domingo, 17 de abril de 2016

Análise: Senado deve seguir decisão da Câmara

Antonio Augusto/Câmara dos Deputados

Com o parecer favorável da Câmara dos Deputados ao pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), a situação fica ainda mais delicada para o governo e para a presidente, que enfrentará a votação no Senado Federal.

“[A situação fica mais delicada] Primeiro porque o Senado - para onde o processo será agora encaminhado - tem a presidência do PMDB, partido que desembarcou da base aliada – e o resultado lá não deve ser diferente. Citando Hobbes, lobo não come lobo. Não acredito que Renan Calheiros irá contra a decisão de membros do próprio partido”, avalia Jacqueline Quaresemin, historiadora, socióloga e professora da FESPSP.

Em declarações recentes, Renan Calheiros, presidente do Senado Federal, disse que não iria obstruir o processo de impeachment, o que mostra que ele pode jogar a favor do afastamento de Dilma Rousseff. “O grupo do PMDB formado por Renan e Sarney é importante dentro do partido e terá um espaço garantido em um hipotético governo Michel Temer”, observa Michel Mohallem, especialista em ciência política e professor de direito na FGV do Rio de Janeiro.

Governo Temer 

Para ambos, Michel Temer terá grandes desafios a enfrentar caso o impeachment passe em votação no Senado. Assim como Dilma, Temer também assinou as chamadas pedaladas fiscais e precisará justificar isso; além disso, as contas da chapa da qual é vice serão questionadas pelo Tribunal Superior Eleitoral.

“Sendo presidido por Gilmar Mendes [cuja posição é de oposição ao governo petista], o TSE pode separar as contas e livrar Temer. Ainda assim, Temer poderá enfrentar mobilizações pedindo sua renuncia. Tal movimento, além de unificar segmentos tanto no campo pró como no contra o impeachment, crescerá com os partidos que estão pedindo novas eleições, como a Rede, que tem Marina Silva bem posicionada nas pesquisas de opinião”, lembra Jacqueline Quaresemin.

Já Mohallem destaca que nos 180 dias de afastamento de Dilma – enquanto o Senado julga o pedido – Temer já deve negociar mais abertamente com partidos de oposição, como o PSDB, e montar planos para traçar um projeto de governo para os próximos dois anos.

Lembrando que deve tramitar, na Câmara dos Deputados, um pedido de impeachment para Michel Temer. A ação do advogado Mariel Márley Marra diz que o vice cometeu os mesmos crimes que a atual mandatária. “Esse processo deve ter tramitação rápida no Congresso e, provavelmente, será recusado”, aposta Michael Mohallem.

Fator Cunha 

O que também sustenta a probabilidade de que o processo de impeachment de Michel Temer não vingue, bem como sua desvinculação da chapa no julgamento no TSE, é que ninguém do PMDB quer que Eduardo Cunha, o próximo da linha sucessória, assuma a presidência. “Devido a qualquer ausência de Temer, quem ficará no poder é o autoritário e réu na Lava Jato Eduardo Cunha”, lembra Quaresemin.

 Eduardo Cunha (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Na análise de Michael Mohallem, Cunha foi um elemento importante para a oposição no sentido de dar andamento ao impeachment de Dilma Rousseff – e só. “Nem mesmo o PMDB vai querer Eduardo Cunha na presidência.”

Lava Jato 

O andamento das investigações da Operação Lava Jato também deve sofrer com o avanço do impeachment. “Grande fator de instabilidade, as investigações devem tirar o pé do acelerador; no máximo, avançar em cima de João Santana, marqueteiro do PT, para engrossar o discurso pelo impeachment durante a votação no Senado.”

Legado do impeachment 

Na opinião de Jacqueline Quaresemin, ainda que o PT tenha aberto mão de suas pautas em nome da governabilidade, há de se reconhecer os avanços das políticas de inclusão social durante a administração petista. Para ela, um governo peemedebista não trará os mesmos resultados.

Outra questão apontada por Quaresemin cai sobre o judiciário do país. “A Suprema Corte ter permitido que todo esse processo tenha sido conduzido por alguém investigado em um episodio de corrupção abre um precedente muito perigoso”, afirma, citando o presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

O legado do impeachment também diz respeito ao principal pedido das manifestações de rua: um novo rosto para a política brasileira. “O governo do PMDB irá manter as mesmas estruturas partidárias formadas por coronéis”, observa. “E enquanto continuar existindo essa fiscalização fraca do TSE e do TER com relação às verbas aplicadas em campanhas e ao tempo disponível para candidatos na televisão, os mais fortes terão espaço garantido, não permitindo que legendas novas e menores tenham voz.”

“Dessa forma, com um judiciário que não é isento como deveria, uma Câmara e um Senado de postura conservadora – que impediu que uma mulher fosse presidente no Brasil - não haverá a tão desejada reforma política”, conclui.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Jovem ator cria diário de um portador de HIV


Na semana em que descobriu ser portador do vírus HIV, o ator curitibano Gabriel Comicholi decidiu que - em vez de esconder esse fato - iria compartilhá-lo com toda a internet. Assim, nasceu a série de vídeos HDIÁRIO, hospedado em um canal onde ele compartilha relatos de seu cotidiano desde que passou a conviver com o vírus em seu sangue.

Para Gabriel, dividir esse momento delicado de sua vida com anônimos não só o ajuda a lidar melhor com a questão, como contribui para quebrar o estigma que, desde a década de 1980, persiste em rondar o assunto.

“As pessoas ainda têm essa ideia errada de que quem é portador do vírus HIV sofre da doença [AIDS]; e não é isso”, ressalta o jovem. “Isso é um problema da minha geração, acho. Ninguém mais fala disso quase. Nas gerações passadas, pessoas famosas como o Cazuza, por exemplo, falavam abertamente sobre isso.”

O primeiro vídeo do canal, publicado no dia 1º, traz Gabriel revelando ser portador do vírus e ainda trazendo um alerta: como muitos jovens, ele nunca havia feito exames de rotina que podem diagnosticar vírus ou bactérias transmitidas por contato sexual. “Muita gente tem medo de fazer exame, mas o resultado pode te trazer uma notícia boa, mesmo que ateste positivo. É a notícia de que você pode começar seu tratamento e seguir normalmente com a vida.”

Esse otimismo, bem como um contagiante bom humor, são presentes nos vídeos gravados pelo ator. “Eu sempre lidei com facilidade com as coisas, nunca fui de ficar me lamentando e agora não poderia ser diferente. Quando veio essa bomba, eu pensei ‘bom, algo de bom eu vou tirar disso’”, observa. “Acho que ficar em casa, me escondendo, poderia piorar tudo. Recebo mensagens de pessoas que decidiram mentir sobre o assunto e percebo que o emocional delas está muito abalado.”

Começo do tratamento

No segundo vídeo do HDIÁRIO, postado no último dia 5, Gabriel fala de suas primeiras visitas a infectologistas e deixa dicas para outros soropositivos: fazer a carteirinha do Sistema Único de Saúde (SUS) para ter acesso à medicação, ir ao posto de saúde do seu bairro para pegar os medicamentos necessários para o tratamento e escolher bem o seu profissional de saúde que vai acompanhá-lo durante todo o processo.


“[Fui a um] infectologista que achei preconceituoso, ele disse que eu não deveria contar isso para as pessoas, o que vai totalmente contra a filosofia [do canal]”, diz. “Então eu falei ‘não, vou procurar outro’.”

No vídeo, o jovem aparece tomando a primeira dose da medicação e relatando os efeitos colaterais. “Estou sentindo muita tontura e calor”, detalha. Dessa forma, Gabriel descontrói a ideia de que o tratamento é um bicho de sete cabeças, mas também deixa claro que, acima de tudo, é um processo com consequências e que, portanto, é importante se cuidar sempre.

Já no terceiro vídeo - o último postado até então - o jovem leva seus seguidores do canal para uma coleta de sangue, que passará a ser frequente agora. “Não dobrem o braço logo após tirar o sangue”, aconselha.


Repercussão

Antes de encarar a repercussão que seu canal de vídeos teria na internet, o ator primeiro conversou com a família sobre o assunto. “A minha mãe não queria que eu criasse a página”, conta. “Ela achava que isso estragaria minha carreira e tinha preocupação com relação ao preconceito que eu poderia sofrer.”

Por fim, a mãe - que desde o início, apesar do choque, está dando todo o suporte para Gabriel - aceitou a ideia e tem, inclusive, incentivado o projeto do filho para a web.

Embora estivesse preparado para comentários hostis, o jovem se surpreendeu. “Recebi coisas maravilhosas em número muito superior ao de comentários negativos. Sempre surge uns ‘haters’ [termo da internet para pessoas que fazem comentários de ódio], mas também tem gente com muito amor no coração por aí”, celebra Gabriel.

(Karen Lemos - Portal da Band)

domingo, 10 de abril de 2016

Trajetória da primeira parlamentar negra é resgatada


Natural de São Paulo, a cineasta Flávia Person só conheceu a história de Antonieta de Barros quando se mudou para Florianópolis, Santa Catarina. Não por conta de uma trajetória conhecida, mas pela curiosidade que lhe surgiu quando reparou em nomes de escolas, ruas e monumentos em homenagem àquela figura pela cidade.

Filha de uma escrava liberta, Antonieta foi a primeira mulher negra do Brasil a assumir um cargo parlamentar. Em 1935, três anos após as mulheres conquistarem o direito ao voto, ela ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina por dois mandatos.

Apesar dos tributos em sua terra natal, até mesmo conterrâneos de Antonieta não sabem de seus feitos. “Eu visitei uma escola estadual que carrega o nome dela e descobri que mesmo alguns alunos de lá não a conheciam”, conta Flávia, diretora do documentário de curta-metragem Antonieta, que resgata a memória e as realizações da catarinense.

Diante dessa injustiça com a memória de uma personalidade que contribuiu para o empoderamento das mulheres e dos negros, a cineasta lançou uma campanha para angariar fundos, realizar cópias de seu filme e distribuí-lo em locais chaves - como escolas, bibliotecas, museus, centros culturais e núcleos de estudos afrobrasileiros do país - na tentativa de que a importância de Antonieta seja, finalmente, reconhecida.

Presença incômoda 

A presença de Antonieta de Barros na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, formada - majoritariamente - por homens brancos da elite sulista, incomodava seus colegas parlamentares. Os projetos da deputada por vezes eram criticados. Além da carreira política, Antonieta também atuava como professora e jornalista – tendo rebatido algumas dessas críticas nos veículos para os quais escrevia. O documentário também mostra alguns desses conflitos.

“Certa vez, o deputado Osvaldo Rodrigues Cabral leu um desses artigos e acusou-a de fazer ‘intriga de senzala’ [em citação, pejorativa, ao passado da mãe ex-escrava]. O triste é que, hoje, Osvaldo é lembrado como uma referência histórica em Santa Catarina, enquanto que Antonieta caiu no esquecimento”, lamenta a diretora Flávia Person.

 Antonieta e seus colegas parlamentares no dia de posse em 1935. (Foto retirada do livro "Dicionário Político Catarinense", de Walter Piazza)

Além da trajetória da primeira parlamentar negra do país, o filme ainda traz o contexto histórico e político no qual a deputada viveu e exerceu suas funções. Deste ponto de vista, a relevância da personagem fica ainda mais evidente. “Se em 2016 uma mulher negra tem dificuldade de alcançar tudo o que Antonieta alcançou, imagina naquela época, em 1935”, ressalta.

Questões sociais ainda mal resolvidas no Brasil fazem de Antonieta um documentário, infelizmente, muito atual. “Causa estranheza o fato de ela ser pouco conhecida no nosso país, mas isso acontece porque ainda temos uma estrutura racista e machista”, destaca à reportagem Dagoberto José Fonseca, professor de antropologia na Unesp de Araraquara e autor de teses sobre racismo e o emponderamento do negro. “Diante deste cenário, mulheres e negros de poder e com poder são negligenciados e silenciados ao longo da história.”

Para o antropólogo, reconhecer e saudar conquistas como as de Antonieta de Barros ajudam a construir uma sociedade mais igualitária. “Falar de Antonieta, mulher que produziu um vasto conhecimento principalmente na área da educação, é mostrar que a população negra não é subalterna e capaz apenas de realizar trabalhos de menor prestigio; [Falar de Antonieta] é também provar que, tendo oportunidades, o negro tem condições de alçar patamares mais altos.”

“A estrutura da nossa sociedade atual faz com que, aqueles que poderiam ser reconhecidos, não o são. Por isso, memórias como a de Antonieta de Barros não podem ser esquecidas, tão pouco apagadas”, pontua Dagoberto.


(Karen Lemos - Portal da Band)

quinta-feira, 31 de março de 2016

Saída do PMDB não preocupa pró-governistas

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Atos pelo Dia Nacional de Mobilização em Defesa da Democracia se espalharam pelo país nesta quinta-feira (31). Em São Paulo, os manifestantes se reuniram na Praça da Sé, no Centro, contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Segundo os organizadores, 60 mil pessoas marcaram presença. Para a Polícia Militar, foram 18 mil. Já o Datafolha divulgou 40 mil participantes.

A convocação da Frente Brasil Popular, formada por movimentos sociais e sindicatos, acontece na semana em que o PMDB deixou a base aliada do governo. Para os manifestantes, porém, a saída do partido, cuja representação no Congresso é significativa, não é uma preocupação.

“[O PMDB ter deixado o governo] é uma tentativa de enfraquecimento, mas a força do governo não está no Congresso, está nas ruas; e é por isso que estamos aqui”, diz Sebastião Albuquerque. Nascido e criado na Paraíba, para ele, o governo petista concretizou avanços em sua região. “Pela primeira vez, alguém olhou para o Nordeste”. Do seu ponto de vista, não há alternativa melhor, no momento, do que a permanência de Dilma no poder.

O paraibano Sebastião Albuquerque (Foto: Karen Lemos/Portal da Band)

Sérgio Timóteo, que milita pelos direitos dos negros, considera uma “tragédia” um Brasil governado por Michel Temer, vice-presidente peemedebista que assumiria caso o processo de impeachment de Dilma Rousseff seja aprovado no Congresso Nacional. “Nós não estamos no mesmo contexto do Collor [presidente afastado em 1992]. Dilma não cometeu nenhum crime. O país ficaria rachado se ela caísse, fora que os movimentos sociais têm muito a perder com isso.”

Luciene Neves, que levou a filha Ana Beatriz, de 11 anos, para o ato, compartilha desta opinião. “Com o PMDB, nossas conquistas vão por água abaixo”, pontua ao lado da menina, que começou a se interessar por política após acompanhar a mãe em reuniões do PT. "Agora estou nessa luta com ela", afirma Ana enquanto segura um cartaz no qual se lê: "Mamãe, não quero ir à Disney do Tio Sam, eu quero respeito à democracia".

Luciene Neves com a filha Ana Beatriz (Foto: Karen Lemos/Portal da Band)

Manifestantes pela causa LGBT também participaram do ato. Carregando uma bandeira do arco-íris (símbolo da luta pelos direitos dos homossexuais), Luiz e Philippe afirmam sentir-se representados pela gestão Dilma. “Ela sempre levantou a bandeira da igualdade e contra o preconceito”, opina Luiz.

O jovem também diz não acreditar que o processo de impeachment ajudará no combate à corrupção. “Se essa batalha contra a corrupção existisse, o [Eduardo] Cunha estaria na prisão e não por trás [do pedido de afastamento de Dilma]”. O peemedebista, que é presidente da Câmara dos Deputados, atualmente é réu nas investigações da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal.

Luiz e Philippe pelos direitos dos LGBTs (Foto: Karen Lemos/Portal da Band)

Já na opinião de Marta Ventura, professora da rede pública, o governo do PT passa por um período de rejeição porque, segundo ela, governa de forma popular. “É um governo para todos”, definiu. “E quando todos – pobres, negros, mulheres, homossexuais – passam a ter direitos, isso incomoda muito.”

Impeachment

O processo do pedido de afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República teve início em dezembro do ano passado, quando o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, acatou a ação.

Autores do pedido, os juristas Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr. alegam que a presidente cometeu pedaladas fiscais – atrasos no pagamento para bancos públicos – o que, segundo os autores, caracteriza crime de responsabilidade, uma vez que Dilma autorizou gastos de R$ 2,5 bilhões a mais do estava previsto no Orçamento, piorando o cenário de crise econômica do país.

Em sua defesa, Dilma afirma que governos anteriores recorreram às pedaladas fiscais e que, no seu caso, elas foram necessárias para o pagamento de programas sociais como Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.

(Karen Lemos - Portal da Band)

quarta-feira, 2 de março de 2016

Governo de São Paulo prometeu Tietê sem odor e com peixes em 2015. O que aconteceu?

Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas

Em fevereiro de 2012, o governo de São Paulo, gestão Alckmin (PSDB), anunciou medidas otimistas para o Rio Tietê até 2015. Ano passado, quem diria, teríamos um rio sem odor e com peixes entre Suzano e Pirapora do Bom Jesus - trecho que corta a capital paulista - graças ao Projeto Tietê, que desde 1991 traça o objetivo de diminuir a poluição da bacia hidrográfica, com investimento que já chegou a US$ 2,5 bilhões.

Estamos em 2016 e ninguém localizou vida aquática no esgoto a céu aberto que antigamente era conhecido como rio. Não é a primeira vez - e, infelizmente, não deve ser a última - que uma promessa não é cumprida; de qualquer forma, o que será que deu errado com essa projeção?

Atualmente, 68% do esgoto da região metropolitana de São Paulo são tratados, número que está longe dos 84% prometidos para a terceira etapa do Projeto Tietê. Segundo a Sabesp, empresa responsável pelos serviços públicos de saneamento básico no Estado, a culpa é da seca sem precedentes que a metrópole viveu no biênio 2014-2015. “[O período] demandou a antecipação de investimentos e ações emergenciais no sistema de abastecimento, de modo a minimizar os impactos da crise hídrica para a população paulista”, declarou a empresa somente em nota, sem querer destacar um porta-voz para falar sobre o assunto.

Ainda de acordo com a Sabesp, a situação não deve mudar muito este ano. “Em 2016 serão destinados recursos vultosos em empreendimentos estruturantes que visam garantir a segurança hídrica do sistema. Neste cenário, na busca do melhor e mais seguro atendimento à população, a Sabesp está reavaliando momentaneamente os cronogramas de andamento dos programas de infraestrutura de esgotos.”

Em suma, a despoluição do Rio Tietê ficará de escanteio, uma pena se levarmos em consideração que, se bem tratada, a água desse curso poderia se tornar uma fonte de abastecimento, contribuindo justamente para a solução da escassez citada no comunicado.

“É um equívoco tratar de forma separada a água de abastecimento público e o tratamento de esgoto. Na medida em que você polui rios, você agrava essa crise hídrica ao aumentar a indisponibilidade de água”, alerta Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da fundação SOS Mata Atlântica.

Malu lembra que alguns países, como Israel, por exemplo, já aprenderam essa lição. A república do Oriente Médio reutiliza, hoje, 90% de seu esgoto para o abastecimento público, porque se preocupa com o tratamento dele. “O descaso e a falta de investimento nessa área ocorrem, justamente, porque existe a falsa ideia de que temos água em abundância, que é só buscar mais longe e está tudo certo. A verdade é que não tem mais onde buscar água. A constatação dessa realidade nos fará a aprender a reutilizar esse recurso e parar de desperdiçá-lo."

Trecho menos fétido e com peixes prometido pelo governo: 


Além da crise da água, temos a crise financeira 

Não é só a crise hídrica de São Paulo que dificulta as coisas, o país como um todo enfrenta uma crise financeira e institucional, que também impacta na questão. O Projeto Tietê possui financiamento misto: 50% do Estado, que declara enfrentar queda na arrecadação, e outros 50% internacional do Banco Interamericano de Desenvolvimento, cuja alta do dólar também encarece o investimento.

A diminuição desse ritmo é sentida de forma catastrófica. “Todo ano nós fazemos um balanço da mancha de poluição do Tietê que, originalmente tinha mais de 700 km de extensão. Em 25 anos do projeto, a mancha recuou para 61 km; infelizmente, por conta da redução do progresso no ano passado, a extensão da mancha mais que dobrou”, lamenta Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica.

“Se vai faltar dinheiro, corta em outras gorduras, mas não pode cortar do tratamento de esgoto e, principalmente, do saneamento básico; o resultado disso são doenças e agravamento da crise. Isso não é papo de ambientalista, estamos falando de uma necessidade de investimento em saúde pública”, acrescenta a coordenadora.

Outros fatores 

A Sabesp enumerou alguns fatores que vão além de sua administração e que contribuem para esse cenário desfavorável, tais como a coleta e tratamento de esgoto de municípios não operados pela empresa. O monitoramento da SOS Mata Atlântica mostra que municípios como Guarulhos e Mogi das Cruzes lançam uma grande carga poluidora que é percebida, depois, através do odor fétido na Marginal Tietê em dias de sol forte.

Outro elemento implica em nós, os munícipes. É aquela velha história, não vale criticar nossos governantes sem fazer nossa parte. É um clichê que, infelizmente, nunca perde sua relevância. Já percebeu que em dias de alagamento os rios viram um curso de lixo? Bom, todo aquele lixo não surgiu ali por mágica, alguém o jogou ali, certo?

Acrescente nessa soma o fato de que, mesmo que nosso esgoto seja 100% tratado, ainda restam dois milhões de pessoas em áreas informais – comunidades, áreas invadidas – que despejam esgoto irregularmente nos córregos que desbocam no Tietê.

Vale lembrar que, quanto mais essa população aumenta, mais resíduos ela gera – e não é pouco, não. O lixo doméstico é responsável por cerca de 40% da carga poluidora dos rios. Já sabemos por onde começar, então!

(Karen Lemos - Portal da Band)

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Spotlight é o grande vencedor do Oscar 2016


A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood premiou, neste domingo (28), o filme Spotlight: Segredos Revelados com o Oscar de melhor filme. O longa, sobre um grupo de jornalistas de Boston que descobre uma série de abusos de crianças praticados por padres católicos, também levou o prêmio de melhor roteiro original.

A disputa foi acirrada com O Regresso, que levou as estatuetas de melhor diretor para Alejandro G. Iñárritu (vencedor no ano passado com Birdman), melhor fotografia para Emmanuel Lubezki, e melhor ator para Leonardo DiCaprio, favorito na categoria e com grande incentivo dos internautas.

Nas demais categorias de atuação, a favorita Brie Larson levou o Oscar de melhor atriz por seu desempenho emocionante em O Quarto de Jack. Alicia Vikander, que disputou o favoritismo com Kate Winslet (Steve Jobs), venceu como melhor atriz coadjuvante com A Garota Dinamarquesa - filme que retrata a luta da primeira transexual que se submeteu a uma cirurgia de mudança de sexo. Por fim, a zebra da noite foi para Mark Rylance, melhor ator coadjuvante por Ponte dos Espiões, batendo o favorito da categoria, Sylvester Stallone, por Creed: Nascido para Lutar.

Quem surpreendeu também foi Mad Max: Estrada da Fúria. No total, o filme de George Miller levou seis estatuetas: melhor figurino, melhor design de produção, melhor maquiagem, melhor montagem, melhor edição de som e melhor mixagem de som.

Brasil sem Oscar

O Brasil concorreu na premiação com O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, na categoria melhor animação. O filme, porém, perdeu para o favorito do grupo, Divertida Mente. Também não houve surpresas na categoria melhor filme estrangeiro. Vencedor de outros prêmios da temporada, o húngaro O Filho de Saul levou, também, o Oscar. O longa, um drama que se passa no holocausto, choca pela frieza, mas se mostra necessário ao denunciar as atrocidades cometidas na época.

O documentário Amy, que relembra a talentosa - porém, trágica - trajetória de Amy Winehouse, levou a melhor na categoria documentário. Os diretores, aliás, são os mesmos de Senna, sobre o piloto brasileiro Ayrton Senna. Vale destacar também a vitória do maestro italiano Ennio Morricone por Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, que ganhou seu primeiro Oscar aos 87 anos de idade (sem contar o Oscar honorário que ele recebeu em 2007).

As apresentações da noite ficaram por conta de Sam Smith com Writing’s On The Wall (007 Contra Spectre), Lady Gaga com Til It Happens To You (The Hunting Ground) e The Weeknd com Earned It (Cinquenta Tons de Cinza). Lady Gaga, que trouxe vítimas de abuso sexual para o palco durante sua apresentação, era a favorita, mas a cerimônia acabou surpreendendo ao premiar Sam Smith com o Oscar de melhor canção original. Ao agradecer, o cantor dedicou a estatueta à comunidade LGBT.

A cerimônia aconteceu no Dolby Theater em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos. Confira todos os vencedores da noite:

Melhor Filme
A Grande Aposta
Ponte dos Espiões
Brooklyn
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso
O Quarto de Jack
Spotlight: Segredos Revelados

Melhor diretor
Alejandro G. Iñárritu, O Regresso
Tom McCarthy, Spotlight: Segredos Revelados
George Miller, Mad Max: Estrada da Fúria
Adam McKay, A Grande Aposta
Lenny Abrahamson, O Quarto de Jack

Melhor Ator
Bryan Cranston, Trumbo
Matt Damon, Perdido em Marte
Leonardo DiCaprio, O Regresso
Michael Fassbender, Steve Jobs
Eddie Redmayne, A Garota Dinamarquesa

Melhor Atriz
Cate Blanchett, Carol
Brie Larson, O Quarto de Jack
Jennifer Lawrence, Joy: O Nome do Sucesso
Charlotte Rampling, 45 Anos
Saoirse Ronan, Brooklyn

Melhor Ator Coadjuvante
Christian Bale, A Grande Aposta
Tom Hardy, O Regresso
Mark Ruffalo, Spotlight: Segredos Revelados
Mark Rylance, Ponte de Espiões
Sylvester Stallone, Creed: Nascido para Lutar

Melhor Atriz Coadjuvante
Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
Rooney Mara, Carol
Rachel McAdams, Spotlight: Segredos Revelados
Alicia Vikander, A Garota Dinamarquesa
Kate Winslet, Steve Jobs

Melhor Roteiro Original
Ponte dos Espiões
Ex-Machina: Instinto Artificial
Divertida Mente
Spotlight: Segredos Revelados
Straight Outta Compton: A História do N.W.A.

Melhor Roteiro Adaptado
A Grande Aposta
Brooklyn
Carol
Perdido em Marte
O Quarto de Jack

Melhor Figurino
Carol
Cinderela
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso

Melhor Design de Produção
Ponte dos Espiões
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso

Melhor Maquiagem
Mad Max: Estrada da Fúria
The 100-Year-Old Man Who Climbed out the Window and Disappeared
O Regresso

Melhor Fotografia
Carol
Os Oito Odiados
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Sicario

Melhor Montagem
A Grande Aposta
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Spotlight: Segredos Revelados
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Edição de Som
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso
Sicario
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Mixagem de Som
Ponte de Espiões
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Efeitos Visuais
Ex-Machina: Instinto Artificial
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Curta Animação
Bear Story
Prologue
Sanjay’s Super Team
We Can’t Live without Cosmos
World of Tomorrow

Melhor Animação
Anomalisa
O Menino e o Mundo
Divertida Mente
Shaun, o Carneiro
As memórias de Marnie

Melhor Curta Documentário
Body Team 12
Chau, beyond the Lines
Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah
A Girl in the River: The Price of Forgiveness
Last Day of Freedom

Melhor Documentário
Amy
Cartel Land
O Peso do Silêncio
What Happened, Miss Simone?
Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

Melhor Curta Live Action
Ave Maria
Day One
Everything Will Be Okay (Alles Wird Gut)
Shok
Stutterer

Melhor Filme Estrangeiro
O Abraço da Serpente
Cinco Graças
O Filho de Saul
Theeb
Guerra

Melhor Trilha Sonora
Ponte de Espiões
Carol
Os Oito Odiados
Sicario
Star Wars: O Despertar da Força

Melhor Canção Original
Earned It, The Weeknd (Cinquenta Tons de Cinza)
Manta Ray, J. Ralph & Antony (A corrida contra a extinção)
Simple Song #3, Sumi Jo e Viktoria Mullova (Youth)
Til It Happens To You, Lady Gaga (The Hunting Ground)
Writing’s On The Wall, Sam Smith (007 Contra Spectre)

(Karen Lemos - Portal da Band)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Instalação artística analisa a censura da Ditadura Militar com as pornochanchadas

Cena censurada do filme "Bonitas e Gostosas" (Divulgação/MIS)

Até o dia 27 de março, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) apresenta a instalação artística Prazeres Proibidos, na qual o espectador é apresentado à curiosa e inesperada relação entre a pornochanchada - gênero do cinema brasileiro que explorou o erotismo, a comédia e as piadas populares - e a Ditadura Militar (1964-1985).

“A pornochanchada é completamente contemporânea da Ditadura. O AI-5 foi decretado em 1968 e, em 1969, as primeiras produções desse cinema começaram a surgir”, conta a cineasta Fernanda Pessoa, responsável pela pesquisa, ao Portal da Band.

O fato de essa relação ser tão contraditória foi o que atraiu a cineasta para o assunto. “Queria saber como isso foi possível e acho que o que responde essa pergunta é o fato de que os gêneros de cinema anteriores, o Cinema Novo e o Cinema Marginal, não condiziam com o Brasil que os militares queriam mostrar.”

Os primórdios da pornochanchada, lembra Fernanda, eram quase como uma propaganda de um Brasil mais agradável. “Os primeiros filmes eram bem inocentes, na verdade. Pareciam mais com as chanchadas da década de 1950. Tudo era leve, não tinha nudez, no máximo algumas piadas, e o brasileiro era retratado como um bon vivant. Isso tudo fez muito sucesso e, aos poucos, os cineastas foram investindo nessa linguagem que funcionava muito bem.”

Com essa carta na manga, os diretores da época puderam trabalhar com mais liberdade – diferente de seus colegas do Cinema Novo e do Cinema Marginal, perseguidos pela Ditadura. Dessa forma, os roteiros começaram a ficar mais, digamos, picantes. “Pouco a pouco eles [cineastas] foram puxando os limites para ver até onde poderiam ir. Gradualmente, começou a surgir um peito, depois dois, na sequência uma simulação de sexo. Ao mesmo tempo, o público ia respondendo muito bem àquilo e, quanto mais davam, mais o espectador queria”, afirma Fernanda.

Censura 

Pode parecer mentira, mas a pornochanchada foi, sim, alvo da censura dos militares. “As pessoas pensam mais na censura política, mas também existia uma censura moral. O que poderia confundir o que a Ditadura chamava de 'valores dos cidadãos brasileiros' era censurado”, diz Fernanda. O filme “Bonitas e Gostosas”, por exemplo, teve uma cena cortada por mostrar um homem vestido como mulher "fazendo movimentos eróticos" com outro personagem. “Até existiam personagens homossexuais nos filmes, o que não poderia haver era alguma atividade entre eles”, explica.

Muitos filmes da pornochanchada foram barrados pelos militares e impedidos de serem exibidos, principalmente na época do auge da repressão. “Quase todos os filmes passaram por algum perrengue. Era um processo bem burocrático e alguns cineastas usavam certos truques para que suas produções passassem. Era comum que cenas muito ousadas fossem gravadas para servir como moeda de troca. Eles sabiam o que seria cortado, então, usavam isso para que as cenas que eles queriam no filme fossem liberadas”.

Assim como compositores da MPB, que faziam jogo de palavras – como, a título de exemplo, a letra de “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil - os diretores de cinema tinham seus métodos. “Um meio de burlar a censura também foi encontrado com uma linguagem cinematográfica chamada voice-out. Funcionava assim: quando uma palavra, normalmente um palavrão, era censurado, os diretores cortavam o áudio, mas mantinham as imagens. Dessa forma, o público conseguia entender o que era dito através da leitura labial; era perceptível, também, que ali havia uma censura, porque não tinha som. Era uma tiração de sarro da parte dos cineastas, que queriam mostrar o quanto aquilo tudo era ridículo”, observa.

Pornopolítico 

Alguns filmes, principalmente os produzidos em São Paulo, conseguiam burlar tão bem a censura que até alguns temas impensáveis eram exibidos nos cinemas brasileiros. É o caso de “E agora José? Tortura do Sexo”, que traz um personagem cuja amizade com um sujeito considerado subversivo para os militares o faz ser perseguido e preso.

“É um filme de 79, não era o auge da repressão da Ditadura, mas, mesmo assim, é impressionante como o filme trabalha com temas bem politizados. Tem até uma cena de tortura praticado por um grupo de militares. Esse tipo de produção ganhou até um subgênero na época, o pornopolítico, porque também continha cenas eróticas com as mulheres presas”, pontua Fernanda.

Outro filme que exemplifica bem esse paradoxo é “O Enterro da Cafetina”. Anos antes do decreto do AI-5, em 1971, Jece Valadão produziu a obra e a estrelou, na pele de um personagem que é convencido a ingressar na guerrilha urbana, chegando a praticar atos de terrorismo da época como jogar um coquetel molotov na casa de um deputado. “O personagem do Valadão ainda fala sobre golpe militar, dizendo que o presidente foi deposto. O filme sofreu censura, mas no que diz respeito ao personagem de um delegado, que é retratado de uma forma bem ridícula”, recorda.

Pesquisa 

Em uma pesquisa que já dura quatro anos, Fernanda Pessoa analisou centenas de documentos e mais de 150 filmes da época, principalmente da década de 1970. Tal levantamento não foi tarefa fácil. “Os próprios filmes são difíceis de achar. Fiz uma lista de filmes com os quais queria trabalhar e tive acesso a 50% apenas. Muitas dessas obras foram perdidas”, conta a cineasta.

Já com relação às cenas censuradas, Fernanda diz que algumas produções foram liberadas, anos depois, em versão integral. “Outras consegui porque, na época da Ditadura, eles não cortavam o filme do original, normalmente era uma cópia”, explica.

Na pesquisa, ela também conseguiu ter acesso a documentos em que os censores detalhavam quais cenas seriam impedidas de serem exibidas nos cinemas. “Com essa lista em mãos, comecei a analisar os trechos cortados para tentar entender a cabeça dos censores.”

As cenas proibidas, bem como arquivos da Ditadura, estão expostas em um dos ambientes da instalação. No primeiro deles, o visitante se depara com um projetor 35mm que roda em falso projetando apenas a sua luz, sem nenhuma imagem. Em seguida, a artista apresenta um corredor com uma seleção de documentos oficiais da censura. No terceiro e maior dos ambientes encontra-se uma sala de projeção digital onde é exibido um vídeo em seis telas montado apenas com trechos de filmes que foram cortados a pedido dos censores.

A exposição surgiu como um desdobramento do primeiro longa-metragem de Fernanda, “Histórias que nosso cinema (não) contava”, que faz uma releitura histórica dos anos 1970 a partir de imagens de filmes da pornochanchada e se encontra em fase de finalização. Em 2015, a cineasta e artista foi uma das selecionadas pela residência NECMIS, do MIS.

(Karen Lemos - Portal da Band)