas. Sem isso, o buraco para o endividamento pleno se aprofundará.

Com a faxina, o crédito consignado pode até se tornar um beneficio. “Acho um pouco difícil esse cenário, porque a família brasileira não costuma a ter uma educação financeira. É possível que o trabalhador fique com as dívidas antigas e as novas do consignado, já que esse tipo de crédito combate o efeito e não a causa”, afirma Reinaldo.

Ainda assim, as contas não saíram do vermelho? “Mesmo nesse caso o melhor a se fazer é deixar estourar a dívida”, sugere. “Logo em seguida, é necessário fazer um diagnóstico financeiro, avaliar o valor de parcelas que você consegue pagar, ir à instituição financeira com a qual você possui pendências e renegociar essa dívida”, aconselha o especialista.

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Livro-reportagem para crianças explica luta a de Malala Yousafzai

Bruna Assis Brasil

Quando estava entre as fronteiras do Afeganistão com o Paquistão fazendo cobertura internacional para o jornal Estado de São Paulo, Adriana Carranca soube do ataque que quase tirou a vida de Malala Yousafzai, uma ativista paquistanesa notória por lutar pelo direito das mulheres de seu país à educação.

A jornalista já ouvira falar da menina e escreveu matérias sobre a voz vinda do Vale do Swat que enfrentava os extremistas do Talibã para obter a permissão de ir à escola, “privilégio” só dos homens do Paquistão sob domínio do grupo extremista.

Depois de entregar uma matéria sobre o atentado, Adriana recebeu uma proposta para escrever um livro sobre a trajetória da garota que, naquela ocasião, estava entre a vida e a morte após ser baleada por um integrante do Talibã, em outubro de 2012, como resposta ao seu “atrevimento” de ir contra as regras impostas pelos radicais.

“O que eu não sabia era que, naquela época, Malala estava se tornando um nome poderoso e conhecido no mundo todo”, contou ao Portal da Band a autora de “Malala, a menina que queria ir para a escola”, livro-reportagem para crianças (um gênero ainda pouco abordado no Brasil) sobre a vencedora do Nobel da Paz de 2014.

Logo após o atentado a Malala, Adriana visitou o hospital em que ela estava internada. Lá, conversou com os primeiros médicos que a atenderam antes de viagem a Birmingham, na Inglaterra, onde a ativista mora atualmente. Também entrevistou o motorista que levava a menina no transporte escolar onde foi baleada, professores e colegas de sua sala, além de familiares, como os pais de Malala - figuras essenciais que incentivaram a batalha da filha pelo conhecimento.

Até aquele momento, Adriana planejava escrever um livro para adultos. A vontade de tornar a narrativa própria para crianças surgiu quando ela visitou o vilarejo onde o autor dos disparos contra a ativista morava. Ela se hospedou na casa de um tradutor enquanto pesquisava sobre a vida do terrorista.

Bruna Assis Brasil

“No convívio daquela casa, tive muita contato com as crianças de lá. Eram oito no total. A partir daí, comecei a pensar o quanto seria bacana que as crianças brasileiras soubessem da existência delas”, recordou.

Como explicar as atrocidades do terrorismo para crianças? 

O principal desafio que Adriana e a ilustradora da obra, Bruna Assis Brasil, enfrentaram foi a imersão no cenário lúdico infantil ao contar uma história permeada por temas delicados - violência, terrorismo, machismo, por exemplo.

“São cenas muito pesadas, mas acredito que, pelo fato de estarem ilustradas, já conversam de uma forma muito mais direta com as crianças. É muito importante que elas tenham consciência de tudo o que acontece no mundo. Todos temos medo dessa realidade, mas não podemos ter medo de mostrá-la”, pontuou a ilustradora, que usou técnicas de colagens para os desenhos.

“Quase todas as imagens usadas nas ilustrações são da viagem da Adriana e achamos que seria muito importante e enriquecedor termos esses pedacinhos de realidade em meio aos desenhos feitos à mão”, contou ainda.

Bruna Assis Brasil

Já Adriana chegou a frequentar um laboratório de literatura infantil para adaptar a linguagem do livro que, a princípio, seria direcionado a adultos. O mais interessante é que, segunda a autora, os dois tipos de leitor-alvo não estão tão distantes quanto pensamos.

“As crianças de hoje em dia têm acesso às informações, à tecnologia, conversam sobre questões mundiais com colegas de sala; também viajam mais e têm mais contato com as diferentes culturas por conta dos imigrantes que vivem no Brasil; além do mais, desde cedo elas têm contato com histórias onde a violência está presente: a rainha má manda o lenhador cortar o coração de Branca de Neve, o Lobo Mal devora a vovózinha e, por consequência, é morto e tem a barriga aberta por caçadores, enfim, não podemos deixar de contar a vida da Malala, que é de superação, por conta das dificuldades que ela passou”, explicou. 

Livro-reportagem chegou até a Cracolândia 

“Malala, a menina que queria ir para a escola”, lançado pela Companhia das Letrinhas, vai rodar por algumas feiras de livro internacionais. Já passou, por exemplo, por uma feira em Bolonha, na Itália, onde uma editora da Espanha teve interesse em traduzir e lançar a obra. Por enquanto, essa parceria ainda está em negociação, mas a ideia é levar o exemplo da jovem ativista para as crianças de todo o mundo. Até lá, Adriana conta que tem se encantado com a repercussão do seu livro aqui no Brasil.

A mais recente veio de uma turma do 9° ano do ensino fundamental do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. Meninas de 14 anos - mesma idade de Malala quando sofreu o atentado - levaram à prefeitura de São Paulo a iniciativa de obter alguns exemplares do livro a preços mais em conta para distribuir no projeto De Braços Abertos, que recebe crianças retiradas da região da Cracolândia, no centro da capital paulista. 

“Fico muito emocionada com esses gestos de carinho. Também tenho recebido muitas cartinhas dos leitores; eles me mandam fotos em que aparecem lendo o livro, falam que têm curiosidade de conhecer o outro lado do mundo, perguntam como podem ajudar as crianças de lá. Isso só prova que, neste momento em que vivemos uma situação de negligência com os professores brasileiros, a trajetória de Malala nos ensina a enxergar o valor imensurável da educação”, completou Adriana.

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Gaza recebe festival de cinema entre suas ruínas

Divulgação/Karama Film Festival

Cineastas conseguiram realizar – apesar das condições adversas – um festival de cinema na Faixa de Gaza. Até um tapete vermelho foi estendido nas ruínas de um bairro devastado pela guerra.

Os organizadores tiveram que levar um arsenal de cabos de energia para o distrito de Shujaiyeh, fortemente bombardeado no conflito com Israel.

Além da complicada logística, os responsáveis pelo evento precisaram enfrentar o risco de acidentes com bombas não detonadas que ainda poderiam estar sob o solo do território.


A programação do batizado Festival de Cinema Karama Gaza contou com 28 produções cujo principal foco era a discussão dos direitos humanos.

Milhares de pessoas marcaram presença no evento que durou três dias e trouxe a sétima arte de volta para uma região que, na década de 1980, fechou o seu último cinema.

“Esse festival é uma mensagem para que todos pensem no povo de Shujaiyeh como seres humanos”, declarou o cineasta palestino Al-Mozayen, um dos responsáveis pela realização do Karama Gaza.



(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 3 de maio de 2015

"A Estrada 47" relembra atuação dos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial


Daniel de Oliveira (no centro) vive o pracinha Guima em "A Estrada 47"

Uma concha de retalhos feita com vários relatos de uma época que ficou esquecida entre tantas atrocidades ocorridas na Segunda Guerra Mundial. É assim que o cineasta Vicente Ferraz define seu novo filme “A Estrada 47”, que chega aos cinemas no próximo dia 7.

O longa, que tem Daniel de Oliveira como protagonista, conta a história de um grupo de pracinhas - soldados brasileiros enviados para lutar contra o exército alemão durante a guerra.

Na trama, eles tentam concluir a missão de retirar todas as minas de uma estrada na Itália, abrindo espaço para que os aliados norte-americanos possam acessar o local e seguir com o combate contra a expansão do Nazismo na Europa.

Embora se trate de uma ficção, o roteiro reúne alguns fatos que aconteceram naquela ocasião, década de 40, através de depoimentos deixados por alguns soldados.


O cineasta Vicente Ferraz nos bastidores do filme

“Me interessou muito poder falar sobre esses 25 mil meninos enviados pelo Brasil para enfrentar o exército mais poderoso daqueles tempos em um dos invernos mais rigorosos que a Itália já conheceu”, explicou Vicente.

Inverno, inclusive, que todos do elenco tiveram que conhecer. Antes, os atores passaram alguns dias em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, com o exército brasileiro, recebendo um treinamento militar para só então embarcarem para a Itália, país onde a grande maioria das cenas do filme foi rodada em uma temperatura a -13º.

“Na Itália tínhamos um preparador que nos fazia acordar às 6h da manhã para subir um morro congelado como parte de um treinamento que nos possibilitou filmar na neve depois”, contou Daniel, que na história vive o pracinha Guima.


O elenco precisou enfrentar temperaturas baixas para filmar a obra

Mesmo os mais experientes da produção achavam isso uma loucura. “Falavam que éramos doidos de querer gravar na neve”, recordou o diretor Vicente, citando a equipe italiana que trabalhou no filme. “O engraçado é que eles, que estão acostumados com esse tipo de clima frio, preferem filmar dentro de um estúdio quando há nevasca”, contou ainda.

Todo esse esforço, na visão de Daniel, valeu a pena. “Foi prazeroso”, resumiu. “A gente não vê filme de guerra assim sendo feito no Brasil, foi ótimo ter tido essa oportunidade”, completou o ator.

“A Estrada 47” ainda traz em seu elenco os atores brasileiros Júlio Andrade, Francisco Gaspar e Thogun Teixeira, além do italiano Sergio Rubini, o português Ivo Canelas e o alemão Richard Sammel.

 

 (Karen Lemos - Portal RedeTV!)