sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Decisão sobre ensino religioso ignora realidade do Brasil, dizem especialistas

Uma cruz cristã é vista no plenário do STF à direita; no centro, a presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia (Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF)

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que escolas públicas podem ministrar aulas de ensino religioso confessional – aquele que permite que os professores promovam as crenças de uma religião sem precisar citar outras ou mesmo nenhuma, como é o caso do ateísmo ou do agnosticismo.

Por seis votos contra cinco, a Suprema Corte rejeitou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade da Procuradoria-Geral da República (PGR) que pedia, com base na laicidade do Estado, a oferta do ensino religioso não confessional – que abrange diversas crenças, sem priorizar uma especificamente – na rede pública de ensino.

Sob o argumento de que o Judiciário não pode interferir nas questões religiosas pessoais, incluindo a esfera pública, o STF deu aval para que Estados e Municípios decidam se o conteúdo a ser dado será confessional ou não confessional. A oferta dessa aula é obrigatória, mas serão facultativas, ou seja, o aluno pode não participar sem que isso gere um prejuízo em seu currículo escolar.

A decisão da Corte gerou uma repercussão enorme entre educadores e representantes das mais variadas religiões. Os especialistas estão preocupados, principalmente com o aumento da intolerância contra crenças minoritárias e também com o que será feito com o aluno que desejar não participar das aulas de ensino religioso baseada em uma única crença.

Segundo o levantamento da Prova Brasil, questionário aplicado pelo Ministério da Educação para estudantes e professores da rede pública, 55% dos docentes apontam que não há outra atividade prevista para os alunos que optam por não participar das aulas de religião.

Para Sérgio Junqueira, integrante do Grupo de Pesquisa Educação e Religião, o aluno pode ter problemas sociais ou sentir-se excluído por não participar das mesmas atividades que seus colegas. Além disso, o especialista também aponta questões delicadas na contratação de professores ou representantes religiosos que irão aplicar este conteúdo.

“O Estado não vai pagar um professor para ensinar religião; não há dinheiro para isso”, aponta o especialista, que também destaca o problema da formação específica. O mais recente levantamento sobre o assunto mostrou que menos da metade dos docentes do ensino fundamental tem licenciatura nas disciplinas que lecionam.

“É preciso, então, fazer alianças com lideranças religiosas, mas não são todas que poderão arcar com isso. Temos que considerar também que um líder religioso não necessariamente é um bom professor. Pensar como aplicar um conteúdo não é tão simples assim; sem um cuidado com a informação que está sendo passada, podemos esbarrar no preconceito”, alerta.

Intolerância religiosa

Professor e antropólogo da Universidade de São Paulo (USP), Vagner Gonçalves da Silva estuda a etnografia das populações afro-brasileiras e, durante duas décadas, fez um monitoramento do aumento dos casos de intolerância contra religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé.

Vagner acredita que com a decisão do STF, ataques do tipo serão ainda mais frequentes. Para ele, a Suprema Corte ignorou a realidade do Brasil. “[Na virada dos séculos 19 e 20] as religiões de matriz africana eram criminalizadas no Brasil; tinha, inclusive, invasão de polícia nos terreiros, e pais de santo enquadrados”, lembra.

“Somente em meados do século 20, essas religiões conseguiram ‘respirar’ no momento em que a classe artística aderiu à crença e o movimento negro se fortaleceu. É uma conquista recente, então é preciso ter cuidado com isso. O que o Estado deveria fazer agora é garantir a liberdade de culto, prevista na Constituição, e impedir que um grupo religioso vilipendie os símbolos sagrados de outros.”

O antropólogo menciona ataques recentes como à menina Kayllane Campos, 11 anos, atingida na testa por uma pedra em 2015 ao sair de um culto de candomblé; a invasão a um terreiro em Jundiaí, no interior de São Paulo, na qual criminosos quebraram imagens sagradas e colocaram fogo no local dois dias antes de sair a decisão do STF; e a ação na qual traficantes de drogas, que se dizem evangélicos, obrigaram uma mãe de santo a destruir seu terreiro sob a mira de armas no mês passado.



Para o especialista, a laicidade do Estado não é respeitada, e o julgamento do STF é uma prova disso. Também partilha da mesma opinião Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que estão entre os 8% da população que se dizem "sem religião", segundo o Censo 2010.

“[O desrespeito à laicidade] é representado com a quantidade de símbolos religiosos em repartições pública, incluindo o STF, e muitas pessoas não percebem isso”, exemplifica Daniel, que já acionou o Ministério Público para que as imagens fossem retiradas. “O fato de essas imagens passarem despercebidas é sintomática, mostra que o domínio de uma única religião já está naturalizado no país, e isso vai contra o Estado laico.”

Assim como o antropólogo Vagner, Daniel também teme um aumento do preconceito contra ateus e agnósticos, que, segundo ele, já atinge níveis preocupantes. “A Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa perguntando às pessoas o que elas pensam sobre grupos específicos. Esse levantamento mostrou que 39% dos entrevistados rejeitam pessoas que não acreditam em Deus [este índice chega a 51% na região Norte do Brasil]. Nós também recebemos muitos relatos de pessoas que foram expulsas de casa, perderam emprego ou terminaram relacionamentos só pelo fato de não terem uma religião.”

Católicos e evangélicos

Os especialistas entrevistados acreditam que o ensino religioso irá privilegiar a crença católica ou evangélica. Segundo o Censo 2010 - última pesquisa feita pelo IBGE acerca da questão, os católicos ainda são a maioria no Brasil, ainda que este índice tenha caído de 73,6% para 64,6% em dez anos, e os evangélicos cresceram de 15,4% para 22,2% neste mesmo período.




Nesta semana, a prefeitura de Barra Mansa, no Rio de Janeiro, já notificou que irá incluir a reza cristã do Pai Nosso nas escolas do município. Os alunos que não quiserem participar da oração precisam apresentar uma declaração assinada pelos responsáveis.

Presidente da Comissão para Cultura e Educação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom João Justino defende um diálogo entre moradores dos municípios, professores e estudantes para que se chegue a uma conclusão sobre qual crença será ministrada nas escolas e seu conteúdo.

O arcebispo ainda defende um ensino religioso plural que respeite as demais. “Nós vemos [a decisão do STF] como uma oportunidade de falar sobre intolerância religiosa nas escolas e trabalhar a importância do respeito com as outras tradições religiosas.”

Dom Justino ressalta que a Suprema Corte atuou de acordo com a Constituição, que estabelece aulas de religião na rede de ensino pública. “Algumas pessoas não entenderam e estão achando que a Igreja Católica está exigindo um ensino católico; o que queremos, na verdade, é que o ensino seja de acordo com a demanda dos estudantes, permitindo que aqueles que já fizeram uma opção religiosa, geralmente ligada ao histórico familiar, tenham chances de aprofundar esse conhecimento. Para nós, a apresentação histórica das muitas expressões religiosas poderá ser feita no conteúdo de outras matérias.”

Sérgio Junqueira, do Grupo de Pesquisa Educação e Religião, concorda que outras matérias vão abordar, de forma antropológica, a importância e a influência da religião no mundo, mas ele aposta em modelos que garantiriam melhor essa pluralidade de ensino. “Temos um projeto em Curitiba que chama Trilhas do Sagrado. Nele, as crianças da rede municipal de ensino têm a oportunidades de visitar templos budistas, terreiros de umbanda, igrejas cristãs, mesquitas islâmicas, entre outros.”

“Ensinar as crenças de uma religião cabe à família; à escola fica o papel de ajudar o estudante a entender a estrutura e as manifestações religiosas a fim de desmontar preconceitos”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

sábado, 30 de setembro de 2017

As bizarrices e curiosidades da Coreia do Norte

 Kim Jong-un observa o lançamento de um míssil em foto deste ano (KCNA)

Em meio a uma ameaça de guerra nuclear entre Estados Unidos e Coreia do Norte, é grande o interesse pelo misterioso país asiático, comandado pelo ditador Kim Jong-un, que insiste em manter as suas portas fechadas.

A história do país, um território estratégico disputado por várias potências como Japão, China, Rússia e Estados Unidos, é envolto de enigmas, relatos de violação de direitos humanos básicos, tensão e muitos boatos.

É difícil saber o que é verdade e o que é exagero por lá. Ainda assim, separamos alguns fatos curiosos, outros assustadores, divulgados por organizações que estudam o país, pela imprensa estatal local e pelos desertores – as testemunhas mais confiáveis de uma nação que permanece isolada em um mundo cada vez mais globalizado.

Sequestro ousado

Imaginem que o Brasil, querendo um nome de peso para a seleção de futebol, decide arquitetar um plano secreto para sequestrar o jogador Lionel Messi, da Argentina. Parece absurdo, mas algo desta magnitude realmente aconteceu na Coreia do Norte durante a década de 60. Fanático por cinema, o então líder Kim Jong-il quis melhorar a produção de filmes do país, que era lastimável na ocasião. Com profissionais sem muito conhecimento na área e pouca remuneração, a saída elaborada por Jong-il foi “importar” mão de obra de qualidade através de um engenhoso sequestro.

Os escolhidos foram o cineasta Shin Sang-ok e a atriz Choi Eun-hee, que quando casados formaram o casal um celebridades famoso e amado na vizinha Coreia do Sul. A primeira a ser atraída para a emboscada foi Choi. Encantada com uma proposta de trabalho, ela viajou a Hong Kong, onde foi surpreendida por homens do regime de Jong-il. Eles a sedaram e a colocaram em um barco rumo à Coreia do Norte. Shin fez o mesmo trajeto, em busca da ex-mulher, e teve o mesmo destino.

Os dois ficaram confinados em mansões-cativeiro, obrigados a estudar a filosofia do país e, mais tarde, trabalhar na criação de filmes para Kim Jong-il. O casal se manteve obediente às ordens rígidas do ditador para ganhar sua confiança. Com o tempo, começaram a filmar em outros países comunistas e, depois, conseguiram convencer o líder a construir um estúdio de cinema em Viena, na Áustria. Lá, elaboraram um plano de fuga e pediram refúgio à embaixada dos Estados Unidos. A história surpreendente de Shin e Choi é contada no livro Uma Produção Kim Jong-il, de Paul Ficher, e no documentário Os Amantes e o Déspota, de Ross Adam e Robert Cannan.

Kim Jong-il, Choi Eun-hee e Shin Sang-ok Kim Jong-il, Choi Eun-hee e Shin Sang-ok (IMDB)

Godzilla norte-coreano 

Uma das produções notórias que o cineasta sequestrado Shin Sang-ok realizou na Coreia do Norte foi Pulgasari, o Comedor de Ferro, de 1985. Um ano antes, o mundo capitalista se rendeu ao sucesso de O Retorno de Godzilla, filme sobre o famoso lagarto gigante que aterroriza o Japão. Mesmo vivendo em um país isolado, Kim Jong-il tinha lá seus privilégios. Cinéfilo de carteirinha, ele chegou a montar uma rede de contrabando para assistir a filmes “proibidos” em seu país. É muito provável que ele tenha assistido à série Godzilla e ficado encantado.

Foi assim que surgiu a ideia de um Godzilla norte-coreano. A história de Pulgasari se passa em tempos medievais, em uma região oprimida por um governo ganancioso. O protagonista é preso por infringir as ordens desse governo e, na prisão, cria um monstrinho com o arroz de sua refeição. A criatura ganha vida quando é tocada pelo sangue de sua filha. Aliado dos camponeses, Pulgasari destrói o exército e acaba com o regime distópico.

Mesmo sendo um filme “trash”, a produção foi um sucesso na Coreia do Norte. Desertores juram que os boatos de pessoas que morreram nas enormes filas que tentavam assistir Pulgasari são verdadeiros. Fora do país, o filme se tornou um clássico cult. Confira o trailer:



Para quem ficou curioso, é possível assistir ao filme inteiro, com legendas em inglês, neste link.

A banda pop das militares de minissaia

Não é só de filme trash que vive a Coreia do Norte. Na busca por um “ar mais moderno”, o país criou a sua própria banda pop. Formado por 20 musicistas talentosas, que cantam e tocam vários instrumentos, o grupo Moranbong é um sucesso na pátria mais isolada do mundo.

Não espere um repertório com músicas de Madonna, Beyoncé ou Lady Gaga. A banda Moranbong se apresenta apenas com canções que fazem reverência aos líderes norte-coreanos e as tradições e cultura do país. Ainda assim, o ritmo empolga, indo do rock ao pop e até à música eletrônica.

Os shows do grupo são uma atração à parte. A começar pelo figurino das artistas, que normalmente usam roupas militares, mas sempre com minissaias e cortes de cabelo moderno para atrair um público majoritariamente masculino. O próprio atual líder do país, Kim Jong-un, costuma a marcar presença em eventos com a banda.

Já no telão que é sempre montado no palco, são exibidas imagens de treinamentos militares e lançamento de foguetes – uma paixão nacional. Os líderes da Coreia do Norte também aparecem no telão, para o delírio da plateia, que sempre fica de pé e aplaude com um entusiasmo que beira o exagero.



Grande show de ginástica e arte

No grande teatro que se tornou a Coreia do Norte, chama atenção outro evento magistral que acaba atraindo turistas para o país. O Festival das Grandes Massas e Performances Artísticas e Ginásticas Arirang, também conhecido como Festival Arirang, é uma grande festa anual que acontece no principal estádio da capital Pyongyang entre os meses de agosto e setembro.

A ideia do festival foi inspirada na canção que batiza o evento, Arirang. A música, tradicional da cultura coreana, conta a história de um casal que é separado por uma figura maquiavélica - para alguns, a canção simboliza a divisão da Coreia, ocorrida após a guerra de 1950. Há também, claro, muitas referências à dinastia Kim e a força militar norte-coreana.

O show consiste em performances e danças, com coreografias muito bem ensaiadas e impressionantes para um estádio lotado que acompanha anualmente a atração. O evento é levado extremamente a sério pelos artistas, dançarinos e ginastas que participam do festival. Selecionados a partir dos cinco anos de idade, eles treinam por meses, e muitos passam a vida toda se dedicando às atrações desse show até se aposentarem.

Em 2007, os Jogos de Massa de Arirang foram reconhecidos pela Guinness World Records como o maior evento desse tipo. Veja alguns destaques:



Unicórnio de Kim Jong-un

Ser uma nação tão isolada tem lá o seu preço. Qualquer história - por mais absurda que seja - que ouvimos relacionada à Coreia do Norte hesitamos a duvidar, porque é impossível confirmar as informações de um país que proíbe agências internacionais em seu solo e censura a sua imprensa.

Mas, às vezes, a criatividade para mentiras é tão grande, que beira o cômico. Em 2012, para reafirmar a superioridade norte-coreana que os líderes do país gostam de pregar por aí, surgiu a “notícia” de que tocas de unicórnio – cavalos mitológicos com chifre na testa - foram encontradas pelo Instituto de História da Academia de Ciências Sociais da Coreia do Norte.

Na época, a história viralizou e veículos de mundo inteiro noticiaram a “descoberta” com muito bom humor. Mais tarde, descobriu-se que tudo não passou de um erro de tradução da própria Korean Central News Agency (KCNA), imprensa oficial do regime. No relatório em inglês, a agência confundiu o nome do animal. Na verdade, os norte-coreanos encontraram tocas de Qilin, criatura mitológica chinesa que tem corpo de cervo e cabeça de dragão; algo bem mais verossímil do que um unicórnio, não é mesmo?

Kim Jong-un aparece montado em um unicórnio em montagem da internet (Reprodução)

Presidente morto e filhos superpoderosos

Na Coreia do Norte, os membros da dinastia Kim são tão queridos que praticamente são tratados como verdadeiras divindades no país. Prova desse amor todo chocou o mundo em 1994, ano em que o fundador do regime, Kim Il-sung, morreu. Na época, imagens do velório rodaram o mundo e chamaram atenção devido a enorme quantidade de norte-coreano nas ruas chorando desesperadamente (e de forma bem exagerada) a perda do líder.

Por causa dessa admiração toda, mesmo após sua morte, a Constituição do país o manteve no Executivo com o cargo de “Presidente Eterno da Coreia do Norte”. Seu corpo permanece conservado no Palácio do Sol de Kumsusan e é muito visitado por norte-coreanos e turistas.

Seu filho e sucessor, Kim Jong-il (o apaixonado por cinema que bolou aquele sequestro bem ousado) morreu em 2011 e a comoção nas ruas de Pyongyang foi ainda mais surpreendente porque nevava forte no dia do velório.

Toda a dinastia é dotada de superpoderes para justificar tamanho culto aos líderes. Jong-il, por exemplo, já andava e falava com poucos meses de vida. Aos três anos, ele evocou um furacão no inimigo Japão só de borrar a ilha em um mapa-múndi com tinta preta (!). Além disso, ele ainda teve tempo e agilidade para escrever seis óperas em dois anos e para publicar 1,5 mil livros durante os três anos em que cursou o ensino superior. E você aí reclamando do TCC, hein?

Já o atual ditador do país, Kim Jong-un, também tem dotes de invejar. Dizem os livros escolares da Coreia do Norte, que ensinam sobre a vida de seus líderes, que Jong-un já dirigia com três anos de idade e, aos nove, ganhou uma corrida de iate. Como se isso não bastasse, ele também é um artista e compositor musical super talentoso. Com tantas virtudes, não é a toa que os norte-coreanos enfrentam até as águas geladas para tentar chegar perto dele:



O calendário cujo ano é 106


A idolatria pela dinastia Kim é tão excepcional que os norte-coreanos adotaram um calendário próprio que tem início com o nascimento do fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung.

O anuário começou a ser implantado em 1997 no dia em que se celebra a independência do país. A partir deste dia, os veículos de comunicação, a rede de transporte público e até os cartórios, nos documentos oficiais, passaram a utilizar esse sistema.

Aqui no Brasil, e em muitos outros países do mundo, estamos em 2017 segundo o calendário que usamos, o gregoriano. Para os norte-coreanos, no entanto, o ano é 106. Esta foto de um calendário da Coreia do Norte mostra o ano 99 em destaque, equivalente ao ano de 2010, que também é marcado na folha para que os norte-coreanos não fiquem tão perdidos no tempo.

Wikimedia Commons

Censura e imprensa controlada

Muitas das histórias absurdas da Coreia do Norte nem teriam começado se houvesse liberdade de imprensa no país. Desertores contam que há apenas um canal de notícias por lá e, por razões óbvias, é totalmente controlado pelo Estado.

Um desses noticiários tornou famosa internacionalmente uma âncora de TV por causa da forma empolgada que ela falava sobre os líderes e as conquistas militares do país. Ri Chun-hee, que já está aposentada, até chorou ao vivo quando anunciou a morte de Kim Jong-il. Confira:



A censura é tanta que até atravessa fronteiras chegando ao inimigo mais odiado dos norte-coreanos: os Estados Unidos. Você se lembra das ameaças feitas pelo regime de Jong-un nas vésperas do lançamento do filme A Entrevista? A produção hollywoodiana conta a história de um plano da CIA para assassinar o ditador norte-coreano com a ajuda de um jornalista de celebridades que viaja até o país para entrevistá-lo. Apesar de ser uma sátira, o filme irritou tanto que a distribuidora Sony Pictures sofreu um ataque cibernético. Também houve ameaças de atentado, fazendo com que a pré-estreia em Nova York fosse cancelada.

Para quem ficou curioso, aqui está o trailer do filme:



Campos de trabalho forçado e execuções

Aliado à censura para sustentar a engrenagem ditatorial que é a Coreia do Norte, o governo mantém – embora sempre negue – campos de trabalho forçado em várias partes de seu território. Ali, muitos prisioneiros morrem de tanto trabalhar, de fome, de frio ou são executados por algum motivo por vezes supérfluo.

Grupos de direitos humanos estimam que existam seis campos de concentração, sendo que o maior deles tem uma área do tamanho da cidade de Los Angeles, com cerca de 200 mil prisioneiros. A negação do regime é confrontada com imagens do Google Earth que mostram esses campos segundo as coordenadas de desertores.

 Imagens do Google Earth mostram campos de trabalho forçado no país (Anistia Internacional)

Pelas leis norte-coreanas, alguns crimes, como traição à pátria, são atribuídos a três gerações. Há casos em que filhos e netos também são presos ou mesmo nascem dentro de um campo de concentração. Foi o que aconteceu com Shin Dong-hyuk, um dos desertores mais famosos que conseguiu o feito raro de escapar de um campo com segurança rígida.

Shin carrega um pouco de sua história triste, contada no livro Fuga do Campo 14, de Blaine Harden, no corpo. Ele tem cicatrizes nas costas e nas nádegas e marcas de um gancho usado para suspendê-lo por cima de chamas em uma sessão de tortura. Ele também não tem parte do dedo média de sua mão direita, cortada por um dos guardas do campo após ter derrubado uma máquina de costura.

Turismo na Coreia do Norte (sim, é possível)


Existem alguns pacotes turísticos para a Coreia do Norte. Mas, após tudo que vimos até aqui, fica claro que não é uma viagem como qualquer outra. Para começar, você não tem liberdade para sair mochilando pelo país. Tudo é controlado pelo Estado, desde o momento que você desembarca no aeroporto de Pyongyang até o instante em que você deixa o solo norte-coreano.

A empresa estatal norte-coreana Ryohaengsa realiza passeios pela capital. Cada grupo de turista é acompanhado por guias do regime e os pontos turísticos são selecionados também por eles. As fotos que você tira com seu celular e câmera fotográfica são vistoriadas. Há hotéis específicos nos quais os estrangeiros podem se hospedar e em hipótese alguma lhe dão permissão para deixar o local sem um guia.

As estátuas de Kim Il-sung e Kim Jong-il é uma das atrações turísticas de Pyongyang (KCNA)

É bom ficar atento para não desrespeitar nenhuma regra que a agência de viagem e os guias impuserem. Vale lembrar o caso do norte-americano Otto Warmbier, que viajou ao país em 2016 e foi preso sob a acusação de roubar um cartaz de propaganda comunista. Warmbier recebeu uma pena de 15 anos de prisão, mas foi extraditado para os Estados Unidos este ano em estado de coma. Por razões desconhecidas, ele morreu no mês de junho.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Cemitério de Perus tem milhares de ossadas empilhadas em seu subterrâneo

Pilhas de ossos se acumulam em ossário subterrâneo (Foto: Eliana Vendramini)

Quinze mil ossadas, em média, estão empilhadas em sacos dentro de um grande ossário, que fica fechado ao público, no Cemitério Municipal Dom Bosco, em Perus, Zona Norte da cidade de São Paulo.

Quem passa por ali – seja para visitar familiares ou conhecidos lá enterrados, ou mesmo para fazer uma caminhada pela área verde urbana de 254 mil m² - nem imagina o que há no subterrâneo de um galpão localizado próximo dos muros do cemitério, que também guardam ossadas, mas apenas para aqueles que podem pagar uma taxa R$ 83,77 a cada cinco anos para ali mantê-los.

No grande ossário subterrâneo, estão armazenados restos mortais de pessoas cujos familiares não puderam pagar a taxa, uma realidade para muitos, já que o cemitério realiza sepultamento gratuito para famílias de baixa renda. Algumas dessas ossadas, entretanto, são um retrato do tratamento que o Estado de São Paulo dá a seus mortos.

Visão mais geral do ossário subterrâneo (Foto: Eliana Vendramini)

Destino dos mortos

Quando uma pessoa morre em São Paulo, há dois órgãos que trabalham em sua identificação: o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), quando a morte é natural, e o Instituto Médico Legal (IML), quando a morte é considerada suspeita e precisa ser investigada.

Nenhum desses órgãos, porém, notifica os familiares mesmo quando o cadáver possui documentos ou características possíveis para reconhecê-lo, como tatuagens, cicatrizes, uma prótese ou algo do tipo. O corpo é enterrado como não reclamado sem que seus parentes, muitas vezes, tenham conhecimento.

Em alguns casos, os familiares estão em busca daquela pessoa, registraram boletim de ocorrência de seu desaparecimento e aguardam uma resposta das autoridades. Os dados da Delegacia de Investigação sobre Pessoas Desaparecidas, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, não são cruzados com os dados do SVO ou do IML pelo fato de não existir um banco de dados simples que unifique essas informações.

O trabalho de localizar um ente querido, levando em consideração que ele possa ter falecido, fica nas mãos da própria pessoa que por ele procura. Além da vulnerabilidade comum do momento difícil, o trabalho se mostra humanamente impossível.

Existem 72 unidades do Instituto Médico Legal no Estado de São Paulo. O prazo mínimo que o IML dá para que um corpo seja reclamado é de 72 horas; levando isso em conta, é preciso que se visite - a cada hora, durante três dias - todas as unidades do IML em um território de 248.209 km². Também é preciso consultar o Serviço de Verificação de Óbito, que muitos desconhecem a existência.

"Redesaparecimento"

A bola de neve que se tornou a questão ganhou até um neologismo. "Redesaparecimento" é quando o Estado encontra um desaparecido, mas "some" novamente com ele ao enterrá-lo sem que as pessoas que o procuram tenham ciência disso.

O termo aparece na ação que o Ministério Público está movendo desde o mês de maio deste ano para solicitar um banco de dados que reúna informações do próprio MP, do IML, do SVO, da Polícia Civil, da Polícia Militar, da Secretaria da Saúde e do Instituto de Identificação.

A promotora Eliana Vendramini, que coordena, dentro do MP, o Plid - Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos, acredita que a implantação desse banco de dados – algo simples e fácil de fazer, segundo ela – vai aliviar o drama de familiares que passam, em alguns casos, até anos procurando por parentes em São Paulo.

"Tratam esse tema como se não fosse algo importante", critica Vendramini, que recebeu a reportagem do Portal da Band no Plid. "O Estado, no entanto, precisa começar a investir nisso, porque esse problema pode acontecer com qualquer um de nós. Eu posso morrer sozinha em casa de algum problema no coração, ir para o SVO, ser enterrada em Perus e minha família não ser avisada disso", exemplificou.

Um caso parecido com essa hipotética situação aconteceu de fato na Zona Sul de São Paulo em 2015. João Silva*, na casa dos 40 anos, teve um infarto em via pública. Seu corpo foi periciado no IML, que obteve sua identidade por meio das digitais, mas não avisou a família, que já havia registrado boletim de ocorrência de seu desaparecimento. Os dados não foram cruzados e João foi enterrado em Perus. Somente um mês depois a família tomou conhecimento, pelo Plid, do que havia acontecido com ele.

Covas para inumação de indigentes e não reclamados (Foto: Band)

Banco de dados

Vendramini está baseando a ação em uma lei estadual de 2014, do deputado Hamilton Pereira (PT), que exige a criação de um banco de dados para ajudar na localização de pessoas desaparecidas. "A implementação é bem simples, o que seria mais complexo é a capacitação dos funcionários que vão preencher os dados. É preciso ter muitas informações, como cor da pele, se tem tatuagens, as roupas, fotografias, enfim. Depois disso, o próprio banco faria esse cruzamento de dados sozinho."

A partir do trabalho do Plid, o IML começou a desenvolver, em 2015, um banco de dados que reúne informações sobre os corpos autopsiados. Em nota, a Superintendência da Polícia Técnico-Científica - que responde pelo IML, afirmou que todas as suas unidades estão integradas no programa e que há profissionais treinados para usá-lo.

A promotora de Justiça, porém, alerta que os dados que chegam até o DHPP não são examinados pela delegacia porque não há funcionário para fazer essa análise. "Eu soube de um atraso de mais de um mês para abrir as informações que o IML repassa diariamente."

A Superintendência da Polícia Técnico-Científica respondeu que, desde a implementação do sistema, houve dez mil acessos por parte de policiais civis e técnico-científicos e que o programa será ampliado para as outras unidades da Polícia Civil do Estado.

Corrida contra o tempo


Enquanto os órgãos que tratam das mortes no Estado não se comunicam de maneira efetiva, muitas famílias continuam sem respostas para suas dúvidas. Desde 2000, os familiares de José Souza* buscam informações sobre seu paradeiro. Há 15 anos, os documentos de José foram encontrados junto ao corpo de uma vítima de afogamento, já em avançado estágio de decomposição. Os laudos de DNA foram inconclusivos e um exame antropológico da ossada jamais foi realizado.

Durante todo esse período, a família paga um ossário particular no cemitério de Perus para que os restos mortais não sejam levados ao subterrâneo do ossário geral, dificultando ainda mais uma possível identificação futura.

Ossários particulares do Cemitério Dom Bosco (Foto: Band)

"Com o passar dos anos, a ossada pode se degradar, ser reduzida a pequenos fragmentos ou mesmo mofar; esses fatores podem, sim, interferir na análise", explica o antropólogo forense Paulo Tieppo.

O Serviço Funerário de São Paulo, que é de responsabilidade da prefeitura da cidade, confirmou as informações sobre o ossário geral do cemitério Dom Bosco, que sepulta, em média, 10 corpos de pessoas não reclamadas por semana.

Em nota, o órgão disse ainda que “todos os sepultamentos de pessoas reclamadas ou não reclamadas constam nos livros de registro do cemitério”. As fotografias do local mostram, porém, que as etiquetas que trazem algumas informações sobre aqueles restos mortais também se degradam com o tempo.

No local, há, inclusive, etiquetas que se desprenderam do saco com ossadas e estão no chão, já sem possibilidades de saber a qual ossada aquelas informações se referem.

Saco com ossos já sem a identificação e etiqueta com informações de restos mortais no chão (Foto: Eliana Vendramini)

Quase dois mil não reclamados

O problema, que começa na administração estadual e atinge a municipal, fica mais palpável quando vemos, em números, a sua dimensão. Desde 2014, o Serviço Funerário publica em seu site, e também no Diário Oficial do Município, a lista das pessoas sepultadas cujos corpos foram encaminhados pelo IML e SVO para colaborar na localização de pessoas desaparecidas.

No serviço, que é de grande ajuda a quem procura um familiar desaparecido uma vez que fornece a identificação ou então informações sobre o corpo, já constam quase dois mil corpos não reclamados em um período de três anos. É difícil acreditar que quase duas mil famílias não estão preocupadas com o paradeiro de seus entes. A explicação, além do problema de cruzamento de dados já citado, pode estar na própria existência da lista, desconhecida pela maioria da população da capital paulista.

Desde que passou a publicar essa relação, o Serviço Funerário já recebeu 50 contatos, sendo que 15 deles retornaram dizendo que a lista ajudou na localização de desaparecidos.

Cemitério da ditadura


O cemitério de Perus, vale lembrar, é um local é conhecido historicamente por ter enterrado, de forma clandestina, mortos políticos da época da Ditadura Militar (1964-1985), indigentes, alvos do Esquadrão da Morte e vítimas, a maioria crianças, de um surto de meningite que o governo abafou nos anos de 1970.

Foi nesta década, aliás – mais precisamente em 1971, que o então prefeito Paulo Maluf inaugurou o Dom Bosco. Durante anos, aquele foi o esconderijo perfeito para as vítimas do regime militar brasileiro.

Somente em 1990, após uma investigação do jornalista Caco Barcellos, a vala clandestina foi descoberta e passou a ser objeto de inquérito durante o mandato da prefeita Luiza Erundina. Em um espaço que não constava na planta oficial do cemitério, 1.049 ossadas foram encontradas sem identificação alguma.

Mural em memória dos desaparecidos políticos enterrados em Perus (Foto: Band)

Desde então, apenas três restos mortais foram identificados no período em que o trabalho antropológico era da alçada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Após denúncia de má conservação, as ossadas foram levadas para o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp.

Segundo o Grupo de Trabalho de Perus (GTP) - que atua na identificação das ossadas, de outubro de 2014 a março deste ano, 626 das 1.049 caixas foram abertas, limpas e analisadas; nesse período, também foram realizadas coletas em 74 pessoas de 31 famílias diferentes para comparação do perfil genético. Ainda de acordo com o GTP, mais três ossadas já estão prestes a serem identificadas.

Enquanto a identidade dos mortos da vala clandestina permanece uma incógnita, novas perguntas também sem respostas vão se acumulando no subterrâneo deste mesmo cemitério.

Organizações dedicadas à procura de desaparecidos

Além do serviço prestado pelo Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos, do Ministério Público, outras organizações também ajudam na busca por pessoas desaparecidas. Citamos aqui algumas delas:

Mães da Sé
Instituto Ana Paula Moreno de Reintegração Familiar
Mães em Luta
Desaparecidos do Brasil


* Os nomes foram alterados para não expor as famílias


(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 27 de junho de 2017

Refugiados LGBTs sofrem com perseguição e preconceito até entre os seus conterrâneos

Lara Lopes chora ao lembrar dos preconceitos que enfrentou em seu país natal (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)

Quando Lara Lopes, de 33 anos, deixou Moçambique, na África, ela já estava em seu limite. Lésbica, Lara precisou buscar asilo em outro país por causa de sua orientação sexual. "A maioria dos países africanos olha a comunidade LGBT como pessoas doentes ou possuídas por algum espírito. Várias vezes ouvi isso e, durante parte da minha vida, achei que fosse verdade", desabafa.

Parte das 250 solicitações de refúgio que o Brasil processou baseadas em perseguição de gênero ou de orientação sexual, a moçambicana participou, nesta terça-feira (27) em São Paulo, do lançamento de uma cartilha de proteção a refugiados LGBT, criada pela agência da ONU para refugiados (ACNUR) e pelo alto comissariado para direitos humanos (ACNUDH). O material está disponível em quatro línguas: português, espanhol, inglês e francês.

"No meu país, eu era obrigada a construir uma família 'normal', que é a mulher casando com o homem, tendo filhos e agradando aos familiares", relata. "Chegou um tempo em que eu não aguentava mais. Eu não conseguia emprego por ser homossexual, eu estava estudando, mas na faculdade meus colegas e até professores me olhavam como se eu não fosse humana. Minha mãe me perguntava por que eu não queria mais sair de casa, como eu posso ir para rua se lá todos pensam que sou doente?"

Lara lembra ainda que teve uma grande amiga assassinada em Moçambique somente pelo fato de ela ser LGBT. "Você vê amigos e familiares serem violentados e mortos, mas não há nada que você possa fazer", lamenta já aos prantos.

"Não é que no Brasil não tenha homofobia, mas aqui pelo menos existem leis para nos proteger", acrescenta Lara, cuja natal Moçambique é vizinha de países como Malawi, Tanzânia, Zimbábue e Zâmbia, que aplicam penas severas, como prisão perpétua e até punição corporal aos homossexuais.

Discriminação durante o processo de asilo

Nem todos os solicitantes de refúgio sabem, no entanto, de seus direitos – e às vezes nem se aceitam como integrantes da comunidade LGBT. Foi para difundir essas informações – e também devido a um aumento dos pedidos de asilos relacionados à perseguição por orientação sexual – que a cartilha foi elaborada.

"Essa cartilha tem função dupla: garantir que os LGBTs conheçam seus direitos e saibam onde buscar apoio e também informar a sociedade brasileira sobre quem são essas pessoas e quais dificuldades enfrentam", pontua Diego Nardi, assistente de meios de vida do Acnur.

Diego ressalta que não é somente no país de origem que refugiados LGBTs sofrem; isso também ocorre ao longo do processo de solicitação de asilo. "Muitas vezes eles se deparam com funcionários que não estão preparados para atendê-los, e aplicam procedimentos abusivos – como pedir para que comprovem a orientação sexual – ou até nos centros de acolhidas, onde alguns conterrâneos podem também ser hostis."

"Vivemos com medo"

Foi o que aconteceu com Mahmoud Hassino, refugiado sírio homossexual que chegou a Alemanha em 2014 e precisou deixar às pressas um abrigo de imigrantes por ter sofrido preconceito de outros sírios. "Vivemos com medo de sermos identificados como gays, porque, dessa forma, viramos alvos de ataque", declarou em entrevista à Associated Press.

O país árabe é um dos 73 que criminalizam as relações homossexuais, inclusive com pena de morte. Após a conquista de territórios sírios pelo grupo terrorista Estado Islâmico, começou a circular na internet vídeos em que os extremistas impõem suas punições, que incluem jogar homossexuais do alto de prédios e convocar a população para apedrejá-los até a morte.

Reprodução

Para Diego Nardi, do Acnur, a cartilha também deve ajudar a facilitar a entrada desses LGBTs em países que oferecem asilo. "Uma pessoa que é obrigada a viver escondendo sua sexualidade, sua identidade de gênero, já significa que sofre perseguição e merece refúgio", explica. "Para ela, poder ir a um lugar onde é possível amar livremente e viver sem se esconder é uma conquista, uma verdade vitória."

(Karen Lemos - Portal da Band)

terça-feira, 20 de junho de 2017

'Tsunamis' de fogo consumiam tudo em segundos, diz testemunha de incêndio em Portugal

André com sua cachorra bulldog e um pastor belga de um amigo da aldeia (arquivo pessoal)

André Kuzer passou próximo da estrada que liga os municípios de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, em Portugal, minutos antes de ela ser engolida pelas chamas. No contexto da maior tragédia do país, o local recebeu o nome de "estrada da morte" depois que 47 corpos foram encontrados naquele trecho. Eram de pessoas que morreram carbonizadas enquanto tentavam escapar do enorme incêndio que teve início em Pedrógão Grande, no último sábado (16), e que, até o momento, deixou 64 mortos.

Filho de um brasileiro, o arquiteto português de 40 anos estava em sua residência de Mosteiro, aldeia a cerca de seis quilômetros da região onde o incêndio teve início. “De longe eu conseguia ver o fogo, mas parecia controlado”, relata ao Portal da Band.

Duas horas depois, lembra o português, tudo ficou na mais completa escuridão. “Avistei ‘tsunamis’ de fogo consumindo uma enorme encosta em segundos. Ventava muito e já era possível sentir um enorme calor nesse vento. Minha primeira reação foi pegar uma mangueira e regar a casa. Nunca tinha vivenciado algo assim, não sabia o que fazer ou como me proteger.”

Com medo de ficar em casa, André pegou o carro e foi até o centro da aldeia. “Lá eu vi dois bombeiros que haviam sido apanhados pelas chamas. Eles já estavam praticamente despidos e tinham queimaduras pelo corpo. Naquele momento eu pensei que, se ficasse ali, eu morreria. Foi quando eu ouvi alguém comentando da estrada, que estava transitável, e resolvi sair de lá.”

Quando chegou em Coimbra, onde mora a mãe, André soube dos corpos carbonizados encontrados no local onde há pouco havia passado perto. “Se eu tivesse esperado 10 minutos para sair da aldeia, eu também teria ficado preso nas chamas”, conta.

Drone sobrevoa a 'estrada da morte' após incêndio:




Cenário apocalíptico

Durante a viagem para Coimbra, Kuzer pensou em seus vizinhos e nas pessoas que conhecia que decidiram permanecer em Mosteiro. No trajeto, ele também se lembrou do que viu antes de conseguir escapar e da rapidez com a qual as chamas destruíram tudo. “O cenário era apocalíptico. Descrever aquilo é como descrever o inferno. O vento e o som das chamas são inenarráveis. Tudo aconteceu muito rápido, foi horrível.”

Com dificuldades para se informar – a comunicação na região atingida pelo incêndio ainda é complicada –, Kuzer começou a receber informações sobre várias mortes em sua aldeia. Ele também atendeu a muitas ligações de pessoas perguntando se ele estava vivo. “Aquilo me angustiou muito”, relata.

O fogo, que ainda se alastra por algumas vilas, já foi contido em Mosteiro. Nessa segunda-feira (19), o português conseguiu retornar para a aldeia e não soube de nenhum conhecido que tenha perdido a vida, embora ainda se tenha notícias de muitos desaparecidos.

“Uma vizinha minha foi uma das que desapareceram; fui até a casa dela, que foi totalmente consumida pelo fogo, mas não encontrei nada. O carro dela não está lá também. Não sei se ela conseguiu fugir ou se também foi pega pelas chamas na ‘estrada da morte’”, lamenta.

Mapa mostra a 'estrada da morte', a casa de André e o local onde o fogo teve início:



Sensação de abandono

Apesar de incêndios serem comum nessa época do ano em Portugal, nunca houve algo nessa proporção. Diante da magnitude dos fatos, o português diz ter se sentido desorientado e abandonado pelas autoridades do país.

“Tudo aconteceu tão rápido e de forma inesperada que ninguém conseguiu pensar em um plano de salvamento. Não havia ajuda, todos os residentes foram abandonados a própria sorte”, conta ele, que enquanto estava em Mosteiro não viu agentes civis para evacuar a área ou bombeiros para impedir que o fogo chegasse até a aldeia.

“Eu não sei se era possível imaginar que o fogo tomaria a dimensão que tomou, mas o sentimento que eu tenho é que erros foram cometidos para que a tragédia se tornasse tão gigante”, desabafa. “Ainda que as autoridades estivessem desprevenidas, confiamos que os órgãos de proteção civil estão lá justamente para antever esse tipo de situação. Espero que, após esse drama, as leis mudem no país para que se evitem tragédias como essa.”

No domingo (18), Portugal declarou luto oficial de três dias em meio à consternação nacional. Kuzer conta que é mesmo de luto o clima em todo o país. Mesmo tendo retornado para aldeia atingida pelo incêndio, o arquiteto decidiu não fazer fotos ou registros do que viu. “Prefiro não guardar nada disso na minha memória. Foi a pior situação que eu já passei na vida”, define.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Greve geral mostra que governo Temer subestimou as centrais sindicais, diz analista

 Beto Barata/PR

A expectativa de uma ampla adesão à greve geral contra as reformas do governo de Michel Temer (PMDB), programada para esta sexta-feira (28) em todo o país, pode ter um impacto significativo na votação dos carros-chefes do Executivo, como é o caso da Reforma da Previdência, que será apreciada na comissão especial da Câmara dos Deputados no dia 2 de maio, e da Reforma Trabalhista, aprovada em plenário nesta quarta-feira (26) e que agora segue para votação no Senado Federal.

Na opinião do especialista Thomaz Favaro, Temer desconsiderou o fator de influência das centrais sindicais, que devem se unir para a paralisação desta semana.

“A greve mostra que o governo subestimou o poder de mobilização das centrais sindicais; vale lembrar que, até o ano passado, o movimento estava dividido entre as centrais mais ligadas aos partidos de esquerda, como a CUT e outras, e as de perfil político mais moderado, como é o caso da UGT e a Força Sindical. Temer pensou, então, que manteria apoio das centrais mais governistas, mas a alta adesão à greve indica que o governo errou neste cálculo”, explica o diretor-associado da Control Risks para o Brasil e Cone Sul.

Para Favaro, isso aumenta a pressão nos parlamentares que estão avaliando as duas principais propostas do Executivo.

Cenários possíveis

Tal pressão não deve, porém, alterar radicalmente o texto de ambas as reformas, segundo as projeções do analista. A exemplo da Reforma da Previdência, algumas alterações foram consideradas durante seu processo de tramitação no Congresso, mas o cerne da questão se manteve. "Ainda assim, existe o risco de a greve aumentar tanto a tensão a ponto de o texto ser distorcido”, pontua o analista.

Ato de protesto contra as reformas na Esplanada dos Ministérios (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Favaro trabalha com três cenários, sendo o mais improvável a cassação de Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que atualmente julga as contas de campanha da chapa do peemedebista com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

O cenário alternativo que o especialista enxerga seria justamente aquele em que o governo não consegue aprovar suas reformas por perda de capital político. “As dissidências dentro da base governista aumentariam e o governo ingressa em um quadro que os norte-americanos chamam de lame duck, que é quando o Executivo já gastou sua relação com o Congresso e entra em um período de baixa produtividade.”

A projeção mais certa, todavia, continua sendo favorável ao presidente. “As circunstâncias mostram que o governo ainda possui condições de conseguir o número de votos necessários para aprovar as reformas até provavelmente o mês de setembro.”

Economia e Lava Jato

Mesmo não sendo o mais provável, Michel Temer pode perder o razoável capital político que possui por outros motivos alheios à greve desta sexta.

“A expectativa para este ano é de recuperação econômica, mas isso se dará de forma lenta e não deve influenciar positivamente, ao menos de forma significativa, no capital político do presidente”, avalia o analista de risco.

“Além do mais, o governo ainda rema contra a maré em outros aspectos, como na questão da investigação da Lava Jato, que implica em vários membros governistas. A aprovação antecipada das reformas seria, portanto, o cenário mais desejado pelo Executivo neste momento.”

Comunicação falha

Thomaz Favaro considera que o governo Temer enfrenta dificuldades para aprovar seus projetos por não ter se comunicado de forma mais efetiva, inclusive com os próprios parlamentares. Nesta semana, o PSB fechou questão contra a Reforma Trabalhista e da Previdência.

“Acredito que parte dessa culpa recai sobre os articuladores do governo no Congresso. Vale lembrar que, logo no começo, Temer perdeu alguns de seus principais articuladores devido a escândalos de corrupção, como foi o caso de [Romero] Jucá”, destaca.

“Vejo também uma falha no diálogo com a população brasileira. Não é fácil entender o tamanho do déficit das finanças públicas no Brasil e as projeções de crescimento de dívida; são proporções difíceis de serem compreendidas.”

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os desafios de uma vereadora jovem, mulher e bissexual na Câmara Municipal de São Paulo

André Bueno/CMSP

 A relação com a política começou dentro de casa. Com os pais, que sempre foram militantes, aprendeu a importância de defender uma sociedade mais justa; aprendeu também que isso é algo que não se conquista assim tão facilmente, que demanda muito esforço. Foi na rua, porém, durante as manifestações de 2013, que entendeu que essa luta valia mesmo a pena, apesar de todas as barreiras que encontraria nesse caminho.

Em um mandato de 30 dias como suplente do vereador Toninho Vespoli (PSOL), barreiras não faltaram para Isa Penna, afinal, estamos falando de uma parlamentar jovem, mulher e bissexual atuando na Câmara Municipal de São Paulo, a maior do País, formada em 80% por homens, alguns deles com posições conservadoras em relação ao papel da mulher na sociedade.

Logo na primeira semana, a advogada de 26 anos se envolveu em um caso de agressão com o colega Camilo Cristófaro (PSB). O ocorrido, que está sendo investigado em um processo de sindicância aberto na Casa, foi definido por Isa como um símbolo da reação que ela causou neste ambiente político majoritariamente masculino.

“A impressão que têm é que eu não sirvo para a política por fugir do padrão de comportamento esperado de mim: o de uma menina meiga, submissa, que se intimide fácil. E quando eles [colegas parlamentares] percebem que não é por aí, o incômodo é nítido”, conta a vereadora, que na última semana de mandato recebeu o Portal da Band em seu gabinete.

Semideuses

Em uma decisão coletiva dentro do partido, ficou definido que Isa Penna ocuparia o cargo de vereadora durante licença de Vespoli a partir do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, em um período de 30 dias. “Era importante ter uma bancada feminina e feminista no mês da mulher”, explica Isa, que compõe a bancada da legenda ao lado de Sâmia Bomfim.

Questionada a respeito de suas primeiras impressões sobre a Câmara dos Vereadores, a parlamentar fez um comparativo com o monte Olimpo, morada dos deuses da mitologia grega. “Os deuses do Olimpo tinham uma relação descolada dos terrestres, assim como os vereadores têm das reais demandas do povo.”

“Percebo a postura parlamentar como uma postura de um semideus, de alguém inatingível, confortável para atuar de forma politicamente incorreta. A própria dinâmica na Câmara, com o poder que fornece aos vereadores, contribui para essa lógica”.

Casa do machismo


Para Isa Penna, o machismo na Câmara Municipal de São Paulo se expressa de forma “desavergonhada”. Alguns dados ajudam a revelar o cenário por trás dessa percepção.

Na Câmara de São Paulo, são 11 parlamentares mulheres e 55 parlamentares homens, o que representa 20% de bancada feminina na Casa - um número alto se nos basearmos na história, mas muito abaixo da representatividade ideal se levarmos em conta que 51,4% da população brasileira são mulheres.

Em âmbito nacional, o número é ainda menor. De acordo com um levantamento da Inter-Parliamentary Union (IPU), que mede a representatividade nas instituições de poder, a Câmara dos Deputados, em Brasília, tem 10,7% de mulheres. Só para fazer uma comparação, a Arábia Saudita, país que somente em 2015 permitiu que suas mulheres votassem e se candidatassem, tem 19,9% de representação feminina em seu Legislativo.

“O comportamento machista de intimidar, de interromper, de inferiorizar, de desqualificar, é o tempo todo aqui na Câmara”, conta a vereadora, levando em consideração sua experiência de 30 dias na Casa. “Se não é isso, é a sedução. Ouço coisas do tipo ‘como você está bonita’, ‘você é muito bonita para estar na política’ ou então me chamam para jantar. Claro que não dá para generalizar, mas esse comportamento condiz com ao menos 80% dos parlamentares daqui”.

Vereadoras contra a violência de gênero

Ser uma “estranha no ninho” não é a única causa das desavenças com alguns parlamentares da Câmara. As pautas que defende em plenário, acredita Isa, também motivam conflitos lá dentro. “Eu defendo os direitos de pessoas historicamente marginalizadas, caso das mulheres, dos negros, da comunidade LGBT, dos indígenas, dos imigrantes; e isso muitas vezes é mal visto”, pontua.

A parlamentar crê que esse desencontro ideológico a torna, em algumas circunstâncias, um alvo dentro da Casa. Talvez isso explique um dos motivos que causaram a briga com Camilo Cristófaro, por exemplo. Um dia antes do ocorrido, Isa havia feito um discurso em plenário se posicionando contra a Reforma da Previdência do Governo Federal.

Isa alega que no dia seguinte foi abordada pelo colega, que a xingou de “vagabunda” e “terrorista”; Cristófaro teria dito ainda para ela não se surpreender se “tomar uns tapas” na rua. Em sua defesa, o vereador, que confirmou ter se encontrado com a parlamentar, disse que as acusações são mentirosas.

Vídeo mostra discussão entre Isa e Camilo na Câmara Municipal:



A vereadora, no entanto, não foi a única servidora com um caso de agressão na Câmara. No começo do ano, Juliana Cardoso (PT) relatou hostilidade da equipe de Fernando Holiday (DEM). Segundo ela, assessores do parlamentar invadiram a sala da liderança do PT e agrediram verbalmente e “com tapas” quem estava lá. Na ocasião, Holiday afirmou que não tinha conhecimento da ação de seus assessores.

“Você começa a perceber, então, os riscos que envolvem uma decisão de fazer política de uma maneira diferente”, conta Isa. “Não que isso me freie de alguma maneira, mas é claro que eu sinto medo em algumas ocasiões.”

Depois desses dois episódios, as componentes da bancada feminina da Câmara resolveram agir e se uniram contra a violência de gênero: apresentaram uma carta protestando contra o ambiente hostil às mulheres da Casa e também criaram uma CPI com o objetivo de discutir políticas públicas e realizar um mapeamento da violência contra a mulher em São Paulo.

Esse mapeamento também ficou a cargo de Isa Penna, que durante o mandato levantou dados sobre a rede de atendimento à mulher na capital paulista. “Fizemos visitas aos CRMs [Centro de Referência da Mulher] e CCMs [Centros de Cidadania da Mulher] para verificar a estrutura física, o preparo dos profissionais, os procedimentos de atendimento”, detalhou.

Isa Penna e equipe em visita a CCM de Perus, na zona norte de São Paulo (arquivo pessoal)

Convite às mulheres

No ínterim do mandato, a jovem parlamentar conta que conseguiu realizar “mais do que esperava”, apesar do curto espaço de tempo. Mesmo diante de desafios e provocações, ela avalia a experiência como positiva. “Uma mandato político é um baita instrumento para lutar por aquilo que acredito. Valeu muito a pena. Saio dessa vivência mais fortalecida”, afirma.

Junto com as outras parlamentares da Casa, a vereadora espera deixar um caminho mais livre para as mulheres na política.

“Meu mandato, o mandato da Sâmia, são de fato importantes, mas nossas vozes sozinhas não são suficientes. Existe uma pluralidade muito grande entre as mulheres. Nós queremos mais mulheres, queremos também as negras, as transexuais, as lésbicas, as sindicalistas, queremos todas, porque cada uma tem demandas muito específicas. Para ter essa representatividade que tanto almejamos, precisamos de mais mulheres na política que decidam também seguir por esse caminho, por mais que isso exija sacrifícios e tenha lá os seus riscos. Eu não troco isso por nada”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)