sexta-feira, 8 de junho de 2018

Orquídea ajuda prevenção em região de maior incidência de câncer de útero

Agentes de campanha de saúde levam a flor para mulheres em comunidades do Pará (Foto: Divulgação)

Uma orquídea está servindo como um importante lembrete na prevenção do câncer de colo de útero para mulheres da região Norte do Brasil, onde o risco estimado para a doença é 60% mais alto do que no resto do País.

Adaptada para o clima da região amazônica, a planta floresce a cada 12 meses, avisando que é hora de realizar o Papanicolau, exame responsável por detectar lesões que podem evoluir para este tipo de câncer.

Com a ação, agentes de saúde esperam reduzir a incidência da doença, que é de 25,62 casos a cada 100 mil mulheres na região Norte. Em todo o Brasil, o risco estimado é de 15,43/100 mil, segundo relatório do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Para a enfermeira epidemiologista Maria Beatriz Kneipp, a discrepância de porcentagem está relacionada a uma somatória de fatores.

“A região Norte tem uma característica diferenciada do resto do País. Tem a questão da extensão de densidade demográfica e também de nível educacional mais baixo. O câncer de colo de útero também está relacionado com os problemas de desenvolvimento socioeconômico da região, que pode ser visto, por exemplo, na dificuldade das mulheres em ter acesso ao exame”, explica a especialista ao Portal da Band.

A última pesquisa nacional sobre o tema, elaborada em 2013, mostra que o percentual de mulheres que fazem o exame Papanicolau regularmente na região é de 75%; outras 12% relataram jamais ter realizado a avaliação médica. “Dessas mulheres, algumas disseram que não acharam necessário fazer o exame, outras afirmaram ter vergonha e teve ainda quem respondeu nunca ter sido orientada a fazer o Papanicolau. É preciso, então, identificar e trabalhar essas questões que aumentam os riscos da doença”, acrescenta Kneipp.

Flor da Vida

Foto: Divulgação

Com base nesses dados que preocupam as autoridades de saúde, foi criada a campanha Flor da Vida, idealizada pela Ogilvy Brasil para o Hermes Pardini com apoio da Secretaria da Saúde do Governo do Pará. Três mil agentes de saúde, envolvidos no projeto, se dividem na entrega das flores, na promoção de eventos e de aulas educativas sobre o tema.

A orquídea usada na ação é um híbrido de cattleya, desenvolvida pelo orquidófilo Sergio Barani, que tem mais de 50 anos de experiência na área. “Através de cruzamentos, conseguimos criar esse híbrido que floresce uma vez por ano, alertando as mulheres que chegou a hora de fazer o exame ginecológico. Também será possível reproduzir [a orquídea] aos milhares por clonagem”, diz Barani no vídeo institucional da campanha.

Foto: Divulgação

Apesar do ciclo de 12 meses da planta, o exame de Papanicolau pode ser realizado em até três anos, com exceção de mulheres que têm problemas de imunidade, como portadoras do vírus HIV, que precisam fazer a avaliação médica anualmente.

Infraestrutura regional e tratamento da doença


O foco da campanha Flor da Vida está justamente na prevenção por ser a forma mais efetiva de reduzir a incidência do câncer de colo de útero. O exame Papanicolau pode ser realizado em qualquer centro de saúde. Há, inclusive, unidades fluviais que atendem comunidades mais afastadas. “Esse exame identifica lesões pré-malignas que podem ser retiradas em um ambulatório sem nem precisar de internação. A lesão é removida e a mulher vai para casa no mesmo dia”, esclarece a epidemiologista Maria Beatriz Kneipp à reportagem.

Já os procedimentos médicos para combater o câncer já evoluído implicam em uma logística bem mais complicada. “Para um tratamento com quimioterapia ou radioterapia, a paciente pode ter que se dirigir até outra cidade. Em alguns Estados, como Amapá ou Roraima, esse tipo de tratamento é feito só nas capitais”, ressalta. “Existe, portanto, essa preocupação com o deslocamento e também com a realidade de algumas mulheres, que têm casa e filhos para cuidar e nem sempre conseguem fazer o tratamento até o final.”

Mesmo sendo um tipo de tumor com potencial alto de prevenção e cura, principalmente se diagnosticado precocemente, o câncer de colo de útero matou 800 mulheres na região Norte em 2016 segundo dados do Ministério da Saúde. Para Kneipp, é possível diminuir os números de mortalidade e também de casos em que o câncer se desenvolve.

Na região Sudeste, por exemplo, a incidência desse tumor é de 9,97 a cada 100 mil mulheres. “Vemos, portanto, que é possível reduzir os riscos para a doença e, por essa razão, tentamos sempre buscar alternativas e estratégias com esse propósito”, conclui a especialista.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Família pede liberação de artista circense preso em operação contra milícia

Foto: Arquivo pessoal

Artista circense com carreira internacional, Pablo Dias Bessa Martins encontra-se longe do picadeiro, onde costuma a chamar atenção pela presença de palco e habilidade nos malabares e acrobacias. Atualmente ele está preso no Complexo Penitenciário de Gericinó (Bangu), para onde foram transferidos os detidos de uma megaoperação da Polícia Civil do Rio de Janeiro contra milicianos.

Além de Pablo, outras 158 pessoas foram presas no último dia 7 em um show de pagode que aconteceu em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Segundo a polícia, o evento foi organizado por um grupo de milicianos que utilizava o local como uma espécie de quartel general. Testemunhas dizem, porém, que o show era aberto ao público, foi divulgado pelas redes sociais, e muitos dos alvos não têm ligação comprovada com a milícia.

“O Pablo nunca se envolveu com coisa errada. A comunidade em peso conhece o trabalho dele, sabe da sua índole. [A prisão] foi como um soco. Todo mundo está indignado”, relata Jessica, mulher de Pablo, em entrevista ao Portal da Band.

Assim como o marido, Jessica é artista de circo. Eles se conheceram nas oficinas de artes circenses da Acaps (Ação Comunitária de Apoio Psicossocial), organização não-governamental que oferece também oficinas de dança, capoeira e reforço escolar para jovens de comunidades do Rio de Janeiro.

Foi lá que Pablo teve sua formação artística e, como retribuição, atuou como professor voluntário em algumas ocasiões. “Quando volta para o Brasil, após temporadas de apresentações na Europa, ele traz materiais caríssimos, como malabares, pernas-de-pau, monociclo, e doa para o projeto. Ele também ministra aulas e compartilha suas experiências com nossos alunos, que têm o Pablo como um exemplo, uma referência positiva na comunidade”, conta Jonathan Rodrigues, presidente da Acaps e amigo de infância.

Além da ONG, Pablo também fez capacitação profissional na Unicirco, projeto do ator Marcos Frota, que, segundo Jonathan, abriu as portas para uma atuação no exterior. Atualmente, o artista é contratado pela Up Leon, companhia brasileira que tem parceria com empresas que organizam espetáculos na Alemanha, Finlândia e Suécia, país para onde o brasileiro tem viagem marcada no próximo dia 24 para mais uma temporada de apresentações. Familiares e amigos de Pablo temem que a prisão impeça que ele viaje e cumpra sua agenda profissional.

30 minutos de troca de tiros

Foi para comemorar o sucesso na carreira, e também para marcar a despedida antes de mais uma temporada fora do Brasil, que Pablo, sua mulher, um primo e amigos foram ao show de pagode em Santa Cruz. “A gente viu a propaganda desse evento no Facebook e resolveu ir para celebrar a viagem dele”, lembra Jessica. Por volta das 3h, relata ela,  teve início uma confusão e troca de tiros no portão do local. “Foram uns 30 minutos de tiro”, disse.

“Depois, chegaram policiais se identificando, falando de uma denúncia sobre pessoas armadas no local. As mulheres puderam sair, mas os homens tiveram que ficar. Disseram que eles seriam encaminhados para a Cidade da Polícia só para uma averiguação de antecedentes criminais. Como o Pablo não tem passagem pela polícia, eu nem me preocupei. Fui para casa e fiquei esperando. Até hoje, ele não voltou”. O primo de Pablo e um amigo dele também foram presos.

Foto: Polícia Civil do Rio de Janeiro

Jessica chegou a levar documentos e o contrato do marido com a Up Leon na Cidade da Polícia, mas, segundo seu relato, foi ignorada. Mesmo após a transferência para Bangu, ela ainda não conseguiu contato com ele.

Habeas corpus indeferido

O defensor público Ricardo André de Souza tentou tirar Pablo Martins da prisão, mas o habeas corpus do artista circense, bem com de outros 21 clientes, foram indeferidos. “O caso dele conta com uma farta documentação que não só comprova o vínculo de prestação de serviços em uma agência de artistas como também faz link com um trabalho em outros países”, conta o defensor à reportagem.

Souza tem outros casos bem parecidos com o de Pablo nas mãos. “Diversos outros detidos comprovam vínculo empregatício e nenhum antecedente criminal. Há motoristas de ônibus, vendedores de loja, garis e até professor universitário.”

O defensor aguarda uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o habeas corpus de um de seus clientes para analisar o que poderá ser feito agora. “Dependendo da postura da Corte, vamos levar os outros habeas corpus para lá. Se não der resultado, o próximo passo é ir para o Supremo Tribunal Federal (STF)”, explica.

De acordo com informações da Polícia Civil na época da operação, os presos desse caso respondem pelos crimes de constituição de milícia privada e porte de arma de fogo de uso restrito. Na operação, foram apreendidas ainda 24 armas (fuzis, pistolas e revólveres), granada, 76 carregadores e 1.265 munições, além de 11 carros roubados. Na troca de tiros, quatro pessoas morreram.

O Portal da Band tentou contato com a Polícia Civil para esclarecimentos do caso Pablo Martins. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta.

Febre e perguntas sobre o pai

Nos primeiros dias após a prisão de Pablo, seu filho de dois anos teve uma forte febre. “Levei ele para ser examinado e a médica disse que ele não tinha nada. Quando contei o que tinha acontecido, a doutora me explicou que poderia ser emocional”, recorda Jessica.

Foto: Arquivo pessoal

Embora Pablo fique meses fora do país a trabalho, a ausência do pai tem sido percebida de forma diferente pelo menino. “Ele não para de perguntar pelo Pablo. Ele fala ‘cadê o papai para brincar de circo comigo?’ Eu digo que ele está trabalhando, não consigo contar a verdade, até porque toda essa história é injusta, mentirosa. Mas acho que no fundo ele entende o que está se passando, e isso me dói muito. O Pablo é uma grande referência para nosso filho.”

“Eu só espero que meu marido saia limpo desta situação, que reconheçam que foi um erro prender ele. Quero meu marido sem manchas em sua dignidade, e livre para ir e voltar de qualquer país que ele quiser ou precisar. Lá fora ele sempre foi muito bem tratado. Não é justo que ele passe por toda essa humilhação no país onde nasceu”, lamenta.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Prisão iminente, voto misterioso e impacto no Judiciário rodeiam julgamento de habeas corpus de Lula no STF

Foto: Ricardo Stuckert

O Supremo Tribunal Federal (STF) retoma nesta quarta-feira (4), a partir das 14h, o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado a 12 anos e 1 mês de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso tríplex do Guarujá.

Na sessão anterior, interrompida devido ao horário avançado, a Suprema Corte concedeu salvo-conduto garantindo a liberdade do petista até a apreciação desse habeas corpus. Isso impediu que Lula fosse preso em março, quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) rejeitou os embargos de declaração, recurso disponível na segunda instância.

Pelo entendimento do STF, um condenado em segunda instância já pode começar a cumprir sua pena. O julgamento desta quarta, porém, pode mudar essa jurisprudência e manter Lula solto, inclusive para se candidatar nas eleições deste ano.

Se os ministros rejeitarem o habeas corpus, no entanto, a possibilidade de o ex-presidente ser preso é iminente. “Nesse caso, o próprio TRF4 já pode mandar expedir a execução imediata da pena ou determinar que o juiz da primeira instância [Sérgio Moro] o faça”, explica o especialista em direito penal Rogério Cury ao Portal da Band.

“Existe, porém, a seguinte discussão: deve-se aguardar a publicação do acórdão [documento oficial com a decisão do STF] para mandar prender Lula? A publicação pode acontecer de forma célere, entre dois ou três dias, mas é possível que a ordem da prisão seja emitida antes mesmo que o acórdão saia”, detalha ainda.

Em um cenário no qual os ministros da Corte acatem o habeas corpus, Lula não pode ser preso antes do trânsito em julgado, ou seja, todos os recursos em todas as instâncias da Justiça precisam ser apreciados para que o condenado passe a cumprir sua sentença.

O voto misterioso

Foto: Nelson Jr./SCO/STF

Já dá para ter uma ideia do posicionamento que os ministros do Supremo Tribunal Federal terão no julgamento desta quarta. O placar, todavia, está bem dividido: cinco contra cinco. Se as previsões se consolidarem, o voto de desempate será da ministra Rosa Weber, cujo parecer da questão ainda é incerto.
“Em 2016, quando a Corte discutiu a questão, Rosa Weber foi contra o cumprimento de pena após a condenação em segunda instância. Entretanto, desde aquela data, ela julgou o habeas corpus de 58 condenados e acatou apenas um, o que pode indicar que ela possa mudar de posição”, elucida Rogério Cury.

A decisão alternativa

Ainda há, entretanto, uma terceira possibilidade. O ministro Dias Toffoli apresentou uma alternativa que pode prevalecer na sessão desta quarta. No julgamento de 2016, ele defendeu o cumprimento de pena após a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Alguns colegas de Toffoli, como Gilmar Mendes, por exemplo, têm indicado que podem seguir esse entendimento, chamado de voto médio.
Se essa for a decisão da maioria dos ministros, Lula pode respirar aliviado – ao menos por um tempo. “Os processos de recurso no STJ costumam a demorar, em alguns casos até anos”, relata Rogério Cury.

Vale ressaltar que a apelação ao STJ, conhecida como “recurso especial”, trata apenas da matéria técnica, e não das provas. “A Corte pode até alterar o tempo de pena, por exemplo, se houver um entendimento de que algum dispositivo de lei foi violado na fixação da sentença, só não pode ocorrer a reapreciação de provas.”

Os recursos ainda possíveis

Seja qual for o resultado do julgamento nesta quarta, e independentemente se Lula for preso ou não, a defesa do petista ainda tem algumas cartas na manga. Além do já citado recurso especial no STJ, os advogados podem recorrer também ao chamado recurso extraordinário, uma apelação apreciada pelo STF.
“Por este meio, os advogados do petista suscitam a tese de que a condenação de Lula afronta a Constituição, que estabelece a condenação após o trânsito em julgado. Se os ministros assim entenderem, há chances de o processo ser anulado, Lula ser solto e começar tudo de novo”, exemplifica Cury.

A defesa de Lula pode ainda pedir medida cautelar de efeito suspensivo da prisão, caso o petista esteja na cadeia, se algum desses recursos for admitido pelas respectivas Cortes.

Os impactos no Judiciário (e na Lava Jato)

Foto: Gil Ferreira/SCO/STF

A decisão do STF não vai impactar apenas no futuro penal e eleitoral de Lula, e também não somente nos presos da Operação Lava Jato, mas em todos os réus condenados em segunda instância que já cumprem sentença.
Isso não quer dizer que revogar a jurisprudência vai “estragar” a operação que ganhou popularidade no Brasil. “O que pode ocorrer é que os presos, tanto da Lava Jato como de qualquer outro processo, serão soltos, mas eles já estão condenados – isso não muda. Hora ou outra, se assim a Justiça entender, eles voltarão para a cadeia”, explica o especialista em direito penal.

Para Cury, uma coisa é certa: discutir novamente uma questão já debatida em 2016 cria um clima de apreensão no Judiciário. “O habeas corpus é um dispositivo de extrema importância, por isso está assegurado na Constituição. Entendo que é um recurso a ser preservado pois garante o direito à liberdade. Avaliar essa questão várias vezes, em tão pouco tempo, cria uma insegurança jurídica muito grande no país”, avalia por fim.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 21 de março de 2018

'A dor é algo natural para os alunos', diz professor do Complexo da Maré

Na lousa, alunos da Maré desenharam uma homenagem para a vereadora Marielle Franco (Foto: arquivo pessoal)

Na sexta-feira (16), dois dias após a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o professor Gabriel* não conseguiu dar aula em uma escola municipal no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. “Comecei a falar e caí no choro”, relatou. O docente havia pensado em algumas palavras de conforto para dizer a seus alunos, adolescentes do ensino fundamental. Em vez disso, ele quem foi consolado.

“Infelizmente, meus alunos encaram a violência de forma naturalizada, pois convivem ela diariamente. Muitos conhecem alguém que perdeu a vida; amigos, primos ou parentes próximos. Tenho alguns alunos que são órfãos. Dá para perceber a dor que eles sentem, mas, da mesma forma, eles mostram uma serenidade que surpreende quem é de fora.”

Gabriel dá aulas em comunidades do Rio há oito anos. Já são dois na Maré, comunidade de onde Marielle era “cria”. Mesmo com a falta de verba para a rede de ensino ou a estrutura precária para trabalhar, o professor acredita que a educação pode transformar a difícil realidade da comunidade. A começar pelo exemplo deixado pela vereadora.

“Marielle era uma pessoa saída da Maré, venceu as barreiras estruturais impostas a mulheres, negras e pobres. Ela conseguiu não apenas se formar [no pré-vestibular comunitário da Maré], mas atuar na vida pública, obter uma votação expressiva nas eleições [quinta vereadora mais votada do Rio em 2016] e se tornar um horizonte de possibilidades.”

Rotina de medo

Assim como Marielle em sua época de escola, os alunos do professor Gabriel precisam enfrentar uma rotina de medo para realizar coisas simples do dia a dia, como ir estudar. “Afeta totalmente a rotina escolar. Desde aulas suspensas até baixa frequência de alunos por causa de confrontos entre policiais e traficantes”, conta com exclusividade ao Portal da Band.

A região, explica o professor, é disputada por duas facções rivais: o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV). Além disso, a repressão policial piorou e trouxe mais insegurança para o cotidiano dos moradores da Maré.

Ciente desses problemas, Gabriel sempre pede a seus estudantes para avisarem quando tem tiroteio no caminho até a escola. “Às vezes tem conflito às 6h, no momento em que eles estão se arrumando para sair de casa. A minha orientação é sempre pedir que eles permaneçam onde estão e não venham para a escola, que depois eu abono a falta. Tento deixá-los tranquilos, porque eles sabem o quanto é perigoso”, lamentou.

Velhos preconceitos

A tragédia envolvendo a vereadora Marielle Franco foi potencializada, na opinião do docente, por uma onda de ódio, vista principalmente nas redes sociais, que tenta diminuir a trajetória da parlamentar por meio das chamadas fake news, as notícias falsas. “Não adianta matar Marielle fisicamente, é preciso apagar o que ela representa.”

Gabriel cita duas mentiras que circularam pela internet para reforçar seu ponto. Em um dos boatos, a vereadora foi associada a uma facção criminosa. Em outro, dizia-se que Marielle era companheira do traficante Marcinho VP. “É do senso comum associar a mulher negra favelada ao tráfico, ao bandido. É um preconceito histórico que vem à tona com a morte da Marielle. A mulher negra chegar onde chegou desperta nosso racismo, nossa misoginia”, diz.

“Além disso, a morte da Marielle trouxe visibilidade para tantos anônimos que sofrem e morrem todos os dias nas favelas do Rio.”

Marielle presente

Passeata em homenagem à vereadora Marielle Franco (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O lema que surgiu após o assassinato da vereadora ilustra bem, na visão de Gabriel, o que Marielle representa não só para a Maré, mas para todas as comunidades do Rio e para quem luta pelas mesmas demandas da vereadora do PSOL.

“O slogan ‘Marielle presente’ é exatamente isso. As ideias dela continuam presentes e vão germinar. Eu sinto na molecada da Maré que a Marielle deixou uma semente. Para mim, ela foi além do exemplo de emancipação individual. Ela era, e ainda é, uma esperança coletiva de mudança.”

* Nome fictício

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 14 de março de 2018

Quer começar a investir? Os robôs podem te ajudar

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Tesouro Direto, renda fixa privada, fundos de investimento, ações na Bolsa de Valores. São tantas opções e informações diversas que, para quem quer começar uma aplicação financeira, o caminho até um bom investimento pode ser um pouco confuso.

Pensando no pequeno, e às vezes iniciante investidor, algumas empresas chamadas fintechs pegaram o que há de melhor na tecnologia para democratizar essa operação. E isso foi possível por meio dos robôs, que já trabalhavam para atender grandes clientes da bolsa, mas que agora também são úteis para facilitar o acesso de qualquer pessoa ao mundo dos investimentos.

Tais robôs não são como aqueles dos filmes, que andam, falam e algumas vezes tentam destruir a humanidade nas ficções científicas. Estamos falando de algo bem mais inofensivo, invisível, inclusive. O robô investidor nada mais é do que um algoritmo, sequência programada de instruções bem definidas. Nesse caso, é uma programação de alocação e operação de ativos.

Como funciona

Quem quer fazer o suado dinheiro render um pouco mais precisa escolher algumas opções de aplicações, mas, como ressaltamos no começo do texto, elas são muitas, e nem sempre as informações são tão simples assim. É aí que o robô entra em ação. Ele pega seu objetivo financeiro, aplica todo o conhecimento que ele tem programado e, pronto, faz seu investimento acontecer.

Para que isso seja possível, a primeira coisa que o robô vai fazer é 'conversar' com você. A partir de uma série de questionamentos, ele vai identificar o seu perfil de investidor, que pode ser mais conservador, moderado ou agressivo. “Nesse questionário, terá provocações do tipo 'você está disposto a perder metade do que foi investido?' Se não estiver, seu perfil é mais conservador, por exemplo”, explica Ricardo Humberto Rocha, professor de finanças do Insper, em entrevista ao Portal da Band.

Depois que o robô analisa o seu perfil, ele vai oferecer carteiras de investimentos com base no volume que você quer aplicar, tentando equilibrar duas coisas na balança: otimizar o retorno e minimizar os riscos. “A vantagem do robô é que, quando o mercado oscila, o algoritmo já faz esse rebalanceamento para você”, acrescenta Rocha.

Custos


Por não ser feito de carne e osso, o robô não precisa de uma estrutura física para trabalhar e muito menos de um salário. Por se tratar de uma operação mais barata, portanto, as fintechs conseguem vender esse serviço a um preço competitivo para o investidor.

As empresas cobram uma taxa de consultoria (afinal, os robôs são programados por pessoas que recebem salário) e os valores que alguns investimentos requerem, como taxa de corretagem, entre outros. Ainda assim, em média, os custos não chegam a 1% ao ano.

O Portal da Band separou informações de três empresas que oferecem esse serviço. Em uma delas, é possível investir com uma aplicação inicial de R$ 100. Confira:





Mais democrático

A tecnologia veio para democratizar o acesso para o pequeno investidor e propiciar até mesmo um rendimento mais alto, como na Bolsa de Valores, por exemplo. “Diversificar a carteira de investimentos dá muito trabalho. As administradoras precisavam cobrar alto por isso, então criou-se um mercado para quem já tinha muito dinheiro. O robô quebrou isso, deu acesso a esse investidor menor e também possibilitou para as empresas ter esse pequeno investidor como cliente”, ressalta Rocha.

Para o professor de finanças do Insper, os robôs deram início a uma nova fase de relação do indivíduo com os investimentos. “Além disso, é também uma tendência tecnológica que dá mais autonomia ao investidor.”

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E os humanos?

Por enquanto estamos longe da trama de ficção científica na qual os robôs dominam o mundo e nos jogam para escanteio. Claro que o algoritmo facilita muitas coisas, mas sem um programador por trás nada acontece. “Pense na medicina. Algumas cirurgias são feitas por robótica, mas sempre com acompanhamento humano, porque os organismos operados não são os mesmos. Algumas pessoas têm um caminho até as coronárias diferentes de outras, e o robô não vai entender isso até que uma pessoa o reprograme”, pontua Rocha.

Voltando a falar de dinheiro, a tecnologia pode nos ajudar a investir melhor, descartando fatores emocionais ou até aquele efeito manada como vimos acontecer mais recentemente com a criptmoeda bitcoin.

“O básico que o robô precisa saber é: ‘qual o preço justo daquele ativo?’ Se está caro, eu vendo; se está barato, eu compro. É o que os investidores fazem todos os dias. Existem vários modelos preditivos [para identificar riscos existentes em uma nova ação ou em práticas em andamento], mas nenhum é perfeito, porque existem variáveis que eu não consigo medir”, explica o professor.

Para Rocha, os robôs já são “o futuro do investimento”, mas somente pessoas de carne e osso podem reprogramar os robôs caso algo inesperado aconteça, como o surgimento de uma bolha especulativa ou até uma crise internacional.

“Vamos dizer que a Coreia do Norte jogue uma ogiva nuclear no Japão. O que acontece com as bolsas? Vão literalmente derreter, mas isso ninguém consegue prever. São fatores impossíveis de se controlar. O melhor a fazer, nesse sentido, é relaxar e deixar o robô trabalhar.”

(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Saiba como será o julgamento de Lula e suas consequências no mundo político

Foto: Ricardo Stuckert

Estamos em ano de eleições e, embora o pleito ainda esteja meses adiante, o mundo político vive um frenesi excepcional com a aproximação do julgamento em segunda instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre.

Nesta quarta-feira (24), a 8ª Turma da Corte vai analisar a apelação criminal que envolve Lula no caso do tríplex no Guarujá. O julgamento é essencial para a corrida presidencial do petista, já que existe o risco de a decisão do TRF4 torná-lo inelegível e inapto a concorrer nas eleições deste ano, ou até mesmo de fazer cumprir a pena estabelecida em primeira instância: nove anos e meio de prisão.

Como será o julgamento

O julgamento terá início às 8h30 desta quarta na sala da 8ª Turma, localizada no TRF4, na capital gaúcha. Além da apelação de Lula, há recursos de mais seis réus a serem analisados.

O processo, o único da sessão do dia, começa com a abertura do presidente da Turma, o desembargador Leandro Paulsen. Na sequência, o relator do caso, o desembargador João Pedro Gebran Neto, faz a leitura do relatório. Depois, o Ministério Público Federal se manifesta por 30 minutos, seguido pelos advogados de defesa de Lula e demais réus, que terão 15 minutos para cada indiciado, totalizando uma hora de sustentações orais da defesa.

Logo após, o relator Gebran Neto lê o seu voto. O revisor, o desembargador Leandro Paulsen, também manifesta seu parecer, seguido da leitura de voto do desembargador Victor Luiz dos Santos Laus. A palavra volta, então, para Paulsen, presidente da Turma, que profere o resultado do julgamento.

A qualquer momento, vale lembrar, pode haver pedido de vista e, nesse caso, uma nova data para o julgamento será marcada.

Apesar de a sessão ser pública, o acesso à sala onde ocorrerá o julgamento fica proibido, a não ser pelas partes envolvidas e seus advogados. O julgamento, entretanto, será transmitido ao vivo e poderá ser acompanhado no Portal da Band.

Lula estará presente na sessão?

A presença do ex-presidente Lula no julgamento que definirá seu destino político nessas eleições ainda é uma incógnita. O petista não é obrigado a ir e, caso o faça, não deve se manifestar perante o tribunal, já que seus advogados é que falarão em seu nome.

Tudo indica, no entanto, que ele não estará em Porto Alegre uma vez que um ato em sua defesa foi agendado para acontecer na Avenida Paulista, em São Paulo, nesta mesma data. Lideranças do PT dizem que Lula marcará presença neste protesto.

Mesmo com poucas probabilidades de que o ex-presidente vá a capital gaúcha, a Secretaria Estadual da Segurança Pública preparou um esquema de segurança em torno do prédio prevendo manifestações contra e a favor de Lula. O objetivo é cuidar do isolamento da área e garantir que não haja conflitos e depredações na cidade. Além disso, os desembargadores relataram ameaças e pediram à ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), reforço na segurança no local.

Fora das eleições?

Com base na Lei da Ficha Limpa, que impede que condenados em segunda instância se candidatem às eleições, Lula pode ficar inelegível se o TRF4 confirmar a sentença, mesmo que a defesa ainda possa recorrer da decisão.

"Quem determina a inelegibilidade é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas isso não ocorre de forma prévia. Somente após o registro da candidatura de Lula é que a aplicação dos efeitos da Lei da Ficha Limpa é analisada", explica Cristiano Vilela, membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-SP, ao Portal da Band.

Até que essa questão seja apreciada pelo TSE, Lula pode seguir em campanha e até participar de debates. Se a candidatura do petista for impugnada até 20 dias antes das eleições, o PT ainda consegue substituir seu candidato para a corrida eleitoral, caso contrário, o partido fica sem poder apresentar um nome para o pleito.

O ex-presidente Lula tem liderado as pesquisas de intenção de voto em vários cenários. Por isso, caso o petista vença as eleições presidenciais deste ano, há uma preocupação com sua diplomação como presidente. Se o petista ficar inelegível antes da posse, a diplomação pode ser anulada e existe a possibilidade de novas eleições serem convocadas.

"É uma hipótese difícil de acontecer, porque impedir um presidente de tomar posse é algo bem delicado. Sendo assim, Lula pode recorrer ao Supremo Tribunal Federal alegando que suspender seus direitos políticos é inconstitucional e, dessa forma, garantir que seja empossado", pontua Vilela. "É pouco provável, porém, que o STF tome uma decisão antes da posse em si. A análise dessa questão pode demorar anos."

Uma vez empossado, Lula não mais responderia pela condenação já que a Constituição garante que “o presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções”. O político, portanto, cumpriria a pena somente após concluir o mandato.

Afinal, Lula pode ir preso?


Essa possibilidade existe, sim. Em 2016, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o réu já pode começar a cumprir pena após condenação em segunda instância. "Em contrapartida, o próprio STF reconhece que enquanto a defesa puder interpor recursos, o réu não vai preso", observa Rogério Cury, especialista em Direito Penal.

Há duas apelações disponíveis para que a defesa evite a prisão de Lula:

Embargos de declaração – os advogados do ex-presidente podem lançar mão desse recurso para pedir esclarecimentos sobre a decisão final dos desembargadores do TRF4.

Embargos infringentes – esta apelação é usada pela defesa caso a decisão seja contra o réu e não unânime. Se o placar fechar em 2x1 pela condenação de Lula, os advogados podem pedir que o voto favorável ao ex-presidente prevaleça.

"Os advogados de Lula conseguem ainda solicitar outro embargo de declaração, mas existe a possibilidade de o tribunal considerar o pedido protelatório e exigir que a pena seja cumprida imediatamente", observa o especialista.

Por fim, é possível que Lula recorra aos tribunais superiores, como o STF ou o Superior Tribunal de Justiça (STJ), para reverter o pedido de prisão. "O STF ou o STJ pode admitir a execução da pena após julgamento em instâncias superiores, até porque a nossa Constituição considera o trânsito em julgado [decisão definitiva da Justiça, quando não cabem mais recursos] para o cumprimento de pena, salvo medidas cautelares, o que não é o caso de Lula."

Condenação

O ex-presidente Lula foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso envolvendo o tríplex no Guarujá, em São Paulo. A sentença é decorrente de uma denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) em setembro de 2016.

Segundo as investigações da Operação Lava Jato, Lula teria recebido R$ 2,2 milhões de propina, provenientes de contratos entre a empreiteira OAS e a Petrobras, por meio do apartamento localizado no litoral paulista e reformas neste imóvel.

“Do montante da propina acertada no acerto de corrupção, cerca de R$ 2.252.472,00, consubstanciado na diferença entre o pago e o preço do apartamento tríplex (R$ 1.147.770,00) e no custo das reformas (R$ 1.104.702,00), foram destinados como vantagem indevida ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, afirma Moro.

A defesa de Lula nega todas as acusações.

(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Compras de Natal e contas de início de ano demandam maior planejamento financeiro

Foto: Creative Commons

Depois de 12 agitados meses, nada mais natural do que tentar deixar as preocupações de lado e relaxar um pouco no final de ano. O difícil é que, para muitos, final de ano é sinônimo de gastos extras.

“Nessa época nós compramos presentes de Natal, investimos em lazer - planejamos uma viagem de Réveillon ou mesmo saímos mais de final de semana, enfim, nos permitimos mais”, observa Ricardo Teixeira, professor da FGV e especialista em gestão financeira, que conversou sobre o assunto com o Portal da Band.

E isso não está errado. Temos que nos permitir mesmo, afinal, o problema não é fruto dessas comprinhas ou passeios, mas sim da falta de planejamento financeiro.

A primeira atitude essencial a ser tomada é fazer aquele famoso raio-x das finanças. É preciso considerar as despesas que mais pesam no bolso durante todo o ano - habitação, alimentação, vestuário e transporte - e acrescentar os gastos com presentes e diversão.

“Existe o mito de que fazer planejamento financeiro é algo complexo, precisa entender de matemática, e não é. É simplesmente colocar no papel o que você gostaria de fazer, quanto de dinheiro tem e ver se vai dar certo”, pontua Carol Sandler, fundadora do site Finanças Feminina e autora do livro Detox das Compras.

Contas


Você fez suas contas, viu que deu para comprar alguns presentes e ainda curtir uma praia em um fim de semana de dezembro? Ainda assim, fica difícil se animar pensando que o ano começa com contas para pagar.

Janeiro vem com as indesejáveis siglas: IPTU, imposto da casa ou apartamento, e IPVA, imposto do carro. Alguns também pagam os valores de seguros nessa época, o que novamente nos obriga a fazer contas.

“Toda vez é preciso verificar o que vale a pena fazer: pagar à vista com desconto ou parcelar [o valor dos impostos]. Tem ano em que o desconto é atrativo, e vale a pena tentar pagar tudo de uma vez. Para quem não consegue fazer isso, tem que ter organização para não se perder nas parcelas. Não adianta pegar um dinheiro, parcelar e gastar todo o resto com outras coisas. O dinheiro desses impostos, quando é parcelado, não pode ser mexido mais”, alerta o professor Ricardo Teixeira.

Para quem não consegue segurar um dinheirinho ali na conta, Teixeira aconselha aplicar o valor. Há duas vantagens neste caso: o dinheiro fica “retido” e você ainda consegue fazer essa quantia render um pouco.

Para aqueles que têm filho, também deve-se levar em conta gastos com matrícula, uniforme e material escolar. A dica é a mesma: separar um dinheiro para esses gastos e buscar opções em que o custo/benefício esteja em equilíbrio.

Dívidas

Agora vamos entrar em um tema que muita gente não gosta de falar, mas é perseguido o ano todo por esse assunto: as dívidas. Essas pendências financeiras tendem a se transformar em um bicho de sete cabeças pois somam-se a todos esses gastos que já citamos acima.

Sejam as parcelas de compras que fizemos ao longo do ano, ou então dívidas de crédito pessoal, cheque especial ou o rotativo do cartão de crédito, boa parte das famílias chega ao final de ano bem endividadas.

Segundo estudo divulgado pela Serasa Experian em outubro de 2017, o número de consumidores inadimplentes no país chegou a 61 milhões, 4,45% a mais do que em outubro de 2016, quando o número era de 58,4 milhões.

O ideal, sugere Carol Sandler, é que você não comprometa mais de 30% de seu salário com dívidas. “O que acontece é que muitos acabam comprometendo mais da metade do que ganham com essas parcelas”, conta ao Portal da Band.

Entre aqueles planejamentos que fazemos todo final de ano, quitar dívidas está entre os projetos futuros. “As pesquisas sempre mostram que, nessa época, a ideia é gastar o 13º, por exemplo, para sanar as dívidas. Mas aí chega fevereiro com levantamentos que revelam que a inadimplência subiu no mês de janeiro. Ou seja, a gente sabe o que é certo fazer, mas acaba não fazendo”, explica Carol Sandler.

O professor Ricardo Teixeira complementa e ressalta que a questão é sempre de planejamento. “Quando receber o 13º, tente sanar as dívidas que possuem uma taxa maior de juros. Se não conseguir pagar todas, quite o que der e procure um crédito pessoal mais barato. Para quem não recebe 13º, ou não consegue usar esse valor extra para isso, é possível fazer a portabilidade da dívida para um outro banco que ofereça uma solução melhor.”

Reserva para imprevistos

Até o momento falamos de gastos que sabemos que vamos ter, mas ninguém tem o dom de prever o futuro, não é mesmo? Infelizmente, imprevistos acontecem e muitas vezes nos momentos mais importunos.

É por isso que guardar dinheiro é fundamental; ainda assim, somente 62% dos brasileiros fazem isso, de acordo com um levantamento feito pela SPC Brasil e CNDL este ano. Mas, assim como equilibrar gastos, contas e dívidas, poupar também não tem uma fórmula mágica. Uma das dicas de Carol Sandler é tirar o dinheiro da frente de seus olhos, ou melhor, de perto do seu bolso.

“Se você não pode comprometer uma parte significativa do seu salário, comece com uma meta modesta. Pegue 5% do seu salário e já tire da conta corrente, jogue na poupança ou aplique em um fundo, no Tesouro Direto ou então compre um título. Dessa forma, você não poderá mais contar com aquele dinheiro, que ficará guardado e rendendo, e vai aprender a viver com um pouco menos.”

A especialista garante ainda que poupar e aprender a viver sem aquela porcentagem pequena de seu salário é uma questão de costume e te permite sair da “vulnerabilidade e dependência” que algumas vezes o dinheiro causa, principalmente quando um encanamento estourar ou se o carro quebrar, por exemplo.

Gerando uma renda extra


No entanto, há meses que não tem jeito. Não dá para guardar dinheiro ou então a quantia dos juros que renderam do fundo que você aplicou não está sendo suficiente. Nessas horas, é sempre interessante pensar em alguma atividade que possa render uma graninha a mais.

Final de ano, por exemplo, é uma época boa para quem tem talento na cozinha preparar quitutes natalinos para vender na empresa ou na vizinhança. Neste vídeo, a especialista Carol Sandler dá ainda outras dicas:


A verdade é que ninguém gosta de viver uma vida de restrições e muitas coisas de boa qualidade custam mais caro. Sem planejamento financeiro, porém, fica difícil arcar com o básico para viver, quem dirá atingir metas pessoais ou nos proporcionar “pequenos agrados” vez ou outra?

“Entre as resoluções que pensamos no final de ano, o melhor a se fazer é começar a cuidar do dinheiro de forma saudável. Passamos o ano cuidando de muita coisa: corpo, saúde, família, mas nem sempre do bolso, e isso deve ser um hábito tão natural quanto usar o fio dental. Tem que ter cuidado, controle e real dimensão de seu valor: nem supervalorizá-lo, porque aí viveremos em uma neurose de que ele nunca é suficiente, e também não subestimá-lo, senão fica impossível realizar nossos sonhos”, recomenda Sandler.

E lembre-se: final de ano também é época de curtir. Sem isso, o cansaço e o estresse podem acarretar problemas de saúde, que mais para frente também vão mexer com as nossas finanças; em resumo, aproveitar sabendo gastar com consciência é um bom investimento em nós mesmos.

(Karen Lemos - Portal da Band)