sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Instalação artística analisa a censura da Ditadura Militar com as pornochanchadas

Cena censurada do filme "Bonitas e Gostosas" (Divulgação/MIS)

Até o dia 27 de março, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) apresenta a instalação artística Prazeres Proibidos, na qual o espectador é apresentado à curiosa e inesperada relação entre a pornochanchada - gênero do cinema brasileiro que explorou o erotismo, a comédia e as piadas populares - e a Ditadura Militar (1964-1985).

“A pornochanchada é completamente contemporânea da Ditadura. O AI-5 foi decretado em 1968 e, em 1969, as primeiras produções desse cinema começaram a surgir”, conta a cineasta Fernanda Pessoa, responsável pela pesquisa, ao Portal da Band.

O fato de essa relação ser tão contraditória foi o que atraiu a cineasta para o assunto. “Queria saber como isso foi possível e acho que o que responde essa pergunta é o fato de que os gêneros de cinema anteriores, o Cinema Novo e o Cinema Marginal, não condiziam com o Brasil que os militares queriam mostrar.”

Os primórdios da pornochanchada, lembra Fernanda, eram quase como uma propaganda de um Brasil mais agradável. “Os primeiros filmes eram bem inocentes, na verdade. Pareciam mais com as chanchadas da década de 1950. Tudo era leve, não tinha nudez, no máximo algumas piadas, e o brasileiro era retratado como um bon vivant. Isso tudo fez muito sucesso e, aos poucos, os cineastas foram investindo nessa linguagem que funcionava muito bem.”

Com essa carta na manga, os diretores da época puderam trabalhar com mais liberdade – diferente de seus colegas do Cinema Novo e do Cinema Marginal, perseguidos pela Ditadura. Dessa forma, os roteiros começaram a ficar mais, digamos, picantes. “Pouco a pouco eles [cineastas] foram puxando os limites para ver até onde poderiam ir. Gradualmente, começou a surgir um peito, depois dois, na sequência uma simulação de sexo. Ao mesmo tempo, o público ia respondendo muito bem àquilo e, quanto mais davam, mais o espectador queria”, afirma Fernanda.

Censura 

Pode parecer mentira, mas a pornochanchada foi, sim, alvo da censura dos militares. “As pessoas pensam mais na censura política, mas também existia uma censura moral. O que poderia confundir o que a Ditadura chamava de 'valores dos cidadãos brasileiros' era censurado”, diz Fernanda. O filme “Bonitas e Gostosas”, por exemplo, teve uma cena cortada por mostrar um homem vestido como mulher "fazendo movimentos eróticos" com outro personagem. “Até existiam personagens homossexuais nos filmes, o que não poderia haver era alguma atividade entre eles”, explica.

Muitos filmes da pornochanchada foram barrados pelos militares e impedidos de serem exibidos, principalmente na época do auge da repressão. “Quase todos os filmes passaram por algum perrengue. Era um processo bem burocrático e alguns cineastas usavam certos truques para que suas produções passassem. Era comum que cenas muito ousadas fossem gravadas para servir como moeda de troca. Eles sabiam o que seria cortado, então, usavam isso para que as cenas que eles queriam no filme fossem liberadas”.

Assim como compositores da MPB, que faziam jogo de palavras – como, a título de exemplo, a letra de “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil - os diretores de cinema tinham seus métodos. “Um meio de burlar a censura também foi encontrado com uma linguagem cinematográfica chamada voice-out. Funcionava assim: quando uma palavra, normalmente um palavrão, era censurado, os diretores cortavam o áudio, mas mantinham as imagens. Dessa forma, o público conseguia entender o que era dito através da leitura labial; era perceptível, também, que ali havia uma censura, porque não tinha som. Era uma tiração de sarro da parte dos cineastas, que queriam mostrar o quanto aquilo tudo era ridículo”, observa.

Pornopolítico 

Alguns filmes, principalmente os produzidos em São Paulo, conseguiam burlar tão bem a censura que até alguns temas impensáveis eram exibidos nos cinemas brasileiros. É o caso de “E agora José? Tortura do Sexo”, que traz um personagem cuja amizade com um sujeito considerado subversivo para os militares o faz ser perseguido e preso.

“É um filme de 79, não era o auge da repressão da Ditadura, mas, mesmo assim, é impressionante como o filme trabalha com temas bem politizados. Tem até uma cena de tortura praticado por um grupo de militares. Esse tipo de produção ganhou até um subgênero na época, o pornopolítico, porque também continha cenas eróticas com as mulheres presas”, pontua Fernanda.

Outro filme que exemplifica bem esse paradoxo é “O Enterro da Cafetina”. Anos antes do decreto do AI-5, em 1971, Jece Valadão produziu a obra e a estrelou, na pele de um personagem que é convencido a ingressar na guerrilha urbana, chegando a praticar atos de terrorismo da época como jogar um coquetel molotov na casa de um deputado. “O personagem do Valadão ainda fala sobre golpe militar, dizendo que o presidente foi deposto. O filme sofreu censura, mas no que diz respeito ao personagem de um delegado, que é retratado de uma forma bem ridícula”, recorda.

Pesquisa 

Em uma pesquisa que já dura quatro anos, Fernanda Pessoa analisou centenas de documentos e mais de 150 filmes da época, principalmente da década de 1970. Tal levantamento não foi tarefa fácil. “Os próprios filmes são difíceis de achar. Fiz uma lista de filmes com os quais queria trabalhar e tive acesso a 50% apenas. Muitas dessas obras foram perdidas”, conta a cineasta.

Já com relação às cenas censuradas, Fernanda diz que algumas produções foram liberadas, anos depois, em versão integral. “Outras consegui porque, na época da Ditadura, eles não cortavam o filme do original, normalmente era uma cópia”, explica.

Na pesquisa, ela também conseguiu ter acesso a documentos em que os censores detalhavam quais cenas seriam impedidas de serem exibidas nos cinemas. “Com essa lista em mãos, comecei a analisar os trechos cortados para tentar entender a cabeça dos censores.”

As cenas proibidas, bem como arquivos da Ditadura, estão expostas em um dos ambientes da instalação. No primeiro deles, o visitante se depara com um projetor 35mm que roda em falso projetando apenas a sua luz, sem nenhuma imagem. Em seguida, a artista apresenta um corredor com uma seleção de documentos oficiais da censura. No terceiro e maior dos ambientes encontra-se uma sala de projeção digital onde é exibido um vídeo em seis telas montado apenas com trechos de filmes que foram cortados a pedido dos censores.

A exposição surgiu como um desdobramento do primeiro longa-metragem de Fernanda, “Histórias que nosso cinema (não) contava”, que faz uma releitura histórica dos anos 1970 a partir de imagens de filmes da pornochanchada e se encontra em fase de finalização. Em 2015, a cineasta e artista foi uma das selecionadas pela residência NECMIS, do MIS.

(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Cineastas querem documentar a tragédia de Mariana

 
Aline Lata/Divulgação

A história de Marlon e Ricardo, ambos com 21 anos, era desconhecida até o dia 5 de novembro de 2015. Daquele dia em diante, tudo mudou para eles e para os outros residentes de Mariana, em Minas Gerais, onde a mineração representa 80% da arrecadação do município. A dupla cresceu vendo Mariana estreitar laços com a mineradora Samarco, que sitiavam os moradores cada vez que adquiria terrenos ao redor de bairros da cidade.

A vida tranquila dos munícipes virou notícia naquele mesmo dia, quando uma barragem administrada pela Samarco se rompeu, jorrando um mar de lama pela cidade, destruindo completamente distritos - como Bento Rodrigues, onde moravam - matando 17 pessoas e dizimando a fauna e a flora da região.

Hoje, Ricardo mora com mais oito familiares em uma casa alugada pela mineradora. A mãe recebe um salário mínimo de R$ 788 e, por ser considerada a chefe da família, é a única do clã a receber o ordenado. Ricardo e o restante embolsam somente 20% desse valor: R$157,60.

Marlon, por sua vez, foi morar com a mãe a irmã na região ainda intacta de Mariana. A situação da família de Marlon é a mesma de Ricardo: somente a chefe da família, no caso a mãe, recebe um salário mínimo e os filhos apenas 20% desse montante.

Tendo que encarar a triste realidade que chegou através da mesma empresa que subsidiava o município, Marlon e Ricardo têm como garantia apenas duas coisas: lembranças de um passado enterrado na lama e a esperança de um futuro ainda incerto com a construção de uma nova Bento Rodrigues.

Helena Wolfenson/Divulgação

Rastro de Lama 

Doze dias depois, Aline Lata e Helena Wolfenson saíram de São Paulo e viajaram até Mariana, onde tiveram uma ideia da dimensão de destruição causada pela lama. Nesse ínterim, elas tiveram contatos com muitas das pessoas atingidas pela calamidade, como Marlon e Ricardo. Esses personagens acabaram inspirando-as para realizar um documentário sobre a tragédia.

Os rapazes, que dão rosto ao maior desastre ambiental do país, são os protagonistas do documentário “Rastro de Lama”, que ainda está em processo de produção. Para finalizar a obra, as diretoras criaram um financiamento coletivo para possibilitar que o trabalho continue.

“A ideia é documentar do início ao fim o desfecho dessa catástrofe e os caminhos percorridos pelos personagens atingidos, desde a destruição de Bento Rodrigues até a prometida reconstrução de uma Nova Bento”, diz a página do projeto.

Bancada pela própria equipe e também por doações, a etapa de pesquisa de “Rastro de Lama” já foi concluída. Agora, Aline e Helena usarão os recursos captados para registrar mais profundamente a vida seus personagens; esse processo resultará um curta-metragem. Na terceira e última etapa, as diretoras farão um longa-metragem com o material através de editais de cinema.



(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 24 de janeiro de 2016

Artistas sírios recriam monumentos do país destruídos pelo Estado Islâmico

Christopher Herwig/UN Refugee Agency

Mais triste do que abandonar seu próprio país é ver a sua história sendo, aos poucos, apagada para sempre. Essa é a sensação que artistas de um campo de refugiados da Jordânia compartilham.

Como muitos sírios, eles tiveram que fugir de sua terra natal, imersa em uma sangrenta guerra civil que já dura mais de quatro anos; agora, eles se veem obrigados a assistir de longe o avanço do Estado Islâmico e o rastro de destruição que os jihadistas deixam pelo caminho.

Indignados, porém impotentes diante da devastação, o grupo decidiu usar as habilidades que possui para tentar manter viva a memória da Síria, cujos monumentos históricos estão em ruínas ou extintos devido à ação dos terroristas.

“Esses monumentos não representam apenas o passado de nosso país, também representam a história e a cultura da humanidade”, diz Mahmoud Hariri, artista que construiu o Templo de Bel - recentemente destruído pelo Estado Islâmico, em Palmira – com argila e espetos de madeira. “Muito do que sabemos sobre as antigas civilizações se deu devido à arte”, completa.

Christopher Herwig/UN Refugee Agency

Outros dos monumentos foram recriados dessa forma, com qualquer material que os artistas possam encontrar, como madeira, pedras e isopor, como o Krak dos Cavaleiros, em Homs, uma das cidades mais atingidas pela guerra civil síria.

Assim, o grupo espera que o trabalho chame a atenção do mundo para o que está acontecendo na Síria e ajude os refugiados que fogem de lá para salvar suas próprias vidas.

Outro artista do grupo, Ahmad Hariri também acredita que essas obras terão importância substancial para as crianças do campo de refugiados onde atualmente moram. “Muitas delas nunca tiveram a chance de ver a Síria, quanto mais de guardarem alguma memória do país”, lamenta.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Transexuais concluem o ensino básico e agora vislumbram universidade

Participantes do primeiro ano do programa Transcidadania (Wagner Origenes Nunes/Divulgação)

Quinze anos atrás, Marcela Monteiro foi praticamente expulsa da escola em que estudava. Os motivos não eram mau comportamento ou notas baixas. Transexual, Marcela foi ameaçada por um grupo de colegas que não aceitava sua presença no sistema de ensino.

“Os meninos do grupo disseram que iam colocar fogo em mim. Só me salvei porque um professor me colocou no porta-malas dele para que eu conseguisse fugir”, lembra.

Hoje, aos 34 anos, Marcela conseguiu voltar a estudar e vislumbra um novo horizonte em que é possível escolher uma profissão longe das ruas e da prostituição. "Meu sonho é ser assistente social", conta. Ela é uma das 100 transexuais que concluíram o primeiro ano do Transcidadania, programa da Prefeitura de São Paulo que oferece conclusão dos ensinos fundamental e médio, além de cursos como Mercado de Trabalho e Direitos Humanos.

“O programa fez com que nós voltássemos a nos enxergar com dignidade. Voltar para a escola é voltar a se sentir como uma cidadã e, automaticamente, mostrar para a sociedade que nós existimos e precisamos ser respeitadas”, relata.

Das participantes do primeiro ano do programa, 33 completaram o ensino fundamental e cinco, o ensino médio. Dessas cinco, duas obtiveram notas no Enem suficientes para ingressar em uma universidade através de programas como o Sisu e o ProUni.

“Isso é uma vitória se pensarmos que o Brasil é o país que mais mata travestis no mundo todo”, ressalta Alessandro Melchior, coordenador de Políticas LGBT da Prefeitura.

Wagner Origenes Nunes/Divulgação

Em 2016, o programa terá continuidade com mais 100 vagas para transexuais, além de uma bolsa no valor de R$ 910,00, permitindo que os participantes se dediquem exclusivamente aos estudos. “Muita gente criticou o programa, às vezes por ignorância, por não saber como é a vida dessas pessoas. O fato de abrirmos novas vagas é uma resposta à altura para essas críticas”, pontua o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

“Nosso objetivo é um dia não precisar mais de programas como esse. O dia em que isso acontecer, é porque temos uma sociedade onde qualquer pessoa pode frequentar a escola, assumir sua identidade e escolher sua profissão. Enquanto isso não ocorre, continuaremos com o Transcidadania”, compromete-se Haddad.

Os resultados positivos fizeram com que a iniciativa chegasse até outros municípios. Nesta semana, a Secretaria de Direitos Humanos de Minas Gerais anunciou um projeto voltado para as transexuais do Estado, e, segundo Eduardo Suplicy, é possível que o modelo atravesse fronteiras.

“Estive com o embaixador americano para direitos humanos da população LGBT, Randy Barry, durante sua visita ao Brasil. Ele se emocionou muito ao ouvir os depoimentos da população transexual, tanto que convidou nosso coordenador Alessandro Melchior para visitá-lo nos Estados Unidos e conversar sobre o programa”, celebra Suplicy, secretário de Direitos Humanos de São Paulo.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Movimento cria petição pedindo que mulheres possam descer fora do ponto de ônibus no período noturno

Pedro Ventura/Agência Brasília

O movimento “Vamos Juntas?”, que propõe que mulheres andem juntas na rua por segurança, quer levar ao Congresso Nacional uma proposta de lei permitindo que usuárias do transporte público possam descer fora dos pontos de ônibus após às 22h.

A intenção do coletivo é pegar a ideia, originalmente criada no Distrito Federal, já existente em âmbito municipal e expandi-la para todo o território brasileiro.

“A gente recebe muitas histórias, uma média de 100 por dia e, em algumas delas, mulheres de todo o Brasil – tanto de grandes como de pequenas cidades – relatam a insegurança que sentem quando o ponto de ônibus fica longe e elas precisam voltar de noite para casa”, conta Babi Souza, idealizadora do “Vamos Juntas?”, ao Portal da Band.

Diante desse cenário, o movimento está recolhendo assinaturas online em uma petição para dar peso à proposta que, posteriormente, será levada até algum parlamentar que abrace a ideia e proponha a pauta no Congresso.

A intenção é que uma lei como essa possa amparar mulheres que trabalham ou estudam à noite e ficam suscetíveis a crimes de violência de gênero, como aconteceu com a pernambucana Maria*, com 15 anos na época. “Sofri abuso sexual no percurso de uma festa para minha casa”, relata à reportagem.

“Eu estava sozinha, foi muito perto de onde eu moro, quase na minha esquina. Mesmo estando tão perto da minha casa, não estava imune ao que me aconteceu. Desço do ônibus a uns 150 metros da minha casa e na rua em que fui abusada não passa ônibus. Imagino que há tantas outras meninas que moram a uma ou duas quadras da parada de ônibus e precisam ir sozinhas, por trechos perigosos, para chegar às suas casas.” Para a vítima, fazer com que esse percurso seja o mais curto possível não custa nada. “Não há razões para alguém ser contra uma medida que só vai ajudar essas garotas e, também, suas famílias.”

Dados 

Segundo a ONU, sete em cada dez mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida. No Brasil, em 2014, ao menos 47.646 estupros foram registrados, o equivalente a um caso em cada 11 minutos. Dados da OMS e do IBGE colocaram o país na sétima posição do ranking mundial de assassinato de mulheres (4,4 homicídios em 100 mil mulheres), sendo o maior índice registrado entre mulheres de 18 anos.

“As principais vítimas são mesmo meninas jovens, que estudam, fazem cursinho, faculdade [no período noturno]; algum fato já aconteceu com a maioria delas no trajeto de volta para casa”, lembra Babi Souza, do “Vamos Juntas?”

Na proposta do movimento, também está inclusa a possibilidade de estender o benefício para os homens. “Mas a preocupação emergencial é com as mulheres, que são as que mais sofrem e temem a violência sexual”, esclarece.

Distrito Federal 

No dia 29 de março de 2014, o governo do Distrito Federal publicou um decreto estabelecendo que, após às 22h, mulheres poderão descer dos ônibus fora do ponto de parada. Empresas que não seguem a determinação estão sujeitas à multa.

O decreto não veio à toa. O último relatório disponível pela Secretaria de Segurança Pública do município mostra que, em agosto de 2013, foram registradas 79 ocorrências de estupro. O número, claro, é bem maior, já que muitas das vítimas não registram boletim de ocorrência.

O relatório também revela que o horário de maior frequência dos abusos é justamente no período da noite, que compreende das 18h às 23h59, concentrando 34,2% dos casos


“Não tivemos, desde que o decreto foi publicado, nenhuma reclamação de usuárias que sofreram abusos sexuais. Se não há reclamação, é porque a coisa está funcionando, acredito”, diz o diretor-geral do DFTrans, Léo Carlos Cruz, ao Portal da Band.

Cruz também alega não ter recebido nenhuma crítica dos usuários com relação ao benefício ser exclusivo para mulheres. De acordo com o diretor-geral, os ônibus do Distrito Federal circulam com informativos fixados sobre o decreto. Até o momento, segundo ele, nenhuma empresa foi multada por não ter cumprido com a nova determinação.

Questionado sobre o decreto ser ampliado e virar lei nacional, Cruz pondera. “Tenho receio de que, em algumas cidades, essa lei não pegue. Acho que o ideal é analisar a realidade de cada município e perceber a necessidade de implementar essa regra. Aqui, funciona muito bem”, pontua.

*Por questões de segurança, a vítima preferiu não se identificar. 

(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 13 de dezembro de 2015

Menina de nove anos doa livros no Minhocão

Divulgação

A cada quinze dias, a jovem Giovanna, de nove anos de idade, aproveita os domingos de Minhocão fechado, na região central de São Paulo, para dar um exemplo a ser seguido por todos.

Rodeada de livros, a menina convoca passantes – através de cartazes coloridos – a se aproximar e, caso queiram, levar alguma das obras literárias de presente para casa. “A única coisa que ela pede em troca é que essa pessoa, após a leitura, também passe o livro adiante”, diz Paulo Pampolin, pai de Giovanna, que narrou o início dessa história em conversa com o Portal da Band.

O pai, que sempre incentivou a leitura em Giovanna, lembra que o início do contato da filha com esse universo aconteceu logo nos primeiros meses de vida. “Quando comprei o primeiro livro, ela deveria ter uns cinco meses de vida”, recorda. “Era um livro desses de plásticos, só com figuras, para brincar durante o banho. Na medida em que minha filha foi crescendo, fui comprando outras obras de acordo com a idade dela; ela começou a se familiarizar com o formato e passou a pedir para que eu comprasse títulos que interessavam a ela”.

Não foi somente o incentivo à leitura, porém, que Giovanna herdou de seu pai. “Desde muito cedo, minha filha foi estimulada a doar tudo aquilo que não lhe servia mais. Sempre foi assim com roupa, calçado, brinquedo; o processo de doar livros, então, veio uma forma muito natural para ela”, explica.

Como a prateleira de Giovanna já estava lotada de livros que ela já tinha lido - e como ir ao Minhocão aos domingos já era uma prática entre pai e filha - os dois decidiram doar alguns títulos no elevado; a ação que já dura um ano. “No começo, as pessoas achavam que era alguma pegadinha, afinal, alguns dos livros que estávamos doando eram novos; muitos estranharam o fato de não precisarem pagar e ficaram desconfiados”, lembra Paulo. O espanto também surpreendeu Giovanna. “Ela não acha que está fazendo nada de mais. Eu, então, explico para ela que o mundo é difícil, tem muita coisa errada, e atitudes como a dela faz com que as pessoas fiquem admiradas”.

Com o tempo, alguns leitores de plantão começaram a deixar livros com a Giovanna, na intenção que ela doasse cada vez mais. Assim, o acervo da menina ficou cada vez mais diversificado. “Tem de tudo, viu? Tem romance, suspense, livros de fotografia – porque fui fotógrafo, de aventura, infanto-juvenil, poesia, de informática, autoajuda; tudo o que você imaginar tem”, conta Paulo.

Além de livros, a coleção de histórias curiosas de Giovanna também cresceu. “Essa ação nos fez testemunhar coisas bem interessantes, como um senhor que se emocionou ao ver um livro de escola que seu neto estava precisando para estudar e também uma senhora, de uns 60 anos, que nos contou que há 20 anos não lia mais nada. A atitude da minha filha a fez voltar a ter contato com os livros. Ela já nos visitou umas cinco vezes, sempre pegando e devolvendo os livros que já leu”.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Australiana contou ser transexual toda vez que encontrava com sua mãe - e a reação dela era incrível

Tina Healy ao lado de sua mãe (Foto: Arquivo pessoal)

Quando tinha quatro anos de idade, a australiana Tina Healy, hoje com 54 anos, tinha um sentimento de que era diferente. Ela não conseguia – e nem poderia – expressar o que estava sentindo. Era década de 1960 e pessoas como ela eram internadas e tratadas com terapias de choque. Tina aprendeu, então, a viver com um segredo enterrada dentro dela.

Anos se passaram; Tina se casou, teve filhos e chegou a de fato viver momentos de felicidade, mas sempre com algo engasgado na garganta. O passar do tempo só dificultou as coisas, até que um dia, apenas quatro anos atrás, Tina revelou que era transgênero e sempre se sentiu como uma mulher presa a um corpo masculino. Um corpo que nunca lhe pertenceu.

A primeira pessoa que soube disso foi sua esposa, Tess. Ela entendeu e incentivou o então marido a viver da forma com a qual sempre sonhou. O próximo passo foi contar a verdade para os quatro filhos do casal. Foi um choque, mas, segundo Tina, com os passar dos meses, eles foram compreendendo a situação e passaram a aceitar sua real identidade.

"Nunca me arrependi de me revelar e viver como Tina. Nem por um minuto. Foi muito difícil; perdi familiares, amigos, meu trabalho e até minha casa. Mas eu não mudaria nada do que eu fiz. Hoje eu vivo com uma sensação de alegria e felicidade. Acredito que sou a mulher transexual mais sortuda deste mundo", relatou Tina em conversa com o Portal da Band.

Relação com a mãe

O fato de Tina não conseguir compartilhar sua verdade para a mãe era um fardo muito grande para carregar. As duas sempre foram bem próximas e, segundo Tina, esconder algo tão importante dela era motivo de muita tristeza.

Quando a mãe de Tina começou a apresentar os primeiros estágios de demência, a australiana decidiu que era hora de falar a verdade. "Fui à casa de minha mãe como Chris (meu antigo nome masculino) e contei a ela, de forma bem simples, o que significava ser transgênero para mim. Ela fez algumas perguntas, sorriu e disse: 'Bom, quem diria, agora eu tenho uma nova filha'. Foi um momento muito bonito", recorda.

Tina sabia que, por conta da doença, sua mãe se esqueceria da conversa. E esqueceu mesmo. "Sempre que a visitava, precisava lembrá-la de quem eu havia me tornado. E toda vez ela dizia: 'É mesmo! Você está feliz? Você é linda', sorria e me abraçava."

O tempo foi avançando, assim como a doença de sua mãe. "A demência chegou a um estágio em que ela não conseguia mais guardar nenhuma memória. Ela já não sabia mais quem eu era. Decidi, então, não contar mais nada. Foi mais fácil assim", diz Tina. "Hoje, eu devo minha vida e felicidade a essa mulher. Ela me mostrou o que é o verdadeiro amor incondicional: algo tão natural quanto respirar." 

Apresentando Teddy

As experiências de Tina não alegraram apenas a vida de sua mãe. Filha de Tina, Jessica Walton, de 31 anos, ficou inspirada em escrever um livro a partir do que viveu com a aceitação de sua mãe. Assim, surgiu "Introducing Teddy" ("Apresentando Teddy"), a história de um ursinho de pelúcia transexual.

“Escrevi esse livro porque queria uma história com personagens transexuais na estante do meu filho”, contou Jessica à reportagem. “Gostaria de algo que eu pudesse ler para ele agora, aos 18 meses de vida. Algo doce sobre ser você mesmo e ser um bom amigo. Nunca encontrei um livro assim, então decidi escrevê-lo.”

 Tina em dois momentos em família: com a filha Jessica e com seu neto (Foto: Arquivo pessoal)

"Quando Jessica me mostrou os primeiros rascunhos do livro, preciso confessar, derramei algumas lágrimas de felicidade", lembra Tina. A ideia é que o livro chegue até às famílias que queiram entender o que é ser transgênero e abraçar alguém assim que faz parte da vida delas.

"Mesmo Jessica não sendo transexual ela soube, de forma intuitiva, transmitir o que os transgêneros sentem em uma linda mensagem de amor. Acho que o fato de ela ter sido criada em uma família de cabeça tão aberta presenteou-a com esse talento", celebra Tina. "Vi em Jessica a mesma empatia e compaixão que encontrei em minha mãe. Acredito que minha mãe teria muito orgulho dela. Eu tenho", conclui.

 “Teddy sabe em seu coração que é uma garota e não um garoto. Seus amigos vão entender? Vão chamá-lo de Tilly ao invés de Thomas?” (Trecho de "Apresentando Teddy"; Ilustração de Dougal MacPherson)

(Karen Lemos - Portal da Band)