sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Exposição de Salvador Dalí mostra várias faces do artista catalão


Saindo do Rio de Janeiro, onde fez mais de um milhão de espectadores, a exposição Salvador Dalí – que reúne a maior retrospectiva do artista catalão que já passou pelo Brasil – chega a São Paulo no Instituto Tomie Ohtake.

Até o dia 11 de janeiro de 2015, o público poderá conferir obras provenientes de dois dos maiores colecionadores do pintor: Fundação Gala-Salvador Dalí e Museu Reina Sofia, ambos na Espanha. Diferente da temporada carioca, a exposição de São Paulo não terá obras do Museu Salvador Dalí, da Flórida; em contrapartida, outras raridades estarão disponíveis, como é o caso do valioso óleo sobre madeira “O espectro do sex-appeal” (1934), um dos grandes destaques da exposição na opinião de Carolina de Angelis, do núcleo de pesquisa e curadoria do Instituto.

“A obra é pequena, mas é de grande importância”, ressaltou em conversa com a Revista o Grito! durante a abertura do evento para convidados. “Quem conhece Dalí, reconhece suas características nessa obra: paisagem mineral, tons terrosos e uma figura meio monstruosa e meio humana que revela um medo da sexualidade, da libido, muito abordada por ele em sua arte”.

“O espectro do sex-appeal” está exposta entre outras 23 pinturas, 135 trabalhos entre desenhos e gravuras, 40 documentos, 15 fotografias e quatro filmes em um conjunto que demorou cinco anos para ser concebido. Dessa forma, o espectador terá contato com a produção de Dalí desde os anos 1920 até seus últimos trabalhos, o que torna possível a percepção de sua evolução técnica, suas influências e suas referências. 

Para Carolina, a amplitude alcançada pela curadoria mostra o quão versátil era a arte de Dalí. “A exposição não traz uma faceta específica dele”, explicou. “Não enfatizamos o Dalí pintor; o mostramos também como cineasta, como pesquisador – ele foi um grande pesquisador da ciência, da religião e da arte, estudando a holografia e buscas por terceiras dimensões na pintura – e também na literatura, cuja contribuição na área recebeu um grande enfoque nessa temporada”.

Dalí ilustrou de Dom Quixote a Alice 

De fato, há uma parte significativa da exposição dedicada à parceria entre Dalí e a literatura. Essa fatia do conjunto é uma grande atração para o público, já que a maioria conhece as histórias de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, entre outros. Dalí fez gravuras para edições desses livros notórios, o que vai aumentar ainda mais o interesse do espectador.

“Além disso, há obras que abordam temas universais como a busca da pessoa amada, o existencialismo humano, dificuldades de se relacionar, e também temas despertam nossa curiosidade, como os sonhos e a psicanálise”, detalhou Carolina. Para ela, a figura excêntrica do artista também foi uma forma de parecer mais atrativo aos olhos de seu público. “A construção do personagem dele mostra muito isso. Ele estava preocupado em criar uma imagem que fosse muito divulgada e, dessa forma, aproximar as pessoas para que elas conhecessem suas obras”, explicou.

Contribuição no cinema 



A sétima arte também foi de interesse para o artista. É de grande estima, por exemplo, a parceria cinematográfica entre Dalí e o diretor surrealista Luís Buñel (1990 – 1983), que resultou nas obras O Cão Andaluz (1929) e A Idade do Ouro (1930), cujos excertos também estão expostos no Instituto.

Outra rica parceria se deu com o encontro do pintor com Alfred Hitchcock (1899 – 1980) em Quando Fala o Coração (1945), longa que apresenta cenas de sonhos desenhadas por Dalí. “Dalí era a melhor pessoa para realizar meus sonhos, é assim que os sonhos deveriam ser”, chegou a declarar Hitchcock ao comentar sobre o filme. Há ainda uma animação feita especialmente para a Disney, chamada Destino, que começou a ser pensada em 1945 e só terminou, proporcionalmente falando, em tempos recentes, no ano de 2003. O curta animado é uma verdadeira brincadeira entre aspectos provenientes do universo ímpar e singular do pintor.

Para finalizar, ainda é possível acessar uma obra interativa que, dado a sua complexidade, é necessário enfrentar um pouco de fila para dela usufruir. Trata-se de uma escultura de um enorme rosto em que se pode sentar-se na boca (que, na realidade, é um sofá) e tirar uma foto de dentro do rosto frente a um espelho – um recurso perfeito em tempos de selfies.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Festival celebra os 20 anos do Manguebeat no coração de São Paulo


Mundo Livre S/A

Há quem diga que nada fez – literalmente – tanto barulho nos últimos 20 anos na música brasileira do que o Manguebeat, movimento cultural surgido no Recife na década de 1990. Celebrar, então, as duas décadas do surgimento do gênero é uma responsabilidade e tanto que foi assumida pelo Festival Caranguejando, uma parceria do CCBB de São Paulo com a Baluarte Cultura.

Em um palco erguido em plena Praça do Patriarca, no coração do centro da capital paulista, oito artistas se reuniram para comemorar a data entre os dias 11 e 12 de outubro – um final de semana com direito a clima parecido com o do berço do Manguebeat, em que a máxima ficou entre os 30 graus.

No sábado, a banda paulistana Isca de Polícia abriu o evento convidando o carioca Serjão Loroza para o palco e, em seguida, um dos percussores do movimento, a Mundo Livre S/A, dividiu o espaço com Pedro Luís. Já no domingo foi a vez da banda Paraphernalia começar o dia com a brasiliense Ellen Oléria como convidada; na sequência, os recifenses do Mombojó fizeram sua homenagem na companhia do cantor Curumin.

Curadora do evento, Monica Ramalho explicou a diversificada seleção de artistas. “Queríamos uma banda seminal do Manguebeat, outra que demonstrasse que esse gênero continua vivo e ainda achamos interessante mostrar que o movimento também circula pelo país, pegando artistas do eixo Rio/São Paulo, sempre com convidados interessantes para fazer um tributo que não fosse óbvio”, ressaltou em conversa com a Revista O Grito!.

Primeiro dia: a autoestima de olhar o próprio umbigo 

Além de se apresentar no festival com a banda Isca de Polícia – que acompanhou a carreira de Itamar Assumpção (1949 – 2003) – Paulo Lepetit também assinou a direção musical do evento e, durante esse processo, ficou surpreso com as semelhanças de sonoridade e crítica social de Pernambuco com a vanguarda paulista. “Para o repertório, procurei músicas ‘irmãzinhas’, que se encaixavam pelo assunto ou pelo groove”, ressaltou Paulo, que recebeu Serjão Loroza, do Monobloco, no palco. “O Manguebeat mostrou autoestima ao olhar para o próprio umbigo e mostrar que o Brasil também é universal”, elogiou o cantor.

O show começou om um ‘mashup’ de “Não Há Saídas”, da Isca de Polícia, com “A Cidade”, da Nação Zumbi, provando que o discurso entre as duas bandas ultrapassa fronteiras. Músicas pré-Manguebeat, como “Papagaio do Futuro”, de Alceu Valença, e “Vendedor de Caranguejo”, de Gordurinha (1922 – 1969), também tiveram vez no roteiro.

Foi justamente com a canção “Manguebit”, que abre o primeiro disco "Samba Esquema Noise", que Fred 04 e a Mundo Livre S/A deram início ao tributo a uma história em que eles próprios ajudaram a escrever. “Passa um filme na minha cabeça”, definiu Fred, em conversa com O Grito!. “Eu cresci em uma geração que tinha várias ideias bacanas, mas que precisava se mandar, porque o Recife e o Nordeste viviam uma situação econômica e cultural de estagnação”, recordou. “Hoje, vivemos uma situação oposta; as novas bandas de Recife têm uma responsabilidade grande, porque o grau de interesse agora é maior”.


Mombojó

Após apresentarem outros trabalhos do grupo, como “Pastilhas Coloridas”, “O Mistério do Samba” e “Meu Esquema”, a Mundo Livre S/A ainda convidou Pedro Luís e presenteou o músico com uma nova roupagem para seu sucesso “Caio no Swing”. “Gostei muito da versão batizada de Manguebeat para essa música. Só vou tocar essa daqui pra frente”, brincou Pedro. “Esse gênero é de uma linguagem que tem muita personalidade. Fico honrado de ter sido chamado para fazer parte de um evento que celebra algo tão importante para a música”, concluiu o músico, que ainda teve o privilégio de dividir os vocais com Fred na música “Samba Makossa”, de Chico Science (1966 – 1997).

Segundo dia: mangue de formação 

Por ser tratar de uma banda instrumental, os músicos da Paraphernalia se preocuparam, principalmente, em pincelar canções do gênero que fossem melhor executadas na formação instrumental. “O forte do Manguebeat é o ritmo, a levada; e foi dessa forma que mostramos nossa versão e como enxergamos o movimento”, declarou Donatinho, tecladista do conjunto. Nada melhor do que abrir a apresentação com “Quilombo Groove”, uma das faixas do segundo disco de trabalho da Nação Zumbi e que explora muito bem o instrumental.

Com Ellen Oléria, o Paraphernalia trouxe voz para músicas representativas do Manguebeat, como “Mormaço” e “Blunt of Judah”, da Nação Zumbi, e “Cuba” e “Bob”, de Otto. “Sou muito influenciada pelo movimento. Em meu último disco gravei ‘Anunciação’, do Alceu Valença, já estava bebendo nessa fonte”, pontuou Ellen.

O último show do evento contou com uma banda representativa do gênero e um artista contemporâneo que recebeu influências da época em que o Manguebeat começava a ganhar seu espaço no mercado fonográfico. “Tenho 38 anos, portanto eu cresci sob essa atmosfera [de expansão do movimento]. Lembro que eu saia para curtir e o som do Manguebeat era sempre muito presente; fez parte da minha formação cultural”, explicou Curumin em entrevista a reportagem.

No palco, o paulistano e os músicos do Mombojó abriram o leque para vários artistas do movimento. Teve um pouco de tudo: “Computadores Fazem Arte”, da Nação Zumbi, “Dias de Janeiro” e “Ciranda de Maluco”, de Otto, “Coqueiros”, da banda Eddie, e “Punk Rock Hardcore”, do Devotos, além de “Casa Caiada”, “Pro Sol” e “Deixe-se Acreditar” do próprio Mombojó. “É uma honra poder tocar todas essas músicas sendo um nome que também representa esse movimento”, afirmou Marcelo Machado, guitarrista da banda. “Foi um show de fãs para seus representantes”, concluiu.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Uma conversa com Walter Carvalho: “minha obra principal é a próxima”


Foto: Carol Andrewsk

Com a fotografia assinada em mais de 70 produções, Walter Carvalho recebe uma merecida mostra com os principais filmes de sua carreira reunidas em A Luz (Imagem) de Walter Carvalho, em cartaz no Caixa Belas Artes de São Paulo até 15 de outubro.

Em um bate papo aberto ao público que contou também com a presença do cineasta Beto Brant (com quem trabalhou em "Crime Indelicado") e da jornalista Maria do Rosário Caetano, Walter falou da honra de ser homenageado e de poder fazer um balanço de sua trajetória em seus 35 anos – completos em 2014 – como fotógrafo de cinema. “Vendo novamente todos esses filmes reunidos, me lembrei de uma metáfora oriental. O camponês japonês sempre planta seu arroz de costas para o terreno vazio e de frente para a plantação, pois a preocupação não é com o que falta plantar, mas se o que está sendo feito está correto. Essa mostra fez com que o virasse para trás e pensasse isso”, resumiu Walter durante a conversa com o público.

“É algo curioso demais. Descobri que meu trabalho em alguns filmes significava uma coisa antes e agora significa outra. Alguns filmes eu até não entendia e, agora, consigo entender. Tem sido estimulante”.

Entre longas e curtas-metragens e alguns projetos para a televisão, a mostra acabou por traçar um panorama do cinema brasileiro dos últimos 40 anos por reunir obras conhecidas desse período da produção nacional como "Central do Brasil", "Carandiru", "Madame Satã", "Cazuza, O Tempo Não Para", "Lavoura Arcaica", "Amarelo Manga", "Janela da Alma", além de contemplar filmes dos mais diversos diretores como Walter Salles, Sandra Werneck, Ruy Guerra, Cláudio Assis, Julio Bressane, Karim Ainouz, entre muitos outros.

“Costumo dizer que minha obra principal é a próxima. Sou um mutante. Tendo dirigido a fotografia de filmes de diretores de várias origens, mais velhos ou mais novos do que eu, tive a possibilidade de trabalhar com a descoberta do criativo. Cinema você faz para ver como fica e você só descobre o que é quando acaba”, ressaltou.

O Nordeste nunca te deixa

Nascido em João Pessoa, na Paraíba, Walter se envolveu com o Cinema Novo e teve seu destaque a partir da Retomada. Embora atualmente more no Rio de Janeiro, sempre faz visitas a terra natal. “Existe um sistema de visão onde o objeto mais distante é o que te acompanha mais. Repare quando você está na estrada: a montanha lá no horizonte nunca te deixa, mas o poste ao lado passa tão rápido que você mal consegue vê-lo. Isso é o que acontece com o Nordeste dentro de mim – está longe, mas nunca me deixa”, declarou.

Em um desses retornos às suas origens, Walter teve a alegria de assinar a fotografia de uma das grandes obras do cinema da retomada: "Central do Brasil", do xará Walter Salles. “Uma das maiores felicidades para mim foi ter sido chamado para fazer esse filme. Na história, o personagem busca seu pai no sertão nordestino e, assim como ele, eu também estava em busca de alguma coisa, algo que eu introduzi no filme do Walter [Salles] ao voltar àquele lugar”, recordou. “Depois que ‘Central’ foi lançado, alguém me perguntou que filtro eu usei na fotografia do filme. Que filtro eu usei? Eu usei meu pai, o nordeste, a cor, a terra, o céu, enfim, não tem importância. Filtro é apenas um acessório, a fotografia do filme é muito maior do que a gente pode imaginar”.

Outra parceria no cinema também proporcionou um feliz reencontro de Walter com suas raízes. Durante o Festival de Brasília no ano em que "Baile Perfurmado", de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, foi exibido, Walter conheceu o irreverente Cláudio Assis no banheiro. Lá, os dois trocaram figurinhas e fecharam trabalhar juntos em um piloto para a televisão sobre o rio São Francisco (o projeto em questão era "Opara", de 1999). Ao viajarem para Recife para filmar, Cláudio mostrou a Walter sua ideia para o curta-metragem "Texas Hotel". A partir daí, surgiu uma bem sucedida parceria entre os dois que resultou nas obras "Amarelo Manga", "Baixio das Bestas" e "Febre do Rato". “Agora a gente deu uma parada, é que nem casamento sabe”, riu Walter ao ser questionado a respeito de sua ausência na direção de fotografia de "Big Jato", novo longa de Cláudio.

Estudos sobre a sujeira

Foi com Cláudio Assis que Walter provou não ter medo de ousar. A fotografia escura dos filmes do diretor pernambucano são tão únicas quanto a fotografia suja de "Cazuza, O Tempo Não Para", de Sandra Werneck. A ‘sujeira’, aliás, ele conta, foi totalmente proposital. “A ideia surgiu quando li alguns livros sobre Cazuza escritos por sua mãe, Lucinha Araújo. Descobri que Cazuza gostava de fotografia e gostava de ser fotografado, então sugeri fazermos uma fotografia como se fosse o próprio fotografando: de uma forma ‘errada’, amadora, mas, justamente por isso, com muito amor”, contou Walter que, neste longa, deu oportunidade para seu filho, Lula Carvalho, seguir seus passos. Hoje, Lula é também um renomado fotógrafo de cinema cujo último trabalho foi em "As Tartarugas Ninjas", de Michael Bay. “Na época do ‘Cazuza’ eu dizia no ouvido dele: ‘Você não está empunhando uma câmera, mas uma guitarra desafinada”, recordou, aos risos. Mesmo com uma fotografia fora dos padrões, “Cazuza” fez mais de três milhões de espectadores, provando que os ‘riscos’ assumidos por Walter desde o início valeram a pena.

Há muitos exemplos como esses na filmografia de Walter. E sempre haverá, já que estamos falando de um fotógrafo incansável no auge de seus 67 anos. Este ano, ele concluiu "O Rebu", minissérie para a televisão cuja fotografia foi muito elogiada pela crítica, está lançando seu documentário "Brincantes", sobre o músico pernambucano Antonio Nóbrega, enquanto prepara outro filme batizado de "Um filme de Cinema” e deve ainda lançar um livro intitulado "Contrastes Simultâneos". Mesmo depois de muito trabalho, ele continua na ativa – e não dá sinais de que irá parar.

“Sempre digo que fotografia não se aprende, fotografia se pratica. Se eu descobri que aprendi e sei fotografar, minha vida ficará sem sentido, porque eu sei, oras! Qual é a graça?”, brincou ao abrir a mostra em sua homenagem.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Exposição de fotos inéditas traz a figura humana por trás da artista Frida Khalo


Encontradas em um banheiro da Casa Azul (residência na qual morou no bairro de Cocoyacán, na Cidade do México) e guardadas com muito zelo e apreço, as fotografias de Frida Kahlo são tão reveladoras quanto as pinturas que a imortalizaram como um dos grandes nomes da arte hispânica.

Reunidas na exposição Frida Kahlo – as suas fotografias que está rodando o mundo, os registros fotográficos chegam pela primeira vez no Brasil no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, e mostram uma faceta curiosa e até inédita, mesmo se tratando de uma mulher que nunca temeu se expor.

“São retratos intimistas que possibilitam que o público vivencie as emoções de Frida nas fotos, isso trouxe algo a mais para esta exposição”, explica Estela Sandrini, diretora cultural do museu que está celebrando o grande sucesso da mostra: mais de 90 mil pessoas já conferiram a exposição (em uma média de 30 mil pessoas por mês); por conta disso, a exibição foi prorrogada e poderá ser visitada até o dia 30 de novembro.

“O curioso é que essa coleção foi exposta sem saber ao certo como o público iria vê-la. Poderia até passar despercebida, mas acreditamos na proposta, apostamos em seu sucesso e deu certo”, ressaltou Sandrini, que apontou a história de vida de Frida – que sofreu um grave acidente aos 18 anos, sua postura diante de tanto sofrimento e da superação ao fazer da dor uma arte como razões para o êxito da mostra.

São 241 imagens divididas em seis seções que tratam de aspectos importantes da trajetória da artista, principalmente porque Frida teve contato com a fotografia quase que a vida toda: ela foi retratada desde a infância por seu pai e pelo avô materno (que eram fotógrafos), por amigos profissionais como a alemã Gisèle Freund e o húngaro Nickolas Muray e também por sua paixão pelo autorretrato – bastante abordada em seus quadros – uma ‘mania’ que herdou do próprio pai. Como nunca foram exibidas antes, muitas dessas fotografias são inéditas – o que garante algumas gratas surpresas. “Existe um registro de Diego Rivera (famoso pintor mexicano e grande amor da vida de Frida) que ela guardou com a marca de um beijo. Os dois tiveram um casamento aberto bastante conturbado e, mesmo assim, Frida sempre teve uma paixão por ele, uma paixão que nunca morreu”, destacou Estela Sandrini.


Saiba mais sobre as seções da mostra:

Origens – Os Pais 
A seção destaca a família de Frida; são registros antigos – porém bem preservados – que mostram os avós maternos da pintora e seus pais Matilde Calderón e Guillermo Kahlo.

Casa Azul 
Aparecem aqui os primeiros registros fotográficos de Frida que, ainda pequena, posava para as lentes de seu pai. Há também retratos de reuniões familiares e entre amigos que aconteciam na Casa Azul – onde hoje funciona o Museu Frida Kahlo.

Corpo Acidentado
A mais dolorida e, sobretudo, mais surpreendente seção da mostra. Traz imagens da época do acidente que sofreu em 1925 quando o ônibus em que viajava se chocou com um bonde. Na tragédia, Frida sofreu diversas fraturas, passou por muitas intervenções cirúrgicas (35 no total) e precisou permanecer imóvel durante muito tempo em sua cama. No leito da dor, a artista posou para Nickolas Muray durante seu período de recuperação.

Amores 
Espaço dedicado às paixões de Frida como amigos íntimos, familiares e amantes. Há registros curiosos, como uma fotografia em que a artista aparece aos beijos com um rapaz fardado cuja identidade não é divulgada. Diego Rivera, claro, surge em várias imagens ao lado de declarações de sua companheira. “Na minha vida tive dois acidentes, num deles um bonde me atropelou… O outro acidente é Diego”, pontuou Frida em uma de suas citações.

Fotografia 
Trata-se de um numeroso arquivo reunido em vida que se estende a raridades como cartões de visita do século XIX, imagens assinadas por grandes nomes da fotografia, como Man Ray, e retratos atribuídos a Frida que revelam seu talento também na arte fotográfica.

Luta Política 
A sexta e última seção da exposição aborda o lado político de Frida, que era comunista. As imagens, na verdade, são recordações de Diego que colecionava registros sobre o tema, como o cotidiano de Berlim e Rússia no período de existência da União Soviética e retratos de líderes e pensadores marxistas como Lenin, Stalin e Trotsky (este último, vale lembrar, teve um rápido envolvimento com Frida na ocasião em que morou na Casa Azul).

Além de expor a artista e a figura por trás da artista, “Frida Kahlo – as suas fotografias” salienta a importância de uma contribuição cultural sem preço, que flertou com surrealismo e a vanguarda, sugando elementos folclóricos dos astecas e de indígenas mexicanos, e que agora está eternizada não somente em quadros, mas também na fotografia – ferramenta mais efetiva contra o esquecimento. “A exposição é uma oportunidade para conhecer Frida da forma como ela mesma se via – ela se mostrou por inteira nessa exposição”, concluiu Sandrini.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)

sábado, 20 de setembro de 2014

Trailer mostra Tim Burton menos fantasioso em "Big Eyes"


O trailer de "Big Eyes", novo longa-metragem assinado por Tim Burton, foi divulgado e surpreendeu os fãs ao mostrar o cineasta afastado do universo da fantasia que o consagrou.

Mais 'realista', Burton apresenta a história de Margaret Keane (Amy Adams), uma pintora que ficou famosa por desenhar crianças com grandes olhos durante as décadas de 1950 e 1960. Em um período em que as mulheres tinham dificuldades em se destacar, seu marido Walter (Christoph Waltz) se aproveita da situação e se diz autor das obras, levando todo o crédito do talento artístico de sua companheira.

Confira o trailer:




Notório por seus filmes surreais e, por vezes, sombrios como "Edward Mãos de Tesoura", "O Estranho Mundo de Jack", "Os Fantasmas se Divertem", entre outros, o diretor também abriu mão de atores-chaves com os quais costuma a trabalhar, caso de Johnny Depp e Helena Bonham Carter (também sua esposa). Ao invés da dupla, Tim optou por trabalhar com a delicadeza de Amy Adams, estrela de "Trapaça", e a 'vilanice' de Waltz, que caiu no gosto do público ao interpretar personagens surpreendentes em "Bastardos Inglórios" e "Django Livre", ambos de Quentin Tarantino.

"Big Eyes" tem previsão de estreia para dezembro deste ano nos EUA.

(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" disputa vaga entre concorrentes ao Oscar



O filme "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", de Daniel Ribeiro, foi o escolhido para representar o Brasil na corrida do Oscar em 2015. O longa vai concorrer por uma vaga entre os selecionados para disputar a estatueta de melhor filme estrangeiro.

A escolha foi anunciada nesta quinta-feira (18) na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, com a decisão de uma comissão nomeada pelo Ministério da Cultura.

Os finalistas serão anunciados em janeiro e o grande vencedor será conhecido no dia 22 de fevereiro de 2015, data da próxima premiação a ser realizada em Los Angeles, nos Estados Unidos.

"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" recebeu o prêmio da crítica internacional no Festival de Berlim deste ano. A história gira em torno de um garoto deficiente visual que se descobre homossexual durante sua adolescência.

Caso seja eleito como um dos concorrentes para o prêmio de melhor filme estrangeiro, o longa-metragem de Daniel Ribeiro quebrará um hiato de 15 anos de ausência do Brasil no Oscar. A última vez em que o cinema nacional teve destaque foi em 1999 com "Central do Brasil", de Walter Salles. Na ocasião, Fernanda Montenegro também disputou a estatueta como melhor atriz, mas perdeu para Gwyneth Paltrow por seu trabalho em "Shakespeare Apaixonado" - episódio que entrou para o hall de injustiças cometidas pela premiação.



(Karen Lemos - Portal RedeTV!)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Cobertura: Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo


"Se Essa Lua Fosse Minha"

Celebrando 25 anos de existência, o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo apresentou uma programação plural, com destaque para seis novas produções do cinema pernambucano, exibidas entre outros 331 filmes de 51 países em alguns cinemas da capital paulista entre os dias 20 a 31 de agosto.

O gaúcho "Se Essa Lua Fosse Minha", de Larissa Lewandoski, sobre moradores de rua de Porto Alegre, levou o Prêmio Itamaraty – principal do evento. Três produções de Pernambuco se destacaram entre os premiados. Exibido na Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes, "Sem Coração", de Nara Normande e Tião, levou o prêmio CTAv e ficou entre os favoritos do público. "Casa Forte", estreia de Rodrigo Almeida, recebeu o troféu Cachaça Cinema Clube.

Costurado por imagens de fachadas de prédios do Recife que exibem nomes em referência ao período colonial, o curta "Casa Forte" narra uma história sob dois pontos de vista diferentes. “Eu não queria que o filme fosse mais um – chamando bem grosseiramente – ‘filme de prédio’ do recente cinema pernambucano, daí resolvi desenvolver dois depoimentos, a partir de uma outra ideia que eu tinha e que tornasse a colocação do filme mais contundente”, explicou Rodrigo em conversa com a Revista O Grito!. “Escrevi dois textos narrados, criando um ruído envolvendo o suposto fetiche de um homem branco por negros e o uso do negro para estabelecer uma relação de dominação inversa”.

Destaques de Pernambuco 

Muito aguardado por conta de seu conteúdo que, após os últimos acontecimentos, ganhou outra significância, "Em Trânsito", de Marcelo Pedroso, teve uma recepção curiosa. O curta-metragem que trabalha com a exploração da imagem de Eduardo Campos, presidenciável morto em um acidente aéreo, teve sua primeira exibição no festival após a tragédia. Mesmo uma cena em que um cartaz ilustrativo do político é decapitado, não causou espanto e o público riu e aplaudiu a obra cuja crítica social permanece fresca. “Neste momento em que várias coisas podem se confundir, é importante frisar a intenção política do filme: uma crítica ao projeto desenvolvimentista, ao personalismo, a uma forma antiga de fazer política que se dizia nova. É nesses termos que se funda o gesto da obra e é assim que espero que ela possa continuar a ser vista e debatida, não obstante o impacto desestabilizador da tragédia e da morte”, declarou Marcelo em um comunicado lido pelo assistente de direção Carlos Nigro antes da sessão.


"A História Natural"

Premiado no último Festival de Cinema de Gramado, "A História Natural", de Júlio Cavani, deixou o público intrigado com um misterioso objeto orgânico que é colhido de uma árvore que, de tão alta, acaba isolada em sua existência. “Perto da minha casa, no bairro Dois Irmãos, tem uma floresta na qual, em cima de um morro, existe uma árvore mais alta que todas as outras. Queria fazer algum trabalho artístico com isso e saí pelo mundo buscando árvores nessa mesma situação de isolamento”, explicou o diretor. Sobre o estranho objeto, ele definiu: “Ninguém sabe o que é. Alguns acham que é um fruto, outros uma casa de inseto ou uma armadilha, ouvi até dizer que é um ovo alienígena. Vai da interpretação de cada um”, completou Júlio, que usou referências de filmes de ficção pós-apocalípticos e histórias em quadrinhos neste trabalho.

Sob um clima de terror existencialista, "Loja de Répteis", de Pedro Severien, traz uma atmosfera decadente de um inusitado comércio e de como isso afeta o dia a dia de um casal, cada vez mais consumido pelo ambiente inóspito em que vive. “Ao usar uma loja que comercializa animais, eu desejava questionar também essa lógica consumista na qual vale tudo para obter o sucesso financeiro”, explicou Severien. O curta conta com a ‘atuação’ de um jacaré, encontrado por ele em uma empresa de abate em Alagoas. O animal é o principal causador de toda a estranheza abordada na obra. “Desde a primeira sessão, percebi que o filme parece atingir o público com um misto de estranhamento e prazer”, pontuou.

Foi um encontro com uma curiosa fotografia que levou Mariana Lacerda a filmar "Pausas Silenciosas". O filme mostra os registros de um Recife – não mais existente – sob as lentes do fotógrafo Alcir Lacerda (não há parentescos com a realizadora) e captura sua lenta perda de memória por conta do Alzheimer. “Alcir fotografou o Recife para que nós não nos esquecêssemos da cidade que um dia tivemos. Ele salvou do curso do tempo a nossa cidade”, declarou Mariana, que traz um trabalho contundente em tempos de críticas diante de um desenfreado crescimento urbano. “Foi muito bom ter o exercício de olhar essas fotografias que estavam adormecidas, escondidas em um arquivo, e colocá-las em uma dimensão cinematográfica”, concluiu.

Brasil dentro e além das fronteiras 

As mostras nacionais trouxeram outras gratas surpresas, como produções brasileiras filmadas em outros países, traçando um panorama internacional sob novos pontos de vista. Um bom exemplo disso é a coprodução Brasil/Egito "Bashar", de Diogo Faggiano, que testemunha os conflitos na Síria e de como a guerra civil tem trazido extremo sofrimento à sua população indefesa. Filmado em Aleppo, em novembro de 2012, a produção do curta envolveu alguns riscos. “Tínhamos medo de ter as imagens apreendidas, fosse na Síria ou no Egito. Por isso guardávamos backups nas meias e debaixo do colchão”, recordou Diogo, em conversa com O Grito!. Para o cineasta, o mais difícil do todo o processo é encarar os ‘fantasmas’ da guerra presentes no seu trabalho. “É estranho saber que a maioria dos homens que aparecem no filme estão mortos. E, de certa forma, o que sobrou desses homens está contido num cartão de memória”. Além do curta, o material que a equipe conseguiu em terras sírias (e outros locais do Oriento Médio) será transformado no longa-metragem A Revolução do Ano, com estreia prevista ainda para este ano.


"Efeito Casimiro"

Bem distante das nossas fronteiras, "Efeito Casimiro", de Clarice Saliby, ‘pega carona’ até Júpiter, de onde alienígenas se comunicam com um ser humano e, através dele, anunciam uma visita a Terra, usando a pacata cidade de Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro, como local de pouso. Embora pareça absurdo, o anúncio mobilizou centenas de pessoas no Brasil (e de alguns outros países) na década de 1980. “Meu pai estava nesse evento e ele me contava essa história desde que era pequena. Quando comecei a fazer cinema, pensei que isso daria um ótimo documentário”, contou Clarice à reportagem. A história agradou e recebeu um prêmio do festival, além de ter ficado entre os favoritos do publico. “Acredito que histórias sobre discos voadores mexem com o imaginário de qualquer ser humano, não importa sua idade ou classe social. É um filme pop, sem restrições. Por isso tem tido uma recepção bem calorosa, mesmo para quem não acredita nesse tipo de coisa”, acrescentou.

Filmado no Vietnã, "O Caminhão do meu Pai", de Maurício Osaki, traz em seu enfoque a relação de pai e filha e do choque de realidade que a criança enfrenta em suas primeiras excursões pelo mundo. “Quando visitei o Vietnã pela primeira vez, enquanto eu dirigia pelo interior ou me perdia pelas multidões da cidade, via a mesma vivacidade e energia que havia visto pelo interior do Brasil”, contou Maurício, ao ser questionado sobre a decisão de filmar no Vietnã. Com atores locais no elenco, que não falavam inglês, ele precisou de um tradutor para se comunicar. Valeu a pena. “Eu sabia que isso poderia aumentar as dificuldades de filmagem, mas por outro lado, os atores tinham um entendimento, uma naturalidade e entrega que me agradava muito”.

Boas histórias também vieram dos mais diversos lugares do Brasil; no caso de "Contos da Maré", de Douglas Soares, muitas delas. “O curta traz histórias que meus familiares maternos me relatavam, todos residentes do Complexo da Maré, e que sempre povoaram minhas lembranças. Nos últimos anos, comecei a perceber que uma geração mais nova de primos e moradores da favela desconheciam tais lendas. Usar o cinema como resgate e divulgação desse passado me pareceu um bom caminho”, explicou o diretor que traz em sua obra contos que envolvem lobisomens, sopa de cobra que misteriosamente mata quem a come, e até um morador que transou com uma porca, dando origem a um ‘bebê porco’.


"Edifício Tatuapé Mahal"

Criativo, "Edifício Tatuapé Mahal", de Carolina Markowicz e Fernanda Salloum, mostra os bastidores da ‘realidade’ dos bonecos de maquete. A ideia surgiu quando uma das diretoras se deparou com alguns modelos de bonecos que a impressionou pela perfeição nos detalhes. “Usamos referências que visavam transformar os bonecos em pessoas, mas com a vantagem da licença poética que a animação oferece”, afirmou Carolina em conversa com a reportagem. A dupla utilizou a técnica stop motion e 3D para dar vida aos bonecos. Vale destaque, também, o trabalho do ator uruguaio Daniel Hendler na narração do curta. “Foi maravilhoso trabalhar com Daniel. Ele captou o espírito do personagem com uma rapidez impressionante e acrescentou em vários aspectos”, elogiou a realizadora.

Internacionais e programas especiais 

A programação internacional teve destaques como "A Outra Mulher", de Marie Ka, do Senegal, que conta a história de um casal de lésbicas tentando sobreviver em um país onde amar uma pessoa do mesmo sexo impõe multas e até prisão. O alemão "Três Pedras para Jean Genet", de Frieder Schlaich, atraiu fãs da música ao trazer Patti Smith em uma jornada até o túmulo do escritor francês que batiza o curta. Ainda na música, "Nevermind", de Jean Marc E. Roy, recordou Kurt Cobain, vocalista do Nirvana morto em 1994.

O festival também preparou alguns programas especiais para esta edição, caso de "Quebrando Muros" que, em parceria com a distribuidora Interfilm Berlin e apoio do Instituto Goethe, trouxe raridades às telonas para celebrar os 25 anos da queda do Muro de Berlim, como produções oficiais da Stasi – a polícia secreta da Alemanha Oriental, entre elas "Guerra em Tempos de Paz: Assim Seguimos!" e "Cabeça Fria, Coração Quente, Mãos Limpas". Já o programa “Diversidade Sexual – Assunto de Família” apresentou quatro filmes internacionais que trataram de assuntos ligados à identidade, aceitação e tolerância, caso do romeno "Honra", sobre um general aposentado e seu desafio de aceitar a homossexualidade do menino que criou.

(Karen Lemos - Revista O Grito!)