domingo, 9 de outubro de 2016
Machismo, terrorismo e imigração dominam segundo debate das eleições norte-americanas
O segundo debate presidencial entre os candidatos Hillary Clinton e Donald Trump, que aconteceu neste domingo (9) na Universidade de Washington, teve um clima ainda mais tenso com a pressão em cima do republicano sobre os comentários machistas que fez em uma antiga entrevista, que veio à tona um mês antes das eleições.
O debate, que desta vez contou com perguntas dos eleitores presentes, começou com uma professora questionando o exemplo que os candidatos dariam para as crianças do país. Logo surgiu o assunto sobre as falas misóginas do republicano.
“Aquilo foi uma conversa de vestiário, privada, entre quatro paredes”, definiu Trump. “Não me orgulho disso, já pedi desculpas, mas acho que há coisas maiores e importantes acontecendo; o Estado Islâmico decapitando pessoas, guerras acontecendo, uma carnificina no mundo inteiro.”
O candidato ainda disse que sempre teve muito respeito pelas mulheres, e Hillary reagiu. “O que ouvimos Donald dizer sobre as mulheres é o que ele realmente pensa”, disse. “Vimos isso durante toda a campanha. Ele também falou contra os afro-americanos, imigrantes, latinos, pessoas deficientes, muçulmanos e tantos outros.”
Trump contra-atacou citando quatro mulheres - e inclusive levando-as para a plateia - que acusaram o marido da democrata, o ex-presidente Bill Clinton, de abuso sexual. “Jamais na história política desse país alguém foi tão agressivo com relação às mulheres”, afirmou o magnata.
Hillary não comentou as acusações, mas citou uma fala da primeira-dama Michelle Obama. “Quando eles derem um golpe baixo, você vai por cima”, disse, arrancando aplausos, e acrescentando que não é apenas um vídeo que paira sobre a campanha de Trump.
“Ele não pede desculpas a ninguém que ofende. Não pediu desculpas à família de Khizr Khan (militar muçulmano morto no Iraque), não pediu desculpas ao juiz federal de Indiana que ele afirmou não ser confiável por ser mexicano, nem à repórter que ele envergonhou em plena rede nacional e nem a Obama, de quem duvidou ter nascido nos Estados Unidos”, completou Hillary.
Terrorismo e crise migratória
Uma eleitora quis saber a opinião dos candidatos sobre o preconceito com os muçulmanos. Para Trump, a islamofobia existe e é um grande problema no país. “Gostando ou não, esse problema existe”, declarou. “Eu quero ter certeza de que os muçulmanos denunciem [casos de terrorismo]; Há sempre uma razão para tudo e, se os muçulmanos não fizerem denúncias, vai ficar difícil”.
Clinton, por sua vez, lamentou o que chamou de “comentários que dividem” o país e citou Muhammad Ali como exemplo de verdadeiro muçulmano. “Minha visão para os EUA é de que todos tenham um lugar para poder trabalhar duro e contribuir para a comunidade. Entrar nessa demagogia de Trump é ser míope diante do problema; precisamos dos muçulmanos para trabalhar contra o terrorismo; eu quero derrotar o Estado Islâmico em uma coalização com países muçulmanos. Não estamos em guerra contra o Islã; as falas de Trump, aliás, favorecem os terroristas”, comentou Hillary.
Uma das jornalistas que mediava o debate perguntou, então, ao magnata sobre sua política de proibir a entrada de muçulmanos no país. “Ninguém sabe quem eles são”, respondeu o republicano. “Obama quer aumentar a entrada deles nos EUA, será o maior cavalo de Troia da história. Não quero centenas de milhares de pessoas da Síria que não conheço e não sei se gostam ou não do meu país. Temos muito imigrantes ilegais criminosos aqui. Hillary não quer fazer isso, mas eu vou deportar todos eles.”
Hillary lembrou da foto do menino de quatro anos ferido após um bombardeio em Aleppo. “Existem crianças sofrendo com essa guerra. Não estamos carregando a carga que a Europa está carregando. Faremos uma triagem dura, mas é importante ter uma política que não proíba as pessoas por causa da religião delas.”
E-mails e wikileaks
Trump aproveitou escândalos envolvendo Hillary para atacá-la. O republicano disse que a adversária também deve desculpas e explicações sobre os 33 mil e-mails que ela apagou quando era secretária de Estado e falou que vai empossar um ministro da Justiça especialmente para o caso dela, caso seja eleito presidente.
“Foi um erro ter usado uma conta pessoal de e-mail [para o trabalho], eu não faria isso de novo, peço desculpas. Quero lembrar, porém, que em um ano de investigação, não encontraram nenhuma informação sigilosa que possa ter parado em mãos erradas. Agora, é bom saber que um temperamento como o seu não está à frente da nossa lei”, respondeu Hillary ao republicano. Trump provocou e disse que, se isso fosse a realidade, ela estaria presa.
Outro escândalo foi o vazamento do Wikileaks sobre discursos pagos da democrata. A candidata falou que as informações estão descontextualizadas e alertou para a série de hackeamentos feito pela Rússia com a intenção, segundo ela, de influenciar as eleições a favor de Trump. “Talvez porque Trump concorde com as coisas que Putin [presidente russo] faz ou porque quer fazer negócios em Moscou; eu realmente não sei.”
Respeito
No primeiro debate, Trump e Hillary apertaram as mãos no início e no final do encontro. Desta vez, não houve cumprimentos, apenas um mais contido no encerramento do debate.
O claro aumento de tensão entre os dois foi notado pelos eleitores. Um deles pediu até para que os candidatos falassem algo que fosse “respeitoso” um ao outro, o que gerou risos na plateia.
Respondendo primeiro, Hillary afirmou que admira muito os filhos de Trump. “Eles são hábeis e comprometidos, um reflexo de Donald. Posso não concordar com muita coisa que ele diz, mas respeito esse fato.”
Já Trump afirmou que não concorda com os objetivos pelos quais a democrata luta, mas que ela é uma “lutadora que não desiste nunca”. “É uma ótima característica”, definiu. “E agradeço o elogio aos meus filhos, não sei se foi sincero, mas tenho muito orgulho deles.”
Análise
Para a ex-correspondente nos Estados Unidos Patrícia Campos Mello, Trump conseguiu se salvar dos escândalos que o aguardavam neste debate. “Acho que ele foi suficiente para não acabar com a própria campanha. Ele não mostrou arrependimento e ainda dobrou a aposta, discutindo coisas importantes para os eleitores dele.”
O jornalista norte-americano Matthew Shirts concordou. “Foi surpreendente. O Trump se saiu melhor do que no outro debate. Em relação à Hillary, acho que houve um empate.”
Por fim, Solange Reis, coordenadora do observatório político dos EUA, analisou que Trump teve um bom começo de debate, mas depois derrapou. “Ele estava terrivelmente despreparado para assuntos que ele não tem conhecimento, como política externa.”
(Karen Lemos - Portal da Band)
sábado, 8 de outubro de 2016
Cidade goiana elegeu um vereador, mas terá cinco
O mandato coletivo da esquerda para a direita: professor Sat, Laryssa Galantini, Ivan Anjo Diniz, João Yuji e Luís Paulo Nunes (Foto: Divulgação)
Nas eleições municipais de 2016, mais de 25 milhões de eleitores brasileiros se abstiveram de registrar seu voto em todo o País. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram ainda que os votos brancos, nulos e ausências nas urnas “venceram” o primeiro turno para a prefeitura de dez capitais, sendo que no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte esse número foi maior do que os votos obtidos pelos dois candidatos que, agora, disputam o segundo turno.
A insatisfação diante da velha política no Brasil também incomodou alguns candidatos que disputaram o pleito deste ano. Entusiasta da política desde criança, e contagiado com o apelo por mudanças que despontou nas manifestações de junho de 2013, quando morou em São Paulo, João Yuji retornou para Alto Paraíso, em Goiás, querendo sugerir algo novo.
A partir de 2014, ele começou a desenvolver um formato para um mandato coletivo, convidando pessoas de diferentes expertises para dividirem as tarefas e atender as demandas do município. “Nossa ideia é descentralizar o poder legislativo. É uma articulação em longo prazo, que, das câmaras municipais, queremos levar até o Congresso Nacional”, explica João ao Portal da Band.
Na cidade com cerca de quatro mil votantes, a ideia agradou, e João – candidato formalmente registrado – venceu as eleições pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN), apresentando uma proposta diferente.
Junto com João, que cuidará da parte jurídica, trabalham no mandato Ivan Anjo Diniz (cultura), Laryssa Galantini (ambiente), Luís Paulo Nunes (turismo e comércio) e professor Sat (educação). “Estamos buscando ainda alguém que trabalhe na área da saúde”, disse Yuji.
Salário e novos membros
A novidade levantou algumas dúvidas em Alto Paraíso. Alguns questionaram como o grupo faria com relação ao salário que o mandato de um homem só receberia. Para isso, o coletivo registrou em cartório um acordo e o divulgou para os eleitores. O artigo 12 do acordo diz, por exemplo, que o subsídio do vereador “será de propriedade do coletivo, que somente poderá aplicar tais valores em assuntos de interesse comum do Município”.
Ou seja, o honorário de R$ 5 mil que um vereador da cidade recebe será destinado ao munícipio. “Todos do grupo vão trabalhar de forma voluntária. Toda vez que chegar o dinheiro do mês, vamos nos reunir e discutir de que forma ele será aplicado. É por isso que, quem quiser entrar no grupo, precisa realmente querer e assinar esse acordo”, explica João.
Sim, o mandato está aberto para adesão de novos membros, mas, para tanto, é preciso passar por um período de experiência e conseguir uma aprovação unânime. “Se uma pessoa do grupo não concordar com a entrada de uma nova pessoa, está vetado”, acrescenta o vereador eleito.
Existe ainda a possibilidade de expulsão, se assim o grupo desejar. João conta ainda que, embora as decisões sejam do coletivo, a opinião do eleitorado vai pesar. “Nossa ideia é estar perto do eleitorado, queremos que ele esteja lá conosco nas sessões da Câmara, mostre suas demandas e se aproxime; o nosso trabalho tem que ser feito com transparência.”
Uma política nova (e menos partidária)
Primeiro a abraçar a causa e a integrar o mandato coletivo, o turismólogo Ivan Anjo Diniz não é filiado a nenhum partido político; nem ele, e nem os outros membros do mandato – com exceção de João, claro, que precisava de uma legenda para se lançar candidato. “Não acreditamos muito nesse sistema que está aí. A ideia do mandato coletivo é suprapartidária e reúne pessoas de diferentes ideologias”, detalha.
Uma das coisas que atraiu Ivan para o projeto, além desse compromisso mais político, porém menos partidiário, foi a ideia de priorizar o comunitário, deixando de lado o “ego” e a “personalização” no Legislativo. O turismólogo acredita que as abstenções cada vez maiores nas eleições mostram que a política não pode estacionar.
“A Câmara [Municipal de Alto Paraíso] era bem conservadora antes, agora tem mais jovens lá querendo fazer algo novo ali, abertos para propostas, com interesse em ajudar. Acho que estamos construindo um novo momento político”, disse ao Portal da Band.
Dos nove vereadores que lá trabalham, apenas um permanece após as eleições de 2016. “Isso mostra que a própria população buscou essa renovação. Ninguém aguentava mais continuar como estava.”
Ações e projetos
Antes mesmo de assumir o mandato em 2017, o coletivo já começa, em 18 de dezembro, a realizar mutirões por Alto Paraíso para agradecer os votos que recebeu. Os mutirões vão, inclusive, continuar acontecendo a partir do ano que vem para que se verifiquem as demandas – como limpeza e reformas – de cada bairro da cidade.
Outra preocupação do grupo é como a questão da segurança é vista pelo olhar político. “O nosso viés não é policialesco. Quando pensamos em segurança, temos que pensar em trabalhar com a infância e a juventude e na criação de oportunidades”, exemplificou Ivan.
Outras áreas de atenção serão educação, cultura, turismo, saúde e a veia mais forte do coletivo, o meio ambiente. “Com o dinheiro que vamos receber através do mandato do João queremos, por exemplo, investir nas nascentes no entorno da cidade, fazer uma brigada voluntária na época do fogo e atuar com educação ambiental em diversos problemas que temos na cidade”, conta a bióloga Laryssa Galantini à reportagem.
“Por sermos um grupo muito unido, acredito que conseguiremos alcançar nossos objetivos com a comunidade local, bem como formar uma rede com interessados em fazer outros mandatos coletivos com o nosso modelo em outros municípios”, completou a bióloga, que define as expectativas para o início do mandato como as melhores possíveis.
“O apoio que estamos recebendo não só dos moradores de Alto Paraíso, mas também do Brasil todo, tem nos fortalecido muito, nos motivado cada dia mais a trabalhar voluntariamente e a acreditar que estamos no caminho certo”, finaliza Laryssa.
(Karen Lemos - Portal da Band)
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Hillary e Trump se atacam em primeiro debate
Candidatos à presidência dos Estados Unidos, a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump se enfrentaram no primeiro debate eleitoral na noite desta segunda-feira (26). O encontro, o primeiro de três debates previstos antes das eleições em 8 de novembro, aconteceu na Hofstra University, estado de Nova York.
Trump chegou a dizer que Hillary não teria “cara de presidente”, o que foi considerado um comentário sexista pela democrata. “Ela não parece ser presidente mesmo; não tem a raça, a força para ser uma. É preciso ter condições de negociar acordos comerciais. Ela pode ter experiência, mas é ruim nisso.”
Hillary rebateu. “Este homem já chamou mulheres de porcas, inferiores aos homens, disse que gravidez é algo inconveniente e que mulheres não devem receber remuneração igualitária. Depois que você viajar por 112 países, negociando acordos de paz e de cessar-fogo, ou ficar 11 horas testemunhando para uma comissão, nós podemos discutir sobre força aqui”, disse, arrancando alguns aplausos, ao referir-se à sua experiência como secretária de Estado e ao escândalo dos e-mails do qual precisou justificar-se.
Racismo
Temas em voga, como a economia do país, racismo e o combate ao terrorismo dominaram o debate e levaram, por diversas vezes, os candidatos a se estranharem. A questão racial, por exemplo, levantou novamente a polêmica com relação à nacionalidade do atual presidente, Barack Obama.
Trump, que insiste que o democrata nasceu no Quênia, tentou justificar sua tese, mas o próprio mediador do debate assegurou que a certidão de nascimento de Obama garante que ele é cidadão norte-americano. O republicano disse ainda que é preciso restabelecer a lei e a ordem nos EUA. “Em algumas regiões do país, você anda na rua e leva um tiro. Precisamos tirar as armas das mãos dos imigrantes ilegais, que estão atirando nas pessoas; isso não é discriminação, essas pessoas são do mal, é preciso atuação da polícia.”
Hillary falou que existe preconceito em vários segmentos da sociedade e que é preciso restaurar a confiança entre a polícia e as comunidades, visto os altos índices de morte de jovens negros por policiais brancos. “Vou trabalhar para que os policiais sejam bem treinados, preparados para usar a força só quando necessário e tirar armas das mãos das pessoas que não deveriam portá-las. Temos que atacar essa praga que é a violência das armas.”
Estado Islâmico
A segurança nacional ainda é uma grande preocupação para o eleitor norte-americano. Trump afirmou que o Estado Islâmico não existiria se todo o petróleo fosse tirado da região, já que isso é um dos pilares de sustentação do grupo extremista. Ele também criticou a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que formou coligação para combater os jihadistas. “Nós pagamos 73% da OTAN. Eles que deveriam nos pagar para protegê-los.”
Hillary respondeu que a OTAN enfrenta uma ameaça terrorista que não se apresenta só nos EUA, mas no mundo todo. A democrata disse também que é preciso trabalhar junto a comunidade islâmica, e não atacá-la como, segundo ela, Trump faz de forma temperamental. “Meu ponto positivo é meu temperamento. Eu sei vencer, Hillary não”, rebateu o magnata, arrancando alguns risos da plateia.
Empregos e impostos
Recém-saído de uma crise econômica, os Estados Unidos preocupam-se com o futuro financeiro do país. Ao debaterem o tema, Hillary e Trump se alfinetaram. O plano do empresário é cortar de 35% para 15% a tributação de empresas no país. Dessa forma, de acordo com Trump, as empresas vão querer ficar e gerar empregos nos EUA.
Hillary acredita, porém, que priorizar os ricos foi o que mergulhou o país na crise. “A economia não cresce com o método Trump de distribuir riquezas”, alfinetou. “Trump teve sorte na vida - bom para ele - mas não acredito que ajudar os mais ricos é melhor para todos. Precisamos fortalecer a classe média.”
A discussão esquentou quando Donald foi questionado sobre a declaração de seu imposto de renda que nunca apresentou – os candidatos devem apresentar o documento ao se lançarem na disputa à presidência. “Por que ele não divulga? Tenho um palpite, talvez ele não pague os impostos federais como deve”, provocou Hillary. A democrata ainda lembrou relatos de ex-funcionários do empresário que alegam não ter sido pagos. “Talvez o trabalho deles não tenha sido bom”, respondeu o republicano.
Análise
Na análise de especialistas ouvidos pelo BandNews TV, que transmitiu o debate norte-americano, Hillary surpreendeu, conseguiu tirar seu adversário do sério, enquanto Trump derrapou e se mostrou nervoso demais.
Para a professora Fernanda Magnotta, a democrata precisava – e conseguiu - mostrar simpatia, e o eleitor necessitava ver o lado “presidenciável” de Trump, mas não foi isso o que o magnata apresentou.
“A Hillary reverteu o cenário e se mostrou simpática. O Trump, que por diversas vezes tentou provocá-la, foi quem acabou ficando nervoso”, analisou Raul Juste Lores, que já foi correspondente em Washington.
Para o jornalista norte-americano Matthew Shirts, Hillary superou as expectativas. “Ela demonstrou controle, parecia que era dona da situação. Não acho que foi um nocaute [em cima de Trump], mas ela marcou muitos gols.”
(Karen Lemos - Portal da Band)
sábado, 3 de setembro de 2016
Era digital amplia contato entre candidato e eleitor
Desde os tempos da já extinta rede social Orkut, que existiu até 2014, a advogada e ativista social Michely Coutinho já notava a importância que uma ferramenta como aquela poderia agregar para suas funções.
Em 2016, multiplicou o número de possibilidades em que usuários da internet podem interagir entre si. Para Coutinho, o momento não poderia ser melhor. Neste ano, ela lança pela primeira vez uma candidatura à carreira política e, se não fosse pelos avanços da era digital, as dificuldades de divulgar sua campanha, suas propostas e chegar até seu eleitor seriam imensas. “Utilizar as redes sociais sai muito mais barato - praticamente a custo zero - e é bem mais eficiente”, explica em conversa com o Portal da Band.
Candidata à vereadora pelo Partido dos Trabalhadores em Goiânia, Michely quer trabalhar com políticas públicas voltadas para a mulher e precisa, para ser eleita, ser conhecida pelo eleitor que também quer propostas em prol das mulheres sendo discutidas da Câmara Municipal de sua cidade.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a representação feminina no Congresso Nacional não chega nem a 10%. Sem voz na política e sendo um nome novo entre candidatos, quais chances teria Michely de chegar ao seu eleitor-alvo?
“Se eu fosse divulgar minha campanha de porta em porta ou distribuir ‘santinhos’ [panfletos de papel utilizado por muitos políticos], isso seria muito difícil”, conta. “Na rua, eu consigo dialogar com um eleitor ou outro. Na internet, porém, uma publicação sobre mim pode atingir milhares de pessoas.”
Isso acontece porque muitos usuários, reunidos em nichos específicos (por exemplo, redes de amizade ou grupos ou comunidades que compartilham informações sobre o emponderamento da mulher) se comunicam. Se um amigo seu compartilhar a campanha de Michely, pronto, você passa a conhecê-la como possível candidata.
Além disso, páginas específicas na internet fazem um trabalho parecido. Citamos aqui o Vote numa feminista. Como a próprio nome diz, trata-se de um local onde usuários podem encontrar e compartilhar informações sobre candidato(a)s que vão lutar pelos direitos das mulheres na política. Foi através dessa página, aliás, que a repórter conheceu e pode conversar com Michely para escrever esta reportagem.
Mão de obra digital
Uma das maiores preocupações de um candidato à eleição é o financiamento. A grana é curta em partidos menores; se o candidato é novo de carreira, então, nem se fala. Marcio Black, que está disputando uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo pelo Rede Sustentabilidade, sabe bem disso. Com as redes sociais, entretanto, ele conseguiu contornar esse problema.
“Na internet, você cria uma rede de apoiadores, sabe? O cara que acredita na sua campanha não está a fim de doar dinheiro. Ele quer se engajar, quer fazer acontecer. Dessa forma eu consegui gente que faz um vídeo pra mim, cria roteiro, elabora uma arte visual que eu posso usar na campanha, enfim. Ninguém é funcionário meu, mas fazem parte da campanha porque acreditam nela”, comenta o produtor cultural e militante negro que já soma cerca de R$ 200 mil doados através de serviços, horas de trabalho comunitário ou produtos, como uma camiseta ou um adesivo para sua campanha.
Marcio Black, cuja candidatura pode ser encontrada no Enegreça seu voto - página para quem procura políticos com propostas voltadas para os negros - também ressalta outro ponto positivo das redes sociais: a interatividade direta com o eleitor.
“As pessoas estão olhando com muita desconfiança para a política ultimamente, mas elas sabem que precisam pesquisar bem sobre o assunto, porque isso impacta diretamente na vida delas”, afirma Marcio, que encontrou na web uma forma de se aproximar do eleitorado. “Na rede social, o cara vai ver meu vídeo, vai me conhecer, saber em quais eventos eu vou estar e em quais ele pode me conhecer pessoalmente, vai também me mandar uma mensagem, perguntar sobre uma proposta, me contar dos anseios dele enquanto eleitor; ele quer e precisa de um candidato acessível, e a internet faz muito bem esse papel.”
E depois das eleições?
Falamos da interação dos candidatos com o eleitor na campanha. E após as eleições? A sensação que muitos de nós temos é que, depois do período eleitoral, somos ‘esquecidos’ pelo político no qual votamos. Pensando nisso, alguns candidatos da era digital, acostumados a ter as redes sociais como uma grande aliada, querem utilizar a tecnologia como uma ferramenta útil caso forem eleitos.
Para exemplificar isso, citamos uma ideia que teve Todd Tomorrow, militante LGBT e candidato a vereador em São Paulo pelo PSOL. “Através do smartphone, o cidadão poderá usar um aplicativo e decidir como seu vereador vai se portar. Terão vários tipos de cadastros. Alguns cadastros darão acesso desde à fiscalização até, por exemplo, ao direito de opinar nas votações da Câmara.”
Todd, que atingiu quase 20 mil votos na candidatura a deputado estadual em 2014 - quando ainda era um rosto pouco conhecido na política, atribui esse número a uma estratégia de pulverização da campanha pelas redes sociais. Estratégia parecida foi usada pela legenda na candidatura de Luciana Genro à presidência no mesmo ano. Luciana não era favorita e pertence a um partido pequeno (o que já reduz seu tempo nas propagandas eleitorais), mesmo assim, obteve mais de 1,5 milhão de votos, ficando em quarto lugar na apuração.
Para a comunidade LGBT, é possível conhecer candidatos como Todd na página Vote LGBT. “Além de dar visibilidade, redes como essa servem quase como um ‘selinho’ de comprometimento do candidato com uma pauta específica”, define.
Linguagem dos memes
Alguns candidatos possuem propostas para vários segmentos e, por essa razão, podem aparecer em mais de uma página, aumentando ainda mais as chances de alcançar o eleitor. É o caso da professora Luiza Coppieters. Candidata à vereadora em São Paulo pelo PSOL, ela possui pautas para mulheres, para gays, lésbicas e transexuais. Sua candidatura surge em diversas páginas, como o já citado Vote LGBT e também o Candidaturas Trans do Brasil, para quem procura candidatos que vão lutar por melhorias para a comunidade transexual da cidade.
Para conseguir conversar com um eleitorado tão amplo, Luiza encontra nas redes sociais outro fator positivo na relação que se estabelece entre a sociedade e a política. Ela cita como exemplo o uso da linguagem dos memes, que permite uma conversa mais clara e direta com o eleitor. “As redes sociais nos oferecem mecanismos de criatividade que podem estimular as pessoas a participarem da política, saber o que uma vereadora faz, colaborar com a elaboração de um projeto, enfim, dar oportunidade para que a população tenha sua voz ouvida”, explica.
Luiza também tem propostas para um possível mandato que envolvem tecnologia e a participação cidadã. Ela quer propor que qualquer pessoa, através de um cadastro simples na internet, tenha a oportunidade de participar de uma votação de seu interesse na Câmara Municipal. “Ela vai poder escolher o dia e a votação que quer acompanhar e terá direito a uma passagem gratuita até a Câmara”, detalha. “A gente percebe, então, que a internet é um instrumento não só para a eleição, mas também para refazer o modelo de representatividade; o legislativo não pode mais ficar distante da população.”
Quando pensamos em redes sociais, logo vem à mente a mais tradicional delas, o Facebook. Tem muito candidato, porém, que está se dando melhor em outras redes de comunicação nessas eleições 2.0. Ronaldo Denardo, candidato a vereador em Santo André pelo PV, encontrou uma ferramenta mais efetiva para divulgar suas ideias que envolve uma cidade mais acessível para pessoas com deficiência.
“O caminho agora é o WhatsApp; é uma febre, todo mundo usa”, diz. “Tem muitos grupos no aplicativo que trocam inúmeras informações. Eu peço para minha rede falar sobre minha campanha nos grupos do qual eles fazem parte e dá muito certo”. A aposta na ferramenta é tanta que Ronaldo conseguiu que os últimos números de seu WhatsApp fossem, também, os números de sua candidatura.
O contato mais direto proposto pelo Facebook também é um dos recursos oferecidos pelo aplicativo. “Eu encontro alguns eleitores nas pré-campanhas que eu faço. Para não perder o contato, eu adiciono a pessoa no meu WhatsApp e, dessa forma, vou criando uma base de dados que pode ser útil não só na minha campanha, mas nas minhas propostas, já que muitas pessoas me mandam demandas pessoais pelo aplicativo”, acrescenta.
Carolina Marques, candidatada a vereadora em São Bernardo do Campo pelo PPS, também quer lutar pelas pessoas com deficiência em uma almejada carreira política. “Essa eleição será a eleição das redes sociais. É um grande recurso para falarmos com nossos eleitores já que a Justiça Eleitoral proibiu muitos materiais e reduziu o tempo da campanha eleitoral”, diz.
A candidata, aliás, tem trabalhado muito com todas as ferramentas possíveis, desde o Facebook, passando pelo Twitter e Instagram, e até mesmo o Snapchat. “A visibilidade é maior e a formação de opinião também”, observa.
(Karen Lemos - Portal da Band)
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Candidatos à prefeitura de São Paulo participam de primeiro debate das Eleições 2016
Os candidatos Fernando Haddad (PT), Celso Russomanno (PRB) e Major Olimpio (SD)
(Foto: Lucas Ismael)
(Foto: Lucas Ismael)
Celso Russomanno (PRB), Fernando Haddad (PT), João Doria (PSDB), Major Olimpio (SD) e Marta Suplicy (PMDB) participam, nesta segunda-feira (22), do primeiro debate das Eleições 2016. O encontro acontece na Band às 22h15.
Atual prefeito da cidade de São Paulo, Haddad espera críticas à sua gestão vindas de seus adversários, mas que o momento agora é de defender o legado de seu trabalho. “Críticas são naturais e serão respondidas, mas a expectativa do eleitor é que se faça propostas.”
O petista, que tenta a reeleição, diz que eventuais deslizes de sua gestão “serão reconhecidos para que possam ser corrigidos”. Questionado sobre o que mudaria caso reeleito, Haddad responde que melhoraria a comunicação; “cortei 50% dessa verba devido à crise e, com isso, veiculamos muito pouco do que a prefeitura fez para a imprensa”, explica.
Liderando com 25% nas pesquisas eleitorais, Celso Russomanno acredita que a cidade de São Paulo não pode ser pensada como uma coisa só. “A diferença entre bairros é grande. Cada bairro deve ser tratado como uma administração.”
Para o candidato, o maior problema de São Paulo, para a baixa/média renda, é a saúde; já para a média/alta renda, é a segurança pública. “Vamos atuar em todas essas áreas”, promete.
Candidata do PMDB à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy tem como desafio trazer seu antigo eleitorado com ela. A ex-petista, porém, garante que isso não será um problema. "Sou extremamente qualificada para trazer o novo à cidade", afirma.
Os candidatos João Doria (PSDB) e Marta Suplicy (PMDB). (Foto: Lucas Ismael)
Para Marta, a cidade tem grandes problemas na saúde, no transporte e na educação. “O atual prefeito [Haddad] não chegou nem perto de solucionar esses problemas.”
João Doria, candidato do PSDB na corrida eleitoral, considera a saúde, a educação e a habitação os principais problemas da cidade. “Lamentavelmente, a gestão do PT nessas áreas foi um desastre”, define. Ele quer trabalhar essas questões, além de “gerar empregos e oportunidades”.
Após declarar que faria cortes na Secretaria de Direitos Humanos, que engloba secretarias como LGBT, Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Pessoa com Deficiência, o candidato quis se explicar: “Não faremos cortes, faremos uma otimização. Não haverá prejuízos às mulheres, deficientes, negros ou nenhuma minoria; todos serão valorizados.”
Tendo servido quase 30 anos à Polícia Militar, o foco do candidato Major Olimpio será a segurança pública. “São Paulo virou uma terra sem lei, abandonada, suja, com tráfico de drogas em todos pontos da cidade por causa da omissão dos poderes; em São Paulo, o crime compensa. Caso eleito, eu darei um 'choque de legalidade na cidade'”.
(Karen Lemos - Portal da Band)
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Experiência fez de Rodrigo Maia candidato forte à presidência da Câmara, diz cientista político
Rodrigo Maia assume a presidência da Câmara dos Deputados após renúncia de Eduardo Cunha Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Eleito presidente da Câmara dos Deputados nesta quinta-feira (14), Rodrigo Maia (DEM-RJ) era o candidato “mais preparado” para assumir o posto, segundo o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) João Paulo Peixoto.
“A experiência parlamentar é muito importante para exercer o cargo de presidente da Câmara dos Deputados”, avalia. “O ambiente [da Casa] não é para principiantes”, diz em referência ao adversário de Maia na eleição em segundo turno, Rogério Rosso (PSD-RF), que está em seu primeiro mandato.
“Pela trajetória política, Rodrigo Maia [já em seu quinto mandato como deputado federal] tem mais condições de dirigir a Câmara, de impor respeito dentro da Casa e de conseguir apoio dos colegas na hora de votar projetos”, acrescenta.
Embora tenha feito uma campanha que tentou dialogar com partidos da antiga base da presidente afastada Dilma Rousseff (PT), Maia garantiu que dará prioridade para a agenda econômica de Michel Temer (PMDB) - visando desafogar o país da crise, sempre dando espaço para a oposição.
“O presidente da Câmara é o coordenador de trabalhos, independentemente da sua posição pessoal. Sou governo, e quando converso com a oposição deixo isso muito claro. O papel do presidente, entretanto, é garantir respeito à regra do jogo, ao regimento da Casa. Garantir o espaço dos 400 [deputados] da base do governo Michel Temer e 100 da oposição, de forma proporcional”, pontuou o deputado em entrevista à BandNews FM na véspera da eleição.
Para o cientista político, é muito arriscado que qualquer um que assumisse a presidência da Câmara se posicionasse contra o presidente interino. No caso de Maia, porém, trabalhar de forma incondicional para Temer pode não ser uma prioridade.
“Acho que ele está mais preocupado com a política no Rio de Janeiro, vislumbrando uma candidatura de prefeito ou até de governador no futuro, e não no plano federal”, pondera.
“De qualquer forma, um cargo desse é importante para qualquer político. Primeiro porque você entra para a linha sucessória do país, e segundo que há, como presidente da Câmara, grande poder de influência nas eleições municipais agora em outubro. Ou seja, quem pega um cargo desse, só tem a ganhar.”
Lava Jato
Mês passado, o nome do parlamentar apareceu nas investigações da Operação Lava Jato. Maia surgiu em uma troca de mensagens, a respeito de supostas doações, com Léo Pinheiro, da empreiteira OAS.
Para Peixoto, o fato é lamentável, porém quase “inevitável” considerando a situação da maioria dos parlamentares do Congresso Nacional. “Partindo desse pressuposto, você tem mais de 100 deputados que foram citados na Lava Jato”, lembra.
Em conversa com a BandNews FM, Rodrigo Maia se mostrou tranquilo diante da questão. “Pedi recursos... Entraram na campanha pelo diretório do Rio, na campanha do Senado. Todos declarados. Não existe nenhum problema nessas menções”, garantiu.
(Karen Lemos - Portal da Band)
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Drag queens se unem para ajudar moradores de rua
Arquivo Pessoal
É noite do segundo dia de inverno em Brasília. Um carro se aproxima do Terminal Rodoviário do Plano Piloto, onde moradores de rua buscam refúgio das baixas temperaturas. Do veículo sai um grupo de mulheres maquiadas e bem vestidas. Elas chamam mais atenção pelo que carregam, do que pela aparência.
Em sacolas, mais de mil doações em agasalhos começam a ser distribuídas para a fila que rapidamente se forma no terminal. As roupas e as mantas entregues são a esperança de quem enfrenta uma insegurança diária, que aumenta com a chegada do frio.
A descrição acima é da primeira ação de um grupo formado há poucos meses. Batizado de Montadas Para o Bem, o coletivo reúne dez drag queens da boate Victoria Haus, da capital federal, que, como o próprio nome sugere, se uniram para fazer boas ações.
“Há pouco tempo atrás, nós perdemos um amigo, que tralhava com a gente no backstage da boate. Isso fez com que nós pensássemos mais na ajuda ao próximo”, conta a artista Laurie Blue.
“Além de ajudarmos, também estamos mostrando que a drag queen está além dos palcos. Ela pode estar no palco brilhando, fazendo show e divertindo plateias, mas também pode estar na rua mostrando que é um ser humano, e que isso independe de sexualidade ou qualquer outra coisa”, acrescenta.
Além de Blue, também integram o grupo Carrie Myers, Dita Maldita, Gabe Lucke, Leona Luna, Mary Gambiarra, Pikinéia Minaj, Poppy Moore, Savanna Berlusconny e Xantara Thompson. Na primeira ação do coletivo, em que estavam presentes Laurie, Poppy, Pikinéia, Mary e Carrie, a recepção foi positiva e surpreendente.
Arquivo Pessoal
“Eles [moradores de rua] nos agradeceram muito. Disseram que doações de agasalho são raras no inverno, e é justamente quando eles mais precisam”, relata Laurie. “O momento foi de gratidão. Teve abraço, tiveram muitas histórias bacanas que escutamos e que nos emocionaram também.”
Repercussão
Uma das integrantes do coletivo de drag queens, Laurie Blue revelou que nenhuma delas esperava uma repercussão tão grande depois da ‘estreia’ do grupo nas ruas. “Montamos esse projeto pensando que somente nossos amigos próximos iriam ajudar”. Além dos amigos, as montadas do bem chamaram atenção de brasilienses, moradores de outros estados do país e também dos veículos de mídia.
Até mesmo na internet, onde não é difícil se deparar com discursos de ódio, o feedback foi bom. “Sempre tem quem critica, né?”, diz Blue. “Mas, digamos que 90% gostaram e elogiaram a nossa iniciativa. Isso é muito importante e serve como incentivo para continuarmos.”
Próximas ações
As montadas para o bem ainda farão mais uma ação para doar agasalhos antes de iniciar uma nova etapa. No dia 29 de julho, graças a uma parceria com a boate Victoria Haus, haverá outra coleta de doações, que serão entregues no início do mês de agosto.
Também em agosto, o grupo começa a receber doações de alimentos, cuja previsão de entrega é para o mês de setembro. Além de Brasília, as artistas estudam realizar a distribuição em cidades satélites. Os detalhes estarão na página do Facebook do grupo.
(Karen Lemos - Portal da Band)
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