segunda-feira, 8 de junho de 2015

Livro-reportagem para crianças explica luta a de Malala Yousafzai

Bruna Assis Brasil

Quando estava entre as fronteiras do Afeganistão com o Paquistão fazendo cobertura internacional para o jornal Estado de São Paulo, Adriana Carranca soube do ataque que quase tirou a vida de Malala Yousafzai, uma ativista paquistanesa notória por lutar pelo direito das mulheres de seu país à educação.

A jornalista já ouvira falar da menina e escreveu matérias sobre a voz vinda do Vale do Swat que enfrentava os extremistas do Talibã para obter a permissão de ir à escola, “privilégio” só dos homens do Paquistão sob domínio do grupo extremista.

Depois de entregar uma matéria sobre o atentado, Adriana recebeu uma proposta para escrever um livro sobre a trajetória da garota que, naquela ocasião, estava entre a vida e a morte após ser baleada por um integrante do Talibã, em outubro de 2012, como resposta ao seu “atrevimento” de ir contra as regras impostas pelos radicais.

“O que eu não sabia era que, naquela época, Malala estava se tornando um nome poderoso e conhecido no mundo todo”, contou ao Portal da Band a autora de “Malala, a menina que queria ir para a escola”, livro-reportagem para crianças (um gênero ainda pouco abordado no Brasil) sobre a vencedora do Nobel da Paz de 2014.

Logo após o atentado a Malala, Adriana visitou o hospital em que ela estava internada. Lá, conversou com os primeiros médicos que a atenderam antes de viagem a Birmingham, na Inglaterra, onde a ativista mora atualmente. Também entrevistou o motorista que levava a menina no transporte escolar onde foi baleada, professores e colegas de sua sala, além de familiares, como os pais de Malala - figuras essenciais que incentivaram a batalha da filha pelo conhecimento.

Até aquele momento, Adriana planejava escrever um livro para adultos. A vontade de tornar a narrativa própria para crianças surgiu quando ela visitou o vilarejo onde o autor dos disparos contra a ativista morava. Ela se hospedou na casa de um tradutor enquanto pesquisava sobre a vida do terrorista.

Bruna Assis Brasil

“No convívio daquela casa, tive muita contato com as crianças de lá. Eram oito no total. A partir daí, comecei a pensar o quanto seria bacana que as crianças brasileiras soubessem da existência delas”, recordou.

Como explicar as atrocidades do terrorismo para crianças? 

O principal desafio que Adriana e a ilustradora da obra, Bruna Assis Brasil, enfrentaram foi a imersão no cenário lúdico infantil ao contar uma história permeada por temas delicados - violência, terrorismo, machismo, por exemplo.

“São cenas muito pesadas, mas acredito que, pelo fato de estarem ilustradas, já conversam de uma forma muito mais direta com as crianças. É muito importante que elas tenham consciência de tudo o que acontece no mundo. Todos temos medo dessa realidade, mas não podemos ter medo de mostrá-la”, pontuou a ilustradora, que usou técnicas de colagens para os desenhos.

“Quase todas as imagens usadas nas ilustrações são da viagem da Adriana e achamos que seria muito importante e enriquecedor termos esses pedacinhos de realidade em meio aos desenhos feitos à mão”, contou ainda.

Bruna Assis Brasil

Já Adriana chegou a frequentar um laboratório de literatura infantil para adaptar a linguagem do livro que, a princípio, seria direcionado a adultos. O mais interessante é que, segunda a autora, os dois tipos de leitor-alvo não estão tão distantes quanto pensamos.

“As crianças de hoje em dia têm acesso às informações, à tecnologia, conversam sobre questões mundiais com colegas de sala; também viajam mais e têm mais contato com as diferentes culturas por conta dos imigrantes que vivem no Brasil; além do mais, desde cedo elas têm contato com histórias onde a violência está presente: a rainha má manda o lenhador cortar o coração de Branca de Neve, o Lobo Mal devora a vovózinha e, por consequência, é morto e tem a barriga aberta por caçadores, enfim, não podemos deixar de contar a vida da Malala, que é de superação, por conta das dificuldades que ela passou”, explicou. 

Livro-reportagem chegou até a Cracolândia 

“Malala, a menina que queria ir para a escola”, lançado pela Companhia das Letrinhas, vai rodar por algumas feiras de livro internacionais. Já passou, por exemplo, por uma feira em Bolonha, na Itália, onde uma editora da Espanha teve interesse em traduzir e lançar a obra. Por enquanto, essa parceria ainda está em negociação, mas a ideia é levar o exemplo da jovem ativista para as crianças de todo o mundo. Até lá, Adriana conta que tem se encantado com a repercussão do seu livro aqui no Brasil.

A mais recente veio de uma turma do 9° ano do ensino fundamental do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. Meninas de 14 anos - mesma idade de Malala quando sofreu o atentado - levaram à prefeitura de São Paulo a iniciativa de obter alguns exemplares do livro a preços mais em conta para distribuir no projeto De Braços Abertos, que recebe crianças retiradas da região da Cracolândia, no centro da capital paulista. 

“Fico muito emocionada com esses gestos de carinho. Também tenho recebido muitas cartinhas dos leitores; eles me mandam fotos em que aparecem lendo o livro, falam que têm curiosidade de conhecer o outro lado do mundo, perguntam como podem ajudar as crianças de lá. Isso só prova que, neste momento em que vivemos uma situação de negligência com os professores brasileiros, a trajetória de Malala nos ensina a enxergar o valor imensurável da educação”, completou Adriana.

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Gaza recebe festival de cinema entre suas ruínas

Divulgação/Karama Film Festival

Cineastas conseguiram realizar – apesar das condições adversas – um festival de cinema na Faixa de Gaza. Até um tapete vermelho foi estendido nas ruínas de um bairro devastado pela guerra.

Os organizadores tiveram que levar um arsenal de cabos de energia para o distrito de Shujaiyeh, fortemente bombardeado no conflito com Israel.

Além da complicada logística, os responsáveis pelo evento precisaram enfrentar o risco de acidentes com bombas não detonadas que ainda poderiam estar sob o solo do território.


A programação do batizado Festival de Cinema Karama Gaza contou com 28 produções cujo principal foco era a discussão dos direitos humanos.

Milhares de pessoas marcaram presença no evento que durou três dias e trouxe a sétima arte de volta para uma região que, na década de 1980, fechou o seu último cinema.

“Esse festival é uma mensagem para que todos pensem no povo de Shujaiyeh como seres humanos”, declarou o cineasta palestino Al-Mozayen, um dos responsáveis pela realização do Karama Gaza.



(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 3 de maio de 2015

"A Estrada 47" relembra atuação dos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial


Daniel de Oliveira (no centro) vive o pracinha Guima em "A Estrada 47"

Uma concha de retalhos feita com vários relatos de uma época que ficou esquecida entre tantas atrocidades ocorridas na Segunda Guerra Mundial. É assim que o cineasta Vicente Ferraz define seu novo filme “A Estrada 47”, que chega aos cinemas no próximo dia 7.

O longa, que tem Daniel de Oliveira como protagonista, conta a história de um grupo de pracinhas - soldados brasileiros enviados para lutar contra o exército alemão durante a guerra.

Na trama, eles tentam concluir a missão de retirar todas as minas de uma estrada na Itália, abrindo espaço para que os aliados norte-americanos possam acessar o local e seguir com o combate contra a expansão do Nazismo na Europa.

Embora se trate de uma ficção, o roteiro reúne alguns fatos que aconteceram naquela ocasião, década de 40, através de depoimentos deixados por alguns soldados.


O cineasta Vicente Ferraz nos bastidores do filme

“Me interessou muito poder falar sobre esses 25 mil meninos enviados pelo Brasil para enfrentar o exército mais poderoso daqueles tempos em um dos invernos mais rigorosos que a Itália já conheceu”, explicou Vicente.

Inverno, inclusive, que todos do elenco tiveram que conhecer. Antes, os atores passaram alguns dias em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, com o exército brasileiro, recebendo um treinamento militar para só então embarcarem para a Itália, país onde a grande maioria das cenas do filme foi rodada em uma temperatura a -13º.

“Na Itália tínhamos um preparador que nos fazia acordar às 6h da manhã para subir um morro congelado como parte de um treinamento que nos possibilitou filmar na neve depois”, contou Daniel, que na história vive o pracinha Guima.


O elenco precisou enfrentar temperaturas baixas para filmar a obra

Mesmo os mais experientes da produção achavam isso uma loucura. “Falavam que éramos doidos de querer gravar na neve”, recordou o diretor Vicente, citando a equipe italiana que trabalhou no filme. “O engraçado é que eles, que estão acostumados com esse tipo de clima frio, preferem filmar dentro de um estúdio quando há nevasca”, contou ainda.

Todo esse esforço, na visão de Daniel, valeu a pena. “Foi prazeroso”, resumiu. “A gente não vê filme de guerra assim sendo feito no Brasil, foi ótimo ter tido essa oportunidade”, completou o ator.

“A Estrada 47” ainda traz em seu elenco os atores brasileiros Júlio Andrade, Francisco Gaspar e Thogun Teixeira, além do italiano Sergio Rubini, o português Ivo Canelas e o alemão Richard Sammel.

 

 (Karen Lemos - Portal RedeTV!)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Bateristas tocam vendados para divulgar projeto que ensina música a deficientes



João Barone, do Paralamas do Sucesso, Guto Goffi, do Barão Vermelho, Paulinho Fonseca, do Jota Quest, Daniel Weksler, do NX Zero, entre outros bateristas de renome, já aderiram à campanha, criada na semana passada, para divulgar o projeto Alma de Batera que, desde 2008, oferece aulas de bateria para deficientes que amam a música.

A ideia é que os bateristas toquem vendados e registrem, em vídeo, a experiência. A iniciativa é parte de uma campanha para arrecadar fundos para o projeto que, atualmente, sofre com problemas financeiros.

"Trabalhar com inclusão social no Brasil é muito difícil, principalmente com algo que envolve a música", ressalta o baterista Paul Lafontaine, que decidiu fundar o Alma de Batera após trabalhar com cegos em um projeto voluntário.


Não se trata, no entanto, de musicoterapia. "O Alma de Batera oferece oportunidade para quem quer fazer aulas de bateria como qualquer outra pessoa. Não é uma terapia, embora acabe funcionando dessa forma também", explica Paul que, desde que iniciou o projeto, tem observado mudanças positivas em seus alunos.

"Vejo que eles criam uma autoestima, se sentem mais confiantes, tem a coordenação estimulada, uma vontade de participar mais das coisas, de socializar, enfim, vários resultados que não dá nem para mensurar o quanto são positivos para eles".

As mudanças também partem daqueles que dão aula. Além de Paul e outros professores do Alma de Batera, alguns bateristas famosos, como Eloy Casagrande, do Sepultura, já visitaram a sede da iniciativa e passaram uma tarde falando de música, tocando bateria e trocando experiências com os alunos.


"Os bateristas também sentem mudanças com essa troca. Eles chegam para nos ajudar e relatam uma sensação de que, no final, eles que foram ajudados. É uma troca muito forte", conta Lafontaine que tem divulgado, ao longo da semana, vídeos dos bateristas que toparam participar da campanha e tocaram com os olhos vendados.

 "Queremos que as pessoas 'abram os olhos' para nós, para que possamos continuar com esse projeto cuja causa maior é o amor pela bateria", completa.

(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

É Tudo Verdade abre com homenagem póstuma a Eduardo Coutinho


Eduardo Coutinho abriu – em merecida oportunidade – a 20ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que teve início em São Paulo, na noite dessa quinta (9), com destaques do panorama nacional e internacional, além de retrospectivas e exibições especiais de filmes documentais. 

Últimas Conversas, filme no qual o cineasta se despede de seu público, ficou pronto a tempo de sua estreia para a abertura do evento. Coutinho morreu, em fevereiro de 2014, enquanto concluía o longa. Filmou, mas não teve a oportunidade de montar sua derradeira obra, papel que coube aos seus colaboradores de longa data João Moreira Salles e Jordana Berg.

“Montar esse filme veio de uma necessidade minha de permanecer com Coutinho mesmo após sua morte”, contou Jordana em conversa com a Revista O Grito!. “Para algumas pessoas, o luto chegou no dia da morte do Eduardo, para mim, está chegando agora, já que eu pude ficar mais um ano com ele na ilha de edição”, completou a montadora, que passou dez meses cuidando do material deixado pelo documentarista.

Em Últimas Conversas, Coutinho entrevista jovens estudantes do ensino público do Rio de Janeiro. Entre algumas histórias trágicas, curiosas e hilárias dos alunos, contrapondo com uma visão ainda cheia de esperança dos mais novos, o documentarista revela seu processo como entrevistador. Por vezes, a inversão de papéis é permitida e os adolescentes parecem entrevistá-lo por acidente, dando espaço para que o cineasta esmiúce suas opiniões. Este tipo de abordagem, ressalta Jordana, apareceu em uma segunda montagem do filme.


“A primeira montagem estava a cara do Coutinho. Como conheço ele há muito tempo, fiz o filme com a cabeça dele. Mas acho que a segunda montagem ficou mais fiel à captura da pessoa que foi Coutinho”. Ao dedicar a sessão a Eduardo e ressaltar sua importância como o principal praticante do gênero no país, João Moreira Salles falou de sua amizade pessoal e profissional – o que lhe garantiu produzir os últimos filmes de Coutinho – e do legado deixado pelo seu maior incentivador.

“Não tenho dúvidas de que ele foi a pessoa mais importante na minha formação. Perdi uma grande pessoa que me norteava, mas conheci Coutinho tão bem que, até hoje, conversamos muito. Não é uma bobagem, tenho muito dele dentro de mim”, pontuou João, que assina a versão final do filme.

Eduardo Coutinho, 7 de Outubro 

Além de Últimas Conversas, também está em cartaz o documentário Eduardo Coutinho, 7 de Outubro. Dirigido por Carlos Nader, o filme não chega como uma biografia, mas sim como uma análise visceral da obra sob o ponto de vista de seu próprio autor.

No lugar dos personagens aparentemente rasos, mas que se revelam ricos diante da provocação do entrevistador, está o próprio documentarista. Diante da câmera, Coutinho fala sobre tudo; seu papel como documentarista, sua arte de instigar o entrevistado, suas amarguras da vida, suas opiniões sobre qualquer tema – sempre pontuadas por uma acidez e alguns palavrões – e também entra em contato com sua obra, recordando alguns célebres personagens que contribuíram para que seus filmes se tornassem únicos.


Na estreia do longa, que aconteceu mês passado na capital paulista, Nader contou que “7 de Outubro” não era para ser um filme. “Foi uma impressionante série de coincidências”, explicou. “Eu estava fazendo um projeto sobre terceira idade com o Coutinho e, como na ocasião ele tinha pouco tempo para falar comigo por conta das gravações de seu último filme, tivemos que conversar rapidamente por 15 minutos. Claro que não deu certo; a entrevista durou cinco horas e só foi interrompida porque eu tinha um voo naquele mesmo dia”.

Dessa forma, com um vasto material em mãos, Carlos decidiu fazer do projeto um longa-metragem. O documentário estreou sem grandes alardes em 2013 e está sendo lançado novamente após a lamentável morte do cineasta. “Acho que a vontade deste filme era a de ser um filme mesmo”, completou Nader.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Alunos se vestem de membros da Ku Klux Klan em trote universitário

Reprodução/Facebook

Uma festa para a recepção de calouros do curso de medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) virou alvo de investigação depois que fotos do evento passaram a circular na internet, mostrando alunos do sexto ano - organizadores da festa - vestidos como membros da Ku Klux Klan, que defende a existência de uma supremacia branca.

Em nota, a Unesp declarou que vai instaurar uma comissão para apurar o que ocorreu na festa, chamada "Batizado da Medicina", realizada em 5 de março em Botucatu, interior de São Paulo.

"A Comissão responsável pela apuração deverá levantar informações, confrontando sua veracidade, obtendo nomes, datas, horários, fiscalizando a existência de câmeras, fotos e requerendo providências que se façam necessárias e que possam resultar em provas substanciais", diz a nota.

Caso fique comprovado infração ao regimento geral da Unesp após esta apuração, será aberta sindicância, que pode aplicar sanções aos estudantes envolvidos, que variam conforme a gravidade do caso, podendo chegar à expulsão.

Alunos se defendem 

Os estudantes do sexto ano de medicina se manifestaram em uma rede social esclarecendo que as fantasias usadas na festa não eram uma representação da Ku Klux Klan. "O tema da fantasia escolhido foi de 'carrasco', utilizando roupas pretas e máscaras. As fantasias foram utilizadas apenas para a entrada da turma, sendo que foram retiradas logo após a entrada, dando início a confraternização com os calouros no evento”, garantem os organizadores do evento em nota.

Reprodução/Facebook 

No comunicado, os alunos ainda citaram ameaças que disseram ter sofrido após a "descontextualização" de suas fantasias. “A conclusão de que estávamos fantasiados de 'Ku Klux Klan' foi inferida pela forma como foram divulgadas as imagens, descontextualizando totalmente a fantasia e inserindo imagens que fizessem com que os leitores chegassem a essa conclusão. Nós só retiramos as imagens porque as pessoas que estavam nas fotos começaram a ser ameaçadas”, completam na nota.

Em outra publicação, alguns participantes da festa assinaram um documento garantindo que não sofreram violência física ou moral no "Batizado da Medicina".

Punições cabíveis 

O advogado Daniel Bento Teixeira do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) afirmou que as punições, caso a discriminação racial seja comprovada após apuração da universidade, podem ser desde acadêmicas, civis - como indenizações a quem se sentir ofendido pelo ato - e até penal. "Os estudantes podem ser processados pelo artigo 20 da lei Nº 7.716, que criminaliza a discriminação racial, podendo pegar de um a três anos de prisão e multa, uma vez apurado e ficando claro a existência do crime", ressaltou.
O preconceito racial, aliás, foi tema da redação do vestibular deste ano da Unesp, o que indica uma preocupação das universidades com relação ao tema na teoria, mas ainda insuficiente na prática.

Na opinião de Daniel, as universidades têm um papel essencial não só em fiscalizar os trotes como também em incluir aulas de diversidade humana em suas grades curriculares. "Me preocupa muito o tipo de profissional que está sendo formado e que, futuramente, no caso dos estudantes de medicina, terão um papel determinante na vida das pessoas", completa o advogado.

(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

segunda-feira, 23 de março de 2015

"O Sal da Terra" revela Sebastião Salgado além do mito


A princípio, "O Sal da Terra", que chega aos cinemas no próximo dia 26, pode parecer um documentário sobre o fotógrafo e sua arte, mas seria injusto simplificar desta maneira. Mais do que esmiuçar a obra, o longa-metragem fala das experiências de uma testemunha dos últimos 40 anos de história mundial.

 Foi testemunhando por trás de uma lente que Sebastião Salgado fez registros históricos como a guerra civil na Ruanda, o surto de fome na Etiópia, o conflito étnico-religioso na antiga Iugoslávia, a corrida de ouro na Serra Pelada, além de apresentar um novo olhar para o Nordeste brasileiro, a América Latina, algumas tribos indígenas e até para a Ilha de Galápagos, como um Darwin contemporâneo.

O documentário tem início com algumas imagens da corrida do ouro no sudeste do Pará – talvez as mais conhecidas de seu acervo fotográfico. Sebastião surge a partir daí comentando os registros e, mais do que isso, revelando as memórias ocultas de cada foto.

“Esse filme precisava ser sobre as experiências dele. Todo mundo conhece suas fotos, mas não as histórias por trás delas”, resumiu o diretor Juliano Salgado, filho mais velho do fotógrafo, ao divulgar seu filme que abriu a 4ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em São Paulo.

Sebastião marcaria presença no evento, mas precisou cancelar o compromisso por conta da trágica morte de sua cunhada, Leny Wanick Mattos, no dia anterior.

Juliano assina "O Sal da Terra" em uma parceria com o cineasta alemão Win Wenders. Para mergulhar em sua obra, a dupla usou um recurso curioso. Em algumas sequências, a imagem de Sebastião surge sobreposta às suas fotografias, fazendo com que o próprio artista fique imerso à sua obra para poder comentá-la, mergulhando junto com o espectador em seus registros e quebrando a fronteira entre papel e olho humano.

É também a sensibilidade de Sebastião em capturar a alma humana que nos torna ainda mais próximos de sua obra. “Muitos fotógrafos gostam de falar deles; falam da luz, daquele momento em que a câmera quebrou, das dificuldades que enfrentou para fazer uma foto, enfim. O Tião, não! Tião fala das pessoas que fotografa, mostra como elas se revelam em momentos de crises, como fazem para sobreviver. Esse jeito dele de fotografar, essa relação íntima, transcende, nos faz enxergar não só uma foto, mas a pessoa na imagem que, de tão próxima, poderia ser nosso vizinho, nosso irmão ou até nós mesmos”.

O papel de Win Wenders

Um dos mais conhecidos registros de Sebastião, Refugee from Gondan, Mali, 1985, chamou a atenção de Win Wenders – naquela época já um respeitado diretor de cinema – em uma exposição de arte. Sem hesitar, ele comprou a foto que, segundo o próprio, ainda o faz chorar todos os dias quando pousa os olhos sob o rosto sofrido da refugiada, que agora descansa em sua mesa de escrivaninha.

Naquela ocasião, o galerista mostrou a Wenders outras imagens daquele mesmo fotógrafo. No verso de um dos registros da corrida do ouro na Serra Pelada, ele descobriu o nome daquele que se tornaria um amigo íntimo. Até hoje, os dois trocam mensagens pelo Whatsapp, normalmente com piadas e zoações a respeito de futebol. “Win é muito fã do trabalho de Sebastião”, recordou Juliano. “Ele já queria fazer algo sobre ele e, quando soube que eu estava filmando suas viagens, gostou da ideia e quis participar”.


Juliano com Sebastião Salgado ao centro e Win Wenders

Win ficou com o papel de entrevistar Sebastião e dele arrancar as histórias de seus cliques pelo mundo afora. Não foi tarefa fácil para quem passou a vida protegido por lentes que, de uma hora para outra, passaram a observá-lo incessantemente. “Ele não entende essa coisa de cinema, não tem paciência para isso. Foi uma experiência sofrida nesse sentido”, riu Juliano.

A maior dificuldade parou por aí já que, na opinião do diretor, a vida do pai tem uma dramaturgia natural. “Que não precisa ser dramatizada”, ressaltou. “O auge da carreira de Sebastião, a quebra da sua maneira de fotografar - que veio logo após uma forte depressão - e a forma com a qual ele se reinventou depois disso dá uma ótima história”, observou.

Reaproximação com o pai 

Nascido na França, onde Sebastião mudou-se com a esposa e parceira artística, Lélia, no final da década de 1960 – pleno período de ditadura militar no Brasil, Juliano pouco via o pai. A distante relação não permitiu, no entanto, que o filho deixasse de admirá-lo; pelo contrário, Juliano sempre enxergou o pai como um verdadeiro aventureiro que, ao voltar de suas excursões pelos quatro cantos do mundo, trazia consigo relatos que nem mesmo o mais hábil contador de histórias poderia recriar.

Através de um convite, feito em 2009, para acompanhá-lo em uma incursão pela Floresta Amazônica, Juliano pode compartilhar das aventuras e do amor paterno que, durante muitos anos, lhe foi privado por conta das longas viagens de Sebastião. “Esse filme serviu para que eu me reaproximasse de meu pai”, contou. “Antes deste convite, tínhamos uma relação mais distante. Quando o acompanhei em uma reportagem sobre a tribo Zo’é, no Pará, algo curioso aconteceu. Esse povo é super dócil e não conhece brigas. Isso contagiou nossa relação, nos abrindo portas não somente para realizar este filme, mas também para nos tornamos amigos”.

Outro presente que "O Sal da Terra" entregou à família Salgado foi uma indicação ao Oscar de melhor documentário em longa-metragem deste ano. Embora inesperado, a nomeação trouxe uma nova projeção de luz ao filme. “Quando uma premiação, considerada como a maior do mundo, decide trazer o documentário para um espaço midiático fantástico é algo além de qualquer coisa que podíamos imaginar; a consequência disso é poder levar essa mensagem para o mundo todo”.

Considere como mensagem não somente o trabalho de toda uma vida realizado por Sebastião, mas também de projetos pessoais como o Instituto Terra que, com a ajuda de locais, transformou em realidade o sonho do fotógrafo de replantar parte da Mata Atlântica que fez parte de sua infância na cidade natal de Aimorés, Minas Gerais – uma ideia que, em tempos de desmatamento, vem a calhar. “Mais difícil do que plantar na terra infértil é mudar a mentalidade das pessoas. Esse projeto mostrou que isso também é possível”, ressaltou Juliano.



(Karen Lemos - Revista O Grito!)