segunda-feira, 23 de março de 2015

"O Sal da Terra" revela Sebastião Salgado além do mito


A princípio, "O Sal da Terra", que chega aos cinemas no próximo dia 26, pode parecer um documentário sobre o fotógrafo e sua arte, mas seria injusto simplificar desta maneira. Mais do que esmiuçar a obra, o longa-metragem fala das experiências de uma testemunha dos últimos 40 anos de história mundial.

 Foi testemunhando por trás de uma lente que Sebastião Salgado fez registros históricos como a guerra civil na Ruanda, o surto de fome na Etiópia, o conflito étnico-religioso na antiga Iugoslávia, a corrida de ouro na Serra Pelada, além de apresentar um novo olhar para o Nordeste brasileiro, a América Latina, algumas tribos indígenas e até para a Ilha de Galápagos, como um Darwin contemporâneo.

O documentário tem início com algumas imagens da corrida do ouro no sudeste do Pará – talvez as mais conhecidas de seu acervo fotográfico. Sebastião surge a partir daí comentando os registros e, mais do que isso, revelando as memórias ocultas de cada foto.

“Esse filme precisava ser sobre as experiências dele. Todo mundo conhece suas fotos, mas não as histórias por trás delas”, resumiu o diretor Juliano Salgado, filho mais velho do fotógrafo, ao divulgar seu filme que abriu a 4ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em São Paulo.

Sebastião marcaria presença no evento, mas precisou cancelar o compromisso por conta da trágica morte de sua cunhada, Leny Wanick Mattos, no dia anterior.

Juliano assina "O Sal da Terra" em uma parceria com o cineasta alemão Win Wenders. Para mergulhar em sua obra, a dupla usou um recurso curioso. Em algumas sequências, a imagem de Sebastião surge sobreposta às suas fotografias, fazendo com que o próprio artista fique imerso à sua obra para poder comentá-la, mergulhando junto com o espectador em seus registros e quebrando a fronteira entre papel e olho humano.

É também a sensibilidade de Sebastião em capturar a alma humana que nos torna ainda mais próximos de sua obra. “Muitos fotógrafos gostam de falar deles; falam da luz, daquele momento em que a câmera quebrou, das dificuldades que enfrentou para fazer uma foto, enfim. O Tião, não! Tião fala das pessoas que fotografa, mostra como elas se revelam em momentos de crises, como fazem para sobreviver. Esse jeito dele de fotografar, essa relação íntima, transcende, nos faz enxergar não só uma foto, mas a pessoa na imagem que, de tão próxima, poderia ser nosso vizinho, nosso irmão ou até nós mesmos”.

O papel de Win Wenders

Um dos mais conhecidos registros de Sebastião, Refugee from Gondan, Mali, 1985, chamou a atenção de Win Wenders – naquela época já um respeitado diretor de cinema – em uma exposição de arte. Sem hesitar, ele comprou a foto que, segundo o próprio, ainda o faz chorar todos os dias quando pousa os olhos sob o rosto sofrido da refugiada, que agora descansa em sua mesa de escrivaninha.

Naquela ocasião, o galerista mostrou a Wenders outras imagens daquele mesmo fotógrafo. No verso de um dos registros da corrida do ouro na Serra Pelada, ele descobriu o nome daquele que se tornaria um amigo íntimo. Até hoje, os dois trocam mensagens pelo Whatsapp, normalmente com piadas e zoações a respeito de futebol. “Win é muito fã do trabalho de Sebastião”, recordou Juliano. “Ele já queria fazer algo sobre ele e, quando soube que eu estava filmando suas viagens, gostou da ideia e quis participar”.


Juliano com Sebastião Salgado ao centro e Win Wenders

Win ficou com o papel de entrevistar Sebastião e dele arrancar as histórias de seus cliques pelo mundo afora. Não foi tarefa fácil para quem passou a vida protegido por lentes que, de uma hora para outra, passaram a observá-lo incessantemente. “Ele não entende essa coisa de cinema, não tem paciência para isso. Foi uma experiência sofrida nesse sentido”, riu Juliano.

A maior dificuldade parou por aí já que, na opinião do diretor, a vida do pai tem uma dramaturgia natural. “Que não precisa ser dramatizada”, ressaltou. “O auge da carreira de Sebastião, a quebra da sua maneira de fotografar - que veio logo após uma forte depressão - e a forma com a qual ele se reinventou depois disso dá uma ótima história”, observou.

Reaproximação com o pai 

Nascido na França, onde Sebastião mudou-se com a esposa e parceira artística, Lélia, no final da década de 1960 – pleno período de ditadura militar no Brasil, Juliano pouco via o pai. A distante relação não permitiu, no entanto, que o filho deixasse de admirá-lo; pelo contrário, Juliano sempre enxergou o pai como um verdadeiro aventureiro que, ao voltar de suas excursões pelos quatro cantos do mundo, trazia consigo relatos que nem mesmo o mais hábil contador de histórias poderia recriar.

Através de um convite, feito em 2009, para acompanhá-lo em uma incursão pela Floresta Amazônica, Juliano pode compartilhar das aventuras e do amor paterno que, durante muitos anos, lhe foi privado por conta das longas viagens de Sebastião. “Esse filme serviu para que eu me reaproximasse de meu pai”, contou. “Antes deste convite, tínhamos uma relação mais distante. Quando o acompanhei em uma reportagem sobre a tribo Zo’é, no Pará, algo curioso aconteceu. Esse povo é super dócil e não conhece brigas. Isso contagiou nossa relação, nos abrindo portas não somente para realizar este filme, mas também para nos tornamos amigos”.

Outro presente que "O Sal da Terra" entregou à família Salgado foi uma indicação ao Oscar de melhor documentário em longa-metragem deste ano. Embora inesperado, a nomeação trouxe uma nova projeção de luz ao filme. “Quando uma premiação, considerada como a maior do mundo, decide trazer o documentário para um espaço midiático fantástico é algo além de qualquer coisa que podíamos imaginar; a consequência disso é poder levar essa mensagem para o mundo todo”.

Considere como mensagem não somente o trabalho de toda uma vida realizado por Sebastião, mas também de projetos pessoais como o Instituto Terra que, com a ajuda de locais, transformou em realidade o sonho do fotógrafo de replantar parte da Mata Atlântica que fez parte de sua infância na cidade natal de Aimorés, Minas Gerais – uma ideia que, em tempos de desmatamento, vem a calhar. “Mais difícil do que plantar na terra infértil é mudar a mentalidade das pessoas. Esse projeto mostrou que isso também é possível”, ressaltou Juliano.



(Karen Lemos - Revista O Grito!)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Matriculada em universidade federal, transexual quer mudar o cenário da educação brasileira

Reprodução/Facebook

Nada veio fácil para Maria Clara Araújo. Negra, pobre e transexual, ela poderia ter aceitado uma vida de "nãos" e portas fechadas. Ao invés disso, resolveu lutar por direitos básicos que lhe foram negados desde os tempos de escola.

"Foi na escola que comecei a sofrer por ser uma mulher transexual. Minha professora não me aceitava como um personagem feminino, não deixava eu brincar com brinquedos de menina", recordou Maria em conversa com o Portal da RedeTV!

Anos depois, aprovada na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), conquistou o direito de ser chamada pelo nome de mulher nos corredores da instituição onde irá estudar pedagogia, curso que escolheu justamente para tentar mudar este cenário. "Quero me certificar de que vou agregar dentro deste ambiente, que foi o primeiro que me violentou, para que, futuramente, outros como eu não sejam violentados da mesma forma".

Pró-reitora para Assuntos Acadêmicos da UFPE, Ana Cabral falou a respeito da posição da universidade e foi enfática: Maria Clara será muito bem-vinda. "Nós, como uma universidade, precisamos dar o exemplo de tratar as pessoas como elas querem ser tratadas. Não é só uma questão de respeitar um direito dela, mas de garantir direitos humanos e sociais à qualquer pessoa", declarou. "Além disso, ela foi aprovada no vestibular por um mérito dela, um esforço pessoal".

Em um manifesto publicado em seu Facebook no início desta semana, a estudante de 18 anos celebrou a vitória. Publicou uma foto de sua mãe raspando sua sobrancelha como forma de comemoração e escreveu sobre a importância da conquista não somente na sua vida, mas na de outras transexuais que podem ter seus destinos, hoje amargamente traçados, transformados com novas possibilidades. 

Reprodução/Facebook

"Sempre me vi em um lugar em que este tipo de sonho, de estudar e trabalhar, não é permitido", observou Maria. "Agora quero chamar a atenção para que a sociedade reflita por qual razão não convive com esse tipo de gente; porque nós, transexuais, não estamos na sala de aula, e sim na prostituição?".

Há, atualmente, 23 universidades que já respeitam o nome social de homens e mulheres transexuais, um direito que, muitas vezes, foi conquistado através das denúncias dos estudantes. "Cada denúncia que recebemos de universidades, faculdades e escolas que não respeitam o nome social, entramos em contato para resolver", explicou Toni Reis, secretário de educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).

"Ainda é uma medida paliativa. Mudar o nome em documentos é um processo muito mais burocrático, mas podemos exigir que, ao menos, os transexuais atendam por seus nomes sociais. Chamar um mulherão pelo seu nome masculino causa muitos constrangimentos", enfatizou o secretário.

A caminhada continua longa para quem enfrenta diariamente o preconceito. Mas, para quem já venceu algumas batalhas, o amanhã é promissor. "A minha vida é de resistência", pontuou Maria. "Tenho consciência dos embates que vou enfrentar. Espero por questionamentos do tipo 'o que ela está fazendo aqui na sala aula de aula?', mas isso não me enfraquece. Cada luta que eu enfrento me faz mais forte", completou.

(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

"Depois da Chuva" traz diálogo da geração pós-Diretas com a juventude atual


Sem os vilões da Ditadura Militar, "Depois da Chuva", filme que chega aos cinemas nesta quinta (15), usa o sentimento de frustração e orfandade do pós-Diretas Já como antagonista para registrar um momento da história do Brasil pouco abordado nas telas do cinema: a redemocratização política do país. Ambientado no ano de 1984, a obra passa pela atmosfera de entusiasmo com o término do regime militar, a esperança de poder eleger um presidente e a frustração de ver velhas figuras do antigo governo rondando a nova política.

Em paralelo a este cenário estão as peculiaridades adolescentes do protagonista Caio, vivido pelo ator Pedro Maia, que venceu o prêmio de melhor ator do Festival de Brasília, sendo o mais jovem (na ocasião, aos 16 anos) a levar este troféu no mais antigo festival brasileiro de cinema. Durante a transformação do país, Pedro também encara seus despertares (amoroso, inclusive), e vive o mesmo sentimento de orfandade com o pai ausente e a mãe indiferente que em certo momento lhe pede: “não te dou trabalho e você não me dá trabalho”.

Sem afeto em casa, o jovem encontra afago em uma colega do colégio (Sophia Corral) e em um velho casarão que frequenta com os amigos mais velhos que fez. É lá também que Pedro vive outro despertar: o político. Com os colegas, ele conhece a Anarquia, participa de um programa de rádio pirata para espalhar os ideais da prole e ajuda na criação de um folhetim batizado de “Inimigo do Rei”.

A publicação de fato existiu e dela fez parte Cláudio Marques, roteirista e diretor do filme ao lado de Marília Hughes. Como seu primeiro longa-metragem, o cineasta quis imprimir na película suas lembranças daquele ano, época em que viveu experiências parecidas com as de Caio. A princípio, tais semelhanças preocuparam Cláudio, que relutou em contar a história devido a uma cisma de que estaria filmando sua autobiografia.

“Era preciso separar a minha vida pessoal da ficção para falar deste momento de transição do país”, contou o diretor durante a pré-estreia do filme em São Paulo. “Para tanto, usei o olhar de um adolescente de 17 anos, experimentando tudo o que o Brasil vivia naquele momento desde a sensação de transformação até a impotência que veio com a morte de Tancredo Neves (sucedido por José Sarney, ex-Arena, partido que apoiava o regime militar). “Acredito que há poucos filmes abordando esse tema porque o sabor disso é muito amargo. O que aconteceu lá atrás ecoa até hoje, como um ciclo que não foi fechado”, observou. 

Outra preocupação do cineasta era a de que como o filme seria recebido no exterior. "Depois da Chuva" passou por diversos festivais mundo afora; em um deles, o de Rotterdã, na Holanda, algo curioso aconteceu, como lembra o diretor: “Um espectador russo deu um depoimento no debate após a sessão falando que se identificou muito. Ele passou a adolescência em Moscou, onde viu a potência de Glasnost (tentativa de abertura política durante a União Soviética) e terminou órfão com [Boris] Yeltsin (presidente no período de grande colapso econômico na Rússia na década de 90). Acredito que o filme tenha uma linguagem semelhante não só no Brasil, mas em outros países e também em outras décadas por falar de movimentos políticos com essa necessidade de mudança”.

Tal constatação também foi importante para que o filme dialogasse com o público que irá consumir este longa, formado também pela juventude dos dias de hoje. “Me questionei muito se esse filme seria considerado atual. Em 2013, pela primeira vez, afastei essa dúvida. Percebi, com as manifestações daquele ano, que o filme tem um ponto de convergência com os dias de agora. Ainda temos uma necessidade por uma democracia efetiva e por uma interferência mais eficiente em nossa política”, concluiu.

A trilha sonora é uma conversa à parte. "Depois da Chuva" se passa em Salvador, cidade que, na opinião do cineasta, tinha outra áurea na década de 1980. “Salvador tinha uma cena rock and roll que, claro, existe hoje, mas existiu em proporções maiores naquela época”, afirmou. Assim como a capital baiana, a trilha sonora também é um personagem importante no longa-metragem, que traz clássicos do punk rock como Dead Kennedys, Sex Pistols, Garotos Podres e até bandas regionais, caso de Dever de Classe e Crac!, bandas que Cláudio, fã declarado, pediu que participassem de seu filme. “Foi difícil reunir todo mundo, mas conseguimos e foi incrível”, relatou.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Filme 'A Entrevista' tem lançamento suspenso no Brasil


O filme "A Entrevista", estrelado por James Franco e Seth Rogen, teve sua estreia em circuito nacional, agendada para o dia 29 de janeiro, suspensa "até segunda ordem", informou a assessoria de imprensa da distribuidora Sony Pictures ao Portal da RedeTV!

Na quarta-feira (17), a Sony dos Estados Unidos já havia anunciado o cancelamento. "A Sony Pictures não tem planos futuros de lançamento para o filme", declarou um porta-voz depois que o estúdio recebeu ameaças de ataque terrorista caso o longa-metragem fosse lançado.

Em "A Entrevista", os personagens de James Franco e Seth Rogen vivem dois jornalistas recrutados em uma missão especial para assassinar Kim Jong Un, líder da Coreia do Norte.

Seu conteúdo causou a ira do governo norte-coreano que, segundo o jornal The New York Times, planejou ou encomendou um ataque de hackers que invadiram, roubaram e divulgaram informações sigilosas do estúdio, como salário de atores, roteiro de filmes inéditos e até e-mails com troca de ofensas. Segundo a "Variety", "A Entrevista" não deve ser lançado nem mesmo em formato DVD. O prejuízo do estúdio pode chegar, de acordo com o site The Wrap, a US$ 90 milhões - aproximadamente R$ 230 milhões.



Outro longa que promete causar polêmica, "Pyongyang", sobre um ocidental que trabalha na Coreia do Norte por um ano, também teve seu lançamento cancelado. O filme chegaria aos cinemas em março de 2015.

(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ex-Mutante Arnaldo Baptista expõe obras em São Paulo


Enquanto não consegue lançar um novo LP por conta de certas burocracias, Arnaldo Baptista está voltado para as artes plásticas. Com “Exorealismo”, uma exposição em cartaz até o dia 10 de janeiro na Galeria Emma Thomas, em São Paulo, o ex-integrante do grupo Os Mutantes voltou a mergulhar em uma paixão mais antiga que a música: a pintura.

"Desde criança tenho certa vocação para a pintura. Quando garoto, eu pintava meus cadernos do primeiro ano, mas não passou muito disso", recordou em conversa com o Portal da RedeTV! "Durante um tempo, as artes plásticas foram mais importantes do que a música porque, para fazer música, eu precisava de um piano, de um contrabaixo; era muito caro! Na pintura, com um lápis e um papel eu tinha quase a mesma coisa que Salvador Dalí, por exemplo", ressaltou.

Na exposição, Arnaldo exibe obras que embarcam em uma ousada tentativa de materializar o som plasticamente. A música continua presente, ainda que de forma mais simplificada. "Um quadro meu pode parar no Japão sem depender de línguas e gravadoras", observou o artista.

Sobre inspirações e seu estilo próprio de pintar, o ex-Mutante enfatiza que não segue regras. "Não tenho muito estilo. Às vezes, pego algum objeto como uma colher velha, um pedaço de sapato, um CD, uma ferramenta e grudo na tela e, a partir daí, começo minha pintura", revelou. "O que poderia ser um erro no quadro, passa a ser uma evolução".

Não são apenas obras recentes que estão expostas em “Exorealismo”. Arnaldo reuniu para a mostra quadros datados desde a década de 90. "Tem coisas lá que eu nem lembrava mais que tinha feito", riu.

Nova empreitada na música 

Enquanto nas artes plásticas Arnaldo Baptista aproveita o prestígio de seu talento, na música as coisas não andam tão bem assim.

Em conversa com a reportagem, o músico revelou que possui um LP já pronto - com 12 músicas selecionadas. Por conta de processos burocráticos com gravadoras, ele ainda não conseguiu lançar este novo trabalho. "Não tem data para sair [o LP]. Estou esperando".

Batizado de “Esphera”, com direito a capa desenhada por seu autor, o LP traz um lado embasado na crítica social. "Fala de fogo, fumaça, poluição, gasolina", tentou resumir Arnaldo. "Custou muito tempo para o homem aprender a fazer fogo. Agora ele precisa desistir dele, das coisas elétricas", completou.

(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

sábado, 29 de novembro de 2014

Fotógrafa retrata opinião de moradores da Rocinha três anos depois da Pacificação


Moradora da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, antes, durante e depois da Pacificação, a fotógrafa norte-americana Margaret Day decidiu retratar a opinião da comunidade em que viveu, entre os anos 2011 e 2014, em um ensaio fotográfico batizado “The Residents Speak – Os Moradores Falam”.

Em entrevista a RedeTV!, Margaret disse que tomou a decisão de realizar este projeto após notar o abismo que existe entre a percepção das pessoas a respeito da vida nas favelas e da realidade que de fato acontece morro acima. "Eu sei como é estratificada a sociedade brasileira", declarou em conversa com a reportagem. "Eu sabia que essas opiniões seriam uma surpresa para quem vive na 'cidade formal'. A maioria das pessoas que conheço que não vivem em favelas não entendem a realidade delas".

Para o ensaio, Margaret fez a seguinte pergunta a 21 moradores da Rocinha. “Você prefere a Rocinha antes ou depois da instalação da UPP?”, referindo-se às instalações de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 2011. Dos 21, 16 disseram que a vida piorou depois da Pacificação. "Hoje em dia aumentou a violência, roubo; está tendo estupro, todos os dias tem tiroteio na favela", afirma um dos moradores do ensaio. Apenas 5 avaliariam como positivo a chegada das UPPs.

"Eu concebi esse projeto no terceiro aniversário da pacificação da favela, é uma iniciativa que procura transmitir o sentimento que ouço regularmente das pessoas que moram aqui", contou a fotógrafa, que fez questão de manter no sigilo a identidade de seus personagens.

Na altura do rosto, os moradores seguram um cartaz que revelam uma opinião também compartilhada pela fotógrafa. "Muitas pessoas sempre discordam da minha opinião quando faço comentários positivos sobre a vida na Rocinha antes da pacificação; elas geralmente atribuem a minha percepção ao fato de ser estrangeira e portanto de não ser capaz de dar uma opinião equilibrada", explicou. "Não fiquei nada surpresa com o resultado. Em geral, é o que eu ouço ecoou a vida cotidiana na Rocinha".

Margaret chegou ao Brasil após pesquisar sobre a Favela da Rocinha na internet. A ideia era desenvolver um projeto de arte para crianças que vivem em favelas. Com o tempo, a comunidade a conquistou. "Como assistente social, fiquei ainda mais interessada em me conectar com as pessoas que vivem nas favelas do que visitar praias famosas", observou a fotógrafa, cujo interesse nas vidas nas favelas despertou curiosidade.

"As pessoas que moram no asfalto e outros estrangeiros sempre ficam surpresos com o meu interesse por essa comunidade e também porque eu gosto de morar aqui. Elas sempre me perguntam se a vida aqui era melhor antes ou depois da pacificação", completou Margaret, que agora responde a essa pergunta de forma surpreendente.

(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cineasta brasileiro celebra curta-metragem entre finalistas ao Oscar


Mauricio Osaki, diretor de “O Caminhão do Meu Pai”, recebeu com surpresa a notícia de que seu filme está entre os 10 finalistas para concorrer ao Oscar de melhor curta-metragem na mais notória premiação do cinema.

“Eu realmente não imaginava que iríamos chegar tão longe”, declarou em entrevista à reportagem. “Enquanto rodávamos o filme, em áreas remotas ao norte de Hanoi (capital do Vietnã), em pleno inverno, jamais podíamos prever esse tipo de reconhecimento. É um filme falado em Vietnamita, sem atores conhecidos, com uma temática incomum, mas que de certa forma traz uma relação universal, entre pai e filha. Eu fico feliz que o filme possa continuar rodando e trilhando longos caminhos”.

O curta se passa através do ponto de vista de uma menina que, ainda nova, descobre o mundo real ao participar de um dia de trabalho de seu pai, um caminhoneiro que recolhe cachorros e os leva para um abatedouro local. A carne de cachorro, vale lembrar, faz parte da cultura gastronômica do país.


“É tão gratificante ver o quão longe este filme foi. Já passamos pelos festivais mais importantes do mundo. É um filme que já rodou toda a Europa, Estados Unidos, America do Sul e Ásia… Eu fico orgulhoso pela equipe, pelos atores, pois todo mundo trabalhou muito pelo filme”, observou Mauricio.

A lista final dos indicados ao Oscar de melhor curta-metragem sai no dia 15 de janeiro. Já a cerimônia de premiação acontece no dia 22 de fevereiro de 2015.

“O Caminhão do Meu Pai”, primeira coprodução entre Brasil e Vietnã, nasceu durante aulas de direção na NYU (Universidade de Nova Iorque) e contou com a ajuda de outros brasileiros como o fotógrafo Pierre de Kerchove, a assiste de direção Flávia Guerra e a musicista Michelle Agnes.

Além deste curta, outra produção brasileira também está na corrida pela almejada estatueta dourada. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, foi escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na premiação. O longa concorre a uma vaga entre os indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)