segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Hillary e Trump se atacam em primeiro debate


Candidatos à presidência dos Estados Unidos, a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump se enfrentaram no primeiro debate eleitoral na noite desta segunda-feira (26). O encontro, o primeiro de três debates previstos antes das eleições em 8 de novembro, aconteceu na Hofstra University, estado de Nova York.

Trump chegou a dizer que Hillary não teria “cara de presidente”, o que foi considerado um comentário sexista pela democrata. “Ela não parece ser presidente mesmo; não tem a raça, a força para ser uma. É preciso ter condições de negociar acordos comerciais. Ela pode ter experiência, mas é ruim nisso.”

Hillary rebateu. “Este homem já chamou mulheres de porcas, inferiores aos homens, disse que gravidez é algo inconveniente e que mulheres não devem receber remuneração igualitária. Depois que você viajar por 112 países, negociando acordos de paz e de cessar-fogo, ou ficar 11 horas testemunhando para uma comissão, nós podemos discutir sobre força aqui”, disse, arrancando alguns aplausos, ao referir-se à sua experiência como secretária de Estado e ao escândalo dos e-mails do qual precisou justificar-se.

Racismo
 

Temas em voga, como a economia do país, racismo e o combate ao terrorismo dominaram o debate e levaram, por diversas vezes, os candidatos a se estranharem. A questão racial, por exemplo, levantou novamente a polêmica com relação à nacionalidade do atual presidente, Barack Obama.

Trump, que insiste que o democrata nasceu no Quênia, tentou justificar sua tese, mas o próprio mediador do debate assegurou que a certidão de nascimento de Obama garante que ele é cidadão norte-americano. O republicano disse ainda que é preciso restabelecer a lei e a ordem nos EUA. “Em algumas regiões do país, você anda na rua e leva um tiro. Precisamos tirar as armas das mãos dos imigrantes ilegais, que estão atirando nas pessoas; isso não é discriminação, essas pessoas são do mal, é preciso atuação da polícia.”

Hillary falou que existe preconceito em vários segmentos da sociedade e que é preciso restaurar a confiança entre a polícia e as comunidades, visto os altos índices de morte de jovens negros por policiais brancos. “Vou trabalhar para que os policiais sejam bem treinados, preparados para usar a força só quando necessário e tirar armas das mãos das pessoas que não deveriam portá-las. Temos que atacar essa praga que é a violência das armas.”

Estado Islâmico

A segurança nacional ainda é uma grande preocupação para o eleitor norte-americano. Trump afirmou que o Estado Islâmico não existiria se todo o petróleo fosse tirado da região, já que isso é um dos pilares de sustentação do grupo extremista. Ele também criticou a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que formou coligação para combater os jihadistas. “Nós pagamos 73% da OTAN. Eles que deveriam nos pagar para protegê-los.”

Hillary respondeu que a OTAN enfrenta uma ameaça terrorista que não se apresenta só nos EUA, mas no mundo todo. A democrata disse também que é preciso trabalhar junto a comunidade islâmica, e não atacá-la como, segundo ela, Trump faz de forma temperamental. “Meu ponto positivo é meu temperamento. Eu sei vencer, Hillary não”, rebateu o magnata, arrancando alguns risos da plateia.

Empregos e impostos
 

Recém-saído de uma crise econômica, os Estados Unidos preocupam-se com o futuro financeiro do país. Ao debaterem o tema, Hillary e Trump se alfinetaram. O plano do empresário é cortar de 35% para 15% a tributação de empresas no país. Dessa forma, de acordo com Trump, as empresas vão querer ficar e gerar empregos nos EUA.

Hillary acredita, porém, que priorizar os ricos foi o que mergulhou o país na crise. “A economia não cresce com o método Trump de distribuir riquezas”, alfinetou. “Trump teve sorte na vida - bom para ele - mas não acredito que ajudar os mais ricos é melhor para todos. Precisamos fortalecer a classe média.”

A discussão esquentou quando Donald foi questionado sobre a declaração de seu imposto de renda que nunca apresentou – os candidatos devem apresentar o documento ao se lançarem na disputa à presidência. “Por que ele não divulga? Tenho um palpite, talvez ele não pague os impostos federais como deve”, provocou Hillary. A democrata ainda lembrou relatos de ex-funcionários do empresário que alegam não ter sido pagos. “Talvez o trabalho deles não tenha sido bom”, respondeu o republicano.

Análise

Na análise de especialistas ouvidos pelo BandNews TV, que transmitiu o debate norte-americano, Hillary surpreendeu, conseguiu tirar seu adversário do sério, enquanto Trump derrapou e se mostrou nervoso demais.

Para a professora Fernanda Magnotta, a democrata precisava – e conseguiu - mostrar simpatia, e o eleitor necessitava ver o lado “presidenciável” de Trump, mas não foi isso o que o magnata apresentou.

“A Hillary reverteu o cenário e se mostrou simpática. O Trump, que por diversas vezes tentou provocá-la, foi quem acabou ficando nervoso”, analisou Raul Juste Lores, que já foi correspondente em Washington.

Para o jornalista norte-americano Matthew Shirts, Hillary superou as expectativas. “Ela demonstrou controle, parecia que era dona da situação. Não acho que foi um nocaute [em cima de Trump], mas ela marcou muitos gols.”

(Karen Lemos - Portal da Band)

sábado, 3 de setembro de 2016

Era digital amplia contato entre candidato e eleitor


Desde os tempos da já extinta rede social Orkut, que existiu até 2014, a advogada e ativista social Michely Coutinho já notava a importância que uma ferramenta como aquela poderia agregar para suas funções.

Em 2016, multiplicou o número de possibilidades em que usuários da internet podem interagir entre si. Para Coutinho, o momento não poderia ser melhor. Neste ano, ela lança pela primeira vez uma candidatura à carreira política e, se não fosse pelos avanços da era digital, as dificuldades de divulgar sua campanha, suas propostas e chegar até seu eleitor seriam imensas. “Utilizar as redes sociais sai muito mais barato - praticamente a custo zero - e é bem mais eficiente”, explica em conversa com o Portal da Band.

Candidata à vereadora pelo Partido dos Trabalhadores em Goiânia, Michely quer trabalhar com políticas públicas voltadas para a mulher e precisa, para ser eleita, ser conhecida pelo eleitor que também quer propostas em prol das mulheres sendo discutidas da Câmara Municipal de sua cidade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a representação feminina no Congresso Nacional não chega nem a 10%. Sem voz na política e sendo um nome novo entre candidatos, quais chances teria Michely de chegar ao seu eleitor-alvo?

“Se eu fosse divulgar minha campanha de porta em porta ou distribuir ‘santinhos’ [panfletos de papel utilizado por muitos políticos], isso seria muito difícil”, conta. “Na rua, eu consigo dialogar com um eleitor ou outro. Na internet, porém, uma publicação sobre mim pode atingir milhares de pessoas.”


Isso acontece porque muitos usuários, reunidos em nichos específicos (por exemplo, redes de amizade ou grupos ou comunidades que compartilham informações sobre o emponderamento da mulher) se comunicam. Se um amigo seu compartilhar a campanha de Michely, pronto, você passa a conhecê-la como possível candidata.

Além disso, páginas específicas na internet fazem um trabalho parecido. Citamos aqui o Vote numa feminista. Como a próprio nome diz, trata-se de um local onde usuários podem encontrar e compartilhar informações sobre candidato(a)s que vão lutar pelos direitos das mulheres na política. Foi através dessa página, aliás, que a repórter conheceu e pode conversar com Michely para escrever esta reportagem.

Mão de obra digital

Uma das maiores preocupações de um candidato à eleição é o financiamento. A grana é curta em partidos menores; se o candidato é novo de carreira, então, nem se fala. Marcio Black, que está disputando uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo pelo Rede Sustentabilidade, sabe bem disso. Com as redes sociais, entretanto, ele conseguiu contornar esse problema.

“Na internet, você cria uma rede de apoiadores, sabe? O cara que acredita na sua campanha não está a fim de doar dinheiro. Ele quer se engajar, quer fazer acontecer. Dessa forma eu consegui gente que faz um vídeo pra mim, cria roteiro, elabora uma arte visual que eu posso usar na campanha, enfim. Ninguém é funcionário meu, mas fazem parte da campanha porque acreditam nela”, comenta o produtor cultural e militante negro que já soma cerca de R$ 200 mil doados através de serviços, horas de trabalho comunitário ou produtos, como uma camiseta ou um adesivo para sua campanha.


Marcio Black, cuja candidatura pode ser encontrada no Enegreça seu voto - página para quem procura políticos com propostas voltadas para os negros - também ressalta outro ponto positivo das redes sociais: a interatividade direta com o eleitor.

“As pessoas estão olhando com muita desconfiança para a política ultimamente, mas elas sabem que precisam pesquisar bem sobre o assunto, porque isso impacta diretamente na vida delas”, afirma Marcio, que encontrou na web uma forma de se aproximar do eleitorado. “Na rede social, o cara vai ver meu vídeo, vai me conhecer, saber em quais eventos eu vou estar e em quais ele pode me conhecer pessoalmente, vai também me mandar uma mensagem, perguntar sobre uma proposta, me contar dos anseios dele enquanto eleitor; ele quer e precisa de um candidato acessível, e a internet faz muito bem esse papel.”

E depois das eleições?

Falamos da interação dos candidatos com o eleitor na campanha. E após as eleições? A sensação que muitos de nós temos é que, depois do período eleitoral, somos ‘esquecidos’ pelo político no qual votamos. Pensando nisso, alguns candidatos da era digital, acostumados a ter as redes sociais como uma grande aliada, querem utilizar a tecnologia como uma ferramenta útil caso forem eleitos.

Para exemplificar isso, citamos uma ideia que teve Todd Tomorrow, militante LGBT e candidato a vereador em São Paulo pelo PSOL. “Através do smartphone, o cidadão poderá usar um aplicativo e decidir como seu vereador vai se portar. Terão vários tipos de cadastros. Alguns cadastros darão acesso desde à fiscalização até, por exemplo, ao direito de opinar nas votações da Câmara.”


Todd, que atingiu quase 20 mil votos na candidatura a deputado estadual em 2014 - quando ainda era um rosto pouco conhecido na política, atribui esse número a uma estratégia de pulverização da campanha pelas redes sociais. Estratégia parecida foi usada pela legenda na candidatura de Luciana Genro à presidência no mesmo ano. Luciana não era favorita e pertence a um partido pequeno (o que já reduz seu tempo nas propagandas eleitorais), mesmo assim, obteve mais de 1,5 milhão de votos, ficando em quarto lugar na apuração. 

Para a comunidade LGBT, é possível conhecer candidatos como Todd na página Vote LGBT. “Além de dar visibilidade, redes como essa servem quase como um ‘selinho’ de comprometimento do candidato com uma pauta específica”, define. 

Linguagem dos memes

Alguns candidatos possuem propostas para vários segmentos e, por essa razão, podem aparecer em mais de uma página, aumentando ainda mais as chances de alcançar o eleitor. É o caso da professora Luiza Coppieters. Candidata à vereadora em São Paulo pelo PSOL, ela possui pautas para mulheres, para gays, lésbicas e  transexuais. Sua candidatura surge em diversas páginas, como o já citado Vote LGBT e também o Candidaturas Trans do Brasil, para quem procura candidatos que vão lutar por melhorias para a comunidade transexual da cidade.

Para conseguir conversar com um eleitorado tão amplo, Luiza encontra nas redes sociais outro fator positivo na relação que se estabelece entre a sociedade e a política. Ela cita como exemplo o uso da linguagem dos memes, que permite uma conversa mais clara e direta com o eleitor. “As redes sociais nos oferecem mecanismos de criatividade que podem estimular as pessoas a participarem da política, saber o que uma vereadora faz, colaborar com a elaboração de um projeto, enfim, dar oportunidade para que a população tenha sua voz ouvida”, explica.


Luiza também tem propostas para um possível mandato que envolvem tecnologia e a participação cidadã. Ela quer propor que qualquer pessoa, através de um cadastro simples na internet, tenha a oportunidade de participar de uma votação de seu interesse na Câmara Municipal. “Ela vai poder escolher o dia e a votação que quer acompanhar e terá direito a uma passagem gratuita até a Câmara”, detalha. “A gente percebe, então, que a internet é um instrumento não só para a eleição, mas também para refazer o modelo de representatividade; o legislativo não pode mais ficar distante da população.”

WhatsApp

Quando pensamos em redes sociais, logo vem à mente a mais tradicional delas, o Facebook. Tem muito candidato, porém, que está se dando melhor em outras redes de comunicação nessas eleições 2.0. Ronaldo Denardo, candidato a vereador em Santo André pelo PV, encontrou uma ferramenta mais efetiva para divulgar suas ideias que envolve uma cidade mais acessível para pessoas com deficiência.

“O caminho agora é o WhatsApp; é uma febre, todo mundo usa”, diz. “Tem muitos grupos no aplicativo que trocam inúmeras informações. Eu peço para minha rede falar sobre minha campanha nos grupos do qual eles fazem parte e dá muito certo”. A aposta na ferramenta é tanta que Ronaldo conseguiu que os últimos números de seu WhatsApp fossem, também, os números de sua candidatura.

O contato mais direto proposto pelo Facebook também é um dos recursos oferecidos pelo aplicativo. “Eu encontro alguns eleitores nas pré-campanhas que eu faço. Para não perder o contato, eu adiciono a pessoa no meu WhatsApp e, dessa forma, vou criando uma base de dados que pode ser útil não só na minha campanha, mas nas minhas propostas, já que muitas pessoas me mandam demandas pessoais pelo aplicativo”, acrescenta.


Carolina Marques, candidatada a vereadora em São Bernardo do Campo pelo PPS, também quer lutar pelas pessoas com deficiência em uma almejada carreira política. “Essa eleição será a eleição das redes sociais. É um grande recurso para falarmos com nossos eleitores já que a Justiça Eleitoral proibiu muitos materiais e reduziu o tempo da campanha eleitoral”, diz.

A candidata, aliás, tem trabalhado muito com todas as ferramentas possíveis, desde o Facebook, passando pelo Twitter e Instagram, e até mesmo o Snapchat. “A visibilidade é maior e a formação de opinião também”, observa.

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Candidatos à prefeitura de São Paulo participam de primeiro debate das Eleições 2016

Os candidatos Fernando Haddad (PT), Celso Russomanno (PRB) e Major Olimpio (SD)
(Foto: Lucas Ismael)

Celso Russomanno (PRB), Fernando Haddad (PT), João Doria (PSDB), Major Olimpio (SD) e Marta Suplicy (PMDB) participam, nesta segunda-feira (22), do primeiro debate das Eleições 2016. O encontro acontece na Band às 22h15.

Atual prefeito da cidade de São Paulo, Haddad espera críticas à sua gestão vindas de seus adversários, mas que o momento agora é de defender o legado de seu trabalho. “Críticas são naturais e serão respondidas, mas a expectativa do eleitor é que se faça propostas.”

O petista, que tenta a reeleição, diz que eventuais deslizes de sua gestão “serão reconhecidos para que possam ser corrigidos”. Questionado sobre o que mudaria caso reeleito, Haddad responde que melhoraria a comunicação; “cortei 50% dessa verba devido à crise e, com isso, veiculamos muito pouco do que a prefeitura fez para a imprensa”, explica.

Liderando com 25% nas pesquisas eleitorais, Celso Russomanno acredita que a cidade de São Paulo não pode ser pensada como uma coisa só. “A diferença entre bairros é grande. Cada bairro deve ser tratado como uma administração.”

Para o candidato, o maior problema de São Paulo, para a baixa/média renda, é a saúde; já para a média/alta renda, é a segurança pública. “Vamos atuar em todas essas áreas”, promete.

Candidata do PMDB à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy tem como desafio trazer seu antigo eleitorado com ela. A ex-petista, porém, garante que isso não será um problema. "Sou extremamente qualificada para trazer o novo à cidade", afirma.

Os candidatos João Doria (PSDB) e Marta Suplicy (PMDB). (Foto: Lucas Ismael)

Para Marta, a cidade tem grandes problemas na saúde, no transporte e na educação. “O atual prefeito [Haddad] não chegou nem perto de solucionar esses problemas.”

João Doria, candidato do PSDB na corrida eleitoral, considera a saúde, a educação e a habitação os principais problemas da cidade. “Lamentavelmente, a gestão do PT nessas áreas foi um desastre”, define. Ele quer trabalhar essas questões, além de “gerar empregos e oportunidades”.

Após declarar que faria cortes na Secretaria de Direitos Humanos, que engloba secretarias como LGBT, Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Pessoa com Deficiência, o candidato quis se explicar: “Não faremos cortes, faremos uma otimização. Não haverá prejuízos às mulheres, deficientes, negros ou nenhuma minoria; todos serão valorizados.”

Tendo servido quase 30 anos à Polícia Militar, o foco do candidato Major Olimpio será a segurança pública. “São Paulo virou uma terra sem lei, abandonada, suja, com tráfico de drogas em todos pontos da cidade por causa da omissão dos poderes; em São Paulo, o crime compensa. Caso eleito, eu darei um 'choque de legalidade na cidade'”.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Experiência fez de Rodrigo Maia candidato forte à presidência da Câmara, diz cientista político

Rodrigo Maia assume a presidência da Câmara dos Deputados após renúncia de Eduardo Cunha Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Eleito presidente da Câmara dos Deputados nesta quinta-feira (14), Rodrigo Maia (DEM-RJ) era o candidato “mais preparado” para assumir o posto, segundo o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) João Paulo Peixoto.

“A experiência parlamentar é muito importante para exercer o cargo de presidente da Câmara dos Deputados”, avalia. “O ambiente [da Casa] não é para principiantes”, diz em referência ao adversário de Maia na eleição em segundo turno, Rogério Rosso (PSD-RF), que está em seu primeiro mandato.

“Pela trajetória política, Rodrigo Maia [já em seu quinto mandato como deputado federal] tem mais condições de dirigir a Câmara, de impor respeito dentro da Casa e de conseguir apoio dos colegas na hora de votar projetos”, acrescenta.

Embora tenha feito uma campanha que tentou dialogar com partidos da antiga base da presidente afastada Dilma Rousseff (PT), Maia garantiu que dará prioridade para a agenda econômica de Michel Temer (PMDB) - visando desafogar o país da crise, sempre dando espaço para a oposição.

“O presidente da Câmara é o coordenador de trabalhos, independentemente da sua posição pessoal. Sou governo, e quando converso com a oposição deixo isso muito claro. O papel do presidente, entretanto, é garantir respeito à regra do jogo, ao regimento da Casa. Garantir o espaço dos 400 [deputados] da base do governo Michel Temer e 100 da oposição, de forma proporcional”, pontuou o deputado em entrevista à BandNews FM na véspera da eleição.

Para o cientista político, é muito arriscado que qualquer um que assumisse a presidência da Câmara se posicionasse contra o presidente interino. No caso de Maia, porém, trabalhar de forma incondicional para Temer pode não ser uma prioridade.

“Acho que ele está mais preocupado com a política no Rio de Janeiro, vislumbrando uma candidatura de prefeito ou até de governador no futuro, e não no plano federal”, pondera.

“De qualquer forma, um cargo desse é importante para qualquer político. Primeiro porque você entra para a linha sucessória do país, e segundo que há, como presidente da Câmara, grande poder de influência nas eleições municipais agora em outubro. Ou seja, quem pega um cargo desse, só tem a ganhar.”

Lava Jato

Mês passado, o nome do parlamentar apareceu nas investigações da Operação Lava Jato. Maia surgiu em uma troca de mensagens, a respeito de supostas doações, com Léo Pinheiro, da empreiteira OAS.

Para Peixoto, o fato é lamentável, porém quase “inevitável” considerando a situação da maioria dos parlamentares do Congresso Nacional. “Partindo desse pressuposto, você tem mais de 100 deputados que foram citados na Lava Jato”, lembra.

Em conversa com a BandNews FM, Rodrigo Maia se mostrou tranquilo diante da questão. “Pedi recursos... Entraram na campanha pelo diretório do Rio, na campanha do Senado. Todos declarados. Não existe nenhum problema nessas menções”, garantiu.

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Drag queens se unem para ajudar moradores de rua

Arquivo Pessoal

É noite do segundo dia de inverno em Brasília. Um carro se aproxima do Terminal Rodoviário do Plano Piloto, onde moradores de rua buscam refúgio das baixas temperaturas. Do veículo sai um grupo de mulheres maquiadas e bem vestidas. Elas chamam mais atenção pelo que carregam, do que pela aparência.

Em sacolas, mais de mil doações em agasalhos começam a ser distribuídas para a fila que rapidamente se forma no terminal. As roupas e as mantas entregues são a esperança de quem enfrenta uma insegurança diária, que aumenta com a chegada do frio.

A descrição acima é da primeira ação de um grupo formado há poucos meses. Batizado de Montadas Para o Bem, o coletivo reúne dez drag queens da boate Victoria Haus, da capital federal, que, como o próprio nome sugere, se uniram para fazer boas ações.

“Há pouco tempo atrás, nós perdemos um amigo, que tralhava com a gente no backstage da boate. Isso fez com que nós pensássemos mais na ajuda ao próximo”, conta a artista Laurie Blue.

“Além de ajudarmos, também estamos mostrando que a drag queen está além dos palcos. Ela pode estar no palco brilhando, fazendo show e divertindo plateias, mas também pode estar na rua mostrando que é um ser humano, e que isso independe de sexualidade ou qualquer outra coisa”, acrescenta.

Além de Blue, também integram o grupo Carrie Myers, Dita Maldita, Gabe Lucke, Leona Luna, Mary Gambiarra, Pikinéia Minaj, Poppy Moore, Savanna Berlusconny e Xantara Thompson. Na primeira ação do coletivo, em que estavam presentes Laurie, Poppy, Pikinéia, Mary e Carrie, a recepção foi positiva e surpreendente.

Arquivo Pessoal

“Eles [moradores de rua] nos agradeceram muito. Disseram que doações de agasalho são raras no inverno, e é justamente quando eles mais precisam”, relata Laurie. “O momento foi de gratidão. Teve abraço, tiveram muitas histórias bacanas que escutamos e que nos emocionaram também.”

Repercussão 

Uma das integrantes do coletivo de drag queens, Laurie Blue revelou que nenhuma delas esperava uma repercussão tão grande depois da ‘estreia’ do grupo nas ruas. “Montamos esse projeto pensando que somente nossos amigos próximos iriam ajudar”. Além dos amigos, as montadas do bem chamaram atenção de brasilienses, moradores de outros estados do país e também dos veículos de mídia.

Até mesmo na internet, onde não é difícil se deparar com discursos de ódio, o feedback foi bom. “Sempre tem quem critica, né?”, diz Blue. “Mas, digamos que 90% gostaram e elogiaram a nossa iniciativa. Isso é muito importante e serve como incentivo para continuarmos.”

Próximas ações 

As montadas para o bem ainda farão mais uma ação para doar agasalhos antes de iniciar uma nova etapa. No dia 29 de julho, graças a uma parceria com a boate Victoria Haus, haverá outra coleta de doações, que serão entregues no início do mês de agosto.

Também em agosto, o grupo começa a receber doações de alimentos, cuja previsão de entrega é para o mês de setembro. Além de Brasília, as artistas estudam realizar a distribuição em cidades satélites. Os detalhes estarão na página do Facebook do grupo.

(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 26 de junho de 2016

Refugiada palestina dirige curta-metragem no Brasil

Arquivo pessoal

A sensação de sentir-se como um peixe fora d’água é universal, talvez seja por isso que o curta-metragem "Fingers" seja tão encantador. Nas imagens, um garoto de cinco anos tenta entender o mundo estranho ao seu redor, captando os movimentos das mãos e dos dedos das pessoas que o rodeiam.

Foi mais ou menos assim que a diretora do filme, a refugiada palestina Rawa Alsagheer, de 20 anos, se sentiu quando chegou a São Paulo há cerca de um ano. Rawa viveu em Homs, na Síria, até os 18 anos. Quando a guerra civil teve início em seu país, ela precisou fugir para a Turquia, onde viveu ilegalmente junto com a família.

“Na internet, começamos a pesquisar sobre países em que pudéssemos viver. Foi aí que ficamos sabendo do Brasil, que recebe refugiados palestinos sírios”, contou a aspirante a cineasta.

A paixão pelo cinema ela conta que veio de seu cunhado, que trabalha na área. “Ele que me puxou e me levou a um workshop sobre direção de curta-metragem porque ele sabia que eu gostava muito disso.”

Apesar da pouca experiência em audiovisual, a jovem impressiona com seu olhar delicado e poético para as primeiras percepções da criança protagonista, vivida pelo ator Taim Tanji, também refugiado palestino.


“A ideia de 'Fingers' veio de um amigo meu da Jordânia chamado Ahmed Shaman”, detalha. “Para mim, a história fala de uma realidade que toda criança vive; adorei a proposta e resolvi, então, filmar.”

O roteiro também atraiu Rawa devido às dificuldades que teve ao chegar ao Brasil e descobrir um país totalmente novo e desconhecido. “Tudo é diferente e há também a barreira da língua”, explica a jovem, que concedeu a entrevista em inglês. “Ainda assim, eu trabalho duro para me adaptar e me integrar à sociedade brasileira, que me recebe bem, uma vez que o país possui muitas culturas e é bem receptivo.”

O sonho da refugiada palestina é estudar muito e, claro, trilhar carreira no cinema. “Espero alcançar esses meus objetivos aqui no Brasil. Seguindo carreira como cineasta, espero ainda defender a Palestina e os direitos dos palestinos de voltarem a morar lá”, acrescentou ela, cujo desejo pode ter sua representação artística nas cenas finais de sua obra de estreia.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Professor vira drag queen em aula de português

Arquivo pessoal

Desde 2009, Jonathan Chasko dá aulas em um cursinho pré-vestibular no Paraná. O curso, um projeto de extensão da faculdade onde faz mestrado, é voltado para alunos que saíram da escola pública ou que estão fora da escola há um tempo. Os professores são voluntários e precisam dominar uma linguagem abrangente, já que há alunos de 16 a 50 anos ali.

Desde 2015, a drag queen Sofia Ariel brilha na noite paranaense. Trabalha como DJ e também faz recepção em baladas de Cascavel, no oeste do Estado. Mês passado, Jonathan e Sofia se encontraram na sala de aula - e o resultado foi maravilhoso.

O professor, que se apresenta como drag queen na cidade paranaense, se montou e levou a personagem para falar sobre artigos definidos e indefinidos em uma aula de português do cursinho; de quebra, ele discutiu homofobia, respeito à diversidade e identidade de gênero.

“Sempre levo temas polêmicos para serem discutidos em sala de aula. Costumo a dizer que a educação é um iceberg; a ponta dele é o senso comum, e o que me interessa é fazer com que meus alunos pensem na parte que está submersa”, contou Chasko.

Jonathan, que já abordou a cultura do estupro, machismo e racismo com os alunos, se inspirou no Dia Internacional contra a Homofobia, celebrado no dia 17 de maio, para a aula. “Fiquei pensando em algo para aquela data e, como já trabalho como drag queen, decidi ‘dar à luz’ Sofia durante a aula. Cheguei abrindo meu leque, me apresentando e aproveitando para falar sobre homofobia e gênero.”

No começo, o professor relatou ter tido medo de uma possível resistência ou reprovação dos alunos diante de sua performance. “Aos poucos eles foram entrando na vibe e interagindo comigo. Fizeram perguntas sobre o movimento LGBT e sobre a cultura drag; eu esperava mais resistência, mas eles me mostraram que estavam abertos para entender assuntos como identidade de gênero, tema que vem sendo muito criticado, mas que é bem simples de entender.”

Discussão de gênero 

Jonathan afirma que, desde sempre, somos apresentados à discussão de gênero. “Nos primeiros anos de escola, aprendemos que existem banheiros só para meninos e só para meninas. Isso já é discutir gênero”, afirma. “O que vemos agora é uma posição conservadora que vai contra debater o tema nas escolas; acham que discutir gênero é se assumir transexual. Não é nada disso!”

Para ele, casos como o da adolescente de 16 anos que foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro, elucidam a urgência deste debate. “Falar sobre gênero é importante para que se perceba o quanto nossa estrutura é machista, patriarcal e falocêntrica”, diz.

Arquivo pessoal

“Esse tipo de estrutura tende a colocar a mulher em um lugar menor de valorização e, quando a mulher bate na mesa, ela é vista como histérica. A discussão de gênero vai muito além do que pensam; [a discussão] é, basicamente, o entendimento do respeito às mulheres. Como investir no desenvolvimento social do aluno ignorando uma das principais características de sua personalidade, que é a identidade de gênero dele?”

Críticas

Embora a reação de seus alunos tenha sido positiva, Jonathan recebeu críticas depois que a sua história viralizou na internet. “As únicas críticas vieram das redes sociais, na verdade”, explica. “Os alunos, meus amigos, meus colegas de faculdade e o responsável pelo cursinho no qual trabalho, me apoiaram. Na internet, porém, recebi comentários cheios de palavrões, sem pudor, agressivos”, lamenta.

Em sua opinião, essa reação tão descompensada no universo digital só mostra a carência que existe em nosso sistema de educação e da urgência de professores falarem sobre respeito dentro das salas de aula.

Projetos de escolas sem partido 

Na contramão da aula proposta por Chasko, estão projetos de lei que visam coibir o professor de expressar qualquer tipo de opinião. A ideia é manter uma suposta neutralidade em sala de aula e evitar a “doutrinação” do aluno de acordo com alguma ideologia ou conduta moral. Para Jonathan, propostas do tipo - como o Projeto Escola Livre, que foi aprovado no Estado de Alagoas - beiram o absurdo.

“Primeiro, essa tal imparcialidade não existe”, discorre. “Quando se fala de descobrimento do Brasil, você precisa assumir a voz do colonizador português ou do índio colonizado. Como você vai falar de nazismo de forma neutra? De política no Brasil de forma neutra? De movimento LGBT de forma neutra? Em nossos discursos, nós não somos neutros. Mesmo quando não assumimos um lado, já estamos de certa forma tomando uma posição.”

“Escola não é lugar de manipulação, mas de desenvolvimento intelectual. Os professores estão ali para fazer os alunos pensarem, e não assumirem posicionamento. Em minhas aulas, sempre digo que não estou ali para convencer ninguém de nada. O que eu quero é causar desconforto. Dizer o que querem que você diga não vai desenvolver os alunos e nem fazer uma sociedade melhor”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)