domingo, 26 de junho de 2016

Refugiada palestina dirige curta-metragem no Brasil

Arquivo pessoal

A sensação de sentir-se como um peixe fora d’água é universal, talvez seja por isso que o curta-metragem "Fingers" seja tão encantador. Nas imagens, um garoto de cinco anos tenta entender o mundo estranho ao seu redor, captando os movimentos das mãos e dos dedos das pessoas que o rodeiam.

Foi mais ou menos assim que a diretora do filme, a refugiada palestina Rawa Alsagheer, de 20 anos, se sentiu quando chegou a São Paulo há cerca de um ano. Rawa viveu em Homs, na Síria, até os 18 anos. Quando a guerra civil teve início em seu país, ela precisou fugir para a Turquia, onde viveu ilegalmente junto com a família.

“Na internet, começamos a pesquisar sobre países em que pudéssemos viver. Foi aí que ficamos sabendo do Brasil, que recebe refugiados palestinos sírios”, contou a aspirante a cineasta.

A paixão pelo cinema ela conta que veio de seu cunhado, que trabalha na área. “Ele que me puxou e me levou a um workshop sobre direção de curta-metragem porque ele sabia que eu gostava muito disso.”

Apesar da pouca experiência em audiovisual, a jovem impressiona com seu olhar delicado e poético para as primeiras percepções da criança protagonista, vivida pelo ator Taim Tanji, também refugiado palestino.


“A ideia de 'Fingers' veio de um amigo meu da Jordânia chamado Ahmed Shaman”, detalha. “Para mim, a história fala de uma realidade que toda criança vive; adorei a proposta e resolvi, então, filmar.”

O roteiro também atraiu Rawa devido às dificuldades que teve ao chegar ao Brasil e descobrir um país totalmente novo e desconhecido. “Tudo é diferente e há também a barreira da língua”, explica a jovem, que concedeu a entrevista em inglês. “Ainda assim, eu trabalho duro para me adaptar e me integrar à sociedade brasileira, que me recebe bem, uma vez que o país possui muitas culturas e é bem receptivo.”

O sonho da refugiada palestina é estudar muito e, claro, trilhar carreira no cinema. “Espero alcançar esses meus objetivos aqui no Brasil. Seguindo carreira como cineasta, espero ainda defender a Palestina e os direitos dos palestinos de voltarem a morar lá”, acrescentou ela, cujo desejo pode ter sua representação artística nas cenas finais de sua obra de estreia.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Professor vira drag queen em aula de português

Arquivo pessoal

Desde 2009, Jonathan Chasko dá aulas em um cursinho pré-vestibular no Paraná. O curso, um projeto de extensão da faculdade onde faz mestrado, é voltado para alunos que saíram da escola pública ou que estão fora da escola há um tempo. Os professores são voluntários e precisam dominar uma linguagem abrangente, já que há alunos de 16 a 50 anos ali.

Desde 2015, a drag queen Sofia Ariel brilha na noite paranaense. Trabalha como DJ e também faz recepção em baladas de Cascavel, no oeste do Estado. Mês passado, Jonathan e Sofia se encontraram na sala de aula - e o resultado foi maravilhoso.

O professor, que se apresenta como drag queen na cidade paranaense, se montou e levou a personagem para falar sobre artigos definidos e indefinidos em uma aula de português do cursinho; de quebra, ele discutiu homofobia, respeito à diversidade e identidade de gênero.

“Sempre levo temas polêmicos para serem discutidos em sala de aula. Costumo a dizer que a educação é um iceberg; a ponta dele é o senso comum, e o que me interessa é fazer com que meus alunos pensem na parte que está submersa”, contou Chasko.

Jonathan, que já abordou a cultura do estupro, machismo e racismo com os alunos, se inspirou no Dia Internacional contra a Homofobia, celebrado no dia 17 de maio, para a aula. “Fiquei pensando em algo para aquela data e, como já trabalho como drag queen, decidi ‘dar à luz’ Sofia durante a aula. Cheguei abrindo meu leque, me apresentando e aproveitando para falar sobre homofobia e gênero.”

No começo, o professor relatou ter tido medo de uma possível resistência ou reprovação dos alunos diante de sua performance. “Aos poucos eles foram entrando na vibe e interagindo comigo. Fizeram perguntas sobre o movimento LGBT e sobre a cultura drag; eu esperava mais resistência, mas eles me mostraram que estavam abertos para entender assuntos como identidade de gênero, tema que vem sendo muito criticado, mas que é bem simples de entender.”

Discussão de gênero 

Jonathan afirma que, desde sempre, somos apresentados à discussão de gênero. “Nos primeiros anos de escola, aprendemos que existem banheiros só para meninos e só para meninas. Isso já é discutir gênero”, afirma. “O que vemos agora é uma posição conservadora que vai contra debater o tema nas escolas; acham que discutir gênero é se assumir transexual. Não é nada disso!”

Para ele, casos como o da adolescente de 16 anos que foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro, elucidam a urgência deste debate. “Falar sobre gênero é importante para que se perceba o quanto nossa estrutura é machista, patriarcal e falocêntrica”, diz.

Arquivo pessoal

“Esse tipo de estrutura tende a colocar a mulher em um lugar menor de valorização e, quando a mulher bate na mesa, ela é vista como histérica. A discussão de gênero vai muito além do que pensam; [a discussão] é, basicamente, o entendimento do respeito às mulheres. Como investir no desenvolvimento social do aluno ignorando uma das principais características de sua personalidade, que é a identidade de gênero dele?”

Críticas

Embora a reação de seus alunos tenha sido positiva, Jonathan recebeu críticas depois que a sua história viralizou na internet. “As únicas críticas vieram das redes sociais, na verdade”, explica. “Os alunos, meus amigos, meus colegas de faculdade e o responsável pelo cursinho no qual trabalho, me apoiaram. Na internet, porém, recebi comentários cheios de palavrões, sem pudor, agressivos”, lamenta.

Em sua opinião, essa reação tão descompensada no universo digital só mostra a carência que existe em nosso sistema de educação e da urgência de professores falarem sobre respeito dentro das salas de aula.

Projetos de escolas sem partido 

Na contramão da aula proposta por Chasko, estão projetos de lei que visam coibir o professor de expressar qualquer tipo de opinião. A ideia é manter uma suposta neutralidade em sala de aula e evitar a “doutrinação” do aluno de acordo com alguma ideologia ou conduta moral. Para Jonathan, propostas do tipo - como o Projeto Escola Livre, que foi aprovado no Estado de Alagoas - beiram o absurdo.

“Primeiro, essa tal imparcialidade não existe”, discorre. “Quando se fala de descobrimento do Brasil, você precisa assumir a voz do colonizador português ou do índio colonizado. Como você vai falar de nazismo de forma neutra? De política no Brasil de forma neutra? De movimento LGBT de forma neutra? Em nossos discursos, nós não somos neutros. Mesmo quando não assumimos um lado, já estamos de certa forma tomando uma posição.”

“Escola não é lugar de manipulação, mas de desenvolvimento intelectual. Os professores estão ali para fazer os alunos pensarem, e não assumirem posicionamento. Em minhas aulas, sempre digo que não estou ali para convencer ninguém de nada. O que eu quero é causar desconforto. Dizer o que querem que você diga não vai desenvolver os alunos e nem fazer uma sociedade melhor”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 29 de maio de 2016

Crianças narram a crise migratória através de desenhos

Naddeo colhe relatos de crianças refugiadas. Foto: reprodução/Instagram

O jornalista brasileiro André Naddeo é uma das pontes entre o mundo e os refugiados. Enquanto o mundo tenta fechar os olhos para a crise migratória, o brasileiro dá voz e rosto para as pessoas que deixam seus países em busca de uma nova vida – esta que, não raras vezes, lhes é negada nas portas de entrada da União Europeia.

Naddeo se instalou em um desses acessos, mais precisamente no porto de Pireus, na Grécia. O local é um verdadeiro paradoxo. Todos os dias, barcos cheios de turistas chegam e partem de lá tendo como destino as belas ilhas gregas como Santorini, Mykonos e Creta. Por outro lado, refugiados chegam em péssimas condições de saúde, amontoados em embarcações precárias e lotadas. Muitos não conseguem chegar até o final. Morrem durante a viagem, ou se afogam quando o barco não suporta o longo trajeto e a grande quantidade de pessoas a bordo.

O ministério grego da Imigração estima que há 2 mil imigrantes vivendo na região.



A viagem para a Grécia, planejada nos primeiros três meses deste ano, surgiu de uma necessidade que André enxergou na questão. “A mídia, de uma forma geral, concentra sua cobertura sobre a crise de refugiados de maneira muito superficial. [Jornalistas] vêm para os campos, passam ali duas horas, ou mesmo o dia todo, e acham que com isso já basta para contar o que essas pessoas sentem e suas histórias de vida”, diz Naddeo em conversa com o Portal da Band. “Você acha que uma pessoa que está fugindo do Talibã, por exemplo, vai se abrir para você de uma hora para a outra?”

Convivência

Para conseguir relatos dos refugiados, André passou a dormir no mesmo local que eles, se alimentar da mesma comida, utilizar o mesmo banheiro, por exemplo. “No momento em que eles reconhecem que você está ali, sobretudo, para ajudar, você ganha a confiança para obter os seus depoimentos”, conta.

A partir desse convívio intenso, o jornalista iniciou um projeto chamado I Am Immigrant (cujo site ainda entrará no ar); dentro dele está o Drawfugees (junção das palavras desenho e refugiado, em inglês), no qual crianças se expressam por meio de desenhos. O resultado deste trabalho revela o que há de mais triste e, de certa forma, promissor, nesses pequenos que são parte dessa crise.

“A ideia do Drawfugees é apenas um braço de um sonho maior: fazer um retrato social de quem são essas pessoas se deslocando atualmente sem pátria pelo mundo”, explica. “São milhares perdendo um período precioso da vida: a infância. Sem estudar, sem se alimentar direito.”

Para fotografar as crianças, André pede a permissão dos pais e a ajuda de alguém que possa fazer a tradução do inglês básico para o árabe ou o farsi (falado em países como Irã e Afeganistão). “Depois, eu pincelo o que elas queriam dizer com o desenho e escrevo curtos depoimentos - afinal de contas, o desenho em si já diz muita coisa”, ressalta. “Tem sido muito gratificante”, resume.

Histórias marcantes

Pouco mais de um mês em Pireus, André já considera o grupo de refugiados do qual faz parte como uma família. Sabendo ouvir, ele conseguiu registrar algumas histórias marcantes, como a de Ahmad, garoto sírio de 12 anos que precisou fazer o trajeto de seu país até a Europa sozinho. “Certa vez, estava brincando com ele quando uma amiga da família o colocou no telefone para falar com a mãe. Eu não entendi nada, mas precisei sair de lá para dar uma chorada básica”, lembra.


Outra história que emocionou o brasileiro é a da afegã Sana, de seis anos. “Ela é um doce de menina”, define. “Está sempre sorrindo, tímida, mas quando pega a caneta faz desenhos avassaladores”, conta. Um deles é de um helicóptero dos Estados Unidos bombardeando a casa de sua família.


Naddeo, que deve retornar ao Brasil mês que vem, afirma que a experiência na Grécia o tornou mais humano. “Tive a certeza de que a vida começa para valer quando você deixa sua zona de conforto”, acrescenta.

Na Europa, ele percebeu que a questão envolvendo os refugiados é mais complexa do que imaginava. “É um problema que a União Europeia varre para debaixo do tapete”, descreve. “A Grécia não suporta a sua própria crise econômica, quanto mais um problema desse quilate. Eles querem o mínimo possível de visibilidade para o tema e reprimem bastante o trabalho voluntário por aqui”, afirmou, citando como exemplo a evacuação esta semana no campo de refugiados de Idomeni, um dos maiores do continente e que abriga milhares de imigrantes. “O preconceito [contra refugiados] existe, sim. Como existe no Brasil, existe no mundo todo”, lamenta.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sábado, 21 de maio de 2016

Pela educação dos filhos, família viaja o mundo

Família Oliveira: Sophia, Caio, Jane e Guto. Foto: Novos Olhos

Durante cinco anos, a família Oliveira irá visitar mais de 100 países por cinco continentes em prol da educação dos filhos. O projeto, que recebeu o nome de Novos Olhos, é do casal Guto Oliveira e Jane Martins, que decidiu deixar para trás a carreira de empresários e fazer do mundo a sala de aula de seus filhos Caio, 8 anos, e Sophia, 5 anos.

“O Caio e a Sophia estão conhecendo o mundo, estão entendendo e assimilando as diferenças, entendendo como é viver no calor, no frio, na riqueza, na pobreza, na abundância, na escassez, no moderno e no obsoleto. Estão percebendo que nossas verdades não devem ser absolutas, que não devemos julgar os outros segundo as nossas referências”, explica Guto, que neste momento encontra-se no norte do Peru.

A bordo de um Toyota Bandeirante - todo equipado para servir de moradia durante a viagem – a família Oliveira já conheceu as belezas de países como Uruguai, Argentina, Chile e Bolívia. O próximo destino, depois do Peru, é o Equador.

Guto conta que o roteiro de viagem foi todo pensado nos lugares que poderiam interessar aos seus filhos; o planejamento, porém, não é concreto e o trajeto pode sofrer alterações. “Existem muitas regiões instáveis pelo mundo que só saberemos a viabilidade de entrarmos quando estivermos próximos”, pontua.

Família Oliveira no Parque Nacional Torres del Paine, Chile. Foto: Novos Olhos

“O primeiro país que está em nosso radar de avaliação é a Venezuela. Queremos muito conhecer a realidade que os venezuelanos estão vivendo neste momento, mas estamos avaliando questões de segurança e de disponibilidade de mantimentos.”

Vida na estrada 

Para que as crianças não fiquem atrasadas nos estudos, Guto e Jane aplicam o método de educação à distância Clonlara, que utiliza livros do ensino adventista. O conhecimento das apostilas, explica o pai de Caio e Sophia, é posteriormente utilizado em situações reais da vida na estrada.

“Nossa preocupação com as crianças é equipá-las para a realidade. Não sabemos como será o mundo para eles, nem como será a condição de cada um, mas queremos que saibam valorizar o que é justo, bom e saudável. Que sejam gratos ao que tiverem, que aprendam a desejar menos e saber o quanto é o bastante”, diz. “E que nunca deixem o espírito de aventura e descoberta adormecer, que façam a vida valer a pena e sejam agentes de transformação para o bem onde quer que estejam”.

Sophia e Caio observam a Geleira Perito Moreno, Argentina. Foto: Novos Olhos

Na sexta-feira (20), a família Oliveira completou oito meses de estrada.

Financiamento 

O projeto Novos Olhos demanda recursos que vêm do próprio dinheiro que a família guardou, de patrocínio e também de economias ao longo da viagem que fazem a grana render. “Além de capital próprio, contamos com o patrocínio da Ortopé e procuramos manter o nosso orçamento o mais baixo possível”, explica Guto, que ainda mantém uma empresa de comércio exterior.

A família Oliveira conta ainda com uma rede de apoiadores que disponibiliza produtos em troca de publicidade. O clã, aliás, está sempre aberto para novas parcerias.

Jane e Caio caminham pela Laguna Colorada, na Bolívia. Foto: Novos Olhos

Experiências e lições 

No vídeo de divulgação do projeto, Jane disse que ela e Guto alcançaram o sonho da vida profissional, bens materiais e um estilo de vida que, perante a sociedade era um sucesso, mas que conflitava com os valores do casal. “Muito trabalho, pouco tempo para o outro, para os filhos, enfim, uma vida no automático”, definiu.

Na estrada, a família vive de uma forma mais simples e com recursos bem menores do que estava acostumada. “O Caio agora tem uma caixa pequena de brinquedos e a Sophia, uma pequena mochila com seus bichinhos favoritos”, detalha Guto. “Toda a nossa vida cabe no porta-malas e no teto do Urso, o nosso carro, e o interessante é que estamos sempre revendo o que não está sendo útil e que poderia ser descartado.”

Noite estrelada em Puerto Inka, no Peru. Foto: Novos Olhos

O tempo que passam juntos também é maior agora, o que não deixa de ser um desafio, mas com muitas recompensas. “Acompanhar tão intensamente o desenvolvimento de nossos filhos tem sido um imenso privilégio”, celebra Guto. “Observá-los descobrindo o mundo, se espantando e se maravilhando tem sido uma experiência incrível”, resume ele.

Roteiro: 
8 países da América do Sul
8 países da América Central
3 países da América do Norte
30 países da Europa
26 países da África
13 países do Oriente Médio
14 países da Ásia
3 países da Oceania

(Karen Lemos - Portal da Band)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Cenário favorável a Temer dificultará volta de Dilma

Foto: Lula Marques/Agência PT

O Senado aceitou nesta quinta-feira (12) o pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT) na Casa. Assim sendo, a presidente ficará afastada por no máximo 180 dias até a votação final. Quem assume a chefia do Executivo é o vice-presidente Michel Temer (PMDB).

Na análise de cientistas políticos, Temer veio para ficar. “Acredito que esta etapa seja o ápice do processo, apesar de não ser conclusiva, porque é decisiva para a questão com a chegada de um novo governo”, avalia Michel Mohallem, especialista em ciência política e professor de direito na FGV do Rio de Janeiro.

“Nas próximas semanas, haverá uma aceleração por parte deste novo governo e daqueles que querem apoiar esse governo – tanto no Congresso quanto na sociedade – de criar um ambiente favorável para Michel Temer”, acrescenta.

Esse cenário vai dificultar que Dilma volte ao cargo e deve contribuir para que o processo de impeachment seja validado.

Altos índices de rejeição 

“O momento agora é de legitimar esse novo governo, o que pode não ser tão simples - já que Temer tem índices altos de rejeição na sociedade. De qualquer forma, o que veremos é uma tentativa de estabelecer um clima de calmaria; claro que haverá movimentos de esquerda fazendo resistência, mas se dará pouca atenção a isso. Vai parecer que está tudo certo”, avalia Jacqueline Quaresemin, socióloga e professora da FESPSP.

Para a socióloga, o país ainda está polarizado e, sendo assim, Temer precisa saber dialogar com esses movimentos de resistência. “Diferente dos grupos pró-impeachment, cuja bandeira única é a luta contra a corrupção, esses movimentos governistas batalham há anos por direitos sociais. Se Temer não responder a isso, ele pode sofrer muita pressão”, observa. Isso não significa, porém, que tais movimentos vencerão Temer, mas a última coisa que o presidente em exercício precisa é de mais uma dor de cabeça, além das muitas que terá de enfrentar logo que assumir a cadeira de Dilma.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Maré de problemas 

Michel Temer assume, pelo menos, com dois embaraços resolvidos. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi afastado da presidência da Câmara, o que dá um ar mais ‘limpo’ para o processo que levará Temer à Presidência; e Delcídio do Amaral (sem partido-MS), que poderia causar um mal-estar caso participasse da votação do impeachment, teve o mandato cassado.

“Isso ajuda o novo governo? Ajuda, mas é importante lembrar que Temer terá três grandes problemas para solucionar; o primeiro é a formação da base do governo, o que já é previsto e é até tranquilo de resolver, mas os outros dois são mais complicados”, afirma Mohallem.

Um dos aborrecimentos do peemedebista é a investigação da Lava Jato. “A operação tem lançado fogo em lideranças do PT e do PMDB, incluindo o próprio Temer. Como presidente, ter que lidar com uma agenda criminal é constrangedor”, complementa.

O terceiro problema trata-se de um enorme desafio que mora no Tribunal Superior Eleitoral, órgão que investiga os recursos supostamente ilícitos da campanha da chapa Dilma-Temer. “A análise de dados da campanha pode revelar algo que complicará muito a vida de Temer. Como presidente do TSE, o ministro Gilmar Mendes vai tentar desvincular Temer da chapa, mas isso será muito improvável, visto que há outros ministros cuja posição não é tão clara. Se surgir algo escandaloso daí durante o afastamento de Dilma, isso pode impactar até na votação final no Senado”, observa Mohallem.

PT pós-impeachment 

Na visão de Mohallem, o Partido dos Trabalhadores, logo após o afastamento de Dilma, passará a se desvincular dela. “O partido começará a olhar para outra direção, para as eleições presidenciais de 2018”, acredita. “Ainda não dá para saber se o PT será competitivo a ponto de ganhar a eleição, mas com certeza terá um peso, já que outros partidos fortes - como o PSDB, não têm grandes nomes definidos para a disputa.”

Segundo Jacqueline Quaresemin, o Partido dos Trabalhadores sai chamuscado do episódio, mas com uma grande chance de ressignificar a sua história política. “O PT, que estava dividido por causa da Dilma, poderá agora se unificar e trabalhar a tese de que foi uma vítima de golpe; e esse discurso é válido, até porque o conceito do golpe não surgiu de dentro do PT, ele nasceu dos movimentos sociais, de intelectuais, artistas, professores universitários e, principalmente, da juventude combativa e independente de partidos políticos que se aglutina em coletivos.”

Quaresemin acredita, aliás, que o processo de impeachment pode dar fôlego a uma nova esquerda da qual o PT estará na composição, mas da qual não será protagonista. “Desde 2013, temos esses coletivos pautando questões importantes da sociedade e que não estão sendo discutidas pelo Estado”, avalia. “Eles vão continuar fazendo barulho e precisarão ser ouvidos pelo governo. Não é mais possível que a sociedade, principalmente as minorias, seja excluída de seus direitos básicos. Não é nem questão de esquerda ou direita. Graças à internet e as redes sociais, as pessoas estão percebendo que merecem mais do que lhes é oferecido”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 1 de maio de 2016

Para aumentar a arrecadação, Governo de São Paulo quer vender áreas de pesquisa científica

Um dos animais usados para pesquisa de leite biofortificado em Ribeirão Preto (Foto: Divulgação)

No último dia 15, foi enviado à Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) o projeto de lei 328, de autoria do governador Geraldo Alckmin, para apreciação em regime de urgência.

O projeto sugere a alienação de algumas áreas do Estado, consideradas sem utilidade pelo Conselho do Patrimônio Imobiliário, para aumentar a arrecadação dos cofres em tempos de crise econômica.

A proposta pegou desprevenida a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), que alega ter linhas de pesquisa - algumas de muitos anos – em algumas das áreas que o governo quer colocar à disposição para aumentar sua receita. Além disso, o projeto de lei tramita sem audiência com a comunidade científica, o que é previsto no artigo 272 da Constituição do Estado de São Paulo.

“Só ficamos sabendo desta proposta quando ela já tinha sido encaminhada para a ALESP”, conta ao Portal da Band Joaquim Adelino de Azevedo Filho, presidente da APqC. “O que estamos fazendo agora é solicitando a retirada das aéreas que possuem linhas de pesquisa e conversando com deputados da assembleia para que olhem com muito cuidado para a questão.”

Áreas atingidas


A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo ainda está fazendo um levantamento das pesquisas que estão sendo realizadas nas áreas a serem alienadas. Segundo Joaquim, eis algumas delas:

Ribeirão Preto: uma pesquisa com leite biofortificado é feito lá. O produto, segundo os cientistas, é muito mais nutritivo e benéfico para a saúde humana. No ano passado, centenas de cabeças de gado foram transferidas para outra fazenda sob a alegação de assalto. Para a associação, a transferência foi para facilitar a alienação do terreno.

Foto: Divulgação

Piracicaba: desde 1932, de acordo com Joaquim, é realizada na região uma pesquisa com corte de cana crua. A lei nº 11.241/2002 do estado de São Paulo proíbe, até 2017, a queima de canaviais por causa da fumaça tóxica para a natureza e o ser humano. A ideia da pesquisa é estudar uma alternativa para as queimadas. O experimento tem cerca de 10 anos e ainda não está concluído.

Jundiaí: a aérea reúne toda uma complexa estrutura com máquinas agrícolas que, para a associação, ficaria inviável de ser transferida para outro local. Esse tipo de estudo, segundo Joaquim, só existe em Jundiaí e em Nebraska, nos Estados Unidos. “Além disso, o lugar abriga um museu com maquinário agrícola antigo. Tudo isso vai virar sucata”, alerta o presidente.

Foto: Centro de Engenharia e Automação de Jundiaí

Brotas: a região é a única do Estado preparada para pesquisa com aves. “Inclusive, alguns investimentos foram realizados lá recentemente; agora vão colocar tudo à venda”, lamenta Joaquim. De acordo com ele, a área também é importante por ter experimentos de pastagem em solo de cerrado.

Foto: UPD Brotas

Gália: a linha de pesquisa lá é sobre o bicho-da-seda que, apesar de ter sido prejudica com a importação de tecido da China, ainda é de extrema relevância. Há também experimentos com pés de amora, cuja substância extraída da árvore é estudada para formular medicamentos contra os efeitos da menopausa.

Resposta do governo

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do Governo do Estado de São Paulo justificou que o projeto aumentará as receitas estaduais para custear investimentos necessários à população.

Também foi informado que o projeto prevê a preservação das atividades públicas em andamento e eventuais planos de expansão. “O que está gerando confusão é que o entorno dessas áreas com pesquisa científica entraram no projeto de lei, mas as partes em uso serão preservadas, apenas será alienado o que é mata”, disse a assessoria.

Com relação ao diálogo com os pesquisadores científicos, o governo afirmou que a interlocução será feita “dentro do processo democrático de discussão do projeto na ALESP”.

(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Apenas 7% dos deputados foram eleitos com seus votos

Wladimir Costa jogou confetes ao votar pela saída de Dilma. Parlamentar é campeão em faltas na Câmara (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Segundo dados divulgados pela Secretaria Geral da Mesa da Câmara dos Deputados, apenas 7% (36 de 513) dos parlamentares que compõem a Casa foram eleitos com seus próprios votos.

Isso acontece por causa de um sistema chamado quociente eleitoral, cálculo feito entre os votos válidos e o número de vagas na Câmara conforme cada estado do Brasil. Nesta conta, são verificados também os votos por partido político, que são divididos proporcionalmente entre as legendas que receberam mais e menos votos.

Esse método acarreta no que é chamado de “puxador de votos”. Funciona assim: deputados que não atingiram o quociente são “puxados” por votos dados à sua legenda ou por outros candidatos de seu partido, ou de coligação, que tenham ultrapassado esse quociente.

Por exemplo, o deputado Celso Russomanno (PRB-SP) teve 1,5 milhão de votos - um número bem cima do quociente necessário para a candidatura de um parlamentar de São Paulo, que é de quase 300 mil votos. Dessa forma, sozinho, Russomanno puxou mais quatro políticos de seu partido para o Congresso.

Sendo assim, há muitos – especificamente 477 – deputados trabalhando sem, de fato, terem sido eleitos diretamente pela população.

"O espírito desse cálculo é que se tenha uma quantidade de representantes proporcional ao poder do partido político”, explica o cientista social Rafael Araújo, professor da PUC-SP e da FESPSP. “Efetivamente, então, esse modelo é o que mantém a força dos grandes partidos. Com esse quociente, não há riscos de um partido surgir do nada e ocupar espaços das legendas que estão lá há muitos e muitos anos.”

Como resultado, segundo Araújo, há um Congresso Nacional funcionando em caráter conservador em sua manutenção, sem possibilitar uma abertura de mudança abrupta na Casa.

Na opinião do especialista, a Câmara ser formada, majoritariamente, por deputados “puxados”, revela o quanto o poder legislativo é desprezado pelo eleitor. “Muita gente escolhe seu deputado no dia da eleição, vota em alguém que algum colega indicou, ou nem vota”, observa. “O interesse maior fica - se é que fica - para os cargos executivos. Mas, o que precisamos entender é que o poder legislativo é o mais importante de todos. É do Congresso que surgem as regras da política, o conjunto de leis que compõe nossa Constituição”, lembra Rafael.

Política fechada para minorias 

Preservando a Casa de novos rostos, o “puxador de votos” acaba isolando a política das minorias. “O discurso racial, feminista e LGBT jamais teria quociente eleitoral. Isso não é nenhuma novidade no Brasil. O Congresso sempre primou pelas elites, sendo assim, o discurso minoritário só é ouvido para saber como controlá-lo, mas não para garantir seus direitos”, pontua Rafael Araújo.

A manutenção da elite no poder se dá, explica o cientista social, por muitos fatores, entre eles o financiamento de campanha. “Um deputado como o Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por exemplo, tem tanto poder assim porque ele tem uns 100 parlamentares em suas mãos; são os parlamentares que tiveram campanhas financiadas por ele. Como você espera, então, que um líder comunitário negro nordestino que mora no morro vai se candidatar e eleger? Por mais que a campanha dele seja brilhante, é necessário o financiamento”, aponta.

Quando surge uma figura nova dentro da Casa, não há muita alternativa senão “beijar a mão do cacique” que o colocou ali dentro. “Veja o exemplo do Tiririca (PR-SP). Sem dinheiro para campanha, mas sendo uma figura simbólica que garantiria votos ‘puxados’ para o partido, recebeu investimento do Valdemar Costa Neto (PR-SP), uma velha raposa da política. No domingo de votação do impeachment, Tiririca disse que votaria contra o afastamento de Dilma Rousseff (PT), mas precisou votar a favor em obediência ao seu patrão.”

 Na foto, o deputado Tiririca (Nilson Bastian/Câmara dos Deputados)

Outro problema é a falta de limite dos mandatos dentro do parlamento. “Dessa forma, você cria uma verdadeira oligarquia ali dentro”, explica Rafael. “Tem deputado que está há 30 anos no Congresso, sem acompanhar as mudanças que o país precisa.”

A grande consequência disso para nós, como sociedade, é uma política engessada, do tipo que as vozes da rua já deixaram claro que não as representam mais. Para o especialista, porém, a mudança pode – e deve – partir dos próprios eleitores. “Existe uma mania no Brasil de jogar a política na vala comum da corrupção, mas as pessoas não são responsivas a isso, não se preocupam com o mandato e reelegem os mesmos parlamentares.”

Política na era digital 

Alguns projetos de reforma política sugerem alternativas ao quociente eleitoral (conheça PL 1485/2011, PL 6316/2013 e PEC 352/2013). Com um parlamento pouco inclinado a mudar o sistema que o protege, os trâmites dessas medidas se arrastam por anos.

Para o especialista, em contraponto a essa lentidão do Congresso, a internet pode ser uma aliada. Um exemplo é o engajamento online de Jean Wyllys (PSOL-RJ), que não tem voz no Congresso, mas consegue dialogar com seu eleitorado nas redes sociais. “Esse período de análise do impeachment de Dilma pelo Congresso, de discussões políticas na internet e fora dela, de movimentos sociais nas ruas, enfim, talvez surja daí a conscientização política que tanto precisamos para quebrar esse gesso em nosso parlamento”, conclui Rafael.

(Karen Lemos - Portal da Band)