domingo, 21 de março de 2010

Com seis vitórias, “Guerra ao Terror” surpreende e domina Oscar 2010

Favorito, “Avatar” de James Cameron levou apenas três das nove indicações
















E deu zebra na 82ª edição dos prêmios “Oscars” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, realizado na madrugada deste domingo (7) para segunda-feira (8), em Los Angeles, Califórnia. Com vitória de lavada de “Guerra ao Terror”, da cineasta Kathryn Bigelow, a edição 2010 ficou dividida entre surpresas e prêmios já esperados.

Além de melhor filme, “Guerra ao Terror” trouxe o Oscar para sua realizadora, que entrou para a história da premiação como a primeira mulher vencedora desta categoria, ótimo pretexto de comemoração para o Dia das Mulheres.

“Avatar”, do cineasta James Cameron, o mesmo de “Titanic”, teve que se contentar com apenas três estatuetas (direção de arte, fotografia e melhor efeitos visuais) das nove que estava concorrendo.

Os prêmios de atuação não surpreenderam tanto. Jeff Bridges, como esperado, levou melhor ator por “Coração Louco”, assim como o vilão Christofer Waltz de “Bastardos Inglórios”.

Em uma das principais disputas da noite, Sandra Bullock e Meryl Streep se ‘enfrentaram’ e dividiram opiniões até o último segundo, quando Bullock foi premiada por seu trabalho em “Um Sonho Possível”. Na categoria atriz coadjuvante Mo’Nique, favorita, venceu com seu primeiro papel para o cinema.

Contrariando as expectativas, o alemão “A Fita Branca”, já tido como vencedor, desapontou, e deixou a estatueta para o argentino “O Segredo do seus Olhos”. O prêmio de animação, porém, não surpreendeu. O inteligente “Up! – Altas Aventuras” levou, como todos nós já sabíamos. Confira outros detalhes da grande festa do cinema.

O grande vencedor

O termo que designa os “azarões”, em disputas como o Oscar, não pode ser totalmente atribuído ao filme dirigido por Kathryn Bigelow, afinal, sua vitória já era parcialmente esperada.

A rotina perigosa dos desarmadores de bombas, utilizando o conflito no Iraque como pano de fundo da trama, já havia acumulado boa parte dos prêmios durante a temporada das chamadas premiações Pré-Oscar: Globo de Ouro, Independent Spirt Awards , Bafta da Inglaterra e o SAG, do sindicado dos atores, são alguns exemplos.
















Bigelow com os apresentadores da noite: Alec Baldwin e Steve Martin

Foram com 16 troféus contra nove de “Avatar” em premiações diversas e festivais de cinema. Mas, para ter nas mãos o principal prêmio de todos, “Guerra...” teria que explodir um forte candidato. E não foi fácil. Avatar era o atual recordista de bilheteria no mundo, e também concorria com nove indicações nas categorias do Oscar 2010.

Ficções cientificas como ‘Avatar’ não costumam a saírem vencedora dos eventos da Academia (Vale destacar os megas sucessos de bilheteria “Star Wars”, de George Lucas e “ET”, de Steven Spielberg – indicados e não-premiados). Mas os números, até então, estavam a seu favor.

Em comparação, “Avatar” já faturou mais de US$ 700 milhões (cerca de R$ 1.250 milhões) somente nos Estados Unidos, enquanto que “Guerra ao Terror”, nas mesmas análises, arrecadou “apenas” US$ 12,6 milhões (aproximadamente R$ 22,460 milhões) para as bilheterias norte-americanas. Apesar da diferença, a soma não é nada mal para o filme de Bigelow, que foi realizado com pouco orçamento.

Além de filme e direção, “Guerra...” também venceu melhor roteiro original, melhor edição de som, melhor mixagem de som e melhor montagem.

Assistida pelo ex-marido James Cameron, sentado na plateia, Bigelow dedicou seu prêmio as “mulheres e homens militares que arriscam vidas diariamente, no Afeganistão e no mundo inteiro”, e ainda desejou que “pudessem voltar para casa são e salvos”.

Batalha dos atores
Sandra Bullock definitivamente foi o destaque. Após seus 20 anos de carreira, recheado de comédias românticas e sem nenhum reconhecimento, a atriz levou a melhor por “Um Sonho Possível”, derrotando veteranas como Helen Mirren e Meryl Streep.

Ironicamente, a premiação do Framboesa de Ouro (os piores do Oscar, que ocorre às vésperas da grande noite do Oscar) “agraciou” Bullock com o título de pior atriz por seu trabalho em "Maluca paixão", o qual também produziu.














Bullock e Bridges com a estatueta dourada

No palco do Oscar, Bullock muito emocionada agradeceu, primeiramente, a Academia por “dado a oportunidade de viver uma vida maravilhosa nestes últimos meses”. Sempre brincalhona, ela não deixou de fazer piada acerca da acirrada disputada com Streep.”Você beija muito bem!”, disse, relembrando o momento de empate na premiação do Critics’ Choice, que acabou em selinho entre as duas intérpretes.

O resultado foi que Meryl Streep não precisou receber a estatueta para sair ‘vencedora’ do evento. Interpretando a famosa apresentadora de programa culinário Julia Child”, Streep atingiu 16 indicações ao Oscar (ganhou duas vezes). Um recorde na história da premiação já que Katharine Hepburn, que detinha a marca anterior, somou 12 indicações.

Despontando como favorito, o ator Jeff Bridges “abocanhou” todos os prêmios da temporada 2010, quase não deixando dúvidas sobre sua vitória final. Por seu cantor de country alcoólatra e decadente de “Coração Louco”, Bridges recebeu sua [primeira] estatueta dourada, confirmando seu favoritismo. O ator foi aplaudido de pé, e agradeceu os membros da Academia assim que subiu no palco, e também aos parceiros da produção.

Na categoria melhor ator, nada de extraordinário. Christoph Waltz, merecidíssimo na pele do impiedoso nazista Hans Landa, em “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, levou. Como era esperado, Waltz trouxe a única estatueta para a produção sangrenta - do que jeito que Tarantino gosta, e que tem como protagonista o galã brad Pitt.

O Globo de Ouro, o Independent Spirit Award e o Bafta já haviam premiado Mo'Nique por seu trabalho no longa-metragem “Preciosa”. Nada mais justo do que um repeteco no Oscar.
















Waltz premiado pelo vilão Hans Landa de "Bastardos Inglórios"

Em seu primeiro trabalho como atriz, Mo’Nique, que é conhecida nos Estados Unidos como apresentadora de televisão, impressionou a crítica com sua personagem forte: uma mãe rigorosa com a filha traumatizada por abusos sexuais.

Demais premiados

Outra categoria que é bem esperada na premiação é o de melhor filme estrangeiro, que neste ano foi surpreendente. Contrariando todas as apostas, O favorito – o alemão “A Fita Branca”, de Michael Haneke - deu vez a produção argentina “O Segredo do seus Olhos”, de Juan José Campanella.

“Up! – Altas Aventuras” correspondeu às expectativas e levou o prêmio de melhor animação. Assim como melhor figurino para o filme de época “The Young Victoria”, ainda sem lançamento no Brasil, que confirmou seu favoritismo.

“Preciosa” levou melhor roteiro adaptado, indo contra apostas de alguns críticos que cantavam vitória para “Amor sem Escalas”, de Jason Reitman (roteirista de “Juno”).

Para melhor canção original, que neste ano não contou com os números musicais no palco na tentativa de encurtar tempo de exibição, levou “The Weary Kind" de “Coração Louco”.

“The Cove”, sobre ativistas contra caça de golfinhos no Japão, ganhou como melhor documentário.
















Equipe de "The Cove", vencedor de melhor documentário

Entre as atrações teve homenagem a John Hugers, que faleceu em agosto de 2009, roteirista/diretor de clássicos cinematográficos da década de 80 como “Curtindo a Vida Adoidado”, “Clube dos Cinco” e “Esqueceram de Mim”. A celebração teve direito a Macaulay Culkin, que andava sumido no mundo dos famosos, presente no palco.

Como acontece todo ano, a Academia ainda lembrou das personalidades que contribuíram para o mundo da sétima arte, e que nos deixaram esse ano. No telão foram homenageados artistas Patrick Swayse, David Carradine, Brittany Murphy, entre outros.

(Karen Lemos - Famosidades/MSN)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Retrato de uma rua descarada

Exposição na Escola São Paulo celebra aniversário da cidade com raio-X da Augusta















O mapa exposto na parede traça o caminho que vai desde a rua Martins Fontes até a Estados Unidos. A trilha já é bem conhecida pela maioria dos paulistanos, que recebem de presente, em comemoração ao aniversário da metrópole, uma visão criativa e sedutora de uma personagem que, se não fosse por sua existência, São Paulo seria parcialmente diversificada, como é da forma que conhecemos hoje.

Através de fragmentos da realidade urbana vivida na Rua Augusta, a exposição “2346”, em cartaz até o mês de abril na Escola São Paulo, traz à tona alguns mistérios que permeiam o universo habitado por todo tipo de gente. As disparidades, que tanto atraem os paulistanos e turistas - que chegam de todos os cantos imagináveis, viraram tema de análise.

O recorte da região foi feito todo pensado artisticamente, e envolveu recursos como instalações de vídeos, depoimentos em áudio, e fotos impressas com momentos dos frequentadores e suas experiências vividas ao extremo.

“A escolha da rua acontece, principalmente, por seus contrastes, que acabam servindo como uma amostra da enorme diversidade presente em São Paulo. Além disso, a Augusta permite enxergar nuances e diferenças que nem sempre os moradores da cidade percebem”, explica o grupo LAT-23, formado pelos artistas Cláudio Bueno, Denise Agassi, Marcus Bastos e Nacho Durán.

Algumas dessas nuances citadas pelo grupo, aparecem como pequenas representações da rua. Para ficarmos em um só exemplo, vale destacar as diferenças socioeconômicas encontradas a poucos metros de distância ao longo da Augusta. Em uma loja refinada no bairro Jardins, um relógio de marca pode chegar a custar R$ 12.000 mil, enquanto que, na mesma calçada, em direção ao centro da cidade, o objeto na versão genérica pode ser adquirido por cerca de 15,00 reais.

Rua sem face

A pretensão do grupo, no entanto, não é definir um rosto para a rua. Assim como a cidade que a abriga, a rua é tão diversa, que chega a ser impossível encontrar um elemento único que a represente. Apenas uma das muitas facetas de São Paulo, a Augusta torna-se, nas palavras dos artistas, uma rua “descarada”.

“Se o nosso mapa, assumidamente, não dá conta nem das nuances da Rua Augusta, qualquer sugestão de representação de uma metrópole, seria inútil”, esclarecem.

Pensando dessa forma, porém, podemos afirmar justamente o contrário: que a Augusta seria, na verdade, um espaço de muitas faces, desde que se questione o que seria da Augusta sem a existência das inúmeras pessoas que por ela passam, fazem histórias acontecerem, e ajudam na construção de sua emblemática imagem – que agora virou tema de exposição.
















“Claro que o papel dos moradores é sempre importante para pensar uma rua, mas no caso de uma rua pública, como é a Augusta, a dimensão social, coletiva, o comércio, o lazer, os fluxos, enfim, toda essa gama de manifestações acaba interferindo na forma de olhar para aquele espaço”, conta o grupo.

Outro ponto ressaltado pelos artistas como um possível atrativo de paulistanos para a Augusta, diz respeito à revitalização que a rua passou nos últimos anos, seduzindo populares de todos os gostos e tipos. Para reforçar a ideia, o grupo citou a questão, levantada por Ale Youssef - sócio da casa noturna Studio SP (que vara madrugadas apinhada de gente) localizada, obviamente, na Augusta - de que a rua seria o exemplo de crescimento urbano através de iniciativas da própria comunidade local.

“Também é um lugar que ganhou uma importância recente por ter se transformado em um exemplo espontâneo de reurbanização da cidade”, complementam os expositores.

Coleta de dados

Em cerca de um mês, foram coletadas diversas informações sobre o universo urbano da Rua Augusta. No decorrer da pesquisa, o grupo fez registros da região em fotos e gravações de vídeo, além de terem conversado com os muitos frequentadores do espaço, em busca de boas histórias.

“Fizemos expedições pela região, conversamos com pessoas na rua, fomos a delegacias, hotéis e bares”, conta o grupo que, durante o processo, realizou o mapeamento de dados, através de um aparelho GPS, para cartografar o espaço.

“O processo foi um pouco parecido com o de fazer um documentário, com a diferença importante que o material coletado não tinha como destino um todo fechado”, definem os artistas.

O resultado se deu em um conjunto de fragmentos da Augusta, por vezes na forma impressa, como em fotos e artes gráficas, ou visual, a exemplo das instalações audiovisuais presentes na exposição.

A funcionária Débora, que trabalha na recepção da Escola São Paulo, achou diferente e interessante a exposição em seu ambiente de trabalho. Uma das obras, um retrato da violência e da loucura - muito presente na realidade da Augusta, despertou seu interesse.
















"Essa foto, em particular, me chamou atenção”, disse, apontando para um retrato de uma perna tatuada com o desenho de um revólver, batizado de “Tiros e engarrafamentos”. Abaixo da imagem, palavras juntapostas (dando a ideia de continuidade) revelam uma, das tantas histórias que foram testemunhadas pela rua. “Quando você lê o texto, dá para imaginar a pessoa falando tudo isso, achei incrível”.

Para se chegar no resultado que tanto agradou Débora, o LAT-23 trabalhou em cima de um leque de opções para compor as obras da exposição, como lâminas de papel, adesivos, e claro, muita análise e criatividade.

“Cada elemento utilizado dizia respeito à forma e à mídia que consideramos mais adequada para contar aquela parte da história”, complementam os integrantes do LAT-23.

Mapeamento Online

Um dos atrativos da exposição – e também do grupo – é o conceito artístico através do mapeamento digital. A ideia mistura pesquisa de campo de um determinado lugar, feita através do registro de coordenadas geográficas e coleta de dados da região, com as artes plásticas que resultam em obras para a exposição.

Esse tipo de intervenção tornou-se comum após o advento de ferramentas digitais que captam informações de satélites para dar dimensão ao espaço físico habitado por nós aqui na Terra. Exemplos dessas ferramentas podem ser encontradas no serviço do Google Maps, e no cada vez mais popular GPS, parceiro inseparável de motoristas de grandes cidades (como São Paulo).

“2346” completa uma trilogia de mapeamento online iniciada pelo grupo com “Coexistências”, projeto gráfico em que os artistas fizeram uso da bandeira da Palestina, sobrepondo-a em uma representação virtual de Higienópolis, bairro tipicamente judeu da capital paulistana.

Outro espaço da metrópole também virou alvo da criatividade do grupo em “Kandinsky by Perdizes”. Como o próprio nome já diz, a exposição trazia o bairro de Perdizes, zona oeste da capital, sob o manto simbólico do quadro Composition VIII, do pintor russo do século XX Wassily Kandinsky.

O conjunto dessas obras tenta buscar, nas palavras do LAT-23, diversos pontos de vista sobre a cidade de São Paulo. Compostas artisticamente pela cartografia abstrata, as representações dos bairros destacam não apenas a diversidade local, mas também formam um retrato de seus habitantes.
“Ao contrário de uma resposta concisa sobre a cidade, o público vai se deparar com fragmentos. Talvez estes fragmentos o façam se sentir ainda mais pertencente a esta realidade ou, poderá lhe causar estranhamento diante de um lugar novo. São Paulo é assim mesmo, maior do que ela própria”, finalizam os expositores.

Confira algumas curiosidades da Augusta, reunidas em “2346”:

- 3 litros de cachaça por dia em uma esquina de bar

- 57 camisinhas por noite em um hotel de segunda categoria

- 30 maços de cigarro vendidos por dia em uma banca de jornal

- 804 ocorrências de furto entre os meses de janeiro e maio de 2009


“2346” - Grupo LAT-23
De 25 de janeiro a 1º de Abril
Segunda à sexta das 9h às 20h / Sábados: das 9h às 18h
Escola São Paulo
R. Augusta, 2239 – São Paulo / SP
Tel. 11 3060.3636
info@esccolasaopaulo.org

(Por Karen Lemos - O Estado RJ)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Carnaval para se curtir dentro do cinema















"O Mistério do Samba"

Para quem gosta de Carnaval, mas não tem o samba no pé, é possível aproveitar esta ocasião mais do que brasileira sem estar na avenida dos sambódromos. Voltado para os amantes dessa arte e cinéfilos de plantão, o cinema da Galeria Olido, no Centro da cidade de São Paulo, oferece um cardápio cinematográfico recheado com obras que têm em comum a temática da festa popular.

Entre os dias 19 a 31 de janeiro, o Cine Olido abre alas para a exposição “O Samba Pede Passagem”, que reúne uma programação diversificada. Ao todo, são 25 produções entre longas-metragens e curtas-metragens de ficção, além de documentários sobre a data e seus principais representantes (como célebres sambistas e compositores), registros de shows, e filmes que relembram a época do carnaval de rua – conhecidos como as chanchadas.

A mostra, que já está em sua segunda edição, tem como principal objetivo “a descoberta de uma enciclopédia do samba dentro do cenário da cultura brasileira”, como define Alex Andrade, programador de cinema da Galeria Olido e curador da exposição. “A segunda edição surgiu da necessidade de exibir as obras que ficaram de fora da primeira, e que agora valeriam a pena serem mostradas. São muitos filmes, e existe uma dificuldade de incluir todos na programação. Precisei encontrar um recorte que tivesse uma proposta”, explica Alex. Mesmo assim, muita coisa ainda ficou de fora, o que já alimenta a ideia para uma terceira edição prevista para o ano que vem.

Entre os destaques estão obras como “O Mistério do Samba”, de 2008, um retrato da Velha Guarda da escola carioca Portela que surgiu como consequência de uma pesquisa da cantora Marisa Monte para repertório de um novo trabalho. Riquíssimo em material de arquivo, o filme traz Carolina Jabor (filha de Arnaldo Jabor) e Lula Buarque de Hollanda (sobrinho de Chico Buarque) nas rédeas da direção.

O roteiro ainda apresenta “Saravah”, que traz um registro cinematográfico de uma viagem ao Brasil do cineasta francês Pierre Barouh no ano de 1969. No Rio de Janeiro, o diretor gravou encontros marcantes com artistas nacionais como Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Baden Powell, entre outros.

O projeto para realização da mostra teve o apoio da ABBC (Associação das Bandas, Blocos e Cordões Carnavalescos do Município de São Paulo), que já há alguns anos está à frente de uma iniciativa cultural para resgatar a memória do Carnaval. “O tema da exposição foi sugerido por nós, e enviado para a Secretaria de Cultura. Mais do que uma mostra, ‘O Samba Pede Passagem” traz essa intenção de resgatar nossa memória, através de obras que falam das marchinhas e dos blocos de rua”, explica Zeca Dal Secco, presidente da Associação.

Falando em memória, os clássicos do cinema nacional também compõem a seleção. “Nem Sansão, Nem Dalila”, com Oscarito no elenco e direção de Carlos Manga, rodado no ano de 1954, se tornou um marco do cinema chanchada, original do Rio de Janeiro, elaboradas com tramas leves e muitos números musicais.

“Todos apresentam o samba como elemento narrativo. Temos comédias da década de 50, por exemplo, que não necessariamente têm o samba como assunto principal, mas as canções passam - atravessam os filmes de uma maneira importante, com os números musicais que funcionam quase como personagens na trama”, complementa Alex.














O compositor Cartola, um dos homenageados na mostra

Cinebiografias e documentários

Os documentários musicais, inclusive, são exemplos desta ideia exposta pelo curador. “Cartola - Música para os Olhos”, retrato cinebiográfico de um dos principais compositores do gênero, não necessariamente trata do Carnaval em si, mas diz respeito a um de seus principais representantes.

“Paulinho da Viola, Meu Tempo é Hoje”, sobre o cantor e compositor homônimo, acompanha de perto sua rotina musical, atrelada com o universo do samba. “As biografias são importantes para conhecer o samba através de seus principais personagens, e entender a trajetória de vida de alguns sambistas, muitos de origem humilde, e como eles chegaram até às telas”, conta Alex.

A programação de curtas-metragens também é especial. “Nelson Sargento”, sobre o sambista da mangueira, e “Com que Roupa eu vou”, mostram facetas de dois artistas do gênero, sendo que este último - sobre o compositor Noel Rosa – traz em seu enfoque uma das canções mais conhecidas do autor da década de 30. Para complementar, a mostra exibe “Noel – Poeta da Vila”, de Ricardo van Steen, longa de ficção sobre a vida e obra de Noel.















Rafael Raposo vive o poeta Noel Rosa

A importância do resgate cultural

Uma das intenções de Alex Andrade foi buscar na memória da cultura brasileira pérolas do cinema nacional que fossem contundentes com o tema da mostra. Durante o processo, o curador se deparou com raridades, e colocou-as de volta ao panorama das telonas.

“Quarenta por cento desses filmes nunca entraram em cartaz. Alguns até foram exibidos em festivais de cinema, mesmo assim foi pouco. Há obras nessa exposição, por exemplo, que ficaram de fora até mesmo dos circuitos de cine-clubes”, conta.

É o caso de “A lira do delírio”, dirigido por Walter Lima Jr. A produção faz uso de elementos documentais para apresentar uma ficção sobre um bloco de carnaval de rua. O presidente da ABBC, Zeca Dal Secco, acredita que esse tipo de obra traça um cenário de evolução do samba. "Quando se fala em carnaval, estamos exibindo um retrato da nossa sociedade. Essas manifestações também representam a transformação. O carnaval que vemos hoje é uma consequência de todos esses momentos - as marchinhas, o carnaval de rua – que chegaram até hoje, com os desfiles nos sambódromos”, explica.
















Cena de "Diário de Naná"

Outras produções que Alex Andrade, programador da Cine Olido, destaca são “Assim era a Atlântida”, sobre a produtora de filmes que lançou boa parte das chanchadas durante a década de 50, e “Diário de Naná”, que mostra a busca da percursionista Naná Vasconcelos à procura de diferentes batidas e ritmos durante uma viagem pelo Brasil afora.

“O samba, durante muito tempo, teve um perfil marginal dentro da sociedade. Recentemente, isso tem mudado, podendo até levar as pessoas ao cinema para assistir a uma exposição sobre o tema – e é o que tem acontecido”, esclarece Alex.

(Karen Lemos - O Estado RJ)

“O Samba Pede Passagem”
De 19 até 31 de janeiro
Cine Olido - Galeria Olido.
Av. São João, 473. Centro de São Paulo
Tel.: 3331-8399
Ingressos a R$1

Finalmente...a música















No palco para celebrar a música, Alzira E. e Ney Matogrosso, dois artistas sul mato-grossenses com muita coisa em comum, recordaram momentos especiais divididos pela dupla - ao longo da trajetória artística - agora reunidos em show realizado entre os dias 20 e 21 de janeiro, para uma plateia lotada no SESC Pinheiros, em São Paulo.

“Já conhecia Alzira há muitos anos. Sempre estou de olho no repertório dela, tenho comigo vários discos que, às vezes, dou uma olhada e uso no meu trabalho. Esse show foi toda uma síntese da nossa história, era um encontro inevitável”, definiu Ney Matogrosso.

O “encontro inevitável” não apenas relembrou a parceria de muitos anos, mas também reforçou os laços de uma carreira conjunta, repleta de admiração e respeito de trabalho mútuo, simbolizada na canção “Finalmente” que, não por acaso, batizou o espetáculo.

“É o nome que escolhi para o show porque eu já sonhava com esse encontro, então ficou bem adequado: ‘Finalmente’ isso aconteceu. A música em parceria com o Itamar [Assumpção, que colaborou em boa parte das composições de Alzira] é especial por isso, relata esse encontro”, explicou Alzira.

O percurso, para Alzira, foi mais do que natural. Há dez anos Ney gravou “Bomba H” no álbum “Olhos de Farol” (registrado no ano 1999), dando início a uma contribuição artística entre o cantor e a compositora. “De lá para cá existia essa possibilidade de - um dia – nos encontrarmos em cima do palco. E acho até que demorou bastante”, riu Alzira.

De fato, dez anos parecem se arrastar no relógio, mas foi o tempo suficiente para criar laços artísticos entre as duas estrelas, que construíram uma história de parcerias para serem relembradas no show. Desde o ponto de partida - “Bomba H”, o intérprete veio gravando composições de Alzira contundentes com seu trabalho musical.

Em 2004, para o álbum “Vagabundo”, juntamente com o grupo Pedro Luís e a Parede, Ney Matogrosso registrou em estúdio “Transpiração”, e a já citada “Finalmente”, que até então nunca havia cantado ao vivo. Para “Inclassificáveis”, disco de 2008, o cantor incluiu “Coisas da Vida” – outra parceria de Alzira com Itamar – no repertório, reforçando a intimidade de Ney com as letras da compositora.

Essas canções, obviamente, não poderiam faltar no encontro. Mas, para selecionar todo o roteiro musical no espetáculo, Alzira e Ney não se limitaram as já conhecidas parcerias, e foram além. “De início eram umas 10 músicas”, conta Ney Matogrosso, que recebeu o convite e o set-list do show através do correio. “Eu falei [para Alzira]: ‘Olha, vamos aos poucos, verei até onde eu consigo’, porque as músicas eram cheias de ‘ciladas’, tinham uma complexidade”, explicou.















Crédito: Carol Mendonça

Ney se referiu a obras inéditas, nunca interpretadas por ele no palco, como “Mulher o Suficiente”, “Sei dos Caminhos”, “Ai, que Vontade”, e “Se eu Soubesse como”, canção que está prevista para entrar no novo disco produzido por Alzira para este ano.

“Ensaiei tudo na véspera, coisa que eu não faço nunca [Ney precisou abrir um espaço na turnê atual - “Beijo Bandido”, na qual estava totalmente envolvido, para ensaiar o repertório com Alzira]. Eu estava um pouco inseguro no primeiro dia, mas no segundo teve uma virada. Entrei mais garantido, e a platéia, que estava mais solta, também ajudou”, comentou o intérprete.

Com o roteiro definido, datas divulgadas, e o clima de sucesso pairando no ar, não foi nenhuma surpresa que as entradas para conferir esse encontro pra lá de especial tivessem sido vendidas em cerca de uma hora e meia. “Em meia hora, a parte de baixo da platéia já havia sido toda vendida”, detalhou uma funcionária da unidade Pinheiros do SESC.

É certo que celebrar um encontro com um nome de peso da música brasileira atrai um grande público. Alzira, sabendo disso, mergulhou de cabeça no projeto e deixou de lado, pelo menos por alguns instantes, as finalizações do seu novo álbum, que já está na reta final da produção.

“Eu não conhecia o trabalho da Alzira pessoalmente, e tive o prazer de ouvir suas músicas, que são verdadeiras poesias”, comenta a espectadora Márcia Hack, que segue o cantor desde 1983, e já teve oportunidade de conhecer o trabalho de outros músicos, devido a parcerias dos artistas com seu ídolo. “Ver os dois cantando juntos foi lindo. Quando Ney entrou no palco a plateia veio abaixo”, recorda.

O espetáculo também surpreendeu com canções inéditas de Alzira, que devem estar presentes em seu novo disco – “Pedindo a Palavra”. “Passou a existir um desafio gostoso de tocar essas músicas - estrear essas músicas no palco, e isso transformou aquele momento em uma coisa única”, explica Alzira.

“Pedindo a Palavra” traz um repertório recheado de criações de Alzira com o poeta Arruda. “Nosso Presente”, “Olhos de Chico Buarque” e “Beijos Longos” (interpretada ao lado de Ney), foram os destaques do roteiro do show, e fazem parte do novo disco, aguardado para chegar às lojas no mês de abril, prevê a cantora.

(Karen Lemos - O Estado RJ)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

“Globo de Ouro”: Avatar é o grande vencedor da noite













A aventura futurística “Avatar” correspondeu às apostas dos críticos de cinema e levou o prêmio de melhor filme na 67ª edição do “Globo de Ouro”, evento que elege os melhores do ano no cinema e na televisão, realizado na noite do domingo (17), em Los Angeles.

O diretor James Cameron, de “Titanic”, já havia levado o prêmio de melhor direção momentos antes, aumentando as chances de também vencer a principal categoria da noite.

Quem também brilhou foi Meryl Streep. A atriz já foi indicada 25 vezes ao “Globo de Ouro”, tendo vencido seis. Pareceu ser pouco para a veterana, que carregou para casa sua sétima estatueta por sua atuação em "Julie & Julia", na categoria atriz de filme comédia/musical.

"Na minha longa carreira, fiz o papel de tantas mulheres extraordinárias. Estão achando que sou uma delas, mas, sou apenas um meio para desempenhar esses papeis", discursou em tom humilde.

Meryl disputava o prêmio com Sandra Bullock de “A Proposta”. A briga entre as duas atrizes dividiu opiniões sobre quem merecia o troféu. No final, para não ter conflitos, ambas saíram vitoriosas de lá. Bullock também levou um Globo de Ouro para casa por sua atuação em “O Lado Cego”. Ela foi indicada na outra categoria reservada às atrizes – a de melhor atuação em filme dramático.

Por enquanto, Streep e Bullock continuam empatadas na preferência dos críticos. Depois de dividirem o prêmio de interpretação no Critics’ Choice Awards, com direito a beijo na boca em pleno palco, fica difícil saber qual delas levará o tão cobiçado Oscar, que acontece no mês de março. Na principal premiação do cinema, não deve haver empates.

Robert Downey Jr. teve seu trabalho em “Sherlock Holmes” reconhecido, e levou a melhor na categoria ator em filme comédia/musical. O intérprete, que sumiu por um tempo desde problemas pessoais por causa do seu envolvimento com drogas – voltando com tudo em “Homem de Ferro” no ano retrasado – disputou a estatueta com Matt Damon e Daniel Day-Lewis. Ao subir ao palco, ele brincou: “Achei que Matt Damon fosse ganhar, nem preparei meu discurso”.

Vencedores da noite

Na categoria melhor atriz coadjuvante, a favorita Mo’Nique venceu pela sua atuação intensa em “Preciosa”, filme que ainda conta com atuação elogiadíssima da cantora Mariah Carey.

A veterana Toni Collette, conhecida por seu trabalho em “Pequena Miss Sunshine”, também subiu ao palco para receber o prêmio de melhor atriz em série de comédia ou musical. Drew Barrymore foi vitoriosa na categoria série dramática. A atriz subiu ao palco emocionada, e fez um discurso confuso e desconcertado.

Além de Collette e Barrymore, outro ator que também migrou das telas do cinema para a televisão foi Kevin Bacon, o intérprete venceu a categoria masculina de seriado musical/comédia na grande noite.

Por falar em seriados, Michael C. Hall, que vive o encantador psicopata em “Dexter”, esteve na premiação e recebeu sua estatueta mesmo estando visivelmente fragilizado. O ator enfrenta um batalha contra um câncer no sistema linfático. Para o evento, ele escolheu o modelito de gala acompanhado por um gorro na cabeça, para esconder a queda de cabelos devido ao tratamento quimioterápico.

Na categoria animação deu “Up – Altas Aventuras”, que está sendo apontado como o favorito da mesma categoria na premiação do Oscar.

Christoph Waltz, que apareceu todo barbudo - seu novo look para interpretar Sigmund Freud em nova produção - levou Melhor Vilão por “Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino. Já Jeff Bridges foi o vencedor de melhor ator em filme dramático por “Crazy Hearts”.

A cerimônia seguiu com homenagem ao cineasta Martin Scorsese. O veterano foi apresentado por Robert De Niro e Leonardo DiCaprio, seus principais atore-colaboradores. Algumas passagens memoráveis do cineasta foram exibidas, assim como cenas inéditas de seu novo filme “Shutter Island”.


(Karen Lemos - Famosidades/MSN)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Em novo trabalho, Júlia Lemmertz lida com o incesto
















Afastada das telinhas desde "Tudo Novo de Novo", atração global que foi transmitida até o segundo semestre de 2009, Júlia Lemmertz vem se dedicando mais a outras áreas da atuação - já exploradas por ela antes - como no teatro, onde está em cena com a peça "Maria Stuart", e no cinema, em que estrela "Do Começo ao Fim", novo filme de Aluizio Abranches que estréia nesta sexta-feira (27).

Para viver a médica Julieta, um dos pilares de sustentação da história, Lemmertz precisou entender a atitude de uma mãe que escolheu ficar do lado dos filhos e, dessa forma, se posicionar contra a moral e preconceitos de toda uma sociedade opressora.

"Trata-se de uma história de amor acima de qualquer rótulo. Só não é uma história de amor comum, mas é abordada de uma forma super delicada e suave", conta a atriz em entrevista ao Famosidades.

Com uma proposta instigante, "Do Começo ao Fim" criou um universo de polêmicas muito antes de sua estréia. Afinal, não é sempre que vemos uma história de amor entre dois irmãos - na verdade meio-irmãos - retratada nas telas do cinema.

"O filme lida com dois temas muito difíceis, que é a homossexualidade e o incesto, tudo junto, e isso é desconcertante", aponta a atriz, que enxerga aí uma forma de confrontar os padrões dos romances abordados no cinema.

Apimentando mais, um tipo de trailer com um dos ensaios entre os atores protagonistas do longa caiu na internet. As imagens, que traziam os rapazes em momentos de intimidade, aguçaram a curiosidade geral e o vídeo atingiu milhares de visitas na internet, se tornando um dos recordistas de acesso. Foi uma eficiente publicidade para o filme que - na época - nem data de estréia tinha.

"Do Começo ao Fim" relata a construção do relacionamento entre Thomás (Rafael Cardoso) e Francisco (João Gabriel), frutos de diferentes relacionamentos de Julieta (Júlia Lemmertz) - Francisco é filho de seu ex-marido argentino e Thomás do atual companheiro na trama, Alexandre, vivido pelo ator Fábio Assunção.

Criados juntos, os dois rapidamente desenvolvem uma intimidade dúbia - mais além do tratamento normal entre dois irmãos - que é percebida por pessoas próximas a família, e que provoca um incômodo geral devido à complexidade que a relação ostenta.

Em uma resposta inesperada, Julieta acaba por admitir o excesso de aproximação dos filhos, e aceita a inevitável paixão que cresce na medida em que os anos passam. Com a morte da mãe - em uma passagem de tempo que dá um pulo de 15 anos na história - Thomás e Francisco se entregam à paixão, e resolvem assumir o relacionamento.

"Essa família deixou acontecer e florescer. Não há culpa nenhuma, não tem ninguém que diga que aquilo é errado, o filme não tenta julgar seus personagens", explica Lemmertz.















O consentimento incomum da família acabou gerando comentários negativos sobre o filme, principalmente por a trama não apresentar nenhum ponto de conflito que impeça a união incestuosa, sugerindo - na opinião de alguns críticos - uma superficialidade na narrativa. Para Lemmertz, porém, a história toma outra forma dependendo do nível de aceitação da obra pelo espectador.

"Vai da reação de cada um. Um certo tipo de público talvez receba bem, outro nem tanto, e ainda terão aqueles que não vão receber nada, por que nem querem assistir ao filme. A gente nunca sabe a reação do público", conta.

Deixando de lado as falhas no roteiro, "Do Começo ao Fim" é um colírio para os olhos. Com cenas lindas, rodadas com muita delicadeza, as sequências fazem o pano de fundo na rotina dos irmãos-amantes. Os personagens, inclusive, são do tipo que propõe um grande desafio aos atores pelo peso que carregam. Desafio esse que foi muito bem encarado por Rafael Cardoso e João Gabriel.

"Eles são sensacionais! Os dois estão estreando nas telas e aceitaram fazer este filme sem nunca terem feito cinema antes. Foi uma entrega mesmo", reconhece a veterana Júlia.

E os jovens atores já despontam como promessas também nas telinhas. Rafael Cardoso, por exemplo - que vive o irmão mais novo no longa - participou de algumas produções da Rede Globo, como em uma ponta na novela "Beleza Pura", e estará em "Cinquentinha", seriado global com assinatura de Aguinaldo Silva que estreia no dia 8 de dezembro.

Apesar não ter necessariamente um "fim" - que o filme poderia sugerir quando a única separação do casal ocorre, já que Thomás, excelente nadador, vai morar na Rússia durante três anos se preparando para as olimpíadas - "Do Começo ao Fim" se encerra propondo uma revolução nas histórias de amor. Resta saber o quanto o público está pronto e aberto para aceitar uma proposta como essa.



(Karen Lemos - Famosidades/MSN)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Personalidades analisam universo de Chacrinha
















O documentário do cineasta Nelson Hoineff sobre Abelardo Barbosa - o Chacrinha - que estreia hoje nos cinemas nacionais, não se atenta a figura excêntrica do apresentador que quebrava todos os princípios éticos na hora de se fazer televisão.

O filme é o muito mais do que isso. Reunindo os elementos que fizeram de Chacrinha um mito, “Alô, Alô, Terezinha!” tenta traçar a personalidade do show man através de depoimentos coletados das pessoas que fizeram parte do seu universo único e totalmente maluco.

Após 21 anos da morte de Abelardo Barbosa, o diretor tenta resgatar os anos de atividade do “Cassino do Chacrinha”, programa comandado pelo Velho Guerreiro nas tardes de sábado, e que reunia toda família na frente da televisão. Com imagens de arquivo (algumas apresentando uma qualidade péssima, mas com riquíssimo conteúdo), Hoineff nos leva de volta ao final dos anos 70 e início de 80, época em que a atração era exibida pela Rede Globo.

O palco era uma bagunça só. Câmera para lá, fios para cá, serpentinas, confetes, balões, dançarinas, músicos, plateia enlouquecida; e no meio de tanta confusão, os artistas tentavam se apresentar - tendo que desviar dos obstáculos - enquanto o apresentador, sempre espalhafatoso, caminhava de um lado para o outro, entrando na frente da câmera, e deixando os produtores todos loucos.

Muitos destes artistas, que fizeram parte da história, estão no documentário para comentar a experiência. O “Cassino do Chacrinha” não era só um programa de auditório com atrações musicais, era também notório por trazer as personalidades que estavam no auge da fama, e por alavancar carreiras de novos conjuntos ou de artistas sumidos da mídia.

E pelo peso do elenco, podemos dizer que Chacrinha estava sempre bem acompanhado. O filme traz importantes depoimentos de Roberto Carlos (que aparece, nos primeiros minutos de projeção, fazendo graça com uma peruca e um bigode), Gilberto Gil, Alcione, Elba Ramalho, Beth Carvalho, Ney Matogrosso, Fabio Jr, Dercy Gonçalves, Fafá de Belém, Byafra, com a famosa cena do seu acidente com o parapente enquanto cantava “Sonho de Ícaro” exibida na íntegra, e muitas outras personalidades.

Há também apresentações históricas de Tim Maia, Barão Vermelho (com Cazuza nos vocais) e Raul Seixas, estes dois últimos, que não tinham lá muita simpatia pela comunicação de massa na televisão, abriram exceção no “Cassino”, devido à popularidade respeitada que tinha o seu apresentador.

Em certos momentos, o documentário assume uma postura mais investigativa ao tentar identificar e ir atrás dos nomes que viraram piada nacional no palco da atração. São os calouros que arriscaram a sorte e, como resposta, receberam a famosa buzinada e o prêmio abacaxi das mãos de Chacrinha.














Mergulhados em total esquecimento, o ex-calouros se emocionam ao se lembrar do Velho Guerreiro e suas brincadeiras. É curioso notar que muitos ainda acreditam no talento artístico que nunca possuíram (um deles se acha melhor que Roberto Carlos, e arrisca uma cantoria em vão). Até a famosa Terezinha é localizada, após muitas versões desencontradas sobre seu paradeiro.

Outro destaque vai para, claro, as chacretes. As dançarinas de Chacrinha eram muito mais do que complementos dos shows musicais. Além de interagir com os participantes do programa, também se tornaram sex symbols na época, tanto que surgiram alguns boatos de que as moças estariam envolvidas com a prostituição (fato que é negado terminantemente por algumas ex-chacretes, enquanto é confirmado e assumido por outras).

Se o lado das dançarinas sensuais transmitia todo glamour que ser uma chacrete poderia trazer, o filme se torna melancólico, quase trágico, ao mostrar a realidade por trás das câmeras. Tentando sobreviver como podem a custa de empregos convencionais, bem longe do glittler e paetês dos anos remotos, hoje, as chacretes vivem em visível decadência.

Daquela época restou apenas a memória de algumas experiências, músicas e passos de danças que recordam, e que reproduzem nostalgicamente na frente das câmeras. Quem ainda possuiu alguma popularidade é Rita Cadillac, que foi a mais notória de todas as chacretes.

Falecido no dia 30 de junho de 1988 aos 70 anos, devido a complicações de um câncer no pulmão, Chacrinha deixou sua marca permanente na história da cultura e da comunicação nacional. Revelou um Brasil que não era mostrado nas telinhas, e inovou a forma de apresentar televisão.

“Alô, Alô, Terezinha!” é mais uma prova de que Abelardo Barbosa continua sendo relembrado como a figura simpática e curiosa que jogava sacos da farinha na plateia, frutas e o famoso bacalhau (que eram restos de peixe que ficavam encalhados nas vendas da “Casa da Banha”, patrocinadora do seu programa), e seus famosos bordões nunca saíram da boca do povo, pois “quem não se comunica, se trumbica”, como já dizia o Velho Guerreiro.



(Karen Lemos - Famosidades/MSN)